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Salmo 150

Louvai o Senhor

Salmodiai com o espírito e salmodiai com a mente, isto é: glorificai a Deus com a alma e o corpo (Hesíquio). 

1 Louvai o Senhor Deus no santuário, * 
louvai-o no alto céu de seu poder! 
2 Louvai-o por seus feitos grandiosos, * 
louvai-o em sua grandeza majestosa! 

3 Louvai-o com o toque da trombeta, * 
louvai-o com a harpa e com a cítara! 
4 Louvai-o com a dança e o tambor, * 
louvai-o com as cordas e as flautas! 

5 Louvai-o com os címbalos sonoros, * 
louvai-o com os címbalos de júbilo! 
– Louve a Deus tudo o que vive e que respira, * 
tudo cante os louvores do Senhor!

Comentário de Santo Agostinho ao Salmo 50

SERMÃO 2

1 Não nos podemos furtar a tão numerosa multidão, mas também não devemos onerar sua fraqueza. Pedimos silêncio e tranquilidade, para que nossa voz, depois do esforço de ontem, encontre forças para ir até o fim. Acredito que V. Caridade hoje compareceu em maior número apenas no intuito de rezar pelos que se ausentam devido a sentimentos alheios e maus. Pois, não falamos de pagãos, nem de judeus, mas de cristãos; nem se trata de catecúmenos, mas de muitos já batizados, de quem não vos diferenciais pelo batismo, mas pelo coração. Pensamos em quantos são hoje nossos irmãos, e contudo lastimamos que procurem vaidades e loucas mentiras, negligenciando sua vocação! Se, por acaso, no circo eles se horrorizam por alguma coisa, logo fazem o sinal da cruz, mas permanecem de pé, trazendo-o na fronte, num lugar de onde deviam se afastar se o trouxessem no coração. Seria mister suplicar a misericórdia de Deus que lhes desse entendimento para condenar estas coisas, sentimento para delas fugir, e misericórdia para perdoar. Oportunamente o salmo que hoje foi cantado é penitencial. Dirigimo-nos também aos ausentes. Vossa memória fará junto deles o papel de nossa voz. Não negligencieis os feridos e debilitados, mas para mais facilmente curá-los, deveis manter-vos com saúde. Corrigi arguindo, consolai discorrendo, oferecei um exemplo vivendo honestamente. Assista-os quem vos assistiu. Pelo fato de que já atravessastes estes perigos, não foi cortada a ponte da misericórdia de Deus. Eles chegarão ao ponto a que chegastes, e passarão por onde passates. Certamente é molesto, sumamente perigoso, ou antes, pernicioso, sem dúvida mortal, pecar conscientemente. Uma coisa é alguém que despreza a voz de Cristo correr para estas vaidades, e outra alguém não saber o que deve evitar. Mas o presente salmo mostra que nem destes se deve desesperar.

2 1.2Este é o teor do título: “Salmo de Davi. Quando veio ter com ele o profeta Natan, depois que se unira com Bersabeia”. Era mulher casada. Devemos falar com dor e tremor; todavia, Deus não quis se calasse o que fez ser escrito. Direi, portanto, não o que quero, mas o que sou impelido a dizer. Proferirei, não exortando à imitação, mas instruindo para incutir temor. O rei e profeta Davi, a cuja estirpe, segundo a carne, pertenceria o Senhor, seduzido pela beleza dessa mulher, desposada a outro, com ela cometeu adultério. Este salmo não o narra, mas alude a isto o título. No livro dos Reis, porém, conta-se tudo por extenso. Ambas as Escrituras são canônicas, ambas sem dúvida alguma devem ser utilizadas pelos fiéis. O pecado foi cometido e isso está escrito. Davi mandou matar o marido de Bersabeia na guerra. Acrescentou um homicídio ao adultério. Depois de cometer este pecado foi-lhe enviado o profeta Natan, da parte de Deus, que o arguiu de tão grande crime.

3 Declaramos o que devem os homens evitar. Ouçamos a quem hão de imitar se tiverem caído. Muitos querem cair com Davi, mas não querem se levantar com ele. Não é exemplo de queda que te é proposto, e sim de como te reerguer se tiveres caído. Cuidado para não cair. A queda dos grandes não deve dar prazer aos menores, mas sirva a sua queda para incutir temor aos que estão abaixo. Foi para isto que foi proposto, que foi escrito, para isto na Igreja frequentemente é lido e cantado. Escutem os que não caíram, a fim de evitar a queda, ouçam os que caíram para se levantarem. Não se calou o pecado de tão grande varão. É anunciado na igreja. Os maus ouvintes escutam e procuram nisso uma defesa de seus pecados. Prestam atenção no modo de defender o pecado que decidiram cometer, ao invés de se precaverem do que não cometeram, e dizem a si mesmos: Se Davi assim agiu, por que não posso também eu? Por esta razão, a alma se torna pior do que Davi, querendo agir assim visto que Davi o fez; seu pecado é pior do que o de Davi. Vou explicar melhor, se puder. Davi não tomara a outro por exemplo, como tu. Caíra por ceder à concupiscência, e não por pretexto de não ser pecado; tu, porém, o propões a ti mesmo como exemplo, porque ele é santo, mas a fim de pecares. Não imitas a sua santidade, mas imitas sua queda. Amas em Davi o que ele mesmo odiou em si. Preparas-te para pecar, decides pecar. Examinas o Livro de Deus para pecar; ouves as Sagradas Escrituras a fim de praticar aquilo que desagrada a Deus. Não foi assim que agiu Davi. Foi repreendido pelo profeta, mas não caiu como profeta. Alguns, contudo, escutam de modo salutar, e vendo a queda de um forte medem melhor a sua fraqueza; desejosos de evitar o que Deus condena, com segurança moderam seus olhares. Não fixam os olhos na beleza carnal, imaginando por perversa simplicidade que estão firmes. Não dizem: Olhei com boa intenção, olhei por amizade, com benevolência olhei longamente. Pensam na queda de Davi. Reconhecendo que são pequenos não querem ver o que pode fazê-los cair, pois veem que o grande caiu. Reprimem os olhos da insolência, não se reúnem facilmente com as mulheres dos outros, não se detêm no meio delas, não dirigem os olhos para as sacadas e terraços vizinhos. Pois, Davi viu de longe aquela que o prendeu. A mulher estava longe, mas a concupiscência estava perto. Fora dele estava o que ele via, mas dentro de si tinha o que o faria cair. Faz-se mister precaver-se desta fraqueza da carne, recordando-se do que disse o Apóstolo: “O pecado não impere mais em vosso corpo mortal” (Rm 6,12). Não disse: Não exista, mas: “não impere”. O pecado está aí, quando sentes; mas só impera se consentires. Há de ser refreada e não seguida a deleitação carnal, principalmente quando se estender a objetos ilícitos e alheios. Deve ser domada pela vontade, e não se tornar voluntária. Olha sem receio, se não atinge teus sentimentos. Mas, podes replicar: Fico firme. Acaso és mais forte do que Davi?

4 Tal exemplo serve de aviso, para que ninguém se orgulhe na prosperidade. Muitos receiam a adversidade, mas não temem a prosperidade. No entanto, a prosperidade é mais perigosa para a alma do que a adversidade para o corpo. A prosperidade primeiro corrompe a alma, e depois a adversidade a encontra num estado de fragilidade. Meus irmãos, vigiai atentamente contra a felicidade. Por isso, vede como a palavra de Deus nos previne contra a segurança em nossa felicidade: “Servi ao Senhor com temor e exultai diante dele com tremor” (Sl 2,11). Com exultação, demos graças; com temor de cair. Davi não pecou enquanto sofria a perseguição de Saul. Quando o santo profeta Davi sofria a inimizade de Saul, quando estava angustiado por suas perseguições, quando fugia por diversas regiões para não cair nas mãos do rei, não desejou a mulher do próximo, nem matou o marido depois de ter cometido adultério com a mulher (cf 1Rs 24,5; 26,9). Na fraqueza de sua tribulação estava tanto mais atento ao que Deus manda quanto mais infeliz se via. Determinadas tribulações são úteis. É útil a ferramenta do médico. Muito mais do que a tentação do diabo. Davi se tornou seguro de si depois de vencer os inimigos; a angústia passou e o orgulho cresceu. Valha-nos, pois, este exemplo para termos receio da felicidade. Diz o salmista: “Encontrei a tribulação e a dor e invoquei o nome do Senhor” (Sl 114,3.4).

5 Mas isto sucedeu. Diria tais coisas aos que não cometeram tal pecado para que guardem vigilantes sua integridade e vendo a queda de um grande, os pequenos sintam medo. Todavia, se alguém houver caído e ouve estas coisas, tendo na consciência uma culpa, preste atenção às palavras deste salmo: verifique o tamanho da ferida, mas não perca a esperança no poder do médico. Cair no desespero por causa do pecado é morte certa. Por conseguinte, ninguém diga: Se cometi algum mal já estou condenado. Deus não perdoa esta espécie de pecados; porque não continuarei a pecar? Gozarei com delícia neste mundo, com lascívia, com desejos impuros; tendo já perdido a esperança de conversão, tenha ao menos o que vejo, uma vez que não poderei ter o que creio. Este salmo, no entanto, como previne os que não caíram, igualmente não quer que desesperem os que pecaram. Quem quer que sejas que pecaste, e hesitas em fazer penitência por teu pecado, desanimado relativamente a tua salvação, escuta Davi a gemer. Não te foi enviado o profeta Natan, mas o próprio Davi. Escuta-o a clamar, e clama com ele; escuta-o a gemer, e geme simultaneamente; escuta-o a chorar, e une as tuas lágrimas às dele; escuta-o emendado, e alegra-te com ele. Se não impediste o pecado, não se encerre para ti a esperança do perdão. A Davi foi enviado o profeta Natan. Observa a humildade do rei. Não repeliu as palavras de ordem; não repeliu: Como ousas falar assim ao rei, que sou? Rei sublime, que ouviu o profeta; o povo humilde ouça a Cristo. 2 Cf. Cesario de Arles Sermo. 155-CC 103, p. 550ss e Pl 47, 1196ss.

6 3Escuta, portanto, estas palavras, e repete com ele: “Piedade de mim, ó Deus, segundo a tua grande misericórdia”. Quem suplica grande misericórdia confessa sua enorme miséria. Procurem menor misericórdia os que pecaram por ignorância. “Piedade de mim, ó Deus, segundo a tua grande misericórdia”. Socorre ao gravemente ferido, com teus enérgicos medicamentos. Grave é minha doença, mas refugio-me no Onipotente. Perderia a esperança por causa de meu ferimento mortal se não encontrasse tão grande médico. “Piedade de mim, ó Deus, segundo a tua grande misericórdia; e com a abundância de tuas comiserações apaga a minha iniquidade. Apaga a minha inquidade” corresponde a “Piedade de mim, ó Deus”. E “a abundância de tuas comiserações” equivale a “segundo a tua grande misericórdia”. Muitas misericórdias porque é grande a misericórdia; e desta grande misericórdia derivam as muitas comiserações. Olhas os que desprezam para corrigi-los, voltas-te para os ignorantes para ensinar-lhes, atendes os pecadores para perdoá-los. Cometeu pecados por ignorância? Alguém os cometera, praticando muitos males: “Mas obtive misericórdia, porque agi por ignorância” (1Tm 1,13). Davi não pôde dizer: “Agi por ignorância”. Não ignorava que grande pecado era tocar na mulher do próximo, e ainda matar o marido que desconhecia o fato, e por isso nem podia se encolerizar. Mas, conseguem a misericórdia do Senhor os que agem por ignorância, enquanto os que pecam conscientemente obtêm não qualquer uma, mas uma grande misericórdia.

7 4“Lava-me cada vez mais de minha injustiça”. Por que razão: “cada vez mais”? Porque estava muito manchado. Cada vez mais lava os pecados de quem está ciente, enquanto lavas os pecados de quem está na ignorância. Nem assim deve-se desesperar de tua misericórdia. “E purifica-me de meu pecado”. Por mérito de quem? Ele é médico e oferece a graça; é Deus, oferece o sacrifício. O que darás para seres purificado? Vê a quem hás de invocar. Invocas o justo, que odeia o pecado, pelo fato mesmo de ser justo. Pune o pecado, se é justo. Não podes subtrair de Deus a sua justiça. Implora a misericórdia, mas espera a justiça. É próprio da misericórdia perdoar o pecador e peculiar à justiça castigar o pecado. E então? Buscas a misericórdia e o pecado ficará impune? Responderá Davi, responderão os decaídos, responderão com Davi para merecerem a mesma misericórdia que ele, e digam: Não, Senhor, meu pecado não ficará impune. Conheço a justiça daquele cuja misericórdia procuro. Não ficará impune, mas não quero que tu me castigues, porque me arrependo de meu pecado. Peço que perdoes, porque reconheço meu pecado.

8 5“Reconheço a minha iniquidade e o meu pecado está sempre diante de mim”. Não deixei para trás o que fiz, não olho os outros, esquecido de mim mesmo, não tento retirar o argueiro do olho de meu irmão, quando tenho uma trave nos meus (cf Mt 7,3). Meu pecado está a minha frente, não nas costas. Estava atrás de mim quando me foi enviado o profeta, e me propôs a parábola da ovelha do pobre. Disse o profeta Natan a Davi: “Um homem rico possuía ovelhas em grande número. Um pobre, seu vizinho, tinha só uma pequena ovelha. Ele a criara junto de si e a alimentava com a sua comida. Um hóspede veio à casa do homem rico, que nada quis tirar de seu rebanho. Tomou a ovelhinha do pobre e a preparou para sua visita. De que é digno?” Davi, então, irado proferiu a sentença. De fato, o rei sem saber em que laço caíra, proferiu sentença de morte para o rico, que devia devolver a ovelha ao quádruplo (cf 2Rs 12,2- 6). Sentença muito severa, no entanto, justíssima. Mas seu pecado ainda não estava diante dele. Achava-se atrás dele o que cometera. Ainda não reconhecia sua iniquidade, e por isto não perdoava a alheia. O profeta, contudo, que para tal fora enviado, tirou o pecado de suas costas, e colocou-o diante de seus olhos, para que visse que proferia sentença tão severa contra si mesmo. Transformou a língua dele num bisturi para cortar e curar a ferida que ele tinha no coração. Igualmente, assim agiu o Senhor para com os judeus, quando lhe apresentaram a mulher adúltera, propondo-lhe uma cilada, mas quem nela caiu foram eles mesmos. Disseram: “Esta mulher foi surpreendida em adútério. Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. Tu, porém, que dizes?” Eles tentavam apanhar a Sabedoria de Deus numa cilada ambivalente. Se o Senhor mandasse matá-la, perderia a fama de mansidão; se ordenasse que a despedissem livre, incorreria na calúnia de ser censor da lei. Sua resposta foi a seguinte: Não disse: Matai; não disse: Soltai, mas: “Quem dentre vós não tem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra”. É justa a lei que ordena se mate uma adúltera; mas esta lei justa pede ministros inocentes. Ponderai quem é que apresentais, mas atendei também no que sois. “Eles, porém, ouvindo isso, saíram um após outro. Ficaram a adúltera e o Senhor”, restaram a mulher ferida e o médico, a grande miséria e a grande misericórdia. Os que a apresentaram encheram-se de vergonha, mas não pediram perdão; a que fora levada perante o Senhor confundiu-se e foi curada. Disse-lhe o Senhor: “Mulher, ninguém te condenou? Disse ela: Ninguém, Senhor. Disse, então Jesus: Nem eu te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais” (Jo 8,4-11). Por acaso, Cristo agiu contra a sua Lei? Pois, o Pai não dera a Lei sem o Filho. Se por ele foram feitos o céu, a terra e tudo o que eles contêm, como a Lei seria promulgada sem o Verbo de Deus? Nem Deus, nem o imperador agem contra as suas próprias leis quando dão perdão aos faltosos que confessarem. Moisés é ministro da Lei, mas Cristo é promulgador da Lei. Moisés manda apedrejar, enquanto é juiz, ao invés, Cristo, como rei, dá o perdão. Deus, portanto, dela se compadeceu em sua grande misericórdia, conforme ela aqui roga, pede, exclama, lamenta. Isto não quiseram fazer os que apresentaram a adúltera. Reconheceram o médico, porque lhe mostraram o ferimento, mas não procuraram dele o remédio. Desta maneira agem muitos que não se envergonham de pecar, mas têm vergonha de fazer penitência. Oh! Incrível loucura! Não te coras da ferida, e tens vergonha das faixas? Porventura não é mais fétida e pútrida quando está descoberta? Refugia-te, portanto, junto do médico, faze penitência, dizendo: “Reconheço a minha iniquidade e o meu pecado está sempre diante de mim”.

9 6“Só contra ti pequei e fiz o mal diante de ti”. Qual o sentido desta palavra? Não fora diante dos homens que Davi cometeu adultério e matou o marido desta mulher? Todos não souberam do ato de Davi? Por que então: “Só contra ti pequei e fiz o mal diante de ti”? Porque és o único sem pecado. Só é justo para punir aquele que em nada merece ser castigado; é justo censor pois não tem em si algo de repreensível. “Só contra ti pequei e fiz o mal diante de ti; para que te justifiques em tuas palavras e venças ao seres julgado”. É difícil, irmãos, saber a quem são dirigidas estas palavras. O salmista fala, em verdade, a Deus, e é claro que Deus Pai não foi julgado. O que significa: “Só contra ti pequei e fiz o mal diante de ti; para que te justifiques em tuas palavras e venças ao seres julgado”? Ele vê que o futuro juiz deve ser primeiro julgado, o justo julgado pelos pecadores, e nisto mesmo seria vencedor, porque não havia nele o que julgar. Somente entre os homens pôde dizer com verdade o homem Deus: Se encontraste pecado em mim, declarai-o (cf Jo 8,46). Mas existiria algo de oculto aos homens, e estes não descobriam o que de fato havia, porque não era evidente? Em outra passagem afirma o perspicaz examinador de todos os pecados: “O príncipe do mundo vem”. Declara: “O príncipe do mundo vem”, o príncipe da morte, a infligir a morte aos pecadores, pois, a morte entrou no mundo pela inveja do diabo (cf Sb 2,24). “O príncipe do mundo vem” (disse o Senhor, quando a paixão estava próxima); “contra mim ele nada pode”, não encontrará pecado algum, nada que mereça a morte, nem condenação. Seria como se lhe dissesse alguém: Então, por que hás de morrer? Prossegue: “Mas o mundo saberá que faço como o Pai me ordenou. Levantai-vos! Partamos daqui!” (Jo 14,30.31). Sofro, diz ele, sem merecer pelos que merecem a morte, para torná-los dignos de minha vida, pois indignamente sofro a morte em seu favor. O profeta Davi diz então a este que não tem pecado algum: “Só contra ti pequei e fiz o mal diante de ti; para que te justifiques em tuas palavras e venças ao seres julgado”. Superas todos os homens, todos os juízes, e quem se reputa por justo, diante de ti é injusto. Tu somente julgas com justiça, tu que foste injustamente julgado, que tens o poder de entregar a tua vida e poder de novamente retomá-la (cf Jo 10,18). Vences, portanto, ao seres julgado. Superas a todos os homens; és mais do que todos eles, que por ti foram feitos.

10 7“Só contra ti pequei e fiz o mal diante de ti; para que te justifiques em tuas palavras e venças ao seres julgado. Eis que fui concebido em iniquidade”. Seria como se dissesse: São vencidos os que fizeram como tu, Davi. Não é pequeno mal, pequeno pecado, cometer adúltério com homicídio. Que acontece aos que desde o nascimento, desde que saíram do seio de sua mãe, nada fizeram de semelhante? Também a estes imputas alguns pecados, de sorte que o Senhor supere a todos, ao começar a ser julgado? Davi faz o papel de todo o gênero humano, pondera os vínculos de todos, considera a propagação da morte, nota a origem da iniquidade, e diz: “Eis que fui concebido em iniquidade”. Por acaso nascera Davi de um adultério? Nascera de Jessé, homem justo e de sua esposa (1Rs 16,18). Por que razão diz que foi concebido em iniquidade, senão porque contraiu o pecado original de Adão? A própria necessidade da morte liga-se ao pecado. Ninguém nasce sem contrair a culpa, a pena. Diz em outra passagem o profeta: “Ninguém é puro em tua presença, nem a criança de um dia de vida sobre a terra” (Jó 14,4 sg. LXX). Mas, sabemos que no batismo de Cristo os pecados são perdoados, e que este batismo vale para a remissão dos pecados. Se as crianças são inteiramente inocentes, porque as mães correm para a igreja quando elas adoecem? Que pecado apaga aquele batismo, a que se refere aquele perdão? Vejo a criança inocente a chorar, não a se encolerizar. Que lava o batismo? Que dívida se paga com aquela graça? Apaga-se a propagação do pecado. Se aquela criança pudesse falar, te diria, e se já tivesse o entendimento que possuía Davi, te responderia: O que observas em mim, que sou uma criança? É verdade que não vês pecados que tenha cometido, mas fui concebido em iniquidade e “em pecado me gerou minha mãe”. Isento deste vínculo da concupiscência carnal, nasceu Cristo não de um varão, mas de uma virgem que concebeu por obra do Espírito Santo. Dele não se pode dizer que foi concebido em iniquidade; não se pode dizer: Sua mãe o gerou em pecado. A ela foi dito: “O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a sua sombra” (Lc 1,35). Por conseguinte, não se diz que os homens são concebidos em iniquidades e em pecado são gerados pelas mães porque seria pecado a união dos cônjuges, mas porque a geração se produz numa carne sujeita à pena devida ao pecado. O castigo da carne é a morte, e de fato nela é inerente a própria mortalidade. Daí decorre que o Apóstolo não afirma que o corpo há de morrer, mas que está morto. Diz ele: “O corpo está morto, pelo pecado, mas o espírito é vida, pela justiça” (Rm 8,10). Como, então, nasceria sem o vínculo do pecado quem é concebido e gerado de um corpo morto pelo pecado? A casta união conjugal não é culpada, mas o pecado original acarreta a merecida pena. O marido não é mortal enquanto tal, mas devido ao pecado. O Senhor também era mortal, mas não por causa de algum pecado. Aceitou a pena que merecíamos, e assim apagou a nossa culpa. Com razão, portanto, todos morrem em Adão, mas em Cristo todos são vivificados (cf 1Cor 15,22). “Eis porque”, diz o Apóstolo, “por meio de um só homem o pecado entrou no mundo, e pelo pecado a morte, e assim a morte passou a todos os homens, porque nele todos pecaram” (Rm 5,12). Está bem delimitada a questão: Em Adão todos pecaram. Excetua-se apenas a criança inocente que não nasceu com o pecado de Adão.

11 8“Eis que amaste a verdade. Tu me revelaste as coisas incertas e recônditas de tua sabedoria. Amaste a verdade”, isto é, não deixaste impunes os pecados, nem mesmo daqueles a quem perdoaste. “Amaste a verdade”. Concedeste misericórdia, contudo conservaste a verdade. Perdoas àquele que confessa; perdoas, mas ao penitente. Assim se preserva a misericórdia unida à verdade. Misericórdia porque o homem é libertado; verdade porque o pecado é punido. “Eis que amaste a verdade. Tu me revelaste as coisas incertas e recônditas de tua sabedoria”. Por que motivo “recônditas”? Por que “incertas”? Porque até a estes Deus perdoa. Nada de tão oculto, nada de tão incerto. Diante desta incerteza, os ninivitas fizeram penitência. Declararam, disseram a si mesmos que deviam pedir misericórdia, apesar das ameaças do profeta, apesar de seu aviso: “Ainda três dias, e Nínive será destruída”. Perguntaram-se uns aos outros: “Quem sabe? Talvez Deus volte atrás, arrependase e se compadeça”. Estavam na incerteza, pois diziam: “Quem sabe?” Na dúvida, fizeram penitência e mereceram misericórdia segura. Prostraram-se com lágrimas, jejuns, cilício e cinza, gemeram, choraram e Deus os poupou (Jn 3,4-10). Nínive ficou de pé, ou foi destruída? Os homens veem de um modo e Deus de outro. Penso que se cumpriu o que o profeta predissera. Pondera o que foi Nínive, e vê que foi destruída, derrubada relativamente ao mal, edificada no tocante ao bem, assim como Saulo, o perseguidor, foi derrubado e ergueu-se Paulo, o pregador (cf At 9,4). Quem não diria que à nossa cidade seria uma felicidade ser destruída de sorte que todos os insensatos deixassem suas futilidades, e acorressem à igreja contritos, pedindo a misericórdia de Deus em relação a seus pecados passados? Não diríamos: Onde está aquela Cartago? Como não é mais o que fora, foi destruída; mas se ela se tornou o que não era, foi edificada. Por esta razão é que foi dito a Jeremias: “Eu te constituo para arrancar e para destruir, para exterminar e para demolir, para construir e para plantar” (Jr 1,10). Daí também aquela palavra do Senhor: “Sou eu quem fere e torno a curar” (Dt 32,39). Fere, extrai a podridão do crime, cura a dor da ferida. Assim fazem os médicos, que cortam, extraem, curam. Armam-se para ferir, usam o bisturi para curar. Mas como os pecados dos ninivitas eram grandes, eles disseram: “Quem sabe?” Essa incerteza Deus tirara de seu servo Davi. Ao responder ele, ao profeta que estava em sua presença e o arguía: “Pequei”, logo ouviu do profeta, isto é, do Espírito de Deus que estava no profeta: “O Senhor perdoa a tua falta” (2Rs 12,13). Ele lhe revelou as coisas incertas e recônditas de sua sabedoria.

12 9“Aspergir-me-ás com o hissopo e serei purificado”. Sabemos que o hissopo é uma erva insignificante, mas medicinal; suas raízes aderem às pedras. Daí se tirou a comparação, o símbolo da purificação do coração. Também tu firma-te na raiz do amor, a tua pedra. Sê humilde, unida a teu Deus humilde, para que sejas sublime em teu Deus glorificado. Serás aspergido com o hissopo; a humildade de Cristo te purificará. Não desprezes a erva; ao invés, atende à virtude do medicamento. Direi ainda alguma coisa que costumamos ouvir dos médicos, ou experimentar nos doentes. Diz-se que o hissopo é apto a purificar os pulmões. Os pulmões costumam assinalar a soberba. Dali parte o inchaço, o hálito. Foi dito de Saulo, o perseguidor, como sendo Saulo soberbo, que partira para prender os cristãos, respirando morticínio (cf At 9,1). Respirava morticínio, desejava derramar sangue, tinha os pulmões não purificados. Escuta-o agora, humilde porque foi purificado por meio do hissopo: “Aspergir-meás com o hissopo e serei purificado: lavar-me-ás e ficarei mais alvo do que a neve”, isto é, purificar-me-ás. Diz o profeta: “Mesmo que os vossos pecados sejam como escarlate, tornarse-ão alvos como a neve” (Is 1,18). É destes fiéis que Cristo tece a veste sem mancha nem ruga (cf Ef 5,27). Por este motivo, a sua veste no monte, que brilhou ficando alva como a neve (cf Mt 17,2), representava a Igreja purificada de toda mácula de pecado.

13 10Mas por que o hissopo figura a humildade? Ouve o versículo seguinte: “Far-me-ás ouvir o júbilo e a alegria e exultarão os ossos humilhados. Far-me-ás ouvir o júbilo e a alegria”. Alegrar-me-ei ao ouvir-te. Não falarei contra ti. Pecaste. Por que te defendes? Queres falar. Sofre, ouve, atende à voz divina, não te perturbes, não te firas mais ainda. Cometeste pecado. Não te defendas, mas procura a confissão, não a defesa. Se te apresentas como defensor de teu pecado, serás vencido. Não patrocinaste um inocente. Não te será útil tua defesa. Quem és tu para te defenderes? És apto para te acusares. Não digas: Nada fiz. Ou: Que grande pecado cometi? Ou: Os outros fizeram o mesmo. Se ao pecares dizes que nada cometeste, nada serás, nada receberás. Deus está disposto a dar-te o perdão. Tu te fechas para teu prejuízo. Ele está pronto a dar. Não oponhas o obstáculo da defesa, mas abre o peito para a confissão. “Far-me-ás ouvir o júbilo e a alegria”. O Senhor me dê a possibilidade de dizer o que penso. São mais felizes os que ouvem do que os que falam. Quem está aprendendo faz-se humilde; o mestre deve se esforçar para não se tornar soberbo, para não deixar que se insinue o desejo de agradar como não deve, a fim de que não desagrade a Deus, quem quer agradar aos homens. Grande tremor sente quem ensina, meus irmãos, grande é o tremor que temos enquanto falamos. Crede no que há em nosso coração, que não podeis ver. Conhece-o aquele que pode se aplacar. Seja-nos ele propício, pois é com grande temor que vos falamos. Quando o ouvimos interiormente sugerindo e ensinando, sentimo-nos seguros, alegramo-nos tranquilos. Estamos subordinados ao mestre, procuramos sua glória, louvamo-lo enquanto ensina. Sua verdade deleita-nos interiormente, onde ninguém faz ou ouve ruído. Ali disse o salmista estar sua alegria e sua exultação. “Far-me-ás ouvir o júbilo e a alegria”. Ouve pois é humilde. Quem ouve, quem ouve de verdade, quem ouve bem, ouve humildemente. A glória pertence àquele a quem o ouvinte escuta. Após haver dito: “Far-me-ás ouvir o júbilo e a alegria”, mostra imediatamente o efeito desta audição: “E exultarão os ossos humilhados”. Os ossos foram humilhados. Os ossos do ouvinte não demonstram orgulho, nem inchaço, o qual é vencido apenas por aquele que fala. Por conseguinte, João Batista, o varão humilde e grande, em comparação do qual não houve maior entre os nascidos de mulher, de tal forma se humilhou que se declarou indigno de desatar as correias das sandálias de seu Senhor (cf Mt 11,11; Mc 1,7); deu glória a seu mestre e com isto se tornou seu amigo. Quando era considerado como sendo o Cristo (cf Sl 3,15) e poderia por isso encher-se de soberba e se projetar, disse: “Quem tem a esposa é o esposo, mas o amigo do esposo, que está presente o ouve” (Jo 3,29). Não foi ele que disse ser o Cristo, mas poderia ter aceitado o erro dos homens que assim pensavam, e além disso, queriam prestar-lhe esta honra; mas ele rejeitou a falsa honra para encontrar a verdadeira glória. Vê a humildade que obteve ao ouvir o esposo: “Ficou de pé a ouvir”; não caiu e falou. Está de pé e ouve que ele prestou à palavra de onde lhe veio o júbilo e a alegria? “Está de pé e ouve, e é tomado de alegria à voz do esposo. Far-me-ás ouvir o júbilo e a alegria e exultarão os ossos humilhados”.

14 11“Desvia a tua face de meu pecado e apaga todas as minhas iniquidades”. Os ossos humilhados já exultam, já fui purificado com o hissopo, e tornei-me humilde. “Desvia a tua face”, não de mim, mas “de meus pecados”. Em outra passagem, efetivamente, diz: “Não desvies de mim a tua face” (Sl 26,9). Quem não quer que a face de Deus se desvie de si procura que ele a desvie de seus pecados. Dá atenção ao pecado do qual Deus não aparta sua face; se ele observa, condena. “Desvia a tua face de meus pecados e apaga todas as minhas iniquídades”. Preocupa-se com aquele grande pecado; mas presume ainda mais sejam apagadas todas as suas iniquidades. Presume da mão do médico, daquela grande misericórdia de que tratou no princípio do salmo: “Apaga a minha iniquidade”. Deus desvia a sua face e assim apaga; desviando a face, apaga os pecados, dando atenção anota. Ouviste que ele apaga, desviando a face, ouve agora o que há de fazer quando presta atenção. “Mas a face do Senhor volta-se contra os malfeitores, para apagar da terra a memória deles” e não os pecados. Aqui, porém, como roga o salmista? “Desvia a tua face de meus pecados”. É bom rezar assim. O próprio salmista, porém, não desvia a face de seus pecados, pois afirma: “Reconheço a minha iniquidade”. Com justeza rezas, e rezas bem para que Deus desvie a sua face de teu pecado, se tu mesmo não apartas a tua: se, porém, pões os teus pecados nas costas, Deus volta para eles a sua face. Tu deves colocar teu pecado em tua presença, se queres que Deus dele aparte a sua face. E assim rezarás com segurança porque ele há de ouvir.

15 12“Cria em mim, ó Deus, um coração puro”. Cria, não quer dizer, faze algo de novo. Mas orava como um penitente que cometera algo que diminuíra sua inocência; por isso diz: “Cria, e renova em minhas entranhas um espírito reto”. Minha ação debilitara e curvara a retidão de meu espírito. Foi dito em outro salmo: “Mantiveram curva a minha alma” (Sl 56,7). Quando o homem se torna propenso às concupiscências terrenas, curva-se de certa maneira; quando se ergue para as coisas do alto, seu coração se torna reto e passa a considerar a bondade de Deus. Como é bom o Deus de Israel para os retos de coração (cf Sl 72,1). Em consequência disso, irmãos, ouvi. Às vezes, Deus repreende por causa do pecado aquele a quem há de perdoar no século futuro. Pois, ao próprio Davi, ao qual fora dito pelo profeta: “O Senhor perdoou a tua falta” (2Rs 12,13), sobrevieram alguns castigos de que Deus o ameaçara, por causa do pecado. Seu filho Absalão fez-lhe cruenta guerra e humilhou muito o pai (cf 2Rs 12,13). Davi passou os dias na dor, na tribulação de sua humilhação, de tal modo submisso a Deus que confessava serem justos os castigos e que ainda nada do que sofria era imerecido. Já possuía um coração reto e agradava-lhe Deus. Ouvia com paciência um homem a injuriá-lo e a lançar pesadas maldições contra ele; era dos adversários, um soldado que apoiava seu filho impiedoso. Enquanto ele lançava maldições contra o rei, um dos companheiros de Davi, encolerizado, quis feri-lo, mas Davi o impediu. Como o fez? Dizendo: “Amaldiçoe, se o Senhor lhe ordenou que o fizesse” (2Rs 16,5.10). Reconhecendo a sua culpa, aceitou o castigo, sem procurar a própria glória. Louvava o Senhor por causa do bem que possuía, louvava-o devido ao que sofria, bendizia-o em todo tempo, tendo sempre seu louvor nos lábios (cf Sl 33,2). Assim agem os que são retos de coração, mas não os perversos, que se consideram certos e que Deus está errado. Se praticam o mal alegram-se; se sofrem algum mal blasfemam. Além disso, se passam por tribulação e suportam um castigo, dizem em seu coração perverso: Ó Deus, que te fiz? De fato, a Deus nada fizeram; tudo foi contra eles mesmos. “E renova em minhas entranhas um espírito reto”.

16 13“Não me expulses de tua presença. Desvia a tua face de meus pecados; e não me expulses de tua presença”. Teme a sua face, contudo a invoca. “Não me expulses de tua presença, nem me retires o teu santo espírito”. Pois, o Espírito Santo está naquele que confessa. Já é um dos dons do Espírito Santo desagradar-te o que fizeste. Os pecados agradam ao espírito imundo, mas causam desprazer ao Santo. Portanto, embora ainda peças perdão, de outro lado, por te desagradar o mal que cometeste, te unes a Deus. Então, desagrada-te o mesmo que a ele. Já são dois para acabar com tua febre: tu e o médico. Uma vez que não é possível haver confissão e castigo do pecado no homem, provenientes de si mesmo, vem de um dom do Espírito alguém se penitenciar e ter horror do pecado. O salmo não diz: Dá-me teu santo espírito, mas: “não retires de mim. Nem me retires o teu santo espírito”.

17 14“Restitui-me a alegria de tua salvação”. Restitui a alegria que eu tinha e perdera com o pecado. “Restitui-me a alegria de tua salvação”, a saber, de teu Cristo. Pois, quem ficou curado sem seu auxílio? Mesmo antes de nascer de Maria, no princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus (cf Jo 1,1). Os santos pais acreditavam na futura encarnação do mesmo modo que nós nela acreditamos, depois de realizada. Variaram os tempos, não a fé. “Restitui-me, depois de tua salvação e sustenta-me com o espírito principal”. Alguns viram neste trecho uma referência a Deus Trino, executando-se a encarnação; pois está escrito: “Deus é espírito” (Jo 4,24). Parece que a um ser que não é corpo só lhe resta ser espírito. Alguns, portanto, são de opinião de que aqui se trata da Trindade 1 : “espírito reto” aludiria ao Filho, “espírito santo” seria o Espírito Santo, e “espírito principal” seria o Pai. Quer se adote este parecer, quer se aplique a expressão: “Espírito reto” ao próprio homem dizendo: “Renova em minhas entranhas um espírito reto” (pois o pecado o curvou e distorceu; enquanto “espírito principal” seria o Espírito Santo, que o homem pede não se retire, mas ao invés, o confirme) nem uma nem outra dessas opiniões é herética.

18 15Mas, vede o acréscimo: “Sustenta-me com o espírito principal”. Em que tu “me sustentas”? Uma vez que me perdoaste, que estou certo de que não são atribuídos a mim mesmo os teus dons, por isto fico tranquilo; e por esta graça confirmado, não serei ingrato. Que farei, então? “Ensinarei aos maus os teus caminhos”. Eu, um ex-malvado, ensinarei aos malvados; quero dizer, fui também eu iníquo, mas já não o sou, nem o Espírito Santo de mim se retirou, e fui sustentado pelo espírito principal, por isso, “ensinarei aos maus os teus caminhos”. Quais ensinarás? “E a ti se converterão os ímpios”. Se o pecado de Davi for atribuído à impiedade, os ímpios não percam a esperança, porque Deus perdoou ao ímpio; contanto que se convertam, que aprendam os seus caminhos. Se, porém, não for atribuído à impiedade o pecado de Davi, mas propriamente for denominada impiedade a apostasia, o fato de deixar de adorar o único Deus (nunca ter adorado, ou ter deixado de fazê-lo), refere-se ao cúmulo dos pecados a frase: “E a ti se converterão os ímpios”. Deus é de tal maneira cheio de misericórdia que não se deve perder a esperança a respeito de nenhum pecador, nem mesmo dos ímpios que a ele se convertem. “E a ti se converterão os ímpios”. De que forma? Que seja reputada como justiça a fé dos que creem naquele que justifica o ímpio (cf Rm 4,5).

19 16“Livra-me da mancha dos sangues, ó Deus, Deus de minha salvação”. O tradutor latino verteu literalmente do grego. Todos sabemos que em latim não se emprega a palavra sangue no plural. No entanto em grego verteram no plural, não por acaso, mas porque assim se acha no original hebraico. O piedoso tradutor preferiu empregar uma palavra menos latina do que menos literal. Por que foi dito no plural: “dos sangues”? Com a expressão: sangues, como na origem da carne de pecado, quis o salmista dar a entender muitos pecados. O Apóstolo, considerando os pecados provenientes da corrupção da carne e do sangue, disse: “A carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus” (1Cor 15,50). Efetivamente, segundo a fé verdadeira professada pelo mesmo Apóstolo, a carne ressurgirá e receberá a incorruptibilidade, conforme ele diz: “É necessário que este ser corruptível revista a incorruptibilidade e que este ser mortal revista a imortalidade” (1Cor 15,53). Como a corrupção origina-se do pecado, com este mesmo nome se designa o pecado, da mesma forma que se chama língua aquele pedaço de carne, aquele membro que se move dentro da boca, ao proferirmos as palavras, e também língua a locução que precisa da língua para se exercer, por exemplo, a língua grega, a língua latina. A carne é igual, o som é diferente. Por conseguinte, como se chama língua aquilo que se fala empregando a língua, assim se chama sangue a iniquidade que se faz por meio do sangue. O salmista, portanto, atendendo as suas muitas iniquidades, disse mais acima: “Apaga a minha iniquidade”; e atribuindo-a à corrupção da carne e do sangue, pede: “Livra-me da mancha dos sangues”, a saber, livra-me das iniquidades, purifica-me de toda corrupção. Anela pela incorruptibilidade aquele que diz: “Livra-me da mancha dos sangues, porque a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção a incorruptibilidade. Livra-me da mancha dos sangues, ó Deus, Deus de minha salvação”. Mostra que, quando a salvação for perfeita no corpo, não haverá mais corrupção, significada pelos nomes de carne e sangue; será a perfeita saúde do corpo. Pois, agora como pode ser sadio o que deslisa, sofre necessidades, sente uma espécie de doença contínua com a fome e a sede? Tudo isso, então, não existirá mais. Os alimentos são para o ventre e o ventre para os alimentos. Deus, porém, destruirá estes e aqueles (cf 1Cor 6,13). Deus dará ao corpo uma forma acabada, quando a morte for absorvida pela vitória (cf 1Cor 15,54), e não restar mais corrupção, nem defeito, nem mudança de idade, nem cansaço de trabalho que exige reforço de alimento, ou refeição. Mas não estaremos sem alimento ou bebida, pois o próprio Deus será nosso alimento, nossa bebida. Somente este alimento nos refaz, sem se consumir. “Livra-me da mancha dos sangues, ó Deus, Deus de minha salvação”. Agora já estamos num regime de salvação. Ouve o que diz o Apóstolo: “Somos salvos em esperança”. Vê que ele tratava da salvação do corpo: “Gememos interiormente, suspirando pela redenção do nosso corpo. Pois fomos salvos em esperança; e ver o que se espera, não é esperar. Acaso alguém espera o que vê? E se esperamos o que não vemos é na perseverança que o aguardamos” (Rm 8,23.25). Aquele que perseverar até o fim — trata-se da paciência — esse será salvo — a salvação que ainda não temos, mas haveremos de ter. Ainda não veio a realidade, mas a esperança é segura (cf Mt 10,22; 24,13). “E minha língua celebrará com exultação a tua justiça”.

20 17“Abrirás, ó Senhor, os meus lábios, e a minha boca anunciará o teu louvor”. “Teu louvor”, porque fui criado; “teu louvor”, porque não fui abandonado quando pequei; “teu louvor”, porque fui admoestado a que confessasse; “teu louvor”, porque fui purificado para estar em segurança. “Abrirás os meus lábios, e a minha boca anunciará o teu louvor”

21 18.19“Pois se quisesses um sacrifício, de certo eu o ofereceria”. Davi vivia no tempo em que se ofereciam a Deus sacrifícios de animais, mas ele via o futuro. Não nos reconhecemos nestas palavras? Aqueles sacrifícios eram figurados e prenunciavam o único sacrifício salutar. No entanto, não ficamos sem vítima a oferecer a Deus. Ouve o que diz o salmista, preocupado com o seu pecado, e querendo ser perdoado do mal que fez: “Pois se quisesses um sacrifício, de certo eu o ofereceria. Não te comprazes em holocaustos”. Então nada ofereceremos? E assim nos apresentaremos diante de Deus? E como o aplacaremos? Oferece; pois, de fato, tens em ti o que oferecer. Não é preciso adquirir incenso fora, mas dize: “Em mim, ó Deus, estão os votos de louvor que cumprirei”. Não procures exteriormente um animal para imolares, porque tens dentro de ti o que imolar. “Sacrifício a Deus é o espírito contrito; ao coração arrependido e humilhado Deus não despreza”. Certamente despreza um touro, um cabrito, um carneiro; em nossa época não devem mais ser oferecidos. Eram apresentados quando indicavam ou prometiam algo; mas a realidade prometida já chegou, e as promessas acabaram. “Ao coração contrito e humilhado Deus não despreza”. Como sabeis, Deus é altíssimo; se te exaltares, afastar-se-á de ti; se te humilhares, aproximar-se-á de ti.

22 20Vede quem pronuncia estas palavras. Parecia que era apenas Davi a rezar. Vede aí nossa imagem e o tipo da Igreja. “Senhor, em tua bondade, derrama sobre Sião teus benefícios”. Derrama teus benefícios sobre esta Sião. Qual? A cidade santa. Qual é? A que não pode ficar escondida, porque situada sobre um monte (cf Mt 5,14). Sião, como posto de observação, porque vê algo do que espera. Sião se interpreta: observação, e Jerusalém: visão de paz. Reconheceis que vos achais em Sião e em Jerusalém, se esperais com segurança o objeto futuro de vossa esperança, e se tendes paz com Deus. “E reedifica os muros de Jerusalém. Senhor, em tua bondade, derrama sobre Sião teus benefícios; reedifica os muros de Jerusalém”. Não pense Sião que tem merecimentos por si mesma; tu, Senhor, derrama sobre ela teus benefícios. “Reedifica os muros de Jerusalém”. Construam-se as defesas de nossa imortalidade, na fé, esperança e caridade.

23 21“Aceitarás então o sacrifício de justiça”. Agora, porém, o sacrifício é por causa da iniquidade, isto é, o de um coração contrito e humilhado. Então, será o sacrifício de justiça, somente o louvor. Felizes os que habitam em tua casa. Louvar-te-ão pelos séculos dos séculos — eis o sacrifício de justiça (Sl 83,5). “As oblações e os holocaustos”. Que são holocaustos? São os sacrifícios inteiramente consumidos pelo fogo. Chamava-se holocausto o sacrifício em que todo o animal era colocado sobre o altar para ser consumido pelo fogo. Que o fogo divino nos consuma inteiramente, e aquele calor nos abrase. Qual? “Ninguém se subtrai a seu calor” (Sl 18,7). Qual calor? Aquele a que se refere o Apóstolo: “Fervorosos de espírito” (Rm 12,11). Não somente a nossa alma seja consumida por aquele fogo divino da sabedoria, mas também o nosso corpo a fim de merecer a imortalidade. O holocausto vá a tal ponto que a morte seja absorvida pela vitória. “As oblações e os holocaustos. Então se oferecerão novilhos sobre teu altar”. De onde “os novilhos”? Qual a opção? A inocência da nova idade, ou o pescoço livre do jugo da Lei?

24 Em nome de Cristo, terminamos o salmo, talvez não como o desejaríamos, mas conforme pudemos. Pouco resta a vos dizer, irmãos, por causa dos males entre os quais vivemos. Estando no meio das vicissitudes humanas, não podemos nos alhear das coisas humanas. Temos de viver com tolerância no meio dos maus, pois quando éramos maus, os bons nos suportaram. Se não olvidarmos o que fomos, não perderemos a esperança acerca daqueles que agora são o que nós fomos. Todavia, caríssimos, sendo tão grande a diversidade dos costumes e tão detestável a corrupção, governai bem a vossa casa, orientai vossos filhos, vossa família. Como nos compete falar-vos na Igreja, assim tendes o dever de fazer o mesmo em vossas casas, para poderdes prestar contas exatas dos que vos estão sujeitos. Deus ama a disciplina. É perversa e falsa inocência relaxar as rédeas dos pecados. É muito inútil, muito perniciosa a mansidão do pai para com o filho, que depois há de sentir a severidade de Deus; e isto, não ele sozinho, mas com o pai negligente. E então? Se o próprio pai não peca e não age como o filho, nem por isso há de proibir a maldade do filho? Acaso não pensará o filho que o pai faria de igual modo que ele, se não fosse velho? O pecado do filho que não te desagrada, te deleita; portanto, foi a idade e não o desejo que abandonou o pecado. Principalmente, meus irmãos, cuidai dos filhos que se tornaram fiéis, pelos quais respondestes para que fossem batizados. Mas se, por acaso, o filho malvado não atender aos avisos do pai, ou às censuras, ou à severidade? Faze a tua parte. Dele há de exigir Deus a sua.

1 Cf Jerôn. Comentário à carta aos Gálatas, 4,6 – P. L. 26, 399 c.

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

Comentário de Santo Agostinho ao Salmo 49

SERMÃO AO POVO

1 1Pondere cada um quanto vale para nós a palavra de Deus, quando temos em vista a correção de nossa vida, os prêmios esperados, os castigos ameaçadores. Ponha diante dos olhos a própria consciência, sem disfarces, sem complacências diante de tão grande perigo, uma vez que nem o próprio Senhor a ninguém acaricia. Se ele consola, prometendo-nos seus bens, confirmando nossa esperança, não poupa de modo algum os que vivem mal e desprezam sua palavra. Examine-se, pois, cada um, enquanto é tempo, e verifique onde se encontra. Persevere no bem, ou converta-se do mal. Conforme se exprime o presente salmo, não fala um homem qualquer, nem qualquer anjo, mas “falou o Senhor, Deus dos deuses”. Que realizou com sua palavra? “Convocou a terra do oriente ao ocaso”. Jesus Cristo é nosso Senhor e Salvador, que convocou a terra do oriente ao ocaso. Verbo que se fez carne para habitar entre nós. Nosso Senhor Jesus Cristo é, portanto, o Deus dos deuses; por ele tudo foi feito e sem ele nada se fez. Verbo de Deus, se é Deus, efetivamente é o Deus dos deuses. O evangelho responde que ele é Deus: “No príncipio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). E se tudo foi feito por ele, como está escrito em seguida, também os deuses que foram feitos, foram feitos por ele. De fato, há um só Deus, não criado, e em verdade só ele é Deus. Somente ele é Deus, Pai e Filho e Espírito Santo, um só Deus.

2 Quais são, ou onde estão os deuses, portanto, dos quais Deus é o verdadeiro Deus? Declara outro salmo: “Deus está de pé na assembleia dos deuses e no meio deles instituiu seu julgamento” (Sl 81,1). Ainda não sabemos se alguns deuses se reuniram no céu, e se em sua sinagoga, isto é, na assembleia, Deus está presente para julgá-los. Vede o que afirma o mesmo salmo: “Eu disse: Vós sois deuses e sois todos filhos do Altíssimo. Morrereis todavia como homens e caireis como um príncipe qualquer” (ib, 6.7). É evidente, portanto, que chama os homens de deuses, deificados por sua graça, não nascidos de sua substância. Santifica aquele, pois, que por si mesmo é justo, não por meio de outro; e diviniza quem é Deus por si mesmo, não por participação. Quem justifica diviniza, porque justificando faz filhos de Deus. “Deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1,12). Se nos tornamos filhos de Deus, também nos tornamos deuses; mas pela graça da adoção, não por geração natural. Pois, o único Deus Filho de Deus e com o Pai um só Deus, nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo, no princípio era o Verbo e o Verbo junto de Deus, e o Verbo era Deus. Os demais, que se tornam deuses, é pela graça; não nascem de sua substância, de sorte a se tornarem iguais a ele, mas para que por benefício se aproximem dele, e sejam co-herdeiros de Cristo, porquanto tamanha é a caridade deste herdeiro que quis ter co-herdeiros. Qual o avaro que queira ter coherdeiros? Mas se houver algum, terá de dividir com eles a herança, ficando com menos aquele que divide do que se a possuísse sozinho. A herança, porém, da qual somos coherdeiros com Cristo, não diminui pelo número dos seus possuidores, nem fica menor pela quantidade dos co-herdeiros; mas é tão grande para muitos como para poucos, do mesmo tamanho para cada um quanto para todos. Observa o apóstolo João: “Vede que prova de amor nos deu o Pai: que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos”. E em seguida: “Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas o que nós seremos ainda não se manifestou”. Por conseguinte, nós o somos em esperança, ainda não na realidade. “Sabemos que por ocasião desta manifestação seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é” (1Jo 3,1.2). Ele é o único semelhante por nascimento; nós somos semelhantes, vendo-o. Não somos semelhantes como ele, que é um só com seu genitor; nós porém somos semelhantes, não iguais; ele como é igual, é também semelhante. Ouvimos quais são os que se tornaram deuses pela justificação, e são chamados filhos de Deus; e os deuses que não são deuses, para os quais aquele Deus dos deuses é temível. Pois, diz outro salmo: “É temível sobre todos os deuses” (Sl 95,4.5). E se perguntares: Quais? “Porque os deuses das nações são demônios”. Ele é terrível para os deuses das nações, os demônios; para os deuses que ele fez seus filhos, é amável. Entretanto, descubro que ambos confessam a majestade de Deus. Os demônios confessaram a Cristo, e os fiéis também o confessaram. Disse Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16). E os demônios: “Sabemos quem és: Tu és Filho de Deus” (cf Mc 5,7). Escuto igual confissão, mas descubro amor desigual; ou melhor, no primeiro vejo amor, e nos outros, temor. Os que amam a Cristo são filhos; os que o temem, não o são. Fez deuses daqueles que o amam. Convenceu de não serem deuses aqueles que o temem. Os primeiros tornam-se deuses, os outros são apenas tidos por tais. A verdade fez deuses, o erro produz apenas esta fama.

3 “Falou, portanto, o Senhor, Deus dos deuses”. Falou de muitas maneiras. Falou pelos anjos, falou pelos profetas, falou por própria boca, falou pelos apóstolos, fala por seus fiéis; por nós, apesar de nossa condição humilde, quando falamos a verdade, é ele quem fala. Vede-o, em verdade, a falar muitas vezes, de muitos modos, por muitos instrumentos, por muitos órgãos; é ele, contudo, que sempre fala, tocando, modificando, inspirando. Vede o que fez. Pois, “falou, e convocou a terra”. Que terra? Talvez a África? Digo isto, por causa daqueles que afirmam: A Igreja de Cristo é o partido de Donato. Efetivamente, ele não chamou somente a África, mas também não a excluiu. Aquele que “convocou a terra do oriente ao ocaso”, não deixou parte da terra que não chamasse e no seu chamado incluiu a África. Alegre-se, portanto, a África na unidade, mas não se orgulhe na divisão. Asseguramos com razão que a voz do Deus dos deuses chegou também à África, mas nela não parou. Pois, “convocou a terra do oriente ao ocaso”. Não há esconderijo para as insídias dos hereges, não existe sombra de falsidade onde se ocultem; nada se oculta a seu calor (cf Sl 18,7). Quem convocou a terra, chamou a terra inteira; quem a convocou, chamou-a em toda a extensão em que a criou. Por que me hão de surgir falsos cristos e falsos profetas? Por que razão se empenham em me apanhar por palavras capciosas, dizendo: “Olha o Messias aqui! ou ali!” (Mt 24,23)? Não o ouço a designar partes. O Deus dos deuses mostrou-me o todo. Ele redimiu o todo, ele que “convocou a terra do oriente ao ocaso”; condenou, todavia, as partes caluniadoras.

4 2Mas, ouvimos que a terra inteira foi convocada, do oriente ao ocidente. De onde começou o chamado de quem convoca? Escutai. “De Sião, imagem de sua beleza”. Certamente o salmo concorda com o evangelho: “A todas as nações, a começar por Jerusalém” (Lc 24,47). Escuta: “A todas as nações: Convocou a terra do oriente ao ocaso”. Escuta: “A começar por Jerusalém: De Sião, imagem de sua beleza”. Portanto: “Convocou a terra do oriente ao ocaso”, concorda com as palavras do Senhor: “O Cristo devia sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que, em seu nome, fosse proclamada a conversão para a remissão dos pecados a todas as nações”. Todas as nações se encontram entre o oriente e o ocaso. Concorda com as palavras do Senhor: “A começar por Jerusalém”, o seguinte: “De Sião, imagem de sua beleza”, começou a formosura de seu evangelho, e de lá começou a ser anunciado aquele que é muito belo, acima dos filhos dos homens (cf Sl 44,3). As realidades novas são consoantes às antigas, e as antigas às novas. Os dois serafins clamam um ao outro: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus dos exércitos” (Is 6,3). Os dois Testamentos são concordes, têm uma só voz. Que se ouça a voz uníssona dos Testamentos e não a dos deserdados detratores. Por conseguinte, assim agiu o Deus dos deuses: “Convocou a terra do oriente ao ocaso”, e de Sião procede a sua beleza. Lá se encontravam os discípulos, que receberam o Espírito Santo no quinquagésimo dia após a sua ressurreição, enviado por ele do céu (cf At 2,4). De lá provém o evangelho, de lá a pregação, de lá encheu-se toda a terra, pela graça da fé.

5 O Senhor, em sua vinda, como viera para sofrer, veio ocultamente. Sendo forte em si mesmo, apareceu fraco na carne. Era preciso que o vissem sem o entenderem, que fosse desprezado para ser morto. Sua condição gloriosa estava na divindade; mas escondia-se na carne. Se o tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória (cf 1Cor 2,8). Desta forma, portanto, entre os judeus, no meio dos inimigos, ele andava oculto, fazendo milagres, sofrendo males, até que fosse suspenso no madeiro. Os judeus, vendo-o crucificado ainda mais o desprezaram, e meneando a cabeça diante da cruz, diziam: “Se és Filho de Deus, desce da cruz” (Mt 27,38.39). Por conseguinte, o Deus dos deuses estava oculto, e emitia palavras mais adequadas aos nossos padecimentos do que a sua majestade. De onde provêm as palavras seguintes, a não ser da natureza que assumiu igual à nossa: “Deus, meu Deus, por que me desamparaste?” (Sl 21,2; Mt 27,46). Mas, quando foi que o Pai abandonou o Filho, ou o Filho ao Pai? Não são um só Deus, o Filho e o Pai? Não é inteiramente verdade a afirmação: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30)? De onde provém, então, a pergunta: “Deus, meu Deus, por que me desamparaste”, a não ser que na fraqueza da carne se mostrava a voz dos pecadores? Quem aceitou a semelhança da carne de pecado (cf Rm 8,3), por que não tomaria a semelhança da voz do pecado? De fato, estava escondido o Deus dos deuses quando andava no meio dos homens, quando tinha fome e sede, quando se assentou cansado, quando dormiu fatigado, quando foi preso, flagelado, compareceu diante do juiz e respondeu a seu orgulho: “Não terias poder algum sobre mim, se não te houvesse sido dado do alto” (Jo 19,11); e ainda ao ser conduzido como um cordeiro ao matadouro, como uma ovelha que permanece muda na presença dos tosquiadores (cf Is 53,7), esteve sempre oculto o Deus dos deuses. E o que aconteceu depois na ressurreição? Os discípulos se admiraram, e primeiro não acreditaram, até que o tocassem e apalpassem. A carne ressuscitara, porque ela havia morrido; a divindade que não podia morrer, ainda mesmo na carne do ressuscitado se escondia. Foi possível ver-se sua figura, segurar os membros, tocar as chagas. Quem vê o Verbo, pelo qual foram feitas todas as coisas? Quem o segura? Quem o toca? E, no entanto, “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). E Tomé entendia na medida que podia ser Deus aquele homem que ele segurava. Tendo tocado as chagas, exclamou: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28). O Senhor, no entanto, mostrava aquele aspecto, a mesma carne que se via na cruz, que fora depositada no sepulcro. Esteve com eles quarenta dias. Não apareceu aos ímpios judeus; mostrou-se aos que nele haviam acreditado antes que fosse crucificado, a fim de tornar fortes após a ressurreição aqueles que, crucificado, deixara titubeantes. Em seguida, no quadragésimo dia, recomendando sua Igreja, isto é, a que convocara da terra inteira, do oriente ao ocidente, para que não tivessem escusas os que querem perecer no cisma, subiu ao céu, ordenando-lhes: “Sereis, então, minhas testemunhas em Jerusalém” (de onde vem a “imagem de sua beleza), em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra”. Tendo dito isso, uma nuvem o ocultou a seus olhos. Os discípulos olhavam aquele que haviam conhecido; todavia, o conheceram na humildade, ainda não na glória. E enquanto ele se afastava para o céu, um anjo os admoestou: “Homens da Galileia, que estais aí a contemplar o céu? Esse Jesus, que vos foi arrebatado, virá do mesmo modo que para o céu o vistes partir” (At 1,3-12). Subiu, portanto; os discípulos voltaram cheios de alegria, permaneceram na cidade, segundo o preceito do Senhor, até que ficassem cheios do Espírito Santo. O que fora dito a Tomé, que tocava o Senhor? “Porque viste, creste. Felizes os que não viram e creram” (Jo 20,29). Refere-se a nós esta predição. Aquela terra convocada do oriente ao ocaso não vê, mas crê. Está oculto, por conseguinte, o Deus dos deuses para aqueles entre os quais andou, para os que o crucificaram, para aqueles que o viram ressuscitado, e para nós que acreditamos estar sentado no céu aquele que não vimos a andar na terra. E se o tivéssemos visto, não veríamos como viram os judeus que o crucificaram? É melhor não ver a Cristo e acreditar que é Deus do que vê-lo e pensar que é apenas homem. Os judeus, finalmente, opinando erroneamente o mataram, e nós acreditando, com razão, somos vivificados.

6 3Como será, então, irmãos? Aquele Deus dos deuses, outrora oculto e agora oculto, será sempre escondido? Certamente não; ouve a continuação do salmo: “Deus virá manifestamente”. Veio de maneira oculta, e virá manifestamente; veio escondido para ser julgado, virá manifestamente para julgar; veio oculto para comparecer diante do juiz, virá manifestamente a julgar também os juízes: “Virá manifestamente e não se calará”. Como? Agora se cala? E de onde vêm as palavras que proferimos? Donde os preceitos? Donde os avisos? Donde esta trombeta terrível? Não se cala e cala-se. Não silencia os avisos, cala a vingança; não omite o mandamento, mas abstém-se do juízo. Pois, suporta os pecadores que praticam o mal cotidianamente, descuidando-se de Deus, em sua consciência, no céu, na terra. A Deus nada disso escapa, e admoesta a todos universalmente. Se castiga a alguns na terra trata-se de um aviso, mas não ainda de uma condenação. Abstém-se de julgar, oculto no céu, onde ainda intercede por nós. É longânime para com os pecadores; não exerce a ira, mas espera a penitência. Em outra passagem, ele assim se exprime: “Guardei silêncio, mas sempre me calarei?” (Is 42,14). Quando não se calar mais, “Deus virá manifestamente”. Qual? “Nosso Deus”. O próprio Deus, que é nosso Deus. Não há outro Deus além de nosso Deus. Os deuses das nações são demônios. O Deus dos cristãos é o verdadeiro Deus. Ele virá, mas manifestamente, não mais para ser escarnecido, esbofeteado e flagelado; virá, mas manifestamente, não mais para que lhe batam os soldados com a cana na cabeça, seja crucificado, seja morto e sepultado. Essas coisas quis sofrer o Deus escondido. “Virá manifestamente e não se calará”.

7 Os versículos seguintes ensinam que ele virá a julgar. “Um fogo o precederá”. Vamos ter medo? Transformemo-nos e não teremos o que recear. A palha tem medo do fogo; mas, ao ouro que pode fazer? Agora, está em teu poder o que deves fazer, a fim de não experimentares a correção daquele que há de vir, mesmo contra tua vontade. Se pudéssemos impedir, irmãos, a chegada do dia do juízo, acho que nem assim devíamos viver mal. Se não houvesse o fogo do dia do juízo, se aos pecadores ameaçasse somente a separação da face de Deus, mesmo que estivessem numa afluência de delícias, o fato de não contemplarem o criador e de longe da suavidade inefável da visão de seu rosto, ainda que numa eternidade onde o pecado ficasse impune, seria lamentável. Mas, o que digo? E a quem? Isto é castigo para os que amam, não para os que desprezam. Aqueles que começaram a perceber um pouquinho a suavidade da sabedoria e da verdade, conhecem o que digo, quão grande pena consiste só em estar separado da face de Deus. Os que não provaram aquela suavidade, se ainda não desejam a face de Deus, ao menos temam o fogo; atemorizem os suplícios aqueles a quem os prêmios não estimulam. Se fazes pouco do que Deus te promete, treme diante de suas ameaças. Sentes a doçura de sua presença, e não mudas, não te animas, não suspiras, não desejas. Abraças teus pecados, os deleites carnais, ajuntas matéria para o fogo que virá. “Um fogo arderá a sua frente” (Sl 96,3). Este fogo não será como o de teu fogo. No entanto, se fores forçado a pôr a mão lá dentro, farás tudo o que quiser quem te ameaça disso. Se alguém te disser: Escreve contra teu pai, escreve contra teus filhos, pois se não o fizeres meto tua mão em teu fogão, tu o farás para não queimar a tua mão, para não arder por algum tempo teu membro, embora não seja dor que perdure. O inimigo te ameaça com mal tão leve, e praticas o mal; Deus te ameaça com um mal eterno, e não fazes o bem! Nem as ameaças deviam te obrigar a fazer o mal; nem as ameaças deviam te impedir de praticar o bem. Pois, as ameaças de Deus, as ameaças com o fogo eterno te proíbem fazer o mal, e te convidam ao bem. De onde vem que não te animas, senão porque não acreditas? Examine, portanto, cada um o seu coração, e verifique o grau de sua fé. Se cremos no juízo futuro, irmãos, vivamos bem. Agora é o tempo da misericórdia; depois, será o do juízo. Ninguém poderá dizer então: Transfere-me para os anos passados. Então, se arrependerá, mas inutilmente; arrependa-se agora, enquanto a penitência é frutuosa. Coloque-se agora à raiz da árvore um cesto de esterco, o luto do coração e das lágrimas, a fim de que não venha o agricultor e a arranque. Uma vez arrancada, o fogo a espera. Agora, embora os ramos estejam quebrados, podem de novo ser enxertados; então, toda árvore que não der bons frutos será arrancada, e lançada ao fogo (cf Lc 13,8; Mt 3,10). “Um fogo abrasador o precederá”.

8 “Ao seu redor, furiosa tempestade”. Tempestade tão furiosa varrerá a extensa eira. Desta tempestade virá o vento que há de separar dos santos todos os impuros, dos fiéis todos os fingidos, dos piedosos e tementes a palavra de Deus todos os desprezadores e soberbos. No presente existe certa mistura, desde o oriente até o ocidente. Vejamos, pois, como agirá aquele que há de vir, o que fará daquela tempestade, uma vez que “ao seu redor sopra furiosa tempestade”. Indubitavelmente esta tempestade ocasionará certa separação. Separação que não quiseram esperar os que antes de chegarem à praia, romperam as redes. Naquela separação, de fato, haverá certa distinção entre maus e bons. Existem alguns que agora seguem a Cristo, com os ombros livres, sem o peso dos cuidados mundanos e que não ouviram em vão: “Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois, vem e segue-me”. A eles foi dito: “Sentar-vos-eis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel” (Mt 19,21.28). Uns, pois, julgarão com o Senhor; outros, de fato, serão julgados, mas colocados à direita. Temos um testemunho muito claro de que alguns estarão julgando em companhia do Senhor, nas palavras que citei há pouco: “Sentar-vos-eis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel”.

9 Mas, replica alguém: Ali estarão sentados doze apóstolos, não mais. Onde, então, ficará o apóstolo Paulo? Porventura estará separado deles? Longe de nós afirmar isto, nem de longe pensemos em tal coisa. E se ele ocupar o lugar de Judas? Mas a Escritura divina conta quem foi colocado em substituição a Judas. Matias foi expressamente nomeado nos Atos dos Apóstolos, para que não pudéssemos duvidar a este respeito. Judas caiu, mas o número duodenário foi preenchido (cf At 1,26). Tendo os doze ocupado os doze tronos, o apóstolo Paulo não julgará? Será que vai julgar de pé? Não será assim; o Senhor que retribui com justiça não fará tal coisa: não estará a julgar de pé aquele que trabalhou mais do que todos (cf 1Cor 15,10). Certamente, ao menos este apóstolo Paulo nos obriga a pensar e perscrutar com maior cuidado qual a razão de se falar em doze tronos. Encontramos nas Escrituras outros números que significam multidão. Cinco virgens são admitidas e cinco excluídas (cf Mt 25,10.12). Pensa nas virgens, onde quer que se encontrem: seja na castidade e integridade do coração, como deve ser virgem toda a Igreja, à qual se diz: “Desposei-vos a um esposo único, a Cristo, a quem devo apresentar-vos como virgem pura” (2Cor 11,2); seja nas mulheres consagradas a Deus também pela integridade corporal; por acaso, são somente cinco tantos milhares? Mas, pelo número cinco figura-se a continência dos cinco sentidos corporais. Efetivamente, para muitos a corrupção veio pelos olhos, a muitos pelos ouvidos, a muitos pelo olfato ilícito, a muitos pelo gosto perverso, a muitos pelo adultério. Qualquer que domine estas cinco janelas da corrupção, e se contenha de sorte que tenha em sua consciência a glória, sem esperar o louvor dos homens, pertence ao número das cinco virgens prudentes, que trazem o óleo consigo. O que significa: ter o óleo consigo? Nossa glória é esta, o testemunho de nossa consciência (cf 2Cor 1,12). Disse também aquele que era atormentado nos infernos: “Tenho cinco irmãos” (cf Lc 16,28). Isso refere-se ao povo judaico, sujeito à Lei, porque Moisés, o legislador, escreveu cinco livros. Ainda o Senhor, após a ressurreição, ordenou aos apóstolos lançarem as redes à direita e apanharam cento e cinquenta e três peixes. E sendo em tão grande número, diz o evangelista, as redes não se romperam (Jo 21,6.11). Igualmente antes da paixão mandou que eles lançassem as redes, sem determinar se à direita ou à esquerda, porque se falasse em direita, representaria apenas os bons; se à esquerda, somente os maus. Quando se calam direita e esquerda, apanham-se misturados bons e maus. Foram apanhados então, conforme atesta a verdade do evangelho, em tão grande quantidade que as redes se rompiam (cf Lc 5,6). Aquela pesca representava o tempo presente; as redes rompidas figuravam as cisões e rupturas dos hereges e cismáticos. Os feitos do Senhor após a ressurreição significavam o que acontecerá depois da nossa ressurreição, no número daqueles que pertencerão ao reino dos céus, onde não haverá mau algum. O fato de serem lançadas as redes à direita era uma figura dos que estarão à direita, os bons, depois de afastados os da esquerda. Porventura os justos seriam apenas aqueles cento e cinquenta e três peixes, apanhados do lado direito? A Escritura se refere a milhares de milhares (cf Dn 7,10). Lede o Apocalipse. Conforme lá se refere, só do povo judaico serão talvez cento e quarenta e quatro mil (cf Ap 7,4). Considerai o grande número de mártires. Somente mais perto de nós, os denominados Massa Cândida1 , abrangem mais do que cento e cinquenta e três mártires. Enfim, superam de longe este número de peixes, aqueles sete mil mencionados na resposta dada a Elias: “Pouparei sete mil homens, que não dobraram os joelhos diante de Baal” (1Rs 19,18). Aqueles cento e cinquenta e três peixes não significam exatamente o número dos santos; mas a Escritura, com este número, quer representar o total dos santos e justos, por certo motivo, a fim de que todos entendam que os cento e cinquenta e três abrangem todos os que terão a ressurreição para a vida eterna. Efetivamente a lei tem dez preceitos. Lê-se que o Espírito da graça, pelo qual somente se pode cumprir a Lei, é septiforme (cf Jo 11,2-3). Vamos explicar o que significam os números dez e sete: dez são os preceitos, sete a graça do Espírito Santo; por esta graça cumprem-se os preceitos. Possuem o dez e o sete os que pertencem à ressurreição, à direita, ao reino dos céus, à vida eterna, a saber, os que cumprem a lei pela graça do Espírito, e não por suas obras ou por seus méritos. Quanto ao dez e ao sete, se contares de um até dezessete, acrescentando todos os números gradualmente, de forma que ao um acrescentes o dois, ajuntes o três, acrescentes o quatro, a soma dá dez; somando mais cinco, têm-se quinze, mais seis a soma será vinte e um, acrescentando sete têm-se vinte e oito, somando oito chega-se a trinta e seis, acrescentando nove, ficam quarenta e cinco, mais dez são cinquenta e cinco, mais onze chega-se a sessenta e seis, somando mais doze têm-se setenta e oito, mais treze chega-se a noventa e um, mais catorze são cento e cinco, mais quinze têm-se cento e vinte, acrescentando-se dezesseis temos cento e trinta e seis, somando mais dezessete completam-se os cento e cinquenta e três. Descobrirás que o imenso número dos santos relaciona-se com este número de poucos peixes. Assim como nas cinco virgens temos as inumeráveis virgens, como nos cinco irmãos daquele que era atormanetado nos infernos vemos os milhares do povo dos judeus, como no número de cento e cinquenta e três peixes os milhares e milhares de santos, assim nos doze tronos não há referência apenas a doze homens, mas é grande o número dos perfeitos.

10 Mas, vejo o que em consequência se nos pergunta: Como nos foi explicado: a razão de se falar em cinco virgens e de que as cinco se referem a muitas; porque aqueles cinco figuram muitos judeus; e ainda qual o motivo de cento e cinquenta e três representarem muitos perfeitos; mostra-nos por que e como os doze tronos não pertencem só a doze, mas a muitos. Qual o sentido dos doze tronos, que significariam todos os perfeitos vindos de todas as partes, comparáveis àqueles aos quais foi dito: “Sentar-vos-eis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel”? E por que todos, de toda parte, pertencem ao número doze? Porque dizemos: de toda a parte, referindo-nos a todo o mundo. O orbe da terra contém quatro partes: oriente, poente, sul e norte. Os que foram chamados de todas essas partes em nome da Trindade, perfeitos através da fé e dos preceitos da Trindade (uma vez que três vezes quatro são doze), dão a conhecer que pertencem a toda a terra os santos, que se sentarão sobre doze tronos a julgar as doze tribos de Israel. Doze tribos de Israel, porque Israel todo consta de doze tribos. Assim como os que hão de julgar vêm de todo o mundo, também os julgados provêm de todo o mundo. O Apóstolo Paulo, ao censurar os fiéis leigos, que não levavam à Igreja suas causas, mas faziam comparecer diante do tribunal civil aqueles com os quais tinham rixas, disse: “Não sabeis que julgaremos os anjos?” (1Cor 6,3). Vede como se declara juiz; e não somente ele, mas todos os que julgam segundo o direito na Igreja.

11 4Sendo, portanto, evidente que muitos hão de julgar com o Senhor, e outros hão de ser julgados, não de modo igual, mas segundo os próprios méritos e que o Senhor virá com seus anjos (cf Mt 25,31.32), quando diante dele se reunirem todas as gentes, também serão computados entre os anjos aqueles que forem tão perfeitos que, sentados em doze tronos, julgarão as doze tribos de Israel. Efetivamente, alguns homens receberam a denominação de anjos. O Apóstolo diz de si mesmo: “Recebestes-me como um anjo de Deus” (Gl 4,14). A respeito de João Batista foi dito: “Eis que envio o meu anjo a tua frente; ele preparará o teu caminho diante de ti” (Ml 3,1; Mt 11,10). Por conseguinte, quando vier com todos os anjos, terá consigo também os santos. Claramente o declara Isaías: “O Senhor entra em julgamento com os anciãos do seu povo” (Is 3,14). Estes anciaõs do povo, portanto, estes já denominados anjos, estes milhares de muitos perfeitos, vindos de toda a terra, chamam-se também céu. Os outros chamam-se terra, mas fértil. Por quê? Porque há de ser colocada à direita; são aqueles aos quais se dirá: “Tive fome e me destes de comer” (Mt 25,35). Na verdade, terra fértil, com a qual se alegra o Apóstolo, aquela que lhe enviou com que acudir às suas necessidades: “Não que eu busque presentes; o que busco é o fruto que se credite em vossa conta” (Fl 4,17). E agradece, dizendo: “Finalmente, vi reflorescer o vosso interesse por mim” (ib 10). “Reflorescer” é um termo que se diz das árvores, que estavam estéreis, quase secas. O Senhor quando vier para julgar (ouçamos, irmãos, o salmo), que há de fazer? “Para o alto ele convocará o céu”. Céus, todos os santos perfeitos que hão de julgar. O Senhor do alto os convocará, para seus assessores no julgamento das doze tribos de Israel. Como os chamará para cima, se os céus estão sempre nas alturas? Os que aqui denomina céu, em outras passagens chama de céus. Quais? Os que narram a glória de Deus: “Narram os céus a glória de Deus”; deles afirma o salmista: “Seu som repercutiu por toda a terra e em todo o orbe as suas palavras” (Sl 18,2.5). Vede o Senhor a discernir no julgamento: “Para o alto convocará o céu e a terra para discernir o seu povo”. De quem? Senão dos maus? Deles no salmo não se faz menção em seguida, porque já foram julgados e condenados ao castigo. Vê estes bons, e distingue. “Para o alto convocará o céu e a terra, para discernir o seu povo”. Chama também a terra, no entanto, não para ser misturada, mas separada. Primeiro chamou a todos, sem distinção, quando “falou o Senhor, Deus dos deuses, e convocou a terra do oriente ao ocaso”. Ainda não houvera separação. Aqueles servos que foram enviados a convidar para as núpcias, reuniram bons e maus (cf Mt 22,10). Quando, porém o Deus dos deuses “vier manifestamente, e não se calar”, então “convocará o céu” para cima, a fim de julgar com ele. Céu e céus se identificam, como terra e terras, Igreja e Igrejas. “Para o alto ele convocará o céu e a terra, para discernir o seu povo”. Com o céu ele discerne a terra, isto é, o céu com ele julga a terra. Como julga a terra? Coloca uns à direita e outros à esquerda. À terra já julgada, o que diz? “Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o reino preparado para vós desde a criação do mundo. Pois tive fome e me destes de comer”, etc. Então os justos responderão: “Quando foi que te vimos com fome?” Ao que lhes replicará: “Toda vez que o fizestes a um desses mais pequeninos, que são meus, a mim o fizestes” (Mt 25,34-40). O céu mostra à terra os seus pequeninos já chamados para o alto, e exaltados por causa de sua humildade: “Toda vez que o fizestes a um desses pequeninos, que são meus, a mim o fizestes. Para o alto convocará o céu e a terra, para discernir o seu povo”.

12 5“Reuni junto dele os seus justos”. Palavra divina e profética, que prêve o futuro como presente, e exorta os anjos a congregarem. Pois, o Senhor enviará os seus anjos, e diante dele se reunirão todas as gentes (cf Mt 25,52). “Reuni junto dele os seus justos”. Quais, senão os que vivem da fé, praticando obras de misercórdia? De fato, aquelas obras são obras de justiça, conforme o evangelho: “Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens para serdes vistos por eles” (Mt 6,1.2). Responde, como se alguém perguntasse: Que justiça? “Quando deres uma esmola”. Indicou, portanto, que as esmolas são obras de justiça. Reuni os seus próprios justos; reuni os compadecidos do indigente, que entenderam o necessitado e o pobre (cf Sl 40,2.3). Reuni-os. O Senhor os conservará e vivificará. “Reuni junto dele os seus justos, os que colocam a aliança acima dos sacrifícios”, quer dizer, que julgam suas promessas acima das obras que praticam. Pois, estas constituem sacrifícios, segundo a palavra de Deus: “É a misericórdia que eu quero mais que o sacrifício” (Os 6,6; Mt 9,13). “Os que colocam a aliança acima dos sacrifícios”.

13 6“E os céus proclamarão a sua justiça”. Verdadeiramente os céus nos anunciaram esta justiça de Deus e os evangelistas as predisseram. Ouvimos deles que o pai de família há de declarar aos da direita: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei”. O quê? “O reino”. Qual a razão disso? “Tive fome e me destes de comer”. Que há de mais banal, de terreno do que partir o pão com o faminto? É tanto que vale o reino dos céus. “Reparte o teu pão com o faminto e recolhe em tua casa os pobres desabrigados; veste aquele que vês nu” (Is 58,7). Se não tens possibilidade de repartir o pão, nem casa para abrigar, nem veste para revestir, dá um copo de água fria, lança duas moedinhas no tesouro (cf Mt 10,42; Mc 12,41). A viúva com duas moedinhas comprou tanto quanto Pedro, ao deixar as redes, quanto adquiriu Zaqueu dando metade de seus bens (cf Mt 4,20; Lc 19,8). O reino vale tanto quanto tiveres. “E os céus proclamarão a sua justiça, porque é o próprio Deus quem vai julgar”. Efetivamente, ele é juiz, que não mistura, mas distingue. O Senhor conhece os que são dele (cf 2Tm 2,19). São conhecidos pelo agricultor os grãos, mesmo se escondidos no meio da palha. Ninguém tenha receios de ser um grão no meio da palha; os olhos de nosso agricultor, ao limpar a eira, não se enganam. Não temas que a tempestade que o envolverá te confunda com a palha. Certamente, será furiosa a tempestade; no entanto, nenhum grão há de retirar com a palha, pois o juiz não é um camponês com o tridente, mas Deus, a Santíssima Trindade. “E os céus proclamarão sua justiça, porque é o próprio Deus quem vai julgar”. Partam os céus, anunciem, ressoe sua voz por toda a terra, e suas palavras até os confins do orbe (cf Sl 18,5), e diga o corpo de Cristo: “Dos confins da terra clamei a ti, quando o meu coração se angustiava” (Sl 60,13). Agora misturado geme, quando for separado há de se alegrar. Clame, portanto, e diga: “Não arruínes com os ímpios a minha alma. Nem a minha vida com os homens sanguinários” (Sl 25,9). Não arruína, porque Deus é juiz. Clame para ele, e peça: “Julga-me, ó Deus, e distingue da causa de uma gente ímpia a minha causa” (Sl 42,1). Peça que ele atenderá; reunirá junto de si os seus justos. Convocou a terra, para julgar o seu povo.

14 7“Escuta, povo meu, que vou te falar”. Aquele que há de vir e não se calará, vede que também agora, se ouvis, não se calará. “Escuta, povo meu, que vou te falar”. Se não escutas, não te falarei. “Escuta e te falarei”. Pois se não ouves, mesmo que eu fale, não será para ti. Quando, portanto, vou falar-te? Se ouvires. Quando ouves? Se és meu povo. “Escuta, pois, povo meu”. Não ouves, se és um povo estrangeiro. “Escuta, povo meu, que vou te falar. Israel, vou testificar contra ti”. Israel, escuta; povo meu, escuta. Israel é o nome dado por ocasião de sua eleição a Jacó. Disse Deus: “Não te chamarás mais Jacó, mas Israel” (Gn 32,28). Escuta, portanto, enquanto Israel, como aquele que vê a Deus, apesar se ser somente na fé, não ainda na realidade. Este é o significado do nome Israel: Aquele que vê a Deus. Quem tem ouvidos, ouça (cf Mt 11,15), e quem tem olhos para ver, veja. “Escuta, Israel, vou testificar contra ti”. Acima disse: “povo meu”, e em seguida: “Israel”. E declarou supra: “vou te falar” enquanto afirma aqui: “vou testificar contra ti”. A seu povo o que há de falar o Senhor nosso Deus? O que vai testificar contra Israel, que é dele? Ouçamos: “Deus, o teu Deus sou eu”. Eu sou Deus, e sou o teu Deus. Como “sou eu o teu Deus”? Conforme foi assegurado a Moisés: “Eu sou aquele que é” (Êx 3,14). Como “sou eu o teu Deus”? Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó. Sou Deus e sou o teu Deus; e se não fosse teu Deus, sou Deus. Sou Deus para meu bem, para teu infortúnio não sou o teu Deus. De fato, “teu Deus” propriamente refere-se a quem Deus tem por familiar, a seu serviço, como propriedade sua. “Deus, o teu Deus sou eu”. Que desejas mais? Ambicionas receber de Deus um prêmio, que Deus te conceda alguma coisa, de forma que seja teu o que ele te der? Eis que é teu o próprio Deus, o doador. Que pode haver de mais rico do que ele? Querias seus dons e tens o próprio doador. “Deus, o teu Deus sou eu”.

15 8Vejamos o que ele quer do homem. Nosso Deus, nosso imperador, nosso rei que imposto exige, uma vez que quis ser nosso rei e que fôssemos seu domínio? Ouçamos suas exigências. Não hesite o pobre diante das exigências de Deus. Ele dá o que exige e dá primeiro o que indica. Basta que sejais dedicados. Deus não exige aquilo que ele não deu, e é a todos que dá. Que é que exige? Ouçamos: “Não te repreendo por teus sacrifícios”. Não direi: Por que não me mataste o touro cevado? Por que não escolheste de teu rebanho o melhor cabrito? Por que aquele carneiro entre as tuas ovelhas, que não pões sobre o meu altar? Não direi: Examina teus campos e teu curral, teus muros, à busca do que me oferecer. “Não te reprendo por teus sacrifícios”. Como, então? Não aceitas os meus sacrifícios? “Na minha presença estão sempre os teus holocaustos”. Outro salmo se refere a tais holocaustos: “Pois, se quisesses um sacrifício, de certo eu o ofereceria. Não te comprazes em holocaustos”. E novamente volta-se para si: “Sacrifício a Deus é o espírito contrito, o coração arrependido e humilhado Deus não despreza”. Quais são os holocaustos que ele não despreza? Quais os que estão sempre em sua presença? “Senhor, em tua bondade, derrama sobre Sião teus benefícios; reedifica os muros de Jerusalém. Aceitarás então os sacrifícios de justiça, as oblações e os holocaustos” (Sl 50,18-21). Diz o salmista que Deus aceita determinados holocaustos. O que é, porém, um holocausto? Um sacrifício em que a vítima é toda consumida pelo fogo; katois é o ato de queimar, olav é: todo; holocausto, portanto, significa totalmente consumido pelo fogo. Existe o fogo da caridade muito ardente. Que a alma se inflame de caridade, e ela arrebatará os membros de seu uso ordinário e não permitirá que satisfaçam às concupiscências, de tal sorte que arda inteiramente no fogo do amor divino aquele que quer oferecer a Deus um holocausto. “Tais holocaustos teus estão sempre na minha presença”.

16 9Provavelmente este Israel ainda não entende quais holocaustos ele tem sempre em sua presença e cogita de bois, ovelhas, cabritos. Não penses nisso: “Não tomarei de tua casa novilhos”. Eu nomeara holocaustos; já corrias de ânimo e pensamento aos rebanhos terrenos, e do meio deles escolhias um animal cevado. “Não tomarei de tua casa novilhos”. Anuncia o Novo Testamento, onde cessaram todos aqueles antigos sacrifícios, que prenunciavam um sacrifício futuro, cujo sangue nos purificaria. “Não tomarei de tua casa novilhos, nem cabritos de teus rebanhos”.

17 10“A mim pertencem todas as feras da selva”. Por que hei de te pedir aquilo que eu mesmo criei? Os bens que te dei para possuíres, seriam mais teus do que meus, se os criei? “A mim pertencem todas as feras da selva”. É possível que replique Israel: As feras são de Deus, aqueles animais ferozes que não guardo no meu curral, que não prendo em minha estrebaria; quanto aos bois, ovelhas e cabritos, são meus. “Os animais dos montes e os bois”. São meus os animais que não possuis, são meus os que tens. Se és meu servo, todo o teu pecúlio é meu. Se é pecúlio do Senhor o que o escravo adquiriu para si, não o seria aquilo que o Senhor criou para o escravo? São, portanto, minhas as feras da floresta que tu não apanhaste; e são meus os animais nos montes que são teus, e os bois de tua manjedoura. Tudo é meu, porque fui eu quem o criou.

18 11“Conheço todos os pássaros do céu”. De que modo os conhece? Pesou-os, contou-os. Quem de nós conhece todos os pássaros do céu? Mesmo que Deus desse a alguém o conhecimento de todas as aves do céu, não lhe daria a conhecer da mesma forma que ele as conhece. Uma coisa é o conhecimento que Deus tem, e outra o do homem. Igualmente, difere o modo de Deus possuir e o do homem; isto é, uma coisa é quando Deus possui, e outra quando se trata de um homem. Não tens totalmente em teu poder as tuas posses. Não está em teu poder quanto tempo há de viver o teu boi, ou que não morra, ou que não se apascente. Aquele que tem o poder supremo possui também sumo e secreto conhecimento. Atribuamo-lo a Deus, com louvores. Não ousemos dizer: Como é que Deus conhece? Não aconteça, meus irmãos, que estejais na expectativa de que vos explique como é que Deus conhece. Digo apenas isto: Ele não conhece como o homem, nem como o anjo; mas não ouso dizer como conhece, porque também não o posso saber. Sei apenas uma coisa: Antes que existissem as aves do céu, Deus já sabia o que haveria de criar. Como era este conhecimento? Ó homem, começaste a ver as aves depois que foste plasmado e recebeste o sentido da vista. As aves nasceram da água, pela palavra de Deus: “As águas produzam as aves” (cf Gn 1,20). Como conhecia Deus as aves que ele mandava as águas produzirem? Certamente já conhecia o que criara, e antes mesmo de criar. Tão grande é o conhecimento de Deus que no seu intelecto existiam as criaturas de modo inefável antes de serem criadas. Então haverá de receber de ti o que possuía antes de ser criado? “Conheço todos os pássaros do céu”, que não me podes dar. Conheci todos os seres que me haverias de imolar. Não os conheci por ter feito, mas por que haveria de fazer. “E a beleza dos campos está comigo”. A beleza dos campos, a fertilidade do que brota da terra, “está comigo”, diz o Senhor. Como está com ele? Porventura antes de ser feita? Com ele, de fato, estavam todas as coisas futuras, e com ele estão todas as passadas. As futuras estão, sem que lhe sejam tiradas as passadas. Com ele estão todas, por certo conhecimento da inefável sabedoria de Deus, estabelecida no Verbo, que é o própio Verbo. Ou estará com ele de outro modo a beleza do campo, porque Deus está em toda a parte, ele que disse: “Não sou eu que encho o céu e a terra?” (Jr 23,24). Pode alguma coisa não estar com aquele de quem se diz: “Se subir até o céu, lá estás, se descer aos abismos está presente” (Sl 138,8)? Todas as coisas se acham com ele. Mas, não se acham com ele, porque precisa do contacto de uma criatura, ou sofre necessidade dela. Pois, talvez estejas de pé junto de uma coluna e quando te sentes cansado, apoias-te nela. Precisas daquilo que está perto de ti, mas Deus não necessita do campo que está perto dele. O campo está com ele, a beleza da terra está com ele, a formosura do céu está com ele, todas as aves estão com ele, porque ele está em toda parte. E por que todas as coisas estão junto dele? Porque antes que fossem, que fossem criadas, todas elas lhe eram conhecidas.

19 12Quem pode explicar, expor a afirmação de outro salmo: “Não precisas de meus bens” (Sl 15,2)? Deus aqui declara que não necessita de nós. “Se eu tivesse fome, não iria dizer-te”. O guarda de Israel não passará fome, nem sede, nem trabalhos, nem dormirá (cf Sl 120,4). Mas falo segundo teu senso carnal; pois sentes fome quando não comes, e pensas talvez que Deus tem fome e come. Mesmo que tivesse fome, não iria dizer-te; tudo está diante dele, e tiraria de onde quisesse o que lhe fosse necessário. Isto, para que se convença quem tiver uma noção mesquinha, e não que Deus tenha confessado ter fome. Embora, por nossa causa, o Deus dos deuses se dignou ter fome. Veio à terra para ter fome e alimentar, veio ter sede e dar de beber, veio revestir-se de nossa mortalidade e revestir da imortalidade, veio pobre para enriquecer a muitos. Efetivamente não perdeu suas riquezas ao assumir nossa pobreza, porque nele se encontram escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência (cf Cl 2,3). “Se eu tivesse fome, não iria dizer-te, porque minha é a terra e quanto nela se encerra”. Não te empenhas por obter o que me hás de dar, porque sem trabalho consigo o que quero.

20 13Por que, então, ficas cogitando de teus rebanhos? “Irei comer, acaso, carnes de touros, ou beber sangue dos cabritos?” Ouvistes o que não nos pede aquele que reclama de nós não sei bem o quê. Se pensáveis em tais coisas, afastai vosso pensamento disso. Nada disso deveis pensar em oferecer a Deus. Se tens um touro cevado, mata-o para os pobres. Comam eles as carnes dos touros, mesmo se não beberem o sangue dos cabritos. Se o fizeres, levará em conta a teu favor aquele que disse: “Se eu tivesse fome, não iria dizer-te”, e haverá de te declarar: “Tive fome e me deste de comer” (Mt 25,35). “Irei comer, porventura, carnes de touros, ou beber sangue de cabritos?”

21 14Por conseguinte, formula esta pergunta: Senhor, nosso Deus, o que exiges de teu povo, de Israel que é teu? “Oferece a Deus um sacrifício de louvor”. Digamos-lhe também nós: “Em mim, ó Deus, estão os votos de louvor, que cumprirei” (Sl 55,12). Estava assustado por recear que reclamasses alguma coisa de exterior, que eu contasse haver no meu curral, mas talvez já tivesse sido roubado por um ladrão. Que exiges de mim? “Oferece a Deus um sacrifício de louvor”. Volto-me para mim mesmo, procurando encontrar matéria para o sacrifício; volto-me para mim mesmo para encontrar o sacrifício de louvor. Seja minha consciência o teu altar. “Oferece a Deus um sacrifício de louvor”. Estamos tranquilos. Não é preciso ir à Árabia buscar incenso, não examinamos os fardos de um comerciante avaro. Deus nos pede um sacrifício de louvor. Zaqueu tinha este sacrifício de louvor em seu patrimônio, a viúva em sua bolsinha, não sei qual pobre hospedeiro em sua almotolia; outro nada possuía nem em patrimônio, nem em bolsinha, nem em almotolia, mas guardava todas as suas posses em sua alma. Salvação para a casa de Zaqueu; e a viúva deu mais do que aqueles ricos. Alguém que dá um copo de água fria, não perde sua recompensa. Mas também paz na terra aos homens de boa vontade (cf Lc 19,8; Mc 12,42; Mt 10,42; Lc 2,14). “Oferece a Deus um sacrifício de louvor”. Oh sacrifício gratuito, dom da graça! De fato, não comprei o que oferecer; tu o deste, pois eu não tinha nem isso. “Oferece a Deus um sacrifício de louvor”. E esta é a imolação de um sacrifício de louvor: dar graças ao Senhor de quem recebes tudo o que tens de bom, e cuja misericórdia perdoa tudo o que há de mal em ti. “Oferece a Deus um sacrifício de louvor, e cumpre os teus votos ao Altíssimo”. O Senhor se compraz neste bom odor. “Cumpre os teus votos ao Altíssimo”. 1 Cf Serm. 306,2; serm. p. Maur. repert. Morin XIV, p. 644ss.

22 15“E invoca-me nos dias de tribulação. Eu te livrarei e tu me glorificarás”. Não presumas de tuas forças. Todos os teus auxílios são enganosos. “E invoca-me nos dias de tribulação. Eu te livrarei e tu me glorificarás”. Foi para isso que permiti viessem os dias de tribulação. Talvez não me invocasses se não estivesses aflito. Mas, ao te afligires, tu me invocas. Ao invocares, eu te livrarei. Libertado, tu me glorificarás e não te apartarás mais de mim. Certo homem entibiara-se e esfriara o fervor de sua oração; disse então: “Encontrei a tribulação e a dor e invoquei o nome do Senhor” (Sl 114,3.4). Encontrou a tribulação como sendo algo de útil. Estava infeccionado devido a seus pecados, perdera os sentidos. Veio a tribulação, qual cauterização e amputação. Diz o salmista: “Encontrei a tribulação e a dor e invoquei o nome do Senhor”. Em verdade, irmãos, existem tribulações que todos experimentam. São superabundantes no gênero humano: alguém se queixa de um prejuízo; outro chora devido a um luto; outro entristece-se no exílio e suspira pela volta à pátria, considerando intolerável viver como peregrino; outro teve a vinha atingida por granizo, considera seus esforços e como se inutilizou todo o seu trabalho. Quando pode o homem evitar a tristeza? Vem a sofrer de um amigo transformado em inimigo. Que miséria maior existe no gênero humano? Todos se lamentam, se queixam. São tribulações todas elas, e nelas envolvidos os homens invocam o Senhor, com razão. Invoquem a Deus. Ele pode ensinar a suportar, ou remediar o mal tolerado. Ele sabe não nos deixar tentação acima de nossas forças (cf 1Cor 10,13). Invoquemos a Deus também nestas tribulações. Mas estas tribulações vêm ao nosso encontro, conforme está escrito em outro salmo: Deus é nosso “auxílio nas tribulações que nos cercaram em demasia” (Sl 45,2). Mas, existe outra que nós devemos encontrar. Encontrem-nos aquelas tribulações; mas existe uma que devemos procurar e encontrar. Qual é? A felicidade neste mundo, a afluência dos bens temporais. Em si não são tribulações; são alívios em nossa tribulação. De qual? A da nossa peregrinação. Pelo fato mesmo de ainda não estarmos com Deus, de vivermos no meio de tentações e incomodidades, de não estarmos isentos de temor, sofremos tribulação. Não temos a segurança que nos foi prometida. Quem não descobrir esta tribulação inerente a sua peregrinação, não cogita de voltar à pátria. Isto é tribulação, irmãos. Certamente agora praticamos boas obras, ao partirmos o pão com o faminto, abrigarmos em casa o peregrino, etc.; isto igualmente é tribulação. Encontramos infelizes e exercemos a misericórdia para com eles; a miséria destes infelizes nos faz compadecidos. Como não estarias em melhores condições lá onde não encontrarás faminto a alimentar, peregrino a acolher, nu a vestir, doente a visitar, adversário a apaziguar! Ali tudo é excelente, verdadeiro, santo, eterno. Ali nosso pão é a justiça, nossa bebida a sabedoria, nossa veste a imortalidade, nossa eterna morada os céus, nossa firmeza a imortalidade. Por acaso ali se introduz a doença? O cansaço conduz ao sono? Não há absolutamente morte, nem contendas. Ali há paz, repouso, alegria, justiça. Não penetra inimigo algum, nenhum amigo abandona. Que repouso! Se ponderarmos, se notarmos onde nos encontramos e onde aquele que não mente prometeu que haveríamos de estar, só o fato da promessa nos mostra a tribulação em que nos achamos. Só encontra esta tribulação quem a procura. Estás são. Vê se és infeliz, porque é mais fácil a quem adoecer perceber que é infeliz. Quando estás com saúde, examina se és infeliz, porque ainda não estás junto de Deus. “Encontrei a tribulação e a dor e invoquei o nome do Senhor” (Sl 114,3). “Oferece a Deus um sacrifício de louvor”. Louva o Senhor que promete, louva o que chama, que exorta, que ajuda; e entende em que tribulação te encontras. Invoca e serás libertado, glorificarás, permanecerá

23 16Ve a continuação, meus irmãos. Como Deus havia dito: “Oferece a Deus um sacrifício de louvor”, e o ordenara qual tributo, alguém refletiu e declarou: Cada dia vou levantar-me, dirigirme à igreja, cantar um hino matutino, outro vespertino, um terceiro e um quarto em minha casa. Assim diariamente ofereço um sacrifício de louvor, e imolo uma vítima a meu Deus. Fazes bem, na verdade, se assim ages; mas examina se já te sentes seguro por agir assim; talvez tua língua bendiz a Deus, e tua vida o maldiz. Ó meu povo, o Deus dos deuses que falou, convocando a terra do oriente ao ocaso, dirige-se a ti, apesar de ainda estares no meio do joio, com as palavras: “Oferece um sacrifício de louvor” a teu Deus, e “cumpre os teus votos”; cuidado, porém, de não viveres mal, enquanto cantas bem. E por que isto? “Ao pecador”, porém, “Deus diz: Por que enumeras as minhas justiças e tens na boca a minha aliança?” Vede, irmãos, com que tremor proferimos estas palavras. Temos na boca a aliança de Deus, e vos pregamos a doutrina e as justiças de Deus. E o que diz Deus ao pecador? “Por que tu?” Proíbe, então, que os pecadores sejam pregadores? E o que fazer da palavra: “Fazei tudo quanto vos disserem. Mas não imiteis as suas ações” (Mt 23,3)? E a outra palavra: “Com segundas intenções ou sinceramente — Cristo é proclamado” (Fl 1,18)? Mas, se estas palavras foram proferidas, não tenham medo os ouvintes de quem quer que seja, de que se sintam seguros os que falam o que é bom e praticam o mal. Por conseguinte, irmãos, ficai tranquilos; se ouvis coisas boas, é a Deus que ouvis, seja de quem for que ouvis. Deus, porém, não quis deixar sem correção os pregadores, para que não se sintam seguros apenas pelo que dizem, e cochilem numa vida malvada, dizendo a si mesmos: Deus não há de condenar, ele que quis proferíssemos tantas palavras boas diante de seu povo. Muito ao contrário. Ouve o que estás dizendo, quem quer que sejas, e se queres ser ouvido, primeiro escuta. E repete o que diz alguém em outro salmo: “Ouvirei o que falar em mim o Senhor Deus, porque falará de paz a seu povo” (Sl 84,9). Quem sou eu que não ouço o que o Senhor me fala e quero que os outros escutem o que é proferido por meu intermédio? Que eu ouça primeiro, ouça, principalmente ouça o que falar em mim o Senhor Deus, porque falará de paz a seu povo. Ouça, e castigue o meu corpo e o reduza à servidão, a fim de que não aconteça que, tendo proclamado a mensagem aos outros, venha eu mesmo a ser reprovado (cf 1Cor 9,27). “Por que enumeras as minhas justiças?” Por que enumeras o que não te aproveita? O Senhor admoesta a ouvir, não para que pares de pregar, mas para que comeces a obedecer. Tu, porém, “tens na boca a minha aliança”. Para quê?

24 17“Pois, tu detestas a disciplina”. Detestas a disciplina. Quando eu poupo, cantas e louvas; quando castigo, murmuras. Parece que sou o teu Deus quando poupo, e não sou quando castigo. Arguo e castigo aqueles que amo (cf Ap 3,19). “Pois, tu detestas a disciplina e atiraste para trás as minhas palavras”. Atiras para trás o que dizes por tua boca. “Atiraste para trás as minhas palavras”, onde não vês, mas elas te oneram. “E atiraste para trás as minhas palavras”.

25 18“Se vias ladrão, corrias com ele e aos adúlteros te associavas”. Não digas: Não roubei, não cometi adultério. Mas, se te agrada quem o cometeu? Não colaboraste por tua aprovação? Não te associaste a ele, elogiando-o? Correr com um ladrão e associar-se aos adúlteros é isso, irmãos. Mesmo que não cometas, se louvas aquele que o comete, apoias o fato. Porque o pecador se gloria nos desejos de sua alma e o iníquo se bendiz (Sl 9,24). Não praticas o mal, mas louvas quem o faz. Seria isto um mal insignificante? “E aos adúlteros te associavas”.

26 19“De tua boca transbordou a malícia e tua língua abraçou o dolo”. O salmista, irmãos, refere-se à malevolência e ao dolo de certos homens que por adulação, apesar de saberem que é mal o que escutam, a fim de não ofenderem os outros ouvintes consentem, não somente por não censurarem, mas também por calarem. Não basta não dizerem: Fizeste mal. Mas afirmam: Fizeste bem, embora saibam que é mal. De sua boca transborda a malícia e sua língua trama enganos. O dolo consiste em uma espécie de fraude nas palavras: dizer uma coisa e pensar outra. O salmista não diz: Tua língua admitiu o dolo, ou: perpetrou o dolo, mas para mostrar que houve certo deleite no próprio ato mau, disse: “abraçou”. Não foi bastante o ato, mas acrescentas o deleite: louvas no momento e ris por dentro. Precipitas no abismo aquele que incautamente manifesta seus vícios, sem saber que é um mal. Tu que sabes que é um vício, não dizes: Onde te jogas? Se o visses andando sem cuidados na escuridão, num lugar onde sabes que existe um poço e calasses, que espécie de gente tu serias? Não serias tido por seu inimigo? E no entanto se caísse no poço, morreria o corpo, não a alma. Ele se precipita em seus vícios, gaba-se junto de ti de seus malvados atos; tu sabes que são pecados, e elogias, rindo por dentro. Oh! Se um dia Deus converter aquele de quem zombas, e que não quiseste corrigir, e ele te disser: Corem de vergonha os que me dizem: Bem feito, bem feito! (cf Sl 39,16). “E tua língua abraçou o dolo”.

27 20“Tu te assentavas para falar contra teu irmão”. “Assentava” relaciona-se com o que foi dito acima: “abraçou”. Quem pratica de pé, ou de passagem, não o faz com prazer; quem, porém, se assenta, procura um lazer para praticar melhor! “Tu te assentavas para falar contra teu irmão”. Praticavas com cuidado a detração, estando sentado; querias ocupar-te com ela, abraçavas o mal, osculavas o dolo. “Tu te assentavas para falar contra teu irmão, e para pôr um tropeço ao filho de tua mãe”. Quem é “o filho de tua mãe”? Não é teu irmão? Quis, portanto, repetir o que dissera acima: “teu irmão”. Ou insinuou alguma distinção para procurarmos entender? Efetivamente, irmãos, acho que devemos distinguir. Um irmão fala contra outro irmão. Por exemplo: Alguém que parece seguro, de alguma projeção, instruído, douto, fala mal de um irmão, que talvez seja bom mestre e de vida honesta. Quem o ouve é fraco, e fica escandalizado com a detração. De fato, quando um homem que parece importante e douto fala mal dos bons, escandalizam-se os fracos, que não sabem julgar. Um desses fracos é denominado “filho de sua mãe”, não de seu pai, porque ainda necessita de leite, ainda mama. Ainda é carregado no colo da Igreja, sua mãe, pois não pode tomar alimento sólido à mesa de seu pai, mas se nutre do leite materno; é incapaz de julgar, por ser apenas animal e carnal. “O homem espiritual julga a respeito de tudo; o homem carnal, porém, não aceita o que vem do espírito de Deus. É loucura para ele”. A esses tais diz o Apóstolo: “Não vos pude falar como a homens espirituais, mas tão-somente como a homens carnais, como a crianças em Cristo. Deivos a beber leite, não alimento sólido, pois não o podíeis suportar. Mas nem mesmo agora podeis. Fui mãe para vós, conforme está dito em outra passagem: Fizemo-nos pequenos no meio de vós, como mãe que acaricia os seus filhinhos” (1Cor 2,15.14; 3,1.2; 1Ts 2,7). Não foi qual ama a alimentar filhos alheios, e sim mãe que nutre os próprios filhos. Existem mães que entregam a amas os filhos que deram à luz; as que os geraram não acariciam seus filhos, porque os entregam a amas que os nutram. As amas acariciam os filhos de outras mães, que não são seus. Paulo, porém, gerara e acariciava. Não entregava os filhos a nutrícios. Pois, havia dito: “Meus filhos, por quem sofro de novo as dores do parto, até que Cristo seja formado em vós” (Gl 4,19). Acariciava, portanto, e aleitava. Havia, contudo, alguns, que pareciam doutos e espirituais, que falavam contra Paulo: “Pois as cartas, dizem, são severas e enérgicas, mas, uma vez presente, é um homem fraco e a sua linguagem é desprezível” (2Cor 10,10). É ele mesmo que em sua carta conta terem dito isto alguns detratores, a seu respeito. Assentavam-se, e falavam contra seu irmão e punham tropeço diante do filho de sua mãe. Por conseguinte, eles fizeram com que sua mãe de novo tivesse de dar à luz. “Para pôr tropeço ao filho de tua mãe”.

28 21“Fizeste isto e calei”. Por isso, o Senhor nosso Deus virá e não calará. Agora, porém: “Fizeste isto e calei”. O que significa: “Calei”? Retive a vingança, adiei minha severidade, prolonguei em teu favor a minha paciência, esperei longamente por tua penitência1 . “Fizeste isto e calei”. Se eu esperei que te arrependesses, conforme diz o Apóstolo: “Ora, com tua obstinação e com teu coração impenitente, estás acumulando ira para o dia da ira e da revelação da justa sentença de Deus” (Rm 2,5). “Suspeitaste, devido a tua iniquidade que sou semelhante a ti”. Não te basta agradarem-te os teus maus atos, e por cima ainda julgas que me aprazem. Não me suportas enquanto Deus vingador, e queres ter-me por partícipe, juiz corrupto e sócio dos teus despojos. “Suspeitaste, devido a tua iniquidade, que sou semelhante a ti”, e no entanto não queres ser semelhante a mim. “Portanto, deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito. Ele faz nascer o seu sol igualmente sobre bons e maus” (Mt 5,48.45). Não quiseste imitar aquele que dá bens até aos maus, de tal modo que, ao invés sentado falas mal até contra os bons. “Suspeitaste, devido a tua iniquidade, que sou semelhante a ti. Censurar-te-ei”. Quando vier “manifestamente Deus, nosso Deus, e não se calar, censurar-te-ei”. E o que te farei ao te censurar? O que hei de fazer? Agora não vês; farei com que vejas a ti mesmo. Se te vires, e o resultado te desagradar, haverás de me agradar. Mas, como, ao contrário, não te vias e te comprazias em ti mesmo, desagradarás a mim e a ti. A mim, ao julgar. A ti, ao arderes no fogo. O que te hei de fazer? “Manifestarei a ti mesmo diante de teus olhos”. Por que motivo queres esconder-te de ti mesmo? Puseste a ti mesmo nas costas, e não te vês. Farei com que vejas. Porei diante de teu olhos o que puseste às costas. Verás tua fealdade, não mais para te corrigires, mas para te envergonhares. Uma vez que Deus assim fala, irmãos, deve desesperar aquele ao qual ele se dirigiu? Porventura aquela cidade, da qual se disse: “Ainda três dias, e Nínive será destruída”, não foi capaz de converter-se, orar, chorar, merecer perdão do castigo iminente, em três dias? (Jo 2,4-10). Ouçam os que são tão culpados, enquanto é possível ouvir do Deus que se cala. Pois, ele virá, e não calará, e arguirá, quando não houver mais possibilidade de correção. “Manifestarei a ti mesmo diante de teus olhos”, diz o Senhor. Agora, pois, faze tu, que és dos tais, o que Deus ameaça te fazer. Tira-te das costas, onde não queres te ver, dissimulando tuas ações, e coloca-te diante de ti mesmo. Comparece ao tribunal de tua mente, sê teu próprio juiz, sente o tormento do temor, prorrompa a confissão e declara a teu Deus: “Reconheço a minha iniquidade e o meu pecado está sempre diante de mim” (Sl 50,5). Esteja diante de ti o que estava atrás, a fim de não suceder depois que venhas a tua frente, perante Deus, como juiz, e não encontras meios de fugir.

29 22“Compreendei isto, vós que esqueceis a Deus”. Vede que ele clama; não cala, não poupa. Havias te esquecido do Senhor e não pensavas em tua péssima vida. Entende que havias te esquecido do Senhor. “Não suceda que vos arrebate como um leão e não haja quem vos livre”. O que quer dizer: “como leão”? Como forte, poderoso, como alguém ao qual não é possível resistir. Refere-se a isto o termo “leão”. Pode servir de louvor, e pode ser injúria. O diabo recebeu o nome de leão: “O vosso adversário, o diabo, vos rodeia como um leão a rugir, procurando quem devorar” (1Pd 5,8). Se ele é denominado leão por causa de sua cruel ferocidade, Cristo não é figurado pelo leão, por causa de sua imensa força? Donde provém a palavra: “Venceu o leão da tribo de Judá” (Ap 5,5)? V. Caridade preste atenção ainda um pouquinho. Falta muito pouco. Exorto-vos a sacudir o cansaço; estará junto de vós aquele que até agora vos deu forças. O salmista dissera pouco acima, como que nos impondo o tributo de louvor e ouvistes: “Oferece a Deus um sacrifício de louvor e cumpre os votos ao Altíssimo”. Mais abaixo, porém: “Ao pecador, porém, Deus diz: ‘Por que enumeras as minhas justiças e tens na boca a minha aliança’ ”? Parece dizer ao pecador: Nada te serve louvar-me. Impus o sacrifício de louvor aos que vivem retamente, àqueles, portanto, que ganham em louvor; tu, porém, se louvas, nada te adianta. Por que me louvas? “O louvor não é belo na boca do pecador” (Ecl 15,9). Em seguida, conclui de certo modo para ambos e arguindo os maus que se esquecem de Deus, diz: “Compreendei isso, vós que esqueceis a Deus. Não suceda vos arrebate como um leão e não haja quem vos livre”.

30 23“O sacrifício de louvor me glorificará”. Como é que “o sacrifício de louvor me glorificará”? Certamente nada aproveita aos maus o sacrifício de louvor, porque têm o teu Testamento em sua boca, e praticam atos condenáveis, odiosos a teus olhos. Todavia, diz o Senhor, também a estes eu digo: “O sacrifício de louvor me glorificará”. Já adotaras o parecer de que o louvor não te aproveitaria. Louva. Ser-te-à útil. Pois, se vives mal e proferes palavras boas, ainda não estás louvando. Mas, ainda se começares a viver bem, e o atribuíres a teus méritos ainda não estás louvando. Não quero que sejas como o ladrão que injuriava o Senhor na cruz; mas também não quero que sejas aquele que no templo se gabava de seus méritos, ocultando suas feridas (cf Lc 23,39; 15,11). Se fores iníquo e perseverares naquela iniquidade, não te direi: O louvor não te será proveitoso. Mas direi: Não me louvas. Não considero isso um louvor. Novamente, se fores quase justo (pois ninguém é justo se não for humilde e piedoso), e se estiveres orgulhoso de tua justiça, desprezares os outros comparando-os a ti e excessivamente te exaltares, gloriando-te de teus méritos, não me louvas. Também não me louva aquele que vive mal; nem me louva o que vive bem como se isto proviesse de si mesmo. Por acaso aquele fariseu era dos tais, que pensam que viver bem provém de si mesmo, quando dizia: “Ó Deus, eu te dou graças porque não sou como o resto dos homens”. Dava graças a Deus por possuir bens em si. Apesar de haver em ti algum bem, apesar de já entenderes que o bem que há em ti de ti não deriva, mas o recebeste de Deus, todavia porque te exaltas acima de outro que não o tem, és invejoso, e ainda não me estás louvando. Primeiro, portanto, corrige-te do teu péssimo caminho e começa a viver bem; entende que só te corrigirás por um dom de Deus. Pois, “o Senhor dirigirá os passos do homem” (Sl 36,23). Ao entenderes isso, sê favorável também aos outros, a fim de se tornarem aquilo que tu és; pois eras também tu o que eles são agora. Favorece quanto puderes e não percas a esperança; Deus não limita sua riqueza a ti. Por conseguinte não louva aquele que ofende o Senhor, vivendo mal. Não louva quem ao começar a viver bem, julga que tira de si mesmo a possibilidade de viver bem e não a recebe de Deus. Nem louva quem sabendo que recebeu de Deus o dom de viver bem, no entanto, quer limitar a si a riqueza do dom de Deus. Aquele, portanto, que dizia: “Ó Deus, eu te dou graças porque não sou como o resto dos homens, injustos, ladrões, adúlteros, e nem como este publicano”, não tinha motivos suficientes para dizer: Dá também a este publicano o que me deste, e completa o que ainda não me deste? Mas ele parecia arrotar, saciado. Não dizia: Eu sou necessitado e pobre (cf. 69,6), consoante o que declarava aquele publicano: “Senhor, tem piedade de mim, pecador!” Por isso o publicano desceu para casa justificado, mais do que o fariseu (Lc 18,11-14). Por esta razão, ouvi vós que viveis bem, ouvi vós que viveis mal: “O sacrifício de louvor me glorificará”. Ninguém me oferece este sacrifício de louvor, e continua malvado. Não digo: Que o mau não mo ofereça, mas: Ninguém oferece este sacrifício sendo mau. Quem louva é bom, porque se louva, também vive bem. Se louva, não louva apenas com a língua, mas vida e língua concordam entre si.

31 “O sacrifício de louvor me glorificará, e ali está o caminho em que lhe mostrarei a salvação de Deus”. No sacrifício de louvor acha-se “o caminho em que lhe mostrarei a salvação de Deus”. Qual é a “salvação de Deus”? É o Cristo Jesus. E como no sacrifício de louvor Cristo se nos manifesta! Porque Cristo vem a nós com sua graça. O Apóstolo afirma o seguinte: “Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20). Reconheçam, portanto, os pecadores, que não precisariam de médico se estivessem com saúde (cf Mt 9,12). Pois, Cristo morreu pelos ímpios (cf Rm 5,6). Quando, portanto, reconhecem suas impiedades, imitam primeiro aquele publicano que dizia: “Senhor, tem piedade de mim, pecador!” Mostram as feridas, imploram o médico. Como não se louvam a si mesmos, mas se acusam, de sorte que aquele que se gloria, não se glorie em si, mas no Senhor (1Cor 1,31), entendem o motivo da vinda de Cristo, porque ele veio salvar os pecadores: “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro” (1Tm 1,15). Por isto, declara o Apóstolo aos judeus, que se gloriavam de suas obras, que eles não pertenciam ao regime da graça, pois pensavam que o prêmio era de seus méritos e de suas obras (Gl 5,4). Quem, portanto, reconhece depender do regime da graça, que é Cristo e que é de Cristo, sabe que necessita da graça. Se tem o nome de graça é porque é dada gratuitamente; se é concedida gratuitamente, não houve méritos precedentes. Pois, se teus méritos precederam, a recompensa não é imputada segundo a graça, mas é devida (cf Rm 4,4). Se, pois, afirmas que teus méritos precederam, queres que tu sejas louvado e não Deus. Por conseguinte, não reconheces a Cristo, que veio trazendo a graça de Deus. Volta-te então para teus méritos e vê que foram maus, de sorte que não merecias prêmio mas suplício. E ao verificares que não tinhas mérito, reconheces o que a graça te dá. E louvas a Deus, com um sacrifício de louvor. Este é o caminho, no qual hás de conhecer a Cristo, salvação de Deus.

1 Cf Cesario de Arles. S. 133, cc. 103, p. 545ss.

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

Comentário de Santo Agostinho ao Salmo 48

SERMÃO I

1 Todas as palavras divinas são salutares para os que as entendem corretamente, mas perigosas para os que tentam torcê-las segundo a perversidade de seu coração, ao invés de corrigir o próprio coração de acordo com a retidão dessas palavras. Tal perversidade é grande e muito comum entre os homens. Deviam eles viver segundo a vontade de Deus, mas ao contrário querem que Deus viva segundo sua vontade. E como não querem se corrigir, pensam que podem depravá-lo, julgando que não é reto o que ele quer, e sim o que eles desejam. Costumamos ouvir os homens a murmurar contra Deus, porque os maus estão bem nesta vida e os bons vivem a pelejar. Parece-lhes que Deus não está certo e não sabe o que faz, ou então absolutamente desvia os olhos das coisas humanas. Ou então não quer perturbar sua tranquilidade, de forma que Deus não dá atenção a estas coisas, para não ter o trabalho de vê-las e corrigi-las. Murmuram, portanto, os homens. Não querem adorar a Deus para que tudo lhes corra bem, porque verificam que aqueles que não cultuam a Deus vão para a frente e gozam de felicidade terrena, enquanto eles, que adoram a Deus passam por angústias, necessidades, tribulações e outras dificuldades inerentes à mortalidade humana. Contra estas palavras e estas blasfêmias dos que murmuram, a palavra de Deus sempre age como encantador que cura da mordida da serpente. Este ferimento provém de um coração envenenado, de onde sai contra Deus o pus da blasfêmia, e o que é pior, o ferido repele a mão do médico, mas não se protege da mordida da serpente. Quero dizer, repele do coração a austeridade da palavra divina e admite os atrativos da serpente a sugerir o mal. Contra estes canta a palavra de Deus; e até se dirige a nós neste salmo. Desejaria tornar atenta V. Santidade a este salmo, se ele mesmo não nos tornasse a todos bem atentos; mas não só a nós, e sim a toda a terra. Ouvi, portanto, como começa.

2 2“Escutai isto, povos todos”. Por conseguinte, não apenas vós que estais presentes. Pois, que força é esta que teria nossa voz para clamarmos de sorte que ouçam todos os povos? Nosso Senhor Jesus Cristo clamou através dos apóstolos, e isto em tantas línguas quantas foram as dos enviados; e vejamos relativamente a este salmo, que anteriormente era recitado só por um povo, na sinagoga dos judeus, e agora é recitado em todo o orbe, em todas as igrejas, como se cumpre o que diz este versículo: “Escutai isto, povos todos”. Apenas para este ponto chama a vossa atenção, a fim de que não a desvieis por medo do cansaço e assustados com o tamanho do salmo. Se for possível, terminaremos hoje; se não, fica o restante para amanhã; no entanto, prestai sempre atenção. Ouvireis, se Deus quiser, numa medida que não vos pese; ao invés, vos alivie. “Escutai isto, povos todos”. Sois um deles. “Prestai ouvidos, habitantes todos do orbe”. Parece que quis repetir, como se fosse pouco dizer: “Ouvi”. Insiste o salmista: “Ouvi, prestai ouvidos”, a saber, não deveis escutar só de passagem o que estou dizendo. Qual o sentido de: “Prestai ouvidos”? É o mesmo das palavras do Senhor: “Quem tem ouvidos, ouça!” (Mt 11,15). Visto que todos os seus ouvintes tinham ouvidos, quais os ouvidos que procurava senão os do coração, ao declarar: “Quem tem ouvidos, ouça”? São estes os ouvidos que o salmo atinge. “Prestai ouvidos, habitantes todos do orbe”. Talvez haja aqui alguma distinção a fazer. Nós, contudo, não devemos insistir demais; mas não há mal em explicar também esta opinião. É possível que haja alguma diferença entre: “todos os povos e habitantes todos do orbe”. Talvez tenha mais sentido a expressão: “habitantes”. Entenderíamos, então, por povos, todos os iníquos, enquanto habitantes representariam todos os justos. É habitante aquele que não está preso; pois quem está preso é habitado, não habita. De igual modo, possui quem tem alguma coisa, quem é senhor de seus bens; é senhor porque não está enredado na cupidez; mas, quem está cativo da cupidez torna-se posse dela, não possuidor. Temos na Escritura divina uma palavra referente à habitação: “Prefiro estar no limiar da casa do Senhor a habitar nas tendas dos pecadores” (Sl 83,11). Mas, se ficas no limiar da casa do Senhor, não habitas nela? O salmista atribui a habitação apenas aos que a dirigem, retém, dominam, governam; os que nela são menosprezados, de certa maneira não a habitam, mas são sujeitos. Por isso disse: Quero ser súdito na casa de Deus; prefiro-o a reinar nas tendas dos pecados. Por conseguinte se existe distinção entre “povos todos e habitantes todos do orbe”, do mesmo modo como há entre “escutai e prestai ouvidos”, parece, no entanto, repetição; todavia o salmista quis tratar de coisa diferente, porque estas palavras seriam ouvidas não só por pecadores e ímpios, mas também por justos. Agora ouvem todos sem distinção; mas ao chegar a prestação de contas, serão separados os que ouviram sem resultado dos que ouviram atentamente. Ouçam, portanto, igualmente os pecadores: “Escutai isto, povos todos”. E escutem os justos, que ouvem com atenção, e governam a terra mais do que são dominados por ela: “Prestai ouvidos, habitantes todos do orbe”.

3 3Prossegue: “Filhos do povo e filhos dos homens. Filhos do povo”, os pecadores. “Filhos dos homens”, os fiéis e justos. Cuidai, pois, de guardar esta distinção. Quem são os filhos do povo? Os filhos da terra. Quais os filhos da terra? Os que procuram obter heranças terrenas. Quais os filhos dos homens? Os pertencentes ao filho do homem. De outra vez, já fizemos esta distinção diante de vós1 , e vimos que Adão era homem, mas não filho do homem. Cristo, porém, era filho do homem, e era Deus. Os que pertencem a Adão, são “filhos da terra”; os que pertencem a Cristo, “filhos do homem”. Entretanto, ouçam todos. Minha palavra não se furta a nenhum deles. Se é filho da terra, ouça por causa do juízo; se é filho do homem, ouça por causa do reino. “Todos igualmente ricos e pobres”. Novas repetições. “Ricos”, referem-se a filhos do povo; “pobres”, a filhos dos homens. Entende por ricos os soberbos e por pobres os humildes. Tenha alguém muitas riquezas em dinheiro; se não se orgulha por causa disso é pobre. Não tenha outro coisa alguma, mas ambiciona e se orgulha, Deus o coloca entre os ricos e os réprobos. Deus interroga o coração de ricos e dos pobres, e não seu tesouro e sua casa. Não seriam pobres os que aceitam bem o preceito do Apóstolo a Timóteo: “Aos ricos deste mundo, exorta-os a que não sejam orgulhosos”? Como transformou em pobres os que eram ricos? Tirou-lhes o motivo por que as riquezas são ambicionadas. Ninguém procura ser rico, a não ser que se orgulhe no meio em que vive, e queira parecer superior aos outros. Ao dizer o Apóstolo: “não sejam orgulhosos”, igualou-os aos que não possuem bens. Pode acontecer que um mendigo, com algumas moedinhas, mais se exalte do que o rico que atende ao preceito do Apóstolo: “Aos ricos deste mundo, exorta-os a que não sejam orgulhosos”. Como não serão orgulhosos? Se fizerem como se segue: “Nem ponha sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus vivo, que nos provê de tudo com abundância, para que nos alegremos” (1Tm 6,17). Não disse: os prôve; mas: “nos provê”. Então, o próprio Paulo não tinha riquezas? Sim; tinha. Quais? As mencionadas pela Escritura em outro lugar: “Ao fiel, um mundo todo de riquezas” (Pr 17,6, sg. LXX). Ouve também sua declaração: “Como nada tendo, embora tudo possuamos” (2Cor 6,10). Quem quiser, portanto ser rico, não adira a uma parte, e possuirá tudo. Una-se àquele que tudo criou. “Todos igualmente, ricos, e pobres”. Afirma outro salmo: “Os pobres hão de comer e saciar-se”. Como recomendou os pobres? “Os pobres hão de comer e saciar-se”. O que hão de comer? Aquilo que os fiéis conhecem. Como serão saciados? Imitando a paixão de seu Senhor, e não recebendo em vão o preço pago por eles. “Os pobres hão de comer e saciar-se. Louvarão o Senhor aqueles que o procuram” (Sl 21,27- 30). E os ricos? Também eles comem. Mas como? “Comeram e adoraram todos os poderosos da terra”. O salmista não disse: Comeram e ficaram saciados, mas: “Comeram e adoraram” (Sl 21,30). Efetivamente, adoram a Deus, mas não querem mostrar-se fraternos. Comem, adoram eles; os outros comem, e se saciam; todos comem. Exige-se daquele que come aquilo que ele come. Não se proíbe que coma o dispensador, mas se exorta que ele tema o cobrador. Ouçam, portanto, os pecadores e os justos, os povos e os habitantes da terra, “filhos do povo e filhos dos homens. Todos igualmente, ricos e pobres”, não, porém, divididos, não separados. Assim sucederá no tempo da messe, a mão do que ventila pode fazê-lo. Agora todos igualmente ouçam, ricos e pobres; simultaneamente se apascentem bodes e carneiros, até que venha o Senhor e separe, uns à direita e outros à esquerda. Juntamente ouçam o mestre, para não ouvirem separados uns dos outros o juiz.

4 4O que hão de ouvir agora? “Meus lábios hão de proferir palavras de sabedoria e as cogitações de meu coração ditam-me a prudência”. Parece que usou de repetição a fim de que tendo dito “meus lábios”, compreendesses que te fala quem não tem só nos lábios a sabedoria. Muitos a possuem nos lábios e não a têm no coração. Deles assevera a Escritura: “Este povo me glorifica com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Is 29,13). O que quer aquele que te fala? Tendo declarado: “Meus lábios hão de proferir palavras de sabedoria”, a fim de saberes que emana do fundo do coração o que a boca profere, acrescenta: “E as cogitações de meu coração ditam-me a prudência”.

5 5“Inclinarei meus ouvidos a uma parábola, e explicarei, ao som do saltério, a minha proposição”. Quem é este cujas cogitações do coração lhe ditam prudência, de sorte que a possua o íntimo do homem e não esteja somente na superfície dos lábios? Pois, muitos não falam o que não ouvem? Quais são os que falam o que não ouvem? Os que não fazem o que dizem, como os fariseus que o Senhor declara sentarem-se na cátedra de Moisés. O Senhor deixa que te falem da cátedra de Moisés, os que dizem e não fazem; mas deu-te uma garantia. Não temais, disse ele, “fazei tudo quanto vos disserem. Mas não imiteis as suas ações, pois dizem mas não fazem” (Mt 23,2.3). Não ouvem o que eles mesmos dizem. Aqueles que praticam o que dizem, ouvem o que dizem, e portanto dizem de maneira útil, porque ouvem. Quem só fala e não ouve, é útil aos outros, não a si. O salmista, por conseguinte, que queria ser ouvinte e locutor, ao se dirigir a ti, antes de dizer: “Explicarei, ao som do saltério, a minha proposição”, isto é, falar por meio do corpo (pois a alma emprega o corpo como o salmista usa o saltério), disse: “Inclinarei meus ouvidos a uma parábola”. Antes de te falar, por meio do corpo, antes que soe o saltério, “inclinarei meus ouvidos a uma parábola”, isto é, ouvirei o que vou te dizer. Mas por que razão: “uma parábola”? Porque, segundo explica o Apóstolo, “agora vemos em espelho e de maneira confusa” (1Cor 13,12). “Enquanto estamos nesse corpo, estamos longe do Senhor” (2Cor 5,6). Ainda não temos a visão face a face; então não haverá mais parábolas, nem enigmas e comparações. Agora só entendemos de modo obscuro. Enigma é uma parábola obscura, de difícil interpretação. Por mais que o homem cultive sua mente e entre no seu íntimo para entender, enquanto tiver a carne corruptível, verá parcialmente. Quando vier, porém, a incorrupção, por ocasião da ressurreição dos mortos, e o Filho do homem aparecer a julgar os vivos e os mortos, então se verá o Filho do homem, que anteriormente foi julgado, a julgar, a separar os maus dos bons, pondo os maus à esquerda e os bons à direita. Vê-lo-ão os bons e os maus; mas aos maus ele dirá: “Ide para o fogo eterno”; e aos bons: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei o reino”. Irão os maus para o fogo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna (Mt 25,33.34. 41.46); estes terão a visão face a face, da qual os maus não são dignos. Atenção ao que vou falar. Os maus e os bons viram o Filho do homem quando estava na terra para ser julgado; pois, viram-no os apóstolos que o seguiram e viram-no os judeus que o crucificaram. Assim também, quando vier para julgar, vêlo-ão bons e maus; os bons para receberem a recompensa de o haverem seguido, e os maus para serem punidos de o terem crucificado. Mas, somente serão condenados os que o crucificaram? Ouso dizer que somente eles. Então nós, replicam os pecadores de hoje, estamos garantidos. Se Deus não examina a alma, estais seguros. O que quero dizer com isto? Entenda bem, V. Caridade, para não dizer no juízo de Deus que não entendeu. Os judeus viram a Cristo e o crucificaram; tu não o vês, e resistes a sua palavra. Se resistes à sua palavra, não crucificarias o corpo que visses? O judeu o desprezou suspenso na cruz, e tu o desprezas sentado no céu. Ambos, portanto, o viram aqui na terra; ambos o verão ao voltar. Pois, o Filho do homem virá para julgar, assim como veio para ser julgado. O Pai não se encarnou, nem padeceu, por isso julga por meio do Filho do homem, conforme ele próprio disse no evangelho: “O Pai a ninguém julga, mas confiou ao Filho todo julgamento”; e prossegue pouco adiante: “E lhe deu o poder de julgar, porque é Filho do homem” (Jo 5,22.27). Enquanto Filho de Deus o Verbo está sempre junto do Pai; e como está sempre com o Pai, sempre julga com ele. Como Filho do homem, foi julgado e há de julgar. Como foi visto pelos que acreditaram e por aqueles que o crucificaram, ao ser julgado, assim há de ser visto, ao começar a função de juiz, por aqueles que haverá de condenar ou coroar. Mas, os ímpios não terão aquela visão da divindade prometida aos que o amam: “Quem tem meus mandamentos e os observa é que me ama; e quem me ama será amado por meu Pai. Eu o amarei e a ele me manifestarei” (Jo 14,21). Reserva para os seus essa aparição um tanto familiar; ao invés, não se mostra aos ímpios. Que visão é esta? Que Cristo? Igual ao Pai. Como é Cristo? “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). Por esta visão agora suspiramos, e gememos enquanto somos peregrinos. Nós a receberemos no fim. Hoje a temos de modo obscuro, se vemos como enigma, se inclinamos os ouvidos a uma parábola, se explicamos, ao som do saltério, a nossa proposição. Ouçamos aquilo que proferimos e façamos o que ordenamos.

6 6E o que diz o salmista? “Por que hei de temer no infortúnio? A iniquidade de meu calcanhar me rodeará”. Começa um trecho obscuro: “Por que hei de temer no infortúnio? A iniquidade de meu calcanhar me rodeará”. O temor deve ser maior se a iniquidade de seu calcanhar o cercar. Não receie o homem aquilo que é impossível evitar. Por exemplo, quem tem medo da morte, o que pode fazer para evitá-la? Responda-me de que modo escapará ao que deve a Adão quem dele nasceu. Mas pondere o seguinte: nasceu de Adão e seguiu a Cristo; terá de pagar o que deve Adão e obter o que Cristo prometeu. Quem, portanto, teme a morte, não tem como dela escapar; mas, ao contrário, quem tem medo da condenação que atingirá os ímpios: “Ide para o fogo eterno”, encontrará como dela fugir. Então, não precisa ter medo? De que deve ter receio? A iniquidade de seu calcanhar o rodeará? Porquanto, se evitar a iniquidade de seu calcanhar, se seguir os caminhos de Deus, não chegará a dias de infortúnio; dias maus, que serão os derradeios, para ele não serão de infortúnio. De fato, o último dia será mau para alguns e bom para outros. Poderá ser mau para aqueles aos quais se dirá: “Vinde, benditos de meu Pai”? Mas será mau para os que ouvirem a sentença: “Ide para o fogo eterno” (Mt 25,34.41). Se a iniquidade de seu calcanhar o cercar, deve temer um dia de infortúnio? Todos os que ainda vivem aqui tenham precaução, tirem a iniquidade de seu calcanhar, andem no bom caminho, naquele a que se referiu o Senhor: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6); e não temam no infortúnio, porquanto lhes dá segurança aquele que se tornou o caminho. “Por que hei de temer no infortúnio? A iniquidade de meu calcanhar me rodeará”. Evitem, por conseguinte, a iniquidade de seu calcanhar. Pelo calcanhar pode-se escorregar. Atenção. Como falou Deus à serpente? “Ela espiará tua cabeça e tu lhe espiarás o calcanhar” (Gn 3,15). O diabo espia teu calcanhar, e se resvalas, para te derrubar. Ele espia teu calcanhar; e tu, observa-lhe a cabeça. Qual é a sua cabeça? O início da má sugestão. Repele o começo da má sugestão, antes que surja o deleite e siga-se o consentimento. Assim, evitarás a sua cabeça, e ele não morderá o teu calcanhar. Por que disse Deus isso a Eva? Porque o homem cai por meio da carne. Eva, em nosso interior, é nossa carne. “Quem ama a sua mulher ama-se a si mesmo” (Ef 5,28.29), diz o Apóstolo. Por que: “a si mesmo”? Ele continua: “Pois ninguém jamais quis mal à sua própria carne”. Como o diabo suplantou aquele homem, Adão, por meio de Eva (cf Gn 3,6), assim quer nos suplantar por meio da carne. Foi ordenado a Eva que observe a cabeça do diabo, porque o diabo espia-lhe o calcanhar. Se, pois, a iniquidade de nosso calcanhar nos rodear, por que haveremos de temer no infortúnio, uma vez que voltados para Cristo temos o poder de evitar o mal? E não haverá o que nos cerque; alegrar-nos-emos no último dia. Não choraremos. 1 Cf Comentário ao Sl 8, n. 10.

7 7Quais são aqueles cujo calcanhar os cerca? “Aqueles que confiam em sua força e se gloriam da abundância de suas riquezas”. Uma vez que evito isto, a iniquidade de meu calcanhar não me rodeará. Como posso evitá-lo? Não confiemos em nossa força, não nos gloriemos da abundância de nossas riquezas; mas gloriemo-nos naquele que nos prometeu a elevação que cabe aos humildes e ameaçou os orgulhosos de condenação. Desta forma, a iniquidade de nosso calcanhar não nos cercará. “Aqueles que confiam em sua força e se gloriam da abundância de suas riquezas”.

8 8Existem alguns que presumem de seus amigos; outros de seu poder, e outros ainda das riquezas. Tal é a presunção do gênero humano, que não põe sua confiança em Deus. Falavase de poder, riquezas, amigos: “O irmão não resgata, quem resgatará?” Esperas que alguém te livre da ira que há de vir? Se o irmão não te resgata, quem resgatará? Quem é este irmão que, se não resgatar, ninguém resgatará? Aquele que disse, depois da ressurreição: “Ide anunciar a meus irmãos” (Mt 28,10). Ele quis ser nosso irmão; e quando rezamos: Pai nosso, isso se manifesta. Quem diz a Deus: Pai nosso, denomina a Cristo Irmão. Por conseguinte, quem possui a Deus por pai e a Cristo por irmão, não deve recear no infortúnio. Não o cercará a iniquidade de seu calcanhar, visto que não presume de sua força, nem se gloria da abundância de suas riquezas, nem se gaba de seus poderosos amigos. Deposite confiança naquele que morreu por causa dele, a fim de que não morresse eternamente. Por ele humilhou-se, para exaltá-lo. Procurou o ímpio, a fim de que, depois de se tornar fiel, o procurasse. Se ele, portanto, não resgata, quem resgatará? Alguém pode resgatar, se o Filho do homem não resgata? Se Cristo não redime, Adão há de redimir? “O irmão não resgata, quem resgatará?”

9 8.9“Não dará a Deus expiação, nem o valor de seu resgate”. Confiou em sua força, e na abundância de suas riqueza se gloria quem “não dá a Deus expiação”, a saber, não o aplaca por causa de seus pecados; “nem paga o valor de seu resgate”, pois presume de sua força, de seus amigos, de suas riquezas. Quais são os que dão o valor de seu resgate? Aqueles aos quais o Senhor disse: “Fazei amigos com o dinheiro da iniquidade, a fim de que eles vos recebam nos tabernáculos eternos” (Lc 16,9). Pagam o preço de seu resgate os que não cessam de dar esmolas. Principalmente aqueles que foram admoestados pelo Apóstolo, através de Timóteo, a que não fossem soberbos, nem confiassem na abundância de suas riquezas; enfim, o Apóstolo não quis que estas se estragassem no poder deles, mas que eles as empregassem em algo que lhes servisse de valor de resgate por suas almas. Assim se exprime: “Aos ricos deste mundo, exorta-os a que não sejam orgulhosos, nem deponham sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus vivo que nos provê de tudo com abundância, para que nos alegremos”. Supõe-se a pergunta: Que faremos, então, de nossas riquezas? E o Apóstolo responde: “Enriqueçam-se com boas obras, sejam pródigos, capazes de partilhar”, e não perderão seus bens. Como podemos sabê-lo? Ouve a continuação: “Estarão assim acumulando para si mesmos um belo tesouro para o futuro, a fim de obterem a verdeira vida” (1Tm 6,17-19). É desta maneira que pagarão o resgate de sua alma. E nosso Senhor assim admoesta: “Fazei bolsas que não fiquem velhas, um tesouro inesgotável nos céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói” (Lc 12,33). Deus não quer que percas tuas riquezas, mas deu-te o conselho de as guardares em outro lugar. Compreendei bem. Se neste momento um amigo entrasse em tua casa, e te encontrasse colocando o trigo num lugar úmido (e ele fosse bom conhecedor da natureza corruptível do trigo, e tu não) dar-te-ia o seguinte conselho: Irmão, estragas o que colheste com tanto trabalho; tu o depositaste num lugar úmido e em poucos dias apodrecerá. Então, o que devo fazer, irmão? Coloca-o num lugar mais alto. Ouvirias a sugestão do amigo de carregares o trigo de baixo para cima, e não ouves a admoestação de Cristo de que carregues teu tesouro da terra ao céu, onde não te será devolvido o mesmo que guardas, mas pões em reserva terra e receberás o céu, guardas bens perecíveis e receberás eternos! Empresta a Cristo; ele aceita pouco na terra para te devolver muito no céu. Na verdade, porém, aqueles que estão cercados da iniquidade de seu calcanhar, como confiam em suas forças e gloriam-se da abundância de suas riquezas, presumindo também de amigos entre os homens, que nada podem prestar, não darão “a Deus expiação, nem o valor de seu resgate”.

10 9.10E o que diz o salmista de tal homem? “Labutará eternamente e viverá até o fim”. Sua labuta será sem fim, mas a vida terminará. Por que diz o salmo: “viverá até o fim”? A vida para eles está nos deleites cotidianos. Até mesmo nossos pobres e indigentes, pouco firmes, sem olhar para as promessas de Deus relativas a nossos trabalhos, se virem os ricos em seus banquetes diários, cercados do brilho do ouro e da prata, como se exprimem? Somente eles é que vivem, de fato. Diz-se assim, mas que não se diga mais, conforme exortamos. E se houver de se dizer, sejam bem menos os que o dizem do que se nós não falássemos. Pois, de fato, não presumimos que se deixará de falar assim, devido a nosso aviso, mas ao menos que diminua o número deles; porque efetivamente assim se falará até o fim dos séculos. Ainda é pouco quando se diz que só esses ricos vivem; acrescenta-se: ele grita. Julgas que só ele vive. Que viva. Sua vida terminará. Uma vez que não paga o valor de seu resgate, a vida acabará, mas a pena não. “Labutará eternamente e viverá até o fim”. De que modo “viverá até o fim”? Como vivia aquele rico que se vestia de linho fino e púrpura, e se banqueteava diariamente com requinte; e desprezava, soberbo, orgulhoso, o pobre que jazia à sua porta, coberto de úlceras. Até os cães vinham lamber-lhe as úlceras. Desejava saciar-se do que caía da mesa do rico. Mas, que adiantaram as riquezas ao rico? Mudou-se a sorte de ambos. O pobre, da porta do rico, foi levado ao seio de Abraão; o rico, dos banquetes esplêndidos foi lançado ao fogo. O primeiro descansava, e o segundo ardia nas chamas; aquele era saciado, e este estava sedento; o pobre sofrera até o fim e vivia eternamente; o rico vivera até o fim e era eternamente castigado. Que serviu ao rico, no inferno, em meio aos tormentos, pedir que Lázaro molhasse a ponta do dedo para refrescar-lhe a língua, dizendo: “Pois estou torturado nesta chama” (Lc 16,19-26), e não obteve? Ele o desejou uma gota d’água na ponta do dedo, como o pobre desejava as migalhas da mesa do rico; mas o sofrimento do pobre terminou, como terminou a vida do rico; o sofrimento deste é eterno como eterna a vida do pobre. Nós que talvez padecemos na terra, não temos aqui a nossa vida, e não estaremos assim depois. Nossa vida será Cristo, eternamente. Os outros, porém, que optam por ter aqui a sua vida, sofrerão eternamente e viverão até o fim.

11 11“Não verá a morte, embora veja morrerem os próprios sábios”. Aquele que sofrerá eternamente e viverá sem fim, “não verá a morte, embora veja morrerem os próprios sábios”. O que significa isto? Não entenderá o que é a morte, embora veja morrerem os próprios sábios. Diz a si mesmo: Aquele homem que era sábio, versado na sabedoria, piedoso no culto a Deus, não morreu? Procurarei, portanto, o bem-estar, enquanto vivo; pois se adiantasse pensar de outro modo eles não morreriam. Constata a morte deles, mas não sabe qual é. “Não verá a morte, embora veja morrerem os próprios sábios”. Igualmente os judeus viram o Cristo crucificado, e desprezaram-no, dizendo: Se ele fosse Filho de Deus, descesse da cruz (cf Mt 27,42), não sabendo o que é a morte. Se soubessem o que é a morte, se soubessem! Cristo morria no tempo, para reviver eternamente, enquanto eles viviam por algum tempo, para morrerem eternamente. Mas como viam-no morrer, não viam a morte, isto é, não entendiam qual a verdadeira morte. O que dizem os insensatos como consta no livro da Sabedoria? “Condenemo-lo a uma morte vergonhosa, pois diz que há quem atenda a suas palavras. Se é verdadeiramente filho de Deus, ele o libertará das mãos de seus adversários” (Sb 2,20.18). Se é, de fato, seu Filho, não permitirá que morra. Mas, ao vê-lo na cruz, e que, apesar de insultarem-no, ele não desceu dela, disseram: Em verdade, era um homem. Assim foi dito. De fato, ele podia descer da cruz, uma vez que pôde ressuscitar do sepulcro; mas ensinou-nos a suportar os que nos injuriam, ter paciência diante das más línguas dos homens, beber agora o cálice da amargura, e depois receber a salvação eterna. Bebe, ó doente, o cálice amargo, para te curares, pois tuas vísceras não estão sadias. Não hesites, porque o médico bebeu primeiro a fim de não duvidares; isto é, o Senhor tomou primeiro a amargura da paixão. Bebeu aquele que não tinha pecado, que não precisava de tratamento. Bebe até que passe a amargura deste século, e venha o século futuro onde não haverá escândalo, ira, moléstia, amargura, febre, dolo, inimizade, velhice, morte, dissensão. Trabalha aqui na terra, e chegarás ao termo; trabalha, a fim de não acontecer que não querendo aqui labutar, chegues ao fim da vida e jamais alcances o fim dos trabalhos. “Não verá a morte, embora veja morrerem os próprios sábios”.

12 “O imprudente e o néscio simultaneamente perecerão”. Quem é “imprudente”? Quem não prevê o futuro. Quem é “néscio”? Quem não entende os males de que sofre. Tu, porém, reconhece os males entre os quais vives agora e prevê os bens futuros. Compreendendo os males presentes, não serás néscio e prevendo o futuro não serás imprudente. Quem foi previdente para seu próprio bem? Aquele servo, ao qual seu senhor confiara a administração de seus bens, e depois lhe disse: “Presta contas de tua administração, pois já não podes ser administrador”. E ele refletiu: “Que farei? Cavar? Não posso. Mendigar? Tenho vergonha”. Então, com os bens de seu Senhor adquiriu amigos, que o recebessem quando ele fosse, de fato, afastado. Defraudou seu senhor, para adquirir amigos que o recebessem; tu, porém, não tenhas medo de agir fraudulentamente; o próprio Senhor te exorta a agir, quando diz: “Fazei amigos com o dinheiro da iniquidade” (Lc 16,1-9). Talvez o que adquiriste, tu o obtiveste por meio da iniquidade; pode ser também que a iniquidade consista em que possuas e outro não, tenhas em abundância, enquanto outro passa necessidade. Deste dinheiro da iniquidade, destas riquezas, que são as únicas que os iníquos assim denominam, faze amigos e serás prudente; tu os adquires, sem sofreres alguma fraude. Agora, contudo, pareces perder. Por acaso é perdido o que guardas no tesouro? Os meninos, irmãos, quando querem comprar não sei bem o quê, ajuntam as moedas e as jogam no cofre, para abrir somente depois. Se não veem o que ajuntam, eles o perderam? Não tenhas medo. Os meninos guardam no cofre e ficam tranquilos; tu pões nas mãos de Cristo, e tens receio! Sê prudente, e guarda para o futuro, no céu. Por conseguinte, sê prudente, imita a formiga, como diz a Escritura; armazena no verão, para não passares fome no inverno (cf Pr 6,6; 30,25). Inverno é o último dia, o dia da tribulação. Inverno é o dia dos escândalos e da amargura. Guarda para teres no futuro; se não o fizeres, sendo a um só tempo imprudente e néscio, perecerás.

13 Mas, aquele rico morreu, e teve um grandioso funeral! Aí está o que preocupa os homens; não olham que vida péssima teve, e sim que pompa no enterro. Ó como é feliz quem é tão chorado! Outro viveu de tal maneira que poucos o lastimam. Mas, todos deviam lastimar quem viveu tão mal. No entanto, seu funeral é cercado de pompa, é enterrado num túmulo precioso, envolvido em vestes valiosas, sepultado com unguentos e aromas. Em seguida, que monumento! Todo de mármore! Talvez ele está vivo no monumento? Ali está morto. Os homens, considerando bens tais coisas, afastaram-se de Deus, não procuraram a verdade, e enganaram-se com falsidades; entretanto, vê a continuação do salmo. Quem não deu o valor de seu resgate, não entendeu o que é a morte e viu os sábios morrerem, tornou-se imprudente e néscio, para de modo igual morrer. E como hão de perecer os que “deixam suas riquezas aos estranhos? Simultaneamente perecerão o imprudente e o néscio”.

14 Atenção, irmãos. “E deixarão suas riquezas aos estranhos”. Constitui uma espécie de maldição possuírem os estranhos os seus bens, depois que eles morreram. Por conseguinte, felizes os que deixam os filhos de posse delas, como seus sucessores. Se teve filhos, não morreu. E como agem os filhos? Guardam a herança de seus pais. E não basta. Eles a aumentam. Mas, para quem a conservam? Para seus filhos, e estes para os netos, que a conservam para os bisnetos. O que dão ao Cristo? O que reservam para sua alma? Tudo para os filhos. Entre os filhos que têm na terra, incluam um irmão que possuem no céu, ao qual tudo deveriam dar, ou com ele dividir. Ao invés, pode dizer-me alguém: Eis que a Escritura chama de malditos os que morrem e deixam sua riquezas a estranhos, e felizes os que as legam aos seus. Discuto esta opinião, porque inclino meus ouvidos a uma parábola, e vejo que a Escritura não se exprime assim inutilmente. Constato que muitos iníquos morrem e deixam os filhos por sucessores. A Escritura não falaria assim, isentando da infelicidade aqueles cuja vida reprova. Sei, irmãos; o que podeis pensar? Todos eles deixam suas riquezas a estranhos? Como os filhos seriam estranhos? Os filhos dos maus são estranhos para eles. Podemos descobrir um ou outro estranho que se torne da família, porque lhe é útil. Se algum dos teus em nada te ajuda, é um estranho. Onde encontramos certo estrangeiro que se tornou próximo de outro, porque o acudiu? No evangelho. Jazia alguém, ferido por ladrões. O Senhor havia dito a um mestre da lei: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Ele, porém, respondera: E quem é o meu próximo? E o Senhor narrou o seguinte: “Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu no meio de assaltantes que, após havê-lo espancado, foram-se, deixando-o semimorto”. Passaram por ali conterrâneos seus. Ele era judeu, e descia de Jerusalém a Jericó. “Descia um sacerdote, e passou adiante; um levita atravessou o lugar e prosseguiu, igualmente; certo samaritano, porém”, samaritano desconhecido, estrangeiro, “chegou junto dele, viu-o e moveu-se de compaixão. Cuidou de suas chagas, colocou-o em seu próprio animal, conduziu-o à hospedaria, e recomendou-o ao hospedeiro”. Parece-me que tudo isto, que foi dito como um mistério, é longo demais para ser explicado agora; no entanto, está de acordo com o nosso assunto a pergunta do Senhor: “Qual dos três foi o próximo do homem ferido? Ele respondeu: Creio que aquele que usou de misericórdia para com ele. Jesus então lhe disse: Vai, e também faze tu o mesmo” (Lc 10,27-37). Aquele de quem te compadeces, torna-se teu próximo. Se, portanto, o samaritano estrangeiro, praticando a misericórdia e socorrendo o ferido, foi seu próximo, aqueles que não podem te acudir na tribulação tornaram-se estranhos para ti. Agora, voltemos a atenção para os ricos que viveram mal, que agiram com orgulho; morreram e deixaram aos filhos, já não digo aos estranhos, as suas riquezas, e seus filhos seguem as pegadas dos pais. Pais soberbos e filhos soberbos; ladrões os primeiros, e também os segundos; avaros os pais, e igualmente os filhos, que se tornaram estranhos para eles. E para verificares que são estranhos, por acaso àquele rico que ardia nas chamas socorreram os sucessores de suas riquezas? Observamos no envagelho, que ele os tinha, porque declara: “Tenho cinco irmãos” (Lc 16,28). Os irmãos não puderam socorrê-lo quando ardia nas chamas. O que te diria o rico? Tenho cinco irmãos; de um único irmão não fiz meu amigo, aquele que jazia diante de minha porta. Os outros, que estão de posse de minhas riquezas não podem me socorrer; tornaram-se-me estranhos. Vedes aí que todos os que levam vida má, deixam a estranhos as suas riquezas.

15 12Mas, certamente, os ajudam esses estranhos, que são chamados seus? Ouvi de que adiantam eles, observai como zombam deles: “O imprudente e o néscio simultaneamente perecerão, e deixarão suas riquezas aos estranhos”. Por que razão “estranhos”? Porque em nada lhes são de proveito. Entretanto, em alguma coisa parecem ser úteis: “E os seus sepulcros serão as suas casas eternamente”. Visto que se constroem os sepulcros, são uma espécie de casas. Pois, não raro ouvis um rico dizer: Tenho uma casa de mármore que deixarei, e não penso na casa eterna onde ficarei para sempre. Quando decide fazer um mausoléu de mármore ou esculpido, parece-lhes fazer uma casa eterna, como se aquele rico do evangelho permanecesse em seu sepulcro. Se nele ficasse, não arderia no inferno. Importa cogitar aonde irá a alma de quem age mal, e não cuidar onde depositar o corpo mortal. “Os seus sepulcros serão as suas casas para sempre. Suas tendas, de geração em geração”. “Tendas”, que habitaram transitoriamente; “casas”, onde permanecerão quase para sempre, isto é, os sepulcros. Deixam, portanto, suas tendas, onde ficavam enquanto viviam, e transferem-se para os sepulcros, como se fossem casas eternas. O que lhes aproveitam “suas tendas, de geração em geração”? Geração e geração, ou seja, filhos, netos e bisnetos. Para que servem, que aproveitam suas tendas? O quê? Escuta: “E invocarão o nome deles em suas terras”. Levarão pão e vinho aos sepulcros, e ali invocarão o nome dos mortos. Imagina quanto foi invocado depois da morte o nome daquele rico, quando os homens se embriagavam em memória dele, enquanto nem uma gota chegava à sua língua a arder de sede! Os homens cuidam de seu estômago, não das almas dos seus. Às almas dos mortos chega apenas o que eles obtiveram em vida; se em vida nada obtiveram, nada chega até eles, depois de mortos. Então, o que fazem os outros? Somente “invocarão o nome deles em suas terras”.

16 13“Mas o homem, entre honrarias, não entendeu. Foi comparado aos jumentos irracionais e se lhes fez semelhante”. Assim são insultados os homens, que não entenderam como agir relativamente a suas riquezas durante a vida, e tinham a opinião de que seriam felizes se tivessem um mausoléu de mármore, qual habitação eterna, e se os seus, aos quais deixariam suas posses, invocassem seus nomes em suas terras. Deviam, ao contrário, preparar para si uma casa eterna, por meio de boas obras, obter a vida imortal, depositar de antemão o seu custo e acompanhá-lo com as obras, prestar atenção ao companheiro de viagem necessitado, dar àquele com o qual caminhava, não desprezar o Cristo coberto de úlceras à sua porta, e que disse: “Cada vez que o fizestes a um desses mais pequeninos, que são meus, a mim o fizestes” (Mt 25,40). Por conseguinte, o homem entre honrarias não entendeu. O que significa: entre honrarias? Feito à imagem e semelhança de Deus, (cf Gn 1,26), o homem está acima dos animais. Deus não fez o homem do mesmo modo como criou os animais, mas fez os animais para servirem o homem. Mas, para servirem às suas forças e não a sua inteligência? O homem, porém, “não entendeu”, e feito à imagem de Deus, “foi comparado aos jumentos irracionais e se lhes fez semelhante”. Por este motivo, se disse em outra parte: “Não sejais como o cavalo e o mulo, sem inteligência” (Sl 31,9).

17 14“Seu caminho lhes serve de tropeço”. A eles, não a ti. Quando será também a ti? Se pensares que eles são felizes. Se compreendes que não são felizes, a eles seu caminho serve de tropeço; não a Cristo, não a seu corpo, não a seus membros. “Depois, louvarão com sua boca”. O que significa: “Depois, louvarão com sua boca”? Quando se tornarem tais que só procuram bens temporais, fazem-se hipócritas; e se bendizem a Deus, fazem-no com os lábios, não com o coração. Esses, ao se tornarem cristãos, quando se louva diante deles a vida eterna, e se declara que devem desprezar as riquezas, em nome de Cristo, torcem os lábios interiormente. Se não ousam desprezar exteriormente, para não se envergonharem ou serem corrigidos pelos outros, fazem-no no coração; têm, então a bênção nos lábios, e a maldição no coração. “Depois, louvarão com sua boca”. Seria muito longo ainda se quiséssemos terminar o salmo. Baste para hoje o que ouvistes; amanhã ouvireis quanto Deus quiser.

SERMÃO II

1 14Ontem devíamos terminar o salmo que começamos a comentar, conforme se lembra V. Caridade. Havíamos chegado ao versículo onde o Espírito de Deus assinala homens que só cuidam das coisas seculares e terrenas, e de nada da vida futura, nem consideram haver outra felicidade senão as riquezas e honras deste mundo, e o poder transitório. Quanto ao que vem depois da morte, só atendem a garantir para si um funeral cheio de pompa, a serem sepultados em mausoléus construídos de maneira admirável, a serem invocados seus nomes em suas terras. Não procuram obter habitação para a alma após esta vida. São estultos, que não tremem diante da palavra de Cristo: “Insensato, nesta mesma noite ser-te-á reclamada a alma. E as coisas que acumulaste, de quem serão?” (Lc 12,20). Nem consideram que depois dos lautos banquetes cotidianos, da púrpura e do linho fino, o rico é condenado aos tormentos no inferno, enquanto o pobre, após os trabalhos, as úlceras e a fome, repousa no seio de Abraão (cf Lc 16,19). Disso não cuidam, mas atendem ao presente, descuidados do que vem depois da morte, a não ser de que seus nomes reprovados no céu, sejam lembrados na terra. O Espírito Santo os descreve da seguinte maneira: “Seu caminho lhes serve de tropeço. Depois, louvarão com sua boca”. Está de acordo com o que nosso Senhor Jesus Cristo declara de alguns, que primeiro têm acesso à fé, são purificados pela palavra de Deus e pelos exorcismos em nome de Cristo para receberem a graça de Deus e serem batizados, e depois retornam a males piores do que aqueles pecados que antes cometiam. Diz o Apóstolo Pedro: “O seu último estado se torna pior do que o primeiro” (2Pd 2,20). E o Senhor: “A condição final daquele homem torna-se pior do que antes” (Lc 11,26). Qual a razão disso? Porque antes, ao menos era abertamente pagão; agora, disfarça-se sob o nome de cristão, e é um malvado oculto debaixo do véu da religião. Será pior, porque oculto, segundo a palavra do salmo: “Depois, louvarão com sua boca”, isto é, ouvem-se o nome de Deus e o nome de Cristo em seus lábios, mas não se encontram em seus corações. Aplica-se a eles a expressão: “Este povo me glorifica com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Is 29,13). Até aqui expliquei o salmo.

2 15Em seguida, assim começam os versículos que hoje devemos discutir e tratar: “São lançados no inferno, como ovelhas. A morte é seu pastor”. De quem? Daqueles cujo caminho lhes serve de tropeço. De quem? Dos que só dão atenção aos bens presentes, sem pensar nos futuros; dos que não consideram vida senão a que devia ser denominada morte. Não é, portanto, sem razão que, estando no inferno quais ovelhas, tenham a morte por pastor. Qual o sentido da frase: Têm a morte por pastor? A morte é efetivamente alguma coisa, um poder? De fato, a morte é separação entre alma e corpo; a que é temida pelos homens é a separação entre alma e corpo. Mas, a morte verdadeira, que os homens não receiam, é a da alma separada de Deus. Muitas vezes, os homens têm medo da morte que separa a alma do corpo, e por causa disso incorrem naquela que separa a alma de Deus. Isto é que é morte. Como, então, “a morte é seu pastor”? Se Cristo é a vida, o diabo é a morte. Temos em muitos lugares da Escritura a afirmação de que Cristo é a vida. A morte, porém, é o diabo; não que ele próprio seja a morte, mas porque a morte vem por meio dele. Quer se trate da morte em que incorreu Adão, pois foi pela persuasão do diabo que o homem a sorveu, quer seja a da separação entre alma e corpo, é seu autor aquele que primeiro caiu pela soberba e invejou o homem que estava de pé. Derrubou-o pela morte invisível de tal modo que também ficasse sujeito à morte visível. Têm a morte por pastor os que dele dependem; nós, porém, que consideramos a futura imortalidade, e com razão trazemos na fronte o sinal da cruz de Cristo, temos por pastor somente a vida. A morte é pastor dos infiéis, a vida pastoreia os fiéis. Se, portanto, acham-se no inferno as ovelhas que têm a morte por pastor, no céu estão aquelas cujo pastor é a vida. O que dizer, então? Já estamos no céu? No céu, segundo a fé. Se ainda não estamos no céu, para onde vamos quando ouvimos: Corações ao alto? Se não estamos no céu, onde, então, quando o Apóstolo declara: “Mas a nossa cidade está nos céus” (Fl 3,20)? Segundo o corpo, andamos na terra, mas de coração habitamos no céu. Lá está nossa habitação, se para lá enviamos algo que ali nos prenda. Pois, ninguém habita de coração senão no lugar em que pensa; onde está seu pensamento, está seu tesouro. Se entesoura na terra, o coração não se aparta da terra; se entesoura no céu, seu coração não desce do céu. O Senhor o afirma claramente: “Onde está o teu tesouro aí estará também teu coração” (Mt 6,21).

3 Aparentemente estão em franco progresso durante algum tempo aqueles cujo pastor é a morte, enquanto os justos estão em trabalhos. Por que isso? Porque ainda é noite. O que significa: é noite? Não aparecem os méritos dos justos, e a felicidade dos ímpios é afamada. No inverno a erva parece mais verde do que a árvore. A erva no inverno está verdejante, e a árvore parece seca. Ao sair o sol, com maior ardor no verão, a árvore que parecia seca no inverno, enche-se de folhas, produz frutos; ao contrário, a erva seca. Verás a árvore frondosa e a erva murcha. Assim também agora os justos pelejam, antes que venha o verão. A vida está na raiz e ainda não aparece nos ramos. Nossa raiz é a caridade. E o que diz o Apóstolo? Que tenhamos a raiz no alto, que a vida seja nosso pastor. Nossa habitação não deve estar fora do céu. Na terra vivamos como se estivéssemos mortos. Vivendo no alto, sejamos mortos aqui em baixo e não, ao invés, mortos em cima, vivos em baixo. Nossa vida e nosso coração não se afastem do alto. Como se exprime o Apóstolo? “Pois morrestes”; mas não tenhais medo: “A vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Eis onde se acha nossa raiz”. Quando a nossa honra aparecer, como se fossem folhas e frutos, conclui ele: “Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então vós também com ele sereis manifestados em glória” (Cl 3,3.4). Será a manhã. Efetivamente, agora não é a manhã. Inchem-se agora os soberbos e ricos deste mundo, os ímpios injuriem, os bons, os infiéis aos fiéis, dizendo: Que proveito tirastes em acreditar? O que possuís a mais por possuírem a Cristo? Respondam os fiéis, se o são de fato: Agora é noite. Ainda não se vê o que possuímos. As mãos não se cansem de praticar boas obras. Por isso, diz outra passagem dos salmos: “No dia de minha tribulação procurei a Deus, com minhas mãos, de noite, diante dele, e não fiquei decepcionado” (Sl 76,3). De manhã, nosso labor aparecerá e frutificará. Os que agora trabalham, depois dominarão; ao invés, os que agora se gabam e se orgulham, depois estarão sujeitos. Pois, como continua o salmo? “São lançados no inferno como ovelhas. A morte é seu pastor. E ao amanhecer os retos dominarão”.

4 Penso que este versículo já está bem claro, porque antes o explicamos: “Ao amanhecer os retos os dominarão”. Tolera a noite. Deseja a manhã. Não penses que à noite há vida, e de manhã não. Por acaso vive quem está dormindo, e quem acorda não vive? Não é o que dorme que se assemelha mais ao morto? Quais são os que dormem? Aqueles que o apóstolo Paulo desperta, se é que querem estar despertos. Porquanto ele interpela a alguns: “Ó tu, que dormes, desperta e levanta-te de entre os mortos, que Cristo te iluminará” (Ef 5,14). Quem é iluminado por Cristo fica vigilante, mas ainda não se manifesta o fruto de suas vigílias; ao amanhecer aparecerá, isto é, quando houverem passado as incertezas deste mundo. É noite. Não aparecem trevas? Alguém pratica o mal; vive, progride, causa terror, é honrado. Outro pratica o bem; é censurado, amaldiçoado, acusado, labuta, atemoriza-se. São trevas. Na raiz, contudo, acham-se vigor, frutos, opulência. A vida ainda não alcançou os ramos, mas a raiz não secou. Parece seca. Mas virá a época oportuna. Reveste-se de sua fronde, produz seus frutos. Como se exprime outro salmo a respeito daqueles aos quais não devemos invejar? “Bem cedo hão de secar como o feno e murchar qual erva do campo” (Sl 36,1.2). Cairão ao verem os santos à direita. Eles os insultavam. Mas falarão arrependidos, com inúteis e tardios remorsos. Recusam-se a fazer penitência proveitosa; então a farão em vão. Como se exprimirão, com seus remorsos? “São aqueles de quem outrora nos ríamos, de quem fizemos alvo de ultraje”. Refiro termos do livro da Sabedoria. Conhecem-nos os que costumam ouvilos. Essas palavras serão proferidas pelos malvados quando virem o juiz e os fiéis à sua direita, e todos os santos a julgarem com ele. Deverão exprimir-se assim. A Escritura registra suas palavras: “São aqueles de quem outrora nos ríamos, de quem fizemos alvo de ultraje, nós insensatos! Considerávamos a sua vida uma loucura” (Sb 5,3-4). Quando alguém começar a viver para Deus, a desprezar o mundo, a não vingar-se das injúrias recebidas, a não querer possuir riquezas na terra, nem procurar felicidade terrena, e desprezar tudo, a só pensar no Senhor, a não abandonar o caminho de Cristo, não são somente os pagãos que dizem: Está louco. Mais lamentável é que também dentro da Igreja muitos dormem e não querem despertar, de sorte que é dos seus, dos cristãos que aquele fiel escuta: Por que sofres? Meus irmãos quem é que pergunta ao homem que vive segundo o caminho de Cristo: Por que sofres? Quem é que pensamos que assim pergunta? Ficamos horrorizados porque os judeus disseram a nosso Senhor Jesus Cristo: “Tens um demônio” (Jo 8,48); e ao ouvirmos a leitura deste trecho do evangelho batemos no peito. Os judeus proferiram a respeito de Cristo detestável blasfêmia: “Tens um demônio”. E tu, cristão, se vires que um demônio foi expulso do coração de um homem, onde Cristo começa a habitar, e perguntas: Por que sofres? Não te parece que tem um demônio? Os judeus afirmavam que o próprio Senhor estava louco, quando proferia palavras que eles não entendiam. Disseram: “Ele tem um demônio! Está louco!” (Jo 10,20.21). Ao invés, outros despertavam do sono e afirmavam: “Não são de um possesso estas palavras”. De igual maneira, irmãos, ao ouvirem estas palavras as gentes, os habitantes da terra, os filhos do povo e os filhos dos homens, os ricos e os pobres, a saber, os que pertencem a Adão e os que pertencem a Cristo, uns declaram: “Tem um demônio”, e outros asseguram: “Não são de um possesso estas palavras”. Uns seguem os caminhos do mundo, e ouvem estas palavras por pouco tempo; outros não escutam em vão, mas atendem à palavra: “Prestai ouvidos, habitantes todos do orbe”. Enquanto assim agem, o fruto é incerto. Mas os que agem mal, e escolhem os caminhos do mundo, têm a morte por pastor; os que preferem o caminho de Deus, a vida é seu pastor. A própria Vida há de vir para julgar e condenar com seu pastor aqueles aos quais será dito: “Ide para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos”. Os que foram injuriados e escarnecidos por sua fé, ouvirão da própria Vida, seu pastor: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o reino preparado para vós desde a criação do mundo” (Mt 25,41.34). “Os retos”, portanto, “os dominarão”, não agora, mas “ao amanhecer”. Ninguém diga: Para que sou cristão? Não mando em ninguém. Se ao menos desse ordens aos iníquos! Não te apresses. Hás de dominar, mas ao amanhecer. “Os auxílios, de que se gloriam, no inferno perderão o viço”. Agora têm a glória; mas no inferno perderão o viço. Quais “os seus auxílios”? Auxílio proveniente do dinheiro, dos amigos, de seu poder. Mas, no dia em que morrer, perecerão todas as suas cogitações (cf Sl 145,4). Quanto maior for a glória que parecer possuir entre os homens, em vida, maior terá o envelhecimento e a corrupção inerentes aos suplícios, no inferno, quando morrer.

5 16“Entretanto Deus livrará a minha alma”. Palavra de esperança, para o futuro: “Entretanto Deus livrará a minha alma”. Pode ser também palavra de quem procura livrar-se das angústias. De um encarcerado que afirma: Deus há de livrar a minha alma; de um prisioneiro: Deus livrará a minha alma. Alguém em perigo no mar, sacudido pelas ondas e no furor da tempestade, o que diz? Deus há de livrar a minha alma. Querem salvar a vida. Diferente é o versículo do salmo. Ouve como prossegue: “Deus livrará a minha alma do poder do inferno, tomando-me consigo”: Refere-se à redenção que Cristo já demonstrou em si. Ele desceu aos infernos, e subiu ao céu. Descobrimos no corpo o que vimos na Cabeça. Testemunhas oculares nos anunciaram aquilo que acreditamos realizado na Cabeça; vimos através deles, porque somos um só corpo. (cf 1Cor 12,12; Rm 12,5). Mas, seriam melhores os que viram do que nós que recebemos a mensagem? Não é isso que assevera a própria Vida, nosso pastor. Pois, censura determinado discípulo com dúvidas, e desejoso de apalpar as suas cicatrizes; e após ter ele tocado as chagas e exclamado: “Meu Senhor e meu Deus!” o Senhor o viu, com suas dúvidas, e considerando toda a terra que haveria de crer, disse: “Porque viste, creste. Felizes os que não viram e creram!” (Jo 20,28.29). “Entretanto Deus livrará a minha alma do poder do inferno, tomando-me consigo”. Aqui, na terra, com que contamos? Com trabalho, angústias, tribulação, tentação; não esperes outra coisa. Onde haverá alegria? Na esperança dos bens futuros, porquanto ordena o Apóstolo: “Sempre alegres”. Em meio a tantas tribulações, sempre alegres, sempre tristes; sempre alegres, porque ele mesmo declara: “Como tristes e, não obstante, sempre alegres”. Nossa tristeza vem acompanhada de um “quase”, como se; nossa alegria não tem um “quase”, porque na esperança ela é segura. Por que motivo nossa tristeza tem antes um “como se”? Porque há de passar como um sonho, e “ao amanhecer os retos dominarão”. Sabe V. Caridade que alguém, ao contar um sonho, acrescenta: “como que”. Como que estava sentado, como que falava, tomava uma refeição, montava o cavalo, discutia. Tudo isso: “como que”. Ao acordar, não encontra o que via. Um mendigo narra: Como que encontrei um tesouro. Não seria mais mendigo, se não fosse aquele “quase”, mas como foi “quase”, continua mendigo. De igual maneira, os que têm olhos abertos para as alegrias deste mundo e o coração fechado, passa o “como que” e vem a realidade. O “quase” é a felicidade neste século, e a realidade é o castigo. Para nós, porém, a tristeza é “como que”, mas a alegria não é “como que”. Pois, o Apóstolo não diz: como que alegres, mas sempre tristes; ou: Como tristes e como alegres; e sim: “Como tristes, e não obstante, sempre alegres; como indigentes” (e aqui disse: assim como, “sicut” em vez de quase “quasi”) “e, não obstante, enriquecendo a muitos”. Quando o Apóstolo assim se expressava, nada possuía; havia renunciado a tudo e nada tinha. E como prossegue? “Como nada tendo, embora tudo possuamos” (2Cor 6,10). Nada ter era o “quase” do Apóstolo; e o possuir não era “quase”. Como necessitado, enriquecia de fato a muitos, e não: quase. Como nada tendo; não obstante, tudo efetivamente possuía, e não quase. Por que em verdade possuía tudo? Porque se unia ao criador de tudo. “Entretanto, Deus livrará a minha alma do poder do inferno, tomando-me consigo”.

6 17O que sucede aos que querem prosperar na terra? Vês um homem malvado progredindo em tudo, e talvez teus pés vacilem, enquanto dizes a ti mesmo: Ó Deus, conheço bem as ações deste homem, os crimes que praticou, e no entanto progride, causa terror, domina, orgulha-se, não tem dor de cabeça, não sofre perdas em casa; e terás medo de ter acreditado e provavelmente sugere-te o coração: Ai de mim! Nada me adianta ter acreditado, pois Deus não cuida das coisas humanas. Deus, entretanto, nos desperta. Como? “Não temas quando um homem se enriquece”. Por que recear se um homem se enriquece? Tinhas medo de ter acreditado em vão, de perder o trabalho de tua fé e a esperança de tua conversão. Talvez te tenha apresentado oportunidade de um lucro fraudulento, e poderias, se o obtivesses com dolo, estar rico e não trabalhar; mas ponderando nas ameaças de Deus, tu evitaste a fraude e desprezaste o lucro. Vês que outro obteve lucro fraudulento, e nada sofreu; e tens medo de ser bom. “Não temas”, diz o Espírito de Deus, “quando um homem se enriquece”. Queres ter olhos só para as coisas presentes? O ressuscitado prometeu bens futuros; quanto à paz nesta terra e ao repouso nesta vida, não há promessa. Cada um procura ter repouso; é boa coisa o que deseja, mas não a procura onde se encontra. Não existe paz nesta vida. Foi-nos prometido alcançarmos no céu aquilo por que anelamos na terra. Há promessa de termos no século futuro o que queríamos ter aqui.

7 17.18“Não temas quando um homem se enriquece, e avulta o esplendor de sua casa”. Por que motivo: “Não temas? Pois ao morrer nada levará consigo”. Olhas um ser vivo; pensa que há de morrer. Presta atenção ao que tem aqui; observa o que leva consigo. Que bens leva consigo? Tem aqui muito ouro, muita prata, muitos prédios, escravos. Morre. Fica tudo isso e ele não sabe para quem. Pois, embora deixe para quem quiser, não conserva para quem quiser, porquanto muitos adquiriram aquilo que não lhes foi legado, e muitos perderam o que herdaram. Por conseguinte, fica tudo aqui, e o que leva consigo? Talvez responda alguém: Leva consigo as vestes com que está recoberto, e o que é gasto num sepulcro precioso e invertido de mármore, para manter sua memória; isto é o que leva consigo. Respondo: Nem isso. São empregados em favor de um insensível. Se colocas ornamentos em alguém que dorme, que não está desperto, ele os tem consigo no leito; talvez está bem vestido o corpo inerte, enquanto em sonhos ele se vê em farrapos. É mais importante para ele o que sente do que o que não sente. Embora não o seja quando acordar, no entanto, enquanto dormia, importava-lhe mais o que via em sonhos do que aquilo que não percebia. Então, irmãos (apesar de dizerem os homens: Façam-se despesas com a minha morte; porque hei de deixar ricos os meus herdeiros? Herdarão muito do que é meu. Receba eu também um pouco do que é meu, em meu corpo), o que receberá o cadáver? O que terá a carne em putrefação? O que receberá o corpo insensível? Se aquele rico (cf Lc 16,24), cuja língua estava ressequida, recebeu alguma coisa, então esses outros terão algo do que era seu. Irmãos, por acaso lemos no evangelho que aquele rico aparecia no meio do fogo com vestes inteiramente de seda e linho fino? Era tal no inferno qual se apresentava à mesa dos banquetes? Se tinha sede e desejava uma gota de água, não tinha ali todas essas coisas. Em consequência, o homem não leva consigo tudo, nem carrega consigo o morto aquilo que a sepultura recebe. O homem se acha onde está sua sensibilidade; se está insensível, já não é homem. Está prostrado o vaso que continha o homem, a casa que o abrigava. Digamos que o corpo é a casa e o espírito o seu habitante. O espírito estava atormentado no inferno; de que lhe servia ter o corpo a jazer entre cinamono e aromas, envolvido em preciosa mortalha? Assemelha-se ao seguinte: o dono da casa é exilado, e tu ornamentas as paredes da casa. Ele vive no exílio em necessidade, faminto, mal encontra uma cela para dormir, e dizes: Ele é feliz, pois sua casa está ornamentada. Quem não pensaria numa pilhéria, ou que estás louco? Enfeitas o corpo e o espírito é torturado. Dá alguma coisa à alma, e deste ao morto. Mas o que podes lhe dar, se desejou uma gota de água e não recebeu? Aqui na terra ele descuidou de enviar algo a sua frente. Por que desprezou fazê-lo? Porque o caminho do pecador serve de tropeço. Considerava como vida só a presente, e providenciou apenas ser sepultado com roupas preciosas. Sua alma lhe foi pedida, conforme diz o Senhor: “Insensato, nessa mesma noite serte-á reclamada a alma. E as coisas que acumulaste, de quem serão” (Lc 12,20)? E cumpriu-se a palavra deste salmo: “Não temas quando um homem se enriquece, e avulta o esplendor de sua casa. Pois, ao morrer nada levará consigo, nem descerá ao sepulcro com ele a sua glória”.

8 19“Porque durante a vida bendisse a si mesmo”. Prestai atenção. “Porque durante a vida bendisse a si mesmo”. Enquanto vivia, cuidou de seu bem-estar. Assim opinam todos, mas é falso. A bênção provém do ânimo de quem bendiz, e não da realidade em si. O que estás dizendo? Uma vez que ele comeu e bebeu, fez tudo o que quis, banqueteou-se fartamente, fez o bem a si mesmo? A meu ver ele praticou o mal para si. Pois, aquele rico quando diariamente se banqueteava com requinte, pensava que procurava o bem para si; ao começar a arder no inferno, então verificou que era um mal o que ele julgava um bem. Comera na terra e digeria nos infernos. Quero dizer, irmãos, a iniquidade com que se fartava. Ingeria alimentos caríssimos com a boca carnal, e a boca do coração alimentava-se de iniquidade. O que na terra, o coração ingeria, nos infernos digeria entre suplícios. Efetivamente, comera por algum tempo e eternamente digeria o mal. Então se come a iniquidade? Talvez pergunte alguém: O que é que dizes? Come-se a iniquidade? Não sou eu que digo. Escuta como se exprime a Escritura: “Vinagre nos dentes, fumaça nos olhos, tal é a iniquidade para quem a emprega” (Pr 10,26). Quem ingerir a iniquidade, isto é, quem a praticar voluntariamente, não poderá assimilar a justiça. Pois, a justiça é pão. Quem é pão? “Eu sou o pão vivo descido do céu” (Jo 6,51), diz o Senhor: Ele é o pão de nosso coração. Quem ingerir pela boca uvas ácidas fica com os dentes sem corte, embotados, e torna-se-lhe difícil até comer pão; resta-lhe elogiar o que vê, sem poder comer. Assim também, quem praticou a iniquidade e com o coração se alimentou de pecados, começa a ser incapaz de comer pão; louva a palavra de Deus e não a pratica. Por que não a pratica? Porque ao começar a praticá-la, sente dificuldade, como sentimos que é difícil para os dentes, depois das uvas azedas, comer pão. Mas o que fazem os que ficaram com os dentes embotados? Abstêm-se um pouco das uvas ácidas, e os dentes recuperam sua força e mastigam o pão. Igualmente nós louvamos a justiça; se queremos ingerir a justiça, abstenhamo-nos das iniquidades; e nascerá no coração não apenas o gosto de louvar a justiça, mas ainda a facilidade de a assimilar. Pois, se declara cristão: Deus sabe que me agrada, mas não posso praticá-la, ele tem os dentes quebrados, porque longamente se alimentou da iniquidade. Então, também se come a justiça? Se não se comesse, o Senhor não teria dito: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça” (Mt 5,6). “Durante a vida bendisse a si mesmo”. Durante a vida bendisse, na morte será atormentado.

9 “Confessar-te-á quando lhe fizeres o bem”. Atendei. Alimentai-vos. Adira a vossos corações. Comei. Observai tais homens e não sejais de seu número. Precavei-vos de tais palavras. “Confessar-te-á quando lhe fizeres o bem”. Quantos, irmãos, são os cristãos que agradecem a Deus quando obtêm algum lucro! É o que significa: “Confessar-te-á quando lhe fizeres o bem”. Louvará e dirá: Em verdade, tu és o meu Deus. Livrou-me do cárcere, eu o confessarei. Veio um lucro, louva; veio uma herança, louva; sofre um revés, blasfema. Que espécie de filho és tu; se o pai te corrige, te desagrada? Corrigiria, se não lhe desagradasses? Ou se desagradasses a tal ponto que te odiasse, procurarias te emendar? Agradece àquele que te corrige a fim de receberes a herança da parte de Deus que te emenda. Estás sendo educado ao seres corrigido. Se corrige muito é por ser grande o que deves receber. Pois, se pesares a correção, tendo por contrapeso a recompensa, verás que nada é o castigo presente. O apóstolo Paulo o assegura: “Pois nossas tribulações momentâneas são leves em relação ao peso eterno de glória que elas nos preparam. Mas quando? Não olhamos para as coisas que se veem: pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno”. E ainda: “Os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que deverá revelar-se em nós” (2Cor 4,17.18; Rm 8,18). Por conseguinte, que importância tem o que sofres? Mas, sofres continuamente. Concedo. Desde que nasceste, em todas as idades até a velhice, até a morte, imaginemos que sofreste o que padeceu Jó. O que ele sofreu em alguns dias, sofre alguém desde a infância. Todavia, passa o que sofres; o que hás de receber não terá fim. Não proponho que iguales a pena ao prêmio. Se puderes, iguala o tempo à eternidade.

10 “Confessar-te-á quando lhe fizeres o bem”. Não sejais destes homens, irmãos. O motivo de dizermos estas coisas, de as cantarmos, de explicarmos, de suarmos é este: Não procureis agir assim. Vossos negócios vos experimentam. Algumas vezes, em vosso negócio ouvis a verdade e blasfemais, blasfemais contra a Igreja. Por quê? Porque sois cristãos. Se assim é, dizes, passo para o partido de Donato; quero ser pagão. Qual a razão? Porque mordeste o pão e doem-te os dentes. Ao vires o pão, louvavas; começaste a comer e os dentes doem; isto é, ouvias a palavra de Deus e louvavas com os outros; mas se te é dito: Age desta maneira, blasfemas. Não faças isto. Dize: O pão é bom, mas eu não posso comê-lo. Pois, se o vês com os olhos, elogias; ao começares a mastigar, dizes: Este pão é ruim. Quem é que o fez? Acontece, então, que confessas a Deus, quando ele te faz o bem. E mentes, ao cantares: “Bendirei o Senhor em todo o tempo; seu louvor estará sempre em minha boca” (Sl 33,2). Exige-se que teu coração esteja de acordo com o cântico de teus lábios. Cantaste na Igreja: “Bendirei o Senhor em todo o tempo”; como “em todo o tempo”? Se obténs lucro em todo o tempo, em todo o tempo bendizes; se vem algum prejuízo, não bendizes, mas blasfemas. Certamente bendizes em todo o tempo, com certeza seu louvor estará sempre em tua boca? Ou serás tal como aqui é descrito: “Confessar-te-á quando lhe fizeres o bem”?

11 20.21“Entrará na linhagem de seus pais”, isto é, imitará os seus pais. Os iníquos de hoje têm irmãos e pais. Os iníquos de outrora são os pais dos iníquos atuais; e os do presente são pais dos iníquos do futuro, assim como pais dos justos são os antigos justos, que são os pais dos justos atuais como estes o serão dos futuros justos. O Espírito Santo quis mostrar que a justiça não é um mal, mesmo quando se murmura contra ela; mas estes murmuradores, desde a sua origem até à linhagem de seus pais, têm seu próprio pai. Adão gerou dois filhos. Num existia a iniquidade e em outro a jutiça: a iniquidade em Caim, a justiça em Abel (cf Gn 4,8). Na aparência, a iniquidade prevaleceu sobre a justiça, porque o injusto Caim matou o justo Abel, à noite. E de manhã? Ao contrário, “ao amanhecer os justos os dominarão”. Virá a manhã, e ver-se-á onde está Abel, e onde Caim. O mesmo acontece aos que vivem de acordo com Caim, e aos que vivem de acordo com Abel, até o fim do mundo. “Entrará na linhagem de seus pais e jamais verá a luz”. O injusto enquanto estava aqui, estava nas trevas, gozando de bens falsos e desprezando os verdadeiros e por este motivo daqui irá para o tártaro; saindo das trevas dos sonhos, recebem-no as trevas dos tormentos. Por conseguinte, “jamais verá a luz”. Mas, por que isto? O salmista repete no fim o que escreveu no meio do salmo: “O homem, entre honrarias, não entendeu. Foi comparado aos jumentos irracionais e se lhes fez semelhante”. Vós, porém, irmãos, considerai-vos como homens feitos à imagem e semelhança de Deus (cf Gn 1,26). A imagem de Deus acha-se no íntimo, não no corpo. Não se acha nos ouvidos que vês, nem nos olhos, no nariz, no paladar, nas mãos, nos pés. No entanto, foi feita. Onde se encontra o intelecto, a mente, a razão que investiga a verdade, a fé, a vossa esperança, a vossa caridade, lá tem Deus a sua imagem. Com estes meios, entendeis e vedes as coisas transitórias, conforme se exprime outro salmo: “Passa o homem como em imagem, e no entanto, é em vão que ele se atormenta: Acumula tesouros e não sabe para quem ajuntará” (Sl 38,7). Não vos perturbeis, porque esses bens, sejam quais forem, são passageiros; contanto que sejais homens entre honrarias, mas que entendeis. Pois, se sois homens, entre honrarias, que não entendeis, sereis comparados aos jumentos irracionais, e a eles vos assemelhareis.

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

Comentário de Santo Agostinho ao Salmo 46

SERMÃO AO POVO

1 O Senhor nosso Deus espargiu os objetos da fé na qual vivemos e pela qual vivemos, de muitos e vários modos, pelos livros santos das Sagradas Escrituras; diversificou os mistérios por muitas palavras, mas recomendou uma só fé. Uma só e mesma realidade está expressa de muitas maneiras, de sorte que varia o próprio modo de dizer, para se evitar o fastio, mas ela é uma só, manifestada em termos concordantes. Por isso, sobre o salmo cujo canto acabamos de ouvir, e ao qual respondemos cantando, diremos coisas conhecidas. No entanto, é possível que, com o auxílio e a graça do Senhor, vos apresentemos algo de interessante, para meditardes, como que ruminando, o que já sabíeis de outras fontes. Pois é por meio da ruminação que Deus distingue os animais puros, insinuando desta maneira que o homem deve guardar no coração o que ouve, sem ter preguiça posteriormente de pensar na questão. Quando ouve, o homem assemelha-se ao animal que come; quando, porém, recorda o que ouviu, parece-se com o animal que rumina. Por conseguinte, as mesmas verdades são ditas de várias maneiras, e nos fazem pensar com gosto no que já sabemos e ouvi-lo de bom grado. O modo de explicar varia, e a velha verdade apresenta novos aspectos pelo modo de ser explanada.

2 1O salmo tem por título: “Para o fim, dos filhos de Coré. Salmo de Davi”. Alguns outros salmos têm no título esses filhos de Coré. Indicam eles um suave mistério, insinuam um grande sinal. De bom grado entendamos que se referem a nós; reconheçamos no título a nós que ouvimos e lemos, e contemplemo-nos, como em espelho. Quem são os filhos de Coré? Houve um homem chamado Coré. Assim se denominava certo homem. Todavia, quando se lê o que foi escrito e se vê que a palavra de Deus trata de alguns que não podem ser filhos deste único homem, chamado Coré, o espírito recorre ao mistério para inquirir o que significa Coré. Pois, é palavra hebraica, que se profere como tal e se traduz em grego e em latim. Assim acontece muitas vezes. Muitos nomes hebraicos foram traduzidos para nós. Entre eles, vemos e descobrimos que Coré significa calvo. Destes mais atenção. Era obscuro falar em filhos de Coré. Mais obscuro ainda se falarmos em filhos do calvo? Quem são estes filhos do calvo? Talvez os filhos do esposo? Pois, o esposo foi crucificado no Calvário (cf Mt 27,33). Relembrai-vos do evangelho. Cristo foi crucificado; verificareis que o lugar onde foi crucificado se chama Calvário. Em seguida, os que zombavam da cruz, foram devorados pelos demônios, essas feras. Determinada passagem da Escritura o figurou. Ao subir o profeta de Deus Eliseu, meninos clamavam atrás dele, por zombaria: “Sobe, careca! Sobe, careca!” Ele, porém, não por crueldade, mas enquanto figurava um mistério, fez com que ursos saíssem do bosque e devorassem aqueles meninos (cf 2Rs 2,23.24). Se aqueles meninos não tivessem sido devorados, acaso ainda viveriam? Ou mortais como eram, não podiam ter morrido de febre? No entanto, neste caso não apareceria neles o mistério, para atemorizar os pósteros. Ninguém, portanto, ridicularize a cruz do Senhor. Os demônios se apoderaram dos judeus e os devoraram. Pois, eles, crucificando a Cristo no Calvário, e erguendo a cruz, como que diziam com mentalidade pueril, sem saber o que diziam: “Sobe, careca!”. Como: “Sobe? Crucifica-o, crucifica-o” (Lc 23,21). Uma vez se propõe a infância como exemplo de humildade, e de outra, para nos precaver da insensatez. O Senhor propõe a infância como exemplo de humildade, ao chamar a si os pequeninos e dizer aos que queriam impedi-los: “Deixai as crianças e não as impeçais de virem a mim, pois delas é o Reino dos céus” (Mt 18,2; 19,14). O Apóstolo é que propôs a infância como modelo de insensatez a evitar: “Irmãos, quanto ao modo de julgar, não sejais como crianças”. E ainda propõe o exemplo imitável: “Quanto à malícia, sim, sede crianças; mas, quanto ao modo de julgar, sede adultos” (1Cor 14,20). “Dos filhos de Coré”. É cantado o salmo; para os cristãos ele é cantado. Ouçamo-lo como filhos do esposo, que os meninos insensatos crucificaram no Calvário. Eles mereceram ser devorados pelas feras; nós, porém, merecemos ser coroados pelos anjos. Pois, reconhecemos a humildade de nosso Senhor, e não nos coramos dela. Não nos envergonhamos dele, chamado misticamente de calvo, devido ao Calvário. A própria cruz, na qual ele foi insultado, não permitiu que seja calva a nossa fronte, porque nela temos o seu sinal. Finalmente para compreenderdes que tudo isto se diz por nossa causa, vede como reza o salmo.

3 2“Nações todas, batei palmas”. Por acaso, o povo judaico constituía todas as nações? Mas a cegueira tomou parte de Israel, de sorte que os meninos insensatos gritavam: “Careca, careca!” O Senhor foi crucificado no Calvário, para remir os povos com seu sangue derramado, e assim se cumprisse o que disse o Apóstolo: “O endurecimento atingiu uma parte de Israel até que chegue a plenitude dos gentios” (Rm 11,25). Insultem, portanto, os levianos, néscios e insensatos, dizendo: “Careca, careca!” Vós, porém, redimidos em seu sangue, derramado no Calvário, reconhecei que a graça de Deus vos atingiu e dizei: “Nações todas, batei palmas”. O que significa: “batei palmas”? Alegrai-vos. Mas por que batei “com as mãos”? Por se tratar das boas obras. Não vos alegreis só de boca, com as mãos inertes. Se vos alegrais, “batei palmas”. Veja se movimentarem as mãos dos povos aquele que se dignou dar-lhes a alegria. Quais são essas mãos? As ações boas. “Nações todas, batei palmas: aclamai a Deus com vozes de alegria”. Com a voz, com as mãos. Se somente com a voz, não fica bem, porque as mãos ficam inertes; se somente com as mãos, também não, pois a língua fica muda. Concordem as mãos e a língua; esta confesse, aquelas operem. “Aclamai a Deus com vozes de alegria”.

4 3“Porque o Senhor é excelso, terrível”. Deus que é excelso, ao descer à terra é escarnecido, mas tornou-se terrível ao subir. “Grande rei sobre toda a terra”. Não apenas sobre os judeus; pois também sobre eles é rei. Eram deste povo os apóstolos que acreditaram, dele igualmente os milhares de homens que venderam seus bens e depositaram seu preço aos pés dos apóstolos (cf At 4,34). Cumpriu-se para eles o título da cruz: “Rei dos judeus” (Mt 28,37). Pois, ele é rei dos judeus. Mas não basta. “Nações todas, batei palmas, porque Deus é o grande rei sobre toda a terra”. Não lhe é suficiente ter um só povo sob seu domínio. O sangue que lhe saiu do lado é tão grande preço que comprou toda a terra. “Grande rei sobre toda a terra”.

5 4“Submeteu os povos ao nosso jugo e pôs as nações sob nossos pés”. Quais as nações sujeitas e a quem? Quais são estes que falam? Acaso os judeus? Certamente são os apóstolos, certamente os santos. A eles Deus submeteu povos e nações, e assim hoje são honrados no meio dos gentios aqueles que foram mortos por seus concidadãos. Aconteceu o mesmo que ao Senhor que foi morto por seus conterrâneos, e é honrado pelas nações, foi crucificado pelos seus e é adorado pelos estrangeiros; mas tornou-os seus pelo preço que pagou. Comprou-nos a fim de que não lhe fôssemos estranhos. Pensas que os apóstolos tenham declarado: “Submeteu os povos ao nosso jugo e pôs as nações sob nossos pés”? Não sei. Seria de admirar que os apóstolos assim falassem, com soberba, alegrando-se de que os povos estivessem a seus pés, isto é, os cristãos sob seus pés. Efetivamente eles se regozijam por estarmos com eles aos pés daquele que morreu por nós. Pois, corriam para ficar aos pés de Paulo os que queriam ser dele. O Apóstolo os interrogava: “Paulo terá sido crucificado em vosso favor?” (1Cor 1,13). O que significa então esta palavra? Como a tomaremos? “Submeteu os povos ao nosso jugo e pôs as nações sob nossos pés”. Os que têm parte na herança de Cristo pertencem a todas as nações, e os que não têm igualmente vêm de todas as nações. Vedes que de tal modo é exaltada a Igreja em nome de Cristo que todos os que ainda não acreditam em Cristo, estão sob os pés dos cristãos. Atualmente, quantos que ainda não são cristãos correm à Igreja e pedem-lhe auxílio; querem ser socorridos materialmente, embora ainda não desejem reinar conosco eternamente. Se todos buscam socorro na Igreja, mesmo os que ainda não lhe pertencem, não é por que ele “submeteu povos e gentes sob nossos pés”?

6 5“Escolheu-nos para sua herança, beleza de Jacó por ele amada”. Escolheu para nós a beleza de Jacó, a sua herança. Esaú e Jacó eram irmãos gêmeos. Eles lutavam no seio materno, que se ressentia deste conflito. E ali foi escolhido o menor e preferido ao mais velho, conforme está escrito: “Há duas nações em teu seio. O mais velho servirá ao menor” (Gn 25,23). Em todas as nações encontra-se o maior, e em todas elas o menor. Constituem o menor os bons cristãos, escolhidos, piedosos, fiéis. O maior é formado pelos soberbos, indignos, pecadores, contumazes, os que mais defendem os próprios pecados que os confessam, qual foi o próprio povo judaico que ignorou a justiça de Deus, querendo estabelecer a sua (cf Rm 10,3). Mas como foi dito: “O mais velho servirá ao menor”, torna-se manifesto que os ímpios se submeterão aos pios, e os soberbos estarão sujeitos aos humildes. Esaú nasceu primeiro e em seguida Jacó; mas o que nasceu em segundo lugar foi preferido ao primeiro, que perdeu o direito a sua primogenitura, por causa da gula. Assim está escrito: “Desejou a lentilha, e seu irmão lhe propôs: Se queres que te dê, vende-me o direito de primogenitura” (cf Gn 25,30-34). Esaú preferiu satisfazer seu desejo carnal a manter seu direito que tinha espiritualmente por nascimento. Desfez-se de sua primogenitura, para comer lentilha. Sabemos que a lentilha é uma comida egípcia, pois dá com abundância no Egito. É famosa a lentilha de Alexandria, e é exportada até para nossa terra, como se aqui não nascesse lentilha. Esaú, pois, cobiçando a comida egípcia, perdeu a precedência. De igual modo o povo judaico, do qual foi dito: “Voltaram de coração para o Egito” (At 7,39). De certa maneira cobiçou lentilhas e perdeu a primazia. “Escolheu-nos para sua herança, beleza de Jacó por ele amada”.

7 6“Deus subiu entre aclamações jubilosas”. Nosso Deus o Senhor Jesus Cristo “subiu entre aclamações jubilosas. O Senhor subiu ao som da trombeta. Subiu”. Para onde, a não ser para onde sabemos? Os judeus não o seguiram, nem com os olhos. Zombaram dele na cruz, e não o viram subir ao céu. “Subiu Deus entre aclamações jubilosas”. Que é júbilo senão alegre admiração, inex-plicável por palavras? Assim se admiraram os discípulos, cheios de alegria ao contemplarem subindo ao céu aquele que haviam chorado por ocasião de sua morte. De fato, as palavras não eram suficientes para manifestar tal alegria; restava o júbilo, que é inexplicável. Na ascensão houve também som de trombeta, isto é, a palavra dos anjos. Pois, foi dito: “Levanta a tua voz como uma trombeta” (cf At 1,9; Is 58,1). Os anjos anunciaram a ascensão do Senhor. Os discípulos assistiram à subida do Senhor, com íntima participação, cheios de admiração, espanto, calados, com corações jubilosos. E o som da trombeta foi a palavra bem clara dos anjos: “Homens da Galileia, porque estais aí? Esse é Jesus”. Como se eles não soubessem que ele era Jesus. Não o haviam visto pouco antes? Não o ouviram, dirigindo-se a eles? Verdadeiramente, não só o viram pessoalmente presente, mas até tocaram seus membros (cf Lc 24,39). Então, não sabiam que ele era Jesus? Mas, devido à própria admiração, por causa da alegria jubilosa, como que fora de si, falaram os anjos: “Ele é Jesus”. Seria: Se acreditais nele, é o mesmo que ao ser crucificado deixou-vos com os pés vacilantes, e ao ser morto e sepultado, ficastes pensando que toda esperança estava perdida. E no entanto, este é o próprio Jesus. Subiu antes de vós. “Virá do mesmo modo que para o céu o vistes partir” (At 1,11). Corporalmente é arrebatado de vossos olhos, mas enquanto Deus não se separa de vossos corações. Vede-o a subir, acreditai no ausente, esperai o que há de voltar; por sua misericórdia oculta, contudo, percebei sua presença. Aquele que subiu ao céu, furtando-se a vossos olhares, prometeu-vos: “Eis que estou convosco até a consumação dos séculos” (Mt 28,20). Foi com razão que o Apóstolo nos dizia: “O Senhor está próximo! Não vos inquieteis” (Fl 4,5.6). Cristo está sentado acima dos céus e estes estão longe: contudo aquele que está sentado lá, está próximo de nós. “Subiu o Senhor ao som de trombeta”. Vós, portanto, filhos de Coré, se entendestes o que sois, e aqui vos vistes, alegrai-vos por estar aqui.

8 7“Salmodiai ao nosso Deus, salmodiai”. Cantai salmos a nosso Deus, de quem zombaram, como se fosse apenas homem, os que dele se afastaram. Pois, ele não é homem somente; é igualmente Deus. Homem da descendência de Davi (cf Rm 1,3), Deus Senhor de Davi, assumindo a carne proveniente dos povos dos judeus, “aos quais pertencem os patriarcas”, como diz o Apóstolo, “e dos quais descende o Cristo, segundo a carne” (Rm 9,5). Dos judeus, portanto, vem o Cristo, mas segundo a carne. Quem é, todavia, este Cristo, descendente dos judeus, segundo a carne? “Ele é, acima de tudo, Deus bendito pelos séculos”. Deus, anterior à carne, Deus na carne, Deus encarnado. Não existia apenas anteriormente à carne, mas Deus antes da terra, de onde foi tirada a carne. Não apenas Deus antes da terra, de onde foi feita a carne, mas igualmente Deus anterior ao céu, que foi feito antes da terra. Deus também antes de haver dia, que foi o primeiro a ser criado. Deus antes de todos os anjos, o próprio Cristo porque “no princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Tudo foi feito por meio dele, e sem ele nada foi feito” (Jo 1,1-3). Ele por meio de quem tudo foi feito, existia antes de todas as coisas. “Salmodiai, portanto, ao nosso Deus, salmodiai”.

9 8“Porque Deus é o rei de toda a terra”. Como, então? E anteriormente, não era Deus de toda a terra? Por acaso não era Deus do céu e da terra, pois, de fato, por ele foram feitas todas as coisas? Quem poderia dizer que ele não é seu Deus? Não obstante, nem todos os homens reconheceram seu Deus; e quase se poderia dizer que era Deus onde era conhecido. Deus era conhecido na Judeia (cf Sl 75,2). Ainda não fora dito aos filhos de Coré: “Nações todas, batei palmas”. Aquele Deus, conhecido na Judeia, é o Deus, rei de toda a terra. Já é conhecido por todos, porque se cumpriu a palavra de Isaías: “O Santo de Israel é teu redentor. Ele se chama o Deus de toda a terra” (Is 54,5). “Porque Deus é o rei de toda a terra. Cantai com sabedoria”. Ensina-nos, admoesta-nos a cantar com sabedoria. Não procuremos sons agradáveis aos ouvidos e sim luz para o coração. “Cantai com sabedoria”. Os gentios, de entre os quais fostes chamados para vos tornardes cristãos, adoravam os ídolos, e cantavam para eles; mas não com sabedoria. Se cantassem com sabedoria, não adorariam pedras. Se um homem sensato canta diante de uma pedra insensível, por acaso canta com sabedoria? Agora, porém, irmãos, não vemos com nossos olhos aquele a quem adoramos, e no entanto adoramos de maneira correta. A consideração que temos para com Deus é tanto maior quanto não o vemos com nossos olhos. Se o víssemos com nossos olhos, talvez o desprezássemos. Pois, também a Cristo os judeus que o viram o desprezaram, e os gentios que não o viram o adoraram. A estes últimos foi dito: “Cantai com sabedoria”. “Não sejais como o cavalo e o mulo, sem inteligência” (Sl 31,9).

10 9“Deus reinará sobre todas as nações”. Ele reinava sobre uma nação, e agora “reinará sobre todas as nações”. Deus reinava sobre uma só nação, quando isto era dito; era profecia, ainda não a realidade presente. Graças a Deus por vermos cumprir-se a anterior profecia. Deus nos deu um quirógrafo escrito, para pagar-nos uma vez chegada a época do vencimento. “Deus reinará sobre todas as nações” — é a promessa “Deus está sentado em seu trono santo”. Foi então prometido para o futuro; agora vemos cumprido e o temos. “Deus está sentado em seu trono santo”. Qual? Talvez os céus; é uma boa explicação. Cristo subiu, conforme sabemos, com o mesmo corpo com que foi crucificado, e está sentado à direita do Pai; de lá há de vir, como esperamos, a julgar os vivos e os mortos (cf At 1,2; 1 Tm 4,1). “Está sentado em seu trono santo”. Os céus são o seu trono santo? Queres também tu ser o trono de Deus? Não julgues que não o podes. Prepara para ele um lugar em teu coração; ele virá, e com gosto aí se sentará. Ele certamente é a virtude de Deus e a sabedoria de Deus (cf 1Cor 1,14; Sb 7). E o que diz a Escritura da sabedoria? A alma do justo é a sede da sabedoria. Se, portanto, a alma do justo é a sede da sabedoria, seja justa a tua alma, e serás o trono real da sabedoria. E, de fato, irmãos, em todos os homens que vivem honestamente, que agem bem, vivem segundo a caridade e a piedade, acaso Deus não tem neles seu trono e de lá dá ordens? A alma que tem Deus estabelecido em si obedece-lhe, e dá ordens a seus membros. Tua alma ordena a teus membros: como se deve mover o pé, a mão, o olho, o ouvido e manda em seus membros, como se fossem seus servos; mas ela mesma interiormente serve a seu Senhor, nela sediado. Não pode bem ordenar a seus inferiores, se não se dignar servir a seu superior. “Deus está sentado em seu trono santo”.

11 10“Os princípes dos povos uniram-se ao Deus de Abraão”. Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacó. É verdade que Deus afirmou isto. E os judeus se ensoberbeceram, dizendo: “Somos a posteridade de Abraão” (cf Ex 3,6; Jo 8,33). Soberbos por causa do nome paterno, sendo de sua carne, mas não mantendo a sua fé; eram de sua descendência, mas de costumes degenerados. Finalmente, o que disse o Senhor àqueles orgulhosos? “Se sois filhos de Abraão, praticai as obras de Abraão” (Jo 8,39). E ainda como interpelou João a alguns deles que o procuraram tremendo, desejosos de se corrigirem pela penitência? “Raça de víboras”. Eram iníquos, eram perdidos, eram pecadores, eram ímpios e vieram procurar o batismo de João; e este, o que lhes diz? “Raça de víboras”. Eles afirmavam que eram filhos de Abraão e João os denominava: raça de víboras. Por acaso Abraão era víbora? Não; mas eles, com uma vida má, imitavam os demônios, e se tornaram filhos daqueles que imitavam, vivendo pessimamente. “Raça de víboras”, disse João, “quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? Produzi, então, fruto que prove a vossa conversão e não penseis que basta dizer: Temos por pai a Abraão”, orgulhando-vos de ser da raça de Abraão, “pois eu vos digo que mesmo destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão” (Mt 3,7-9). Abraão não ficará privado de filhos, se Deus vos condenar; ele pode condenar os que odeia, e restituir-lhe os que prometeu. E de onde tirará os filhos para restituir, se condena os hebreus, provenientes de sua carne? “Destas pedras”. João mostrava-lhes as pedras no deserto. Que eram essas pedras senão os gentios, que adoravam pedras? Porque pedras? Adorando os ídolos de pedra, foram denominados pedras também eles, pois predissera o salmo: “Semelhantes a eles sejam os que os fazem, e todos os que neles confiam” (Sl 113,8). Todavia, destas pedras tirou Deus os filhos para restituir a Abraão. Agora, todos nós que adorávamos as pedras, convertidos ao Senhor, tornamo-nos de Abraão, não segundo a carne, mas por imitação de sua fé. “Os príncipes dos povos”, os príncipes das nações, não os príncipes de um só povo, mas de todos os povos, “uniram-se ao Deus de Abraão”.

12 Destes príncipes era também o centurião, mencionado na leitura do evangelho que acabais de ouvir. O centurião gozava de honras e de poder no meio dos homens, era príncipe entre os príncipes dos povos. Enviou seus amigos ao encontro de Cristo que se aproximava dele, ou antes, que ia passar por ali; e pediu que curasse seu servo, gravemente enfermo; e como o Senhor quisesse ir, ele próprio, mandou-lhe o seguinte recado: “Não sou digno de que entres em minha casa. Dize, porém uma palavra, para que o meu criado seja curado. Pois, também eu estou sob uma autoridade, e tenho soldados às minhas ordens”. Vede como mantém a ordem: lembra em primeiro lugar que ele é subordinado, e depois que há outros às suas ordens. Estou sob uma autoridade, e sou constituído em autoridade. Estou abaixo de alguns e sou superior de outros. “E a um digo: ‘Vai!’ e ele vai; e a outro: ‘Vem!’ e ele vem; e a meu servo: ‘Faze isto! e ele o faz’ ”. Parece declarar: Se eu, que estou sob uma autoridade, dou ordens aos meus subordinados, tu que não estás às ordens de ninguém, não podes dar ordens a tua criatura, se tudo foi feito por ti, e sem ti nada foi feito? “Dize, porém, uma palavra, para que o meu criado seja curado”. Mas, “não sou digno de que entres em minha casa”. Hesitou em receber a Cristo dentro de sua casa, e no entanto, Cristo já estava em seu coração. Sua alma já era trono de Cristo, que ali se sentava, pois procurava os humildes. Cristo, então, “ficou admirado e, voltando-se para a multidão que o seguia, disse: Eu vos digo que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé” (Lc 7,6-9). E conforme a narração de outro evangelista sobre o mesmo fato, o Senhor prossegue: “Mas eu vos digo que virão muitos do oriente e do ocidente e se assentarão à mesa no Reino dos céus, com Abraão, Isaac e Jacó” (Mt 8,11). Pois, este centurião não pertencia ao povo de israel. No povo de israel havia soberbos que repeliam a Deus; entre os príncipes dos gentios encontrou-se um humilde, que convidou a Deus a se aproximar. Jesus, admirando sua fé, reprova a infidelidade dos judeus. Consideravam-se sadios, enquanto estavam gravemente doentes, e mataram o médico que não quiseram reconhecer. Reprovando e repudiando sua soberba, como se exprime? “Mas eu vos digo que virão muitos do oriente e do ocidente”, que não pertencem à progênie de Israel; virão muitos, aos quais disse o salmista: “Nações todas, batei palmas. E se assentarão à mesa no reino dos céus com Abraão”. Abraão não os gerou carnalmente; mas virão e se assentarão à mesa do reino dos céus com ele, e serão seus filhos. Por que razão serão seus filhos? Não nasceram de sua carne, mas seguiram sua fé. “Enquanto os filhos do reino”, a saber, os judeus, “serão postos para fora, nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes” (Mt 8,12). Serão condenados às trevas exteriores os descendentes de Abraão segundo a carne, e se assentarão à mesa com ele no reino dos céus os que imitaram a fé de Abraão. Com toda razão, portanto, também aqui os “príncipes dos povos uniram-se ao Deus de Abraão”.

13 O que acontecerá aos que pertenciam ao Deus de Abraão? “Porque os deuses poderosos da terra sobremaneira se exaltaram”. Quais eram esses deuses, o povo de Deus, a vinha de Deus, da qual está escrito: “Servi de juízes entre mim e a minha vinha” (Is 5,3)? Eles irão para as trevas exteriores e não estarão à mesa com Abraão, Isaac e Jacó; não se unirão ao Deus de Abraão. Por quê? Porque “são os deuses poderosos da terra”. Eram deuses poderosos da terra, e presumiam da terra. De qual? De si mesmos, pois todo homem é terra. Foi dito ao homem: “Tu és pó e ao pó tornarás” (Gn 3,19). O homem deve presumir de Deus, e dele esperar auxílio, não de si mesmo. A terra não faz chover para si, nem se ilumina a si mesma. Como a terra aguarda do céu a chuva e a luz, assim deve o homem esperar de Deus a misericórdia e a verdade. Eles, portanto, “os deuses poderosos da terra sobremaneira se exaltaram”. Não pensaram que precisavam de médico, e por isso permaneceram com a doença, que os levou à morte. Os ramos naturais foram cortados para ser enxertado o da humilde oliveira silvestre (cf Rm 11,17). “Porque os deuses poderosos da terra sobremaneira se exaltaram”. Mantenhamo-nos, portanto, irmãos, na humildade, caridade, piedade, porque fomos chamados, enquanto eles foram reprovados. Ao menos sirva-nos de exemplo sua sorte, que nos incuta medo do orgulho.

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

Comentário de Santo Agostinho ao Salmo 45

1 1Falamos de algumas coisas tão conhecidas de V. Caridade que não precisamos nelas nos deter. Passaremos por alto aquilo que já sabeis. Entendamos que somos nós os filhos de Coré. Lembro-vos que Coré significa calvície; que nosso Senhor, crucificado no Calvário, atraiu a muitos a si, como o grão de trigo, que se não morresse, ficaria só (cf Jo 12,24); e que os que foram atraídos se chamam filhos de Coré. Assim é, em mistério. Além disso, havia no tempo em que isto foi cantado, alguns filhos de Coré; mas o espírito deve nos vivificar e não a letra nos ocultar o seu sentido. Entendamos, pois, que se refere a nós. Vede se o que segue, isto é, se o contexto do próprio salmo a nós se adapta. Descobriremos que se aplica a nós, se estivermos incluídos entre os membros daquele corpo, cuja Cabeça se acha no céu, para onde subiu depois da paixão, a fim de levar consigo àquela abundância de bens os que estavam prostrados na humildade e deram frutos pela paciência. Efetivamente, está escrito: “Para o fim dos filhos de Coré, sobre os mistérios. Salmo”. É, portanto, oculto; mas sabeis que aquele mesmo que no Calvário foi crucificado, rasgou o véu, para que se manifestassem os segredos do templo (cf Mt 27,51). Por conseguinte, a cruz de nosso Senhor foi a chave que abriu os recintos fechados; acreditemos que estes mistérios nos hão de ser revelados. “Para o fim”, conforme traz o título, sempre se aplica a Cristo. “A finalidade da Lei é Cristo para a justificação de todo o que crê” (Rm 10,4). Fala-se de fim, não por consumir, mas por consumar. Pois, também dizemos que o alimento que era tomado chegou ao fim, e foi finalizada a túnica que era tecida; o primeiro foi consumido e a segunda consumada. Uma vez que, tendo chegado a Cristo, não temos além coisa alguma a que possamos tender, ele é denominado o fim de nossa carreira. Mas, não pensemos que tendo chegado até ele, tenhamos de empregar esforços ainda para alcançar o Pai. Filipe assim opinava, quando dizia ao Senhor: “Senhor, mostra-nos o Pai e isto nos basta”. Com os termos: “nos basta”, designa o fim, a saciedade e a perfeição. Responde-lhe o Senhor: “Há tanto tempo estou convosco e não me conheceis? Filipe, quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,8.9). Com ele, portanto, temos o Pai, porque ele está no Pai e o Pai nele. Ele e o Pai são um (cf Lc 10,30).

2 2A que nos admoesta aqui o cantor, no qual reconheçamos nossa voz se tivermos os sentimentos neste canto demonstrados? “Deus é nosso refúgio e nossa força”. Há refúgios tão desprovidos de força que se alguém fugir para lá, fica mais fraco, ao invés de encontrar reforço. Por exemplo, se te refugias junto de algum magnata do mundo, visando a obter um amigo poderoso; parece-te ser um refúgio. Como, porém, são tão incertas as coisas deste mundo, e de tal modo aumentam cada dia os poderosos arruinados, ao te abrigares neste refúgio começarás a sentir medo maior. Antes, tinhas receio apenas por tua causa; quando, porém, procuras tal socorro, o temor será também por causa dele. Muitos que procuraram tais refúgios, com a queda daqueles junto dos quais se abrigaram, foram também envolvidos. Ninguém os procuraria se não se houvessem ali refugiado. O nosso refúgio não é desta espécie, mas é refúgio e força. Ao nos refugiarmos ali, estaremos seguros.

3 “Auxílio nas tribulações que se acercaram de nós em demasia”. São muitas as tribulações e em todas elas o refúgio está no Senhor. Quer venha das questões familiares, da saúde corporal, do perigo de entes muito caros, de bens necessários ao sustento, não deve absolutamente haver para o cristão outro refúgio senão o seu Deus, para que seja forte em seu abrigo. Ele não será forte em si mesmo, não será a fortaleza para si; mas fortaleza para ele será quem se tornou o seu refúgio. Não obstante, caríssimos, entre todas as tribulações da alma humana nenhuma é maior do que a consciência dos delitos. Pois, se a consciência não está ferida, se é sadio o interior do homem, denominado consciência, qualquer que for a tribulação que o atingir em outras partes, ele pode nela se refugiar e lá encontrará a Deus. Se, ao invés, ali não encontra repouso, devido à quantidade de pecados, e portanto Deus ali não se acha, o que há de fazer o homem? Para onde fugirá ao começarem as tribulações? Fugirá do campo à cidade, da rua a sua casa, da casa ao quarto, e a tribulação irá atrás. Do quarto já não tem aonde ir, senão ao seu interior. Todavia, se ali há tumulto, se há a fumaça da iniquidade, a chama do crime, não pode se abrigar ali; é expulso dali, e ao ser expulso, é repelido por si mesmo. E assim encontra um inimigo no lugar em que se escondera; para onde fugirá de si mesmo? Seja para onde for que fugir, arrasta-se consigo. E aonde se arrastar, atormenta-se. São essas as tribulações que se acercam do homem em demasia; mais acerbas do que essas não há, e tanto mais acerbas quanto mais íntimas. Vede, caríssimos, os marceneiros derrubando árvores e examinando-as. Por vezes, na superfície parecem carcomidas e pútridas. O marceneiro examina o cerne, o centro da madeira, e se por dentro vir que está perfeita, garante que há de durar no edifício. Não se preocupará muito com a superfície carcomida, se por dentro estiver perfeita a madeira. Enquanto para o homem nada existe de mais íntimo do que a consciência. O que adianta, então, por fora estar sadio, se o íntimo da consciência está putrefacto? Estas tribulações são angustiosas e veementes, absolutamente, e conforme se exprime o salmo, são em demasia. Deus, contudo, mesmo nestas tribulações faz-se um auxílio, perdoando os pecados. Não cura as consciências dos malvados a não ser por indulgência. Se alguém se confessa devedor do fisco, sem recursos domésticos e insolúvel, diz que sofre grandes tribulações; por causa dos fiscais que vêm todo ano, afirma passar por enormes aflições e só respira com a esperança de obter um indulto, do ponto de vista material; com quanto mais razão, o réu de uma quantidade de delitos, não poderá pagar o débito de sua consciência pesada, uma vez que o preço seria sua condenação. Pagar tal débito representa sofrer o castigo correspondente. Resta, portanto, que possamos estar seguros acerca do perdão relativamente a eles; contanto que posteriormente não voltemos a contrair novas dívidas.

4 É possível também serem os filhos de Coré figura dos fiéis referidos nos Atos dos Apóstolos. Pedro falou a homens atentos às maravilhas operadas pela vinda do Espírito Santo, pois todos os que o receberam falavam todas as línguas. Anunciou-lhes o Cristo, que tinha o grande poder de enviar o Espírito Santo. Cristo, que eles haviam crucificado com suas mãos, e desprezado quando o mataram, tornou-se junto de Deus tão elevado e excelso que encheu com o Espírito Santo homens ignorantes e fez eloquentes as línguas das crianças. Com o coração transpassado, eles perguntaram: “Que devemos fazer?” Eram tribulações que se acercaram deles em demasia. Eles não descobriram seus pecados por si mesmos, mas os encontraram através da exortação dos apóstolos. Por conseguinte, foram as tribulações que se acercaram deles, e não eles das tribulações. Porquanto, se alguém, mesmo sem admoestação de outrem, considera o seu ato e roga a Deus, como se expressa? “Encontrei, diz ele, a tribulação e a dor e invoquei o nome do Senhor” (Sl 114,3-4). Por conseguinte, uma é a tribulação que encontras e outra a que se acerca de ti. Em ambos os casos, quer a tribulação se acerque de ti, quer tu a encontres, a fim de vencer uma e outra, deves rogar àquele que é auxílio na tribulação. Mesmo quem a encontrou disse: “E invoquei o nome do Senhor”. E aqueles que se encontram nas tribulações que os cercaram, declaram: “Deus é nosso refúgio e nossa força, auxílio nas tribulações que se acercaram de nós em demasia”. Mas, como foi que Deus se fez auxílio? “Com o coração transpassado, disseram: Que devemos fazer?” Pareciam estar no maior desespero. Aquele que matamos é tão grande; o que será de nós? Pedro respondeu: “Convertei-vos, e seja cada um de vós batizado, em nome de Jesus Cristo, para remissão dos pecados” (At 2,4.37.38). Nada puderam planejar de mais grave do que este pecado. Que pecado mais grave pode cometer o doente do que matar o médico? Que de pior pode ele fazer do que matar seu médico? Se isto é perdoado, o que não o será? Daquele, portanto, ao qual denomina o salmista: “Refúgio e força”, eles receberam a maior garantia. “Seja cada um de vós batizado em nome de nosso Senhor Jesus Cristo”. Sede batizados em nome daquele que matastes, “para remissão de vossos pecados”. Reconhecestes o médico, ao menos posteriormente. Bebei com confiança o sangue que derramastes.

5 3Finalmente, tendo recebido tal segurança, o que dizem? “Por isso não temeremos se a terra estremecer”. Há pouco estavam solícitos; de repente encheram-se de segurança, saindo de excessivas tribulações para uma grande tranquilidade. Cristo para eles dormia, e por isso eles se perturbavam; Cristo foi despertado, como ouvimos há pouco no evangelho, ordenou aos ventos e fez-se grande tranquilidade (cf Mt 8,24-26). Cristo está no coração de cada um pela fé. Por esta razão, foi-nos indicado que um coração, como uma nave no meio da tempestade deste mundo se agita, se ele esquece a sua fé e perturba-se como se Cristo estivesse dormindo. Cristo desperta e faz-se a bonança. Enfim, o que diz o próprio Senhor? “Onde está a vossa fé” (Lc 8,25)? Cristo despertou e tornou a fé desperta, de sorte que no coração deles se fez o mesmo que se realizara na nave. “Auxílio nas tribulações que se acercaram de nós em demasia”. Fez com que ali reinasse a maior bonança.

6 Vede que tranquilidade: “Por isso não temeremos se a terra estremecer, se os montes se transportarem para o fundo do mar”. Então não temeremos. Procuremos saber quais são esses montes que se transportam. Se conseguirmos achar, será evidentemente nossa segurança. De fato, o Senhor disse aos discípulos: “Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Transporta-te daqui para o mar e isto se fará” (Mt 17,19). Talvez com a expressão: “este monte” quis referir-se a si mesmo, pois foi chamado de monte: “Dias virão em que o monte da casa do Senhor será manifesto”. Mas este monte estará mais elevado do que os outros outeiros, porque os apóstolos são montes, que sustentam este monte. Daí se segue: “Dias virão em que o monte da casa do Senhor será manifesto e se alçará acima de todos os outeiros” (cf Is 2,2). Ultrapassa, portanto, o cume de todos os montes, e acha-se colocado acima de todos eles; porque existem montes que o anunciam. O mar representa este mundo. Em comparação com este mar, o povo judaico parecia terra. Não estava encoberto pela amargura da idolatria, mas era como a terra seca, cercada do mar amargo das nações. A terra estava para ser conturbada, isto é, a própria nação judaica, e os montes se transportariam para o fundo do mar, isto é, em primeiro lugar o monte elevado, estabelecido acima do cume de todos os montes. Ele abandonou o povo judaico, e se estabeleceu no meio dos gentios; transferiu-se da terra para o mar. Quem o transferiria? Os apóstolos, aos quais Cristo dissera: “Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Transporta-te daqui para o mar, e isto se fará”, isto é, por meio de vossa pregação fiel far-se-á o mesmo que a este monte. Serei pregado no meio das nações, serei glorificado, conhecido, e suceder-me-á o que foi predito a meu respeito: “Um povo que eu não conhecia pôs-se a meu serviço” (Sl 17,45). Quando, porém, aqueles montes foram transferidos? Também isto indicam-nos as Escrituras divinas. Quando o Apóstolo pregava aos judeus, que repeliram a sua palavra, ele lhes disse: “Era primeiro a vós que devíamos anunciar a palavra de Deus. Como a rejeitais, nós nos voltamos para os gentios” (At 13,46). Os montes foram transferidos para o fundo do mar. Verdadeiramente os gentios acreditaram nos montes, e aqueles montes assim foram para o fundo do mar. Não fizeram como os judeus, acerca dos quais foi dito: “Este povo me glorifica com palavras, mas o seu coração está longe de mim” (Is 29,13; Mt 15,8). O Senhor prometeu o mesmo no Novo Testamento, conforme disse pelo profeta: “Eu porei minha lei no seu coração” (Jr 31,33; Hb 8,10). Esta lei, esses preceitos foram indicados pelos apóstolos a todas as gentes para que acreditassem. São chamados de montes, que se transferiram para o fundo do mar. Então nós não temeremos. Quais são os que não temem? Aqueles que tiveram o coração transpassado, para não serem do número dos judeus réprobos, ramos quebrados. Alguns deles acreditaram e aderiram à pregação dos apóstolos. Temam, portanto, os que abandonaram os montes. Nós, porém, não nos afastamos dos montes; e quando eles se transferiram para o fundo do mar, nós os seguimos.

7 4Qual a consequência de se haverem os montes transferido para o meio do mar? Atenção. Vede a realidade. Quando se prediziam tais fatos, tudo era obscuro, porque ainda não haviam sucedido. Agora, contudo, quem não reconhece que se realizaram? Sirva-te de livro as páginas sagradas, para que ouças a profecia; usa o livro do orbe da terra, para verificares a sua realização. Podem ler os códices somente os que conhecem as letras; até os ignorantes podem ler o que acontece em todo o mundo. O que sucedeu, quando os montes foram transladados para o fundo do mar? “As águas produziram um estrondo, encresparam-se”. Disseram os atenienses quando o evangelho lhes era pregado: “Que é isto? Dir-se-ia um pregador de divindades exóticas” (At 17,18). Os efésios, porém, em tumulto queriam matar os apóstolos, quando no teatro, por causa de sua deusa Diana, fizeram tamanho barulho que clamavam: “Grande é a Diana dos efésios!” (At 19,28). No meio destas vagas e ruído do mar, aqueles que haviam procurado refúgio no Senhor não temiam. Enfim, o apóstolo Paulo queria entrar no teatro e os discípulos o impediram, porque ainda era necessário que ele permanecesse na carne por causa deles. Todavia “as águas produziram um estrondo, encresparam-se; abalaram-se os montes diante de sua fortaleza”. De quem? Do mar? Ou antes de Deus, de quem está escrito: “Nosso refúgio e nossa força, auxílio nas tribulações que se acercaram de nós em demasia?” Os montes se abalaram, isto é, os potentados deste mundo. Uns são os montes de Deus e outros os do mundo. Os montes do mundo têm o diabo por cabeça. Dos montes de Deus, Cabeça é o Cristo. Mas estes montes perturbaram aqueles. Então gritaram contra os cristãos; os montes se perturbaram com o ruído das ondas. Os montes abalaram-se, e houve um grande terremoto, com movimento das águas. Mas contra quem? Contra a cidade estabelecida sobre a pedra. As águas produzem estrondo, abalam-se os montes, com a pregação do evangelho. E o que te acontece, cidade de Deus? Ouve a continuação.

8 5“Um rio impetuoso alegra a cidade de Deus”. Os montes se abalam, o mar se enfurece. Deus não abandona a sua cidade, mas a alegra com um rio impetuoso. Qual? A inundação do Espírito Santo, a que se referia o Senhor: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, de seu seio jorrarão rios de água viva”. Tais rios jorravam do seio de Paulo, de Pedro, de João, dos outros apóstolos, dos outros evangelistas fiéis. Como estes rios provinham de um só rio, muitos “rios impetuosos alegram a cidade de Deus”. Pois, reconhecereis que o Espírito Santo o disse, uma vez que no mesmo evangelho diz o evangelista em seguida: “Ele falava do Espírito que deviam receber os que nele cressem. O Espírito ainda não fora dado, porque Jesus não fora ainda glorificado” (Jo 7,37-39). Tendo sido Jesus glorificado após a ressurreição, após a ascensão, no dia de pentecostes, o Espírito Santo desceu, encheu o coração dos fiéis, que falaram em línguas, e o evangelho começou a ser pregado aos povos (cf At 2,4). Com isso alegrava-se a cidade de Deus, enquanto o mar se agitava com o estrondo de suas águas, os montes se abalavam, perguntando o que estava acontecendo, como repeliriam a nova doutrina, como arrancariam a raça dos cristãos da face da terra. Contra quem? Contra o rio impetuoso que alegra a cidade de Deus. Daí se deduz que o referido rio representava o Espírito Santo: “Um rio impetuoso alegra a cidade de Deus”. Qual a sequência? “O Altíssimo santificou o seu tabernáculo”. Se vem em seguida a palavra santificação é evidente que o rio impetuoso seria o Espírito Santo; ele santifica a alma piedosa que acredita em Cristo, tornando-se assim cidadão da cidade de Deus.

9 6“Deus está em seu meio; ela é inabalável”. Enfureça-se o mar, abalem-se os montes: “Deus está em seu meio; ela é inabalável”. Qual o sentido da expressão: “em seu meio”? Pareceria que Deus está num determinado lugar, e que o cercam os que nele creem. Deus, então, está encerrado num lugar, e têm espaço os que o cercam, enquanto ele se acha apertado? De modo nenhum. Não imagines tal coisa de Deus, que não está circunscrito a lugar algum, mas tem por morada a consciência dos homens piedosos. O coração dos homens é morada de Deus de tal modo que se o homem dele se afasta, Deus permanece em si mesmo; ele não cai, como se não encontrasse onde ficar. Antes é ele que te sustenta para seres nele, do que se apoia em ti de sorte que se te subtraíres ele caia. Se ele se subtrair, sim, é que tu cais; mas se te subtraíres, ele não cai. O que significa então: “Deus está em seu meio”? Significa que Deus é justo em tudo, e não faz acepção de pessoas. Quem está no meio, está a igual distância de ambos os extremos; assim se diz que Deus está no meio, cuidando igualmente de todos. “Deus está em seu meio; ela é inabalável”. Por que inabalável? Porque Deus está em seu meio. “Deus a ajudará com sua presença. Ele é auxílio nas tribulações que nos cercaram em demasia. Deus a ajudará com sua presença”. Qual o sentido de: “sua presença”? Ele se mostra. Como se mostra, de sorte que vejamos sua presença? Já relembro. Sabemos que Deus está presente, por suas obras. Quando recebemos dele alguma ajuda, de maneira que não tenhamos a menor dúvida de que foi Deus que no-lo concedeu, temos a presença de Deus. “Deus a ajudará com sua presença”.

10 7“As nações se agitaram”. Como se agitaram? Por que motivo? Para derrubarem a cidade de Deus, em cujo meio ele se encontra? Para arruinarem o tabernáculo santificado, que Deus ajuda com sua presença? Não. Mas as nações já se agitaram de modo salutar. Como continua o salmo? “Os reinos se dobraram”. Os reinos se dobraram, não estão mais eretos para se enfurecerem; mas dobraram-se para adorar. Quando eles se dobraram? Quando se realizou a predição de outro salmo: “Adorá-lo-ão todos os reis da terra, todas as nações o servirão” (Sl 71,11). Como agiu ele para os reinos se dobrarem? Escuta: “O Altíssimo fez ouvir a sua voz e tremeu a terra”. Os possessos dos ídolos coaxavam como rãs dos pântanos e faziam tanto maior ruído quanto mais cobertos de lodo e lama. Mas de que serve o coaxar das rãs diante dos trovões que vêm das nuvens? Daí, o “Altíssimo fez ouvir a sua voz e tremeu a terra”. Trovejou das nuvens. Quais as suas nuvens? Seus apóstolos, seus pregadores, por meio dos quais fazia atroar os preceitos, e corruscar os milagres. Eles são nuvens e ainda montes. Montes devido à altura e firmeza, nuvens por causa da chuva e fecundidade. Estas nuvens irrigaram a terra; delas foi dito: “O Altíssimo fez ouvir a sua voz e tremeu a terra”. É dessas nuvens que provêm as ameaças a certa vinha estéril (o povo judaico), de onde foram transferidos os montes para o fundo do mar. Disse o profeta: “Quanto às nuvens, ordenar-lhesei que não derramem a sua chuva sobre ela” (Is 5,6). Cumpriram-se as ameaças na ocasião que rememoramos, quando os montes se transladaram para o fundo do mar, e foi-lhes dito: “Era primeiro a vós que devíamos anunciar a palavra. Como a rejeitais, nós nos voltamos para os gentios” (At 13,46). Realizou-se a palavra: “Quanto às nuvens, ordenar-lhes-ei que não derramem a sua chuva sobre ela”. Enfim, o povo judaico continua agora seco como o tosão na eira. Pois, como sabeis, aconteceu este milagre. A eira ficou seca, e somente o tosão ficara úmido, mas não aparecia orvalho no tosão (Jz 6,37.38). Assim também o mistério do Novo Testamento não aparecia no povo judaico. Ali havia o tosão, e aqui o véu; o mistério estava velado no tosão. Na eira, porém, entre os gentios, revela-se o evangelho de Cristo; o orvalho é manifesto, evidente a graça de Cristo, que não está encoberta pelo véu. Para se extrair o orvalho, espremeu-se o tosão. Apertando-o, eles afastaram de si o Cristo, e assim o Senhor enviou de suas nuvens o orvalho para a eira, deixando seco o tosão. Por isso, “o Altíssimo fez ouvir a sua voz” através destas nuvens, e esta voz fez os reinos se inclinarem e adorarem.

11 8“Conosco está o Senhor dos exércitos. O nosso defensor é o Deus de Jacó”. Não é um homem qualquer, nem qualquer potentado, nem um anjo, nem outra criatura, quer da terra, quer do céu, mas conosco quem está é “o Senhor dos exércitos. O nosso defensor é o Deus de Jacó”. Ele enviou anjos, veio depois deles, veio para que os anjos o servissem, veio para tornar os homens iguais aos anjos. Grande graça! Se Deus é por nós, quem será contra nós (cf Rm 8,31)? “Conosco está o Senhor dos exércitos”. Quem é o “Senhor dos exércitos que está conosco”? Se Deus está conosco, quem estará contra nós? “Quem não poupou o seu próprio Filho e o entregou por todos nós, como não nos haverá de agraciar em tudo junto com ele?” (Rm 8,31.32). Por conseguinte, estejamos seguros, e nutramos com o pão do Senhor uma boa consciência, em tranquilidade de coração. “Conosco está o Senhor dos exércitos. O nosso defensor é o Deus de Jacó”. Por maior que seja tua fraqueza, vê quem é que te defende. Alguém adoece, chama-se o médico; ele diz que o doente é seu protegido. Quem o defende? Ele. A esperança da saúde é grande porque um bom médico o atende. Qual? Todo médico, exceto ele, é um homem; todo médico que atende um enfermo, pode adoecer no dia seguinte, exceto ele. “O nosso defensor é o Deus de Jacó”. Torna-te uma criança, bem pequenina, como aqueles que os pais recebem. As que não são aceitas, são expostas; as que são aceitas são sustentadas. Pensas que Deus te recebeu como tua mãe te aceitou quando eras criancinha? Não foi assim, mas foi desde toda eternidade. É tua a palavra de outro salmo: “Meu pai e minha mãe me abandonaram. O Senhor, porém, me acolheu” (Sl 26,10). “O nosso defensor é o Deus de Jacó”.

12 9“Vinde contemplar as obras do Senhor”. Relativamente a esta aceitação, o que fez o Senhor? Observa o orbe da terra. Vem e vê. Se não vens, não vês; se não vês, não crês; se não crês, ficas de longe; se acreditas, vens; se crês, vês. Como se alcança este monte? Com os pés? Por navio? Com asas? Em cavalos? Não te agites, não te perturbes, quanto aos espaços; ele vem a ti. Pois, uma pequena pedra cresceu e se tornou uma grande montanha, que encheu toda a terra. Como queres chegar até ele, atravessando terras, se ele encheu a terra? Eis que ele vem. Alerta! Vem chegando e sacode os que dormem; contanto que o sono não seja tão pesado que continuem dormindo, apesar de o monte vir chegando, mas ouçam a palavra: “Ó tu que dormes, desperta e levanta-te de entre os mortos, que Cristo te iluminará” (Ef 5,14). Foi inutilmente que os judeus viram a pedra. Ainda era pequenina, e eles desprezaram a sua pequenez; desprezando-a tropeçaram e tropeçando se quebraram. Falta somente serem esmagados. Foi referido daquela pedra: “Aquele que cair sobre essa pedra vai se quebrar de todo, e aquele sobre quem ela cair, o esmagará” (Lc 20,18). Uma coisa é ser esmagado e outra ser quebrado; quebrar-se é menos do que ser esmagado. Mas, o Altíssimo, em sua vinda a ninguém esmaga, a não ser aquele que se tiver quebrado diante do que estava humildemente prostrado. Pois, agora, antes que nosso Senhor volte, mostrou-se humilde diante dos judeus, e estes tropeçaram e se quebraram; o Senhor voltará depois para julgar mostrando-se, ilustre, elevado, grandioso e potente; não virá na fraqueza para ser julgado, mas cheio de força para julgar, e esmagará os que se quebraram, escandalizados por sua causa. Ele é, de fato, pedra de tropeço e de escândalo para os que nele não acreditam. Portanto, caríssimos, não é de admirar que os judeus não tenham conhecido aquele que eles desprezaram como uma pedrinha, a seus pés. É espantoso que outros não o tenham querido reconhecer quando já era uma grande montanha. Os judeus tropeçaram na pedrinha que não viram, e os hereges tropeçam no monte. Aquela pedrinha já cresceu. Já podemos lhes dizer: Cumpriu-se a profecia de Daniel: “E a pedra”, que era pequena, “tornou-se uma grande montanha, que ocupou a terra inteira” (cf 1Pd 2,8; Dn 2,35). Por que tropeçais na pedra, ao invés de subir o monte? Quem é tão cego que tropece num monte? Ages como se ele tenha se colocado ali para tropeçares, e não para teres aonde subir. “Vinde, subamos ao monte do Senhor” (Is 2,3). Assim fala Isaías: “Vinde, subamos”. O que quer dizer: “Vinde, subamos? Vinde”, isto é, acreditai. “Subamos”, aperfeiçoemo-nos. Alguns, porém, não querem vir, nem subir, nem crer, nem progredir. Ladram contra o monte. Tantas vezes eles tropeçaram que se quebraram, e preferem não subir, mas ficar sempre tropeçando. Exortemo-los: “Vinde contemplar as obras do Senhor, os prodígios que operou na terra”. Chamam-se prodígios porque prenunciam alguma coisa, aqueles milagres que se realizaram quando o mundo acreditou. O que foi que estes prodígios realizaram, prenunciaram?

13 10“Pôs termo aos combates até os confins da terra”. Ainda não vemos isto realizado. Ainda existem guerras: entre os povos, por um reinado; entre seitas, entre judeus, pagãos, cristãos, hereges há guerras, intensificam-se os combates. Uns lutam pela verdade, outros em prol da falsidade. Ainda não se cumpriu o que foi dito: “Pôs termo aos combates até os confins da terra”; mas talvez se cumpra. Será que agora já se cumpriu? Em alguns, sim. No meio do trigo, já se fez; entre o joio, não. Então, o que significa: “Pôs termo aos combates até os confins da terra”? O salmista chama de guerra os ataques contra Deus? Quem combate contra Deus? A impiedade. E o que pode a impiedade fazer contra Deus? Nada. Qual o resultado que obtém um vaso de barro que se joga contra a pedra, mesmo que bata com força? Sua desgraça é tanto maior quanto maior for o seu ímpeto. Fortes eram estas guerras; muito frequentes. A impiedade lutava contra Deus, e quebravam-se os vasos de argila. Os homens presumiam de suas forças, prevalecendo por causa delas. Também Jó se refere a tal como se fosse um escudo, ao falar de certo ímpio: “Corre contra Deus, sob o dorso espesso de seus escudos” (Jó 15,26). O que quer dizer: “sob o dorso espesso de seus escudos”? Presumindo muito de sua proteção. Seriam estes que diziam: “Deus é nosso refúgio e nossa força, auxílio nas tribulações que de nós se acercaram em demasia?” Ou em outro salmo: “Não é em meu arco que porei a confiança, nem é meu braço que me salvará” (Sl 43,7)? Quando alguém reconhece que em si mesmo nada é, e que não encontra em si auxílio algum, quebra as armas e termina com as guerras. Tais guerras foram as que dissipou a voz do Altíssimo, através das nuvens de seus santos, e que abalou a terra e dobrou os reinos; ele tirou estas guerras, até dos confins da terra. “Partirá o arco, quebrará as armas, e consumirá no fogo os escudos”. Arco, armas, escudos, fogo. Arco significa as insídias; as armas representam os ataques públicos; o escudo, a proteção vã da presunção. O fogo que consumirá tudo isto vem do Senhor que disse: “Eu vim trazer fogo à terra” (Lc 12,49). A este fogo refere-se outro salmo: “Ninguém se subtrai a seu calor” (Sl 18,7). Estando aceso este fogo, não restarão mais em nós armas da impiedade. Forçosamente tudo será quebrado, esmigalhado, queimado. Permanece inerme, sem ter qualquer outro auxílio; e quanto mais fores fraco, desarmado, tanto mais te acolhe aquele do qual foi dito: “O nosso defensor é o Deus de Jacó”. Sentias valor, como se o auxílio viesse de ti mesmo; serás abalado em ti. Perde as armas nas quais confiavas e escuta o Senhor a te dizer: “Basta-te a minha graça”, e de tua parte, dize: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,9.10). É palavra do Apóstolo. Perdera todas as suas armas, a sua fortaleza, aquele que dizia: “Por isso, eu não me gloriarei senão de minhas fraquezas” (2Cor 12,9.10), como se dissesse: Não corro contra Deus, sob o dorso espesso de meus escudos, “eu, outrora era blasfemo, perseguidor e insolente. Mas obtive misericórdia, para que em mim, Cristo Jesus demonstrasse toda a sua longanimidade, como exemplo para quantos nele hão de crer, para a vida eterna” (1Tm 1,13.16). “Pôs termo aos combates até os confins da terra”. Quando Deus nos acolhe, despede-nos inermes? Ele nos arma, mas com armas diferentes: as do evangelho, da verdade, da continência, da salvação, da esperança, da fé, da caridade. Teremos estas armas, mas não as obteremos por nós mesmos. As armas que tínhamos, obtivéramos por nós mesmos, queimaram-se, se de fato, nós nos inflamamos por meio daquele fogo do Espírito Santo, do qual foi dito: “Consumirá no fogo os escudos”. Querias ser forte por ti mesmo. Deus te tornou fraco. Queria fazer-te forte, ele mesmo, visto que por ti estavas enfraquecido.

14 11Como continua o salmista? “Cessai”. Para quê? “Reconhecei que eu sou Deus”. Quer dizer: Vós não sois deuses; eu é que sou Deus. Eu criei, e novamente crio; formei e reformo; fiz e refaço. Se não pudeste fazer-te, como poderás refazer-te? O tumulto, a revolta do espírito humano impede que se veja isto. Em vista deste tumulto e desta revolta, se diz: “Cessai”, isto é, reprimi as contradições de vosso ânimo. Não argumentes, nem te armes contra Deus; do contrário, terás armas somente enquanto não forem queimadas por aquele fogo. Se forem consumidas, “cessai”, porque não tendes com que lutar. Se cessardes, e me pedirdes o que constituía antes o objeto de vossa presunção, “cessai e” vereis “que eu sou Deus”.

15 “Serei exaltado entre as nações e glorificado sobre a terra”. Afirmei um pouco acima que terra representava o povo judaico, e mar as demais nações. Os montes se transferiram para o fundo do mar; as nações se agitaram e os reinos se dobraram, o Altíssimo fez ouvir a sua voz e tremeu a terra. “Conosco está o Senhor dos exércitos. O nosso defensor é o Deus de Jacó”. No meio das gentes realizaram-se milagres, os povos receberam a fé, arderam as armas da presunção humana. Cessaram, com o coração tranquilo, e foi conhecido Deus, autor de todos os dons. E depois desta glorificação, Deus abandonaria o povo judaico, do qual diz o Apóstolo: Digo-vos, para que “não vos tenhais na conta de sábios: o endurecimento atingiu uma parte de Israel até que chegue a plenitude dos gentios” (Rm 11,25.26)? A saber, até que os montes se transportassem para cá, as nuvens chovessem aqui, o Senhor dobrasse os reinos, através de seus trovões, até que “chegasse a plenitude dos gentios”. E depois? “E assim todo Israel será salvo” (Rm 11,26). Por conseguinte, também aqui a ordem é observada, conforme está escrito: “Serei exaltado entre as nações e glorificado sobre a terra”, isto é, no mar e na terra, de modo que todos repitam o seguinte: “Conosco está o Senhor dos exércitos. O nosso defensor é o Deus de Jacó”.

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

Comentário de Santo Agostinho ao Salmo 44

 

IV das Nonas de setembro. Quarta-feira. Sermão pronunciado na basílica Restituída.

1 1Cantamos, jubilosos, este salmo convosco. Pedimos agora que o considereis atentamente conosco. Refere-se o cântico às santas núpcias do esposo e da esposa, do rei e do povo, do Salvador e dos que serão salvos. Quem vier às núpcias com a veste núpcial, desejoso da glória do esposo e não da sua, ouvirá de bom grado (como costumam fazer até mesmo os homens cubiçosos de espectáculos, não da realidade) e ainda depositará em seu coração palavras que ali não serão inúteis, mas efetivamente hão de germinar, brotar, crescer, chegar a um estado perfeito, ser assimiladas. É para nós que o salmo é cantado. De acordo com o título do mesmo salmo, sejamos “filhos de Coré”. Foram estes, homens que existiram realmente; contudo, os títulos das sagradas Letras sugerem algo mais aos que entendem, e reclamam não somente ouvintes, mas ainda bons conhecedores. Procuramos saber qual o sentido da palavra hebraica Coré. Como todas as palavras das Escrituras têm interpretação peculiar, foinos declarado que “filhos de Coré” significam: filhos do Calvo. Não tomeis este nome como irrisão. Nosso ânimo não seja pueril qual o dos meninos citados no livro dos Reis, que insultavam o santo profeta Eliseu, clamando atrás dele: “Sobe, careca! Sobe, careca!” (2Rs 2,23.24). Estultos, tagarelas, injuriosos, para sua perdição, tais meninos foram devorados por animais ferozes que saíram do bosque. Relembramos que assim se acha escrito e onde está escrito. Quem se lembrar, identifique a passagem. Quem, todavia, tiver esquecido, releia e os que não leram, acreditem. Não nos cause apreensão ter o fato figurado eventos futuros. Aqueles meninos representavam os estultos, desprovidos de bom senso. Não nos quer desta maneira o Apóstolo e por isso diz: “Quanto ao modo de julgar, não sejais como crianças” (1Cor 14,20). Ao invés, o Senhor nos convidou a imitar os meninos, na ocasião em que colocou diante de si um pequenino e declarou: “Se não vos tornardes como esta criança, de modo algum entrareis no reino dos céus” (Mt 18,2.3). Então, o Apóstolo cauteloso, depois de aconselhar a não se ter mente pueril, convida novamente à imitação das crianças: “Quanto ao modo de julgar, não sejais como crianças; quando à malícia, sim, sede crianças, mas quanto ao modo de julgar, sede adultos” (1Cor 14,20). Aquele a quem aprouver imitar as crianças, não tenha gosto pela ignorância, e sim pela inocência. Aqueles meninos, por ignorância, insultavam o santo de Deus, que era calvo, e gritavam seguindo-o: “Cabeça, careca!” E aconteceu que foram devorados pelas feras. Eram figuras de certos homens, de mente também pueril, que zombavam de outro calvo, daquele que no Calvário foi crucificado. Apoderaram-se deles feras de outra espécie, a saber, os demônios, o diabo e seus anjos, que operam nos filhos da incredulidade. Eram desses meninos os que diante do sagrado madeiro, de pé, meneavam a cabeça, dizendo: “Se é filho de Deus, desça da cruz” (cf Mt 27,33.39.40). Nós, porém, somos filhos deste último, porque filhos do esposo (cf Mt 9,15; Lc 5,34); pertencenos o título deste salmo, que assim reza: “Dos filhos de Coré, por aqueles que serão mudados”.

2 Que exposição farei da expressão: “por aqueles que serão mudados”? O que dizer? Todo aquele que foi mudado já o sabe. Quem ouvir as palavras: “Por aqueles que serão mudados”, pondere o que era, o que é. Em primeiro lugar, observe que o próprio mundo está mudado. Outrora, adorador dos ídolos, agora de Deus. Anteriormente servia a criatura, atualmente o Criador. Notai quando foi dito: “por aqueles que serão mudados”. Atualmente os pagãos restantes têm horror das mudanças. Os que não as aceitam, veem as igrejas repletas e os templos desertos; ali as celebrações, aqui a solidão. Eles se admiram com as mutações; que leiam as predições. Prestem ouvido ao promissor, e acreditem no realizador. Além disso, irmãos, cada um de nós de homem velho tornou-se novo, de infiel fez-se fiel, de ladrão em doador se transformou, de adúltero em casto, de malfeitor em benfeitor. Por conseguinte, cante-se a nosso respeito: “por aqueles que serão mudados” e comece-se a cantar por quem foram mudados.

3 Segue-se: “Por aqueles que serão mudados, dos filhos de Coré, para inteligência, cântico em prol do dileto”. Pois, aquele dileto foi visto pelos perseguidores, mas estes não o entenderam. Pois, se o tivessem conhecido, nunca teriam crucificado o Senhor da glória (1Cor 2,8). Este conhecimento exigia outros olhos, conforme disse o próprio Senhor: “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). Cante-o o salmo. Alegremo-nos com as núpcias, e seremos dos que as celebram, os seus convidados; e estes constituem a esposa. Pois, a esposa é a Igreja e Cristo é o esposo. Costumam os poetas compor certos poemas para os que se casam, denominados epitalâmios. Por inteiro se cantam em louvor do esposo e da esposa. Por acaso nas núpcias, para as quais fomos convidados, não existe tálamo? Por que, então, assegura outro salmo: “Armou no sol a sua tenda e este qual esposo que sai do tálamo” (Sl 18,6)? É uma união nupcial a do Verbo e da carne; o tálamo desta união é o seio da Virgem. Portanto, a carne está unida ao Verbo; daí se dizer: “Já não são dois, mas uma só carne” (Mt 19,6; Ef 5,32). A Igreja foi assumida do gênero humano, para que fosse Cabeça da Igreja a própria carne unida ao Verbo, e os fiéis fossem os membros desta Cabeça. Queres saber quem veio para as núpcias? “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). Alegre-se a esposa amada por Deus. Quando foi amada? Quando ainda era feia. Diz o Apóstolo: “Todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus” (Rm 3,23). E ainda: “Com efeito, Cristo morreu pelos ímpios” (Rm 5,6). Foi amada a Igreja quando disforme para não continuar feia. Não foi propriamente enquanto disforme que foi amada, porque a feiura não é amada por si. Se esta fosse amada, teria sido conservada. Cristo tirou a feiura, e deu-lhe beleza. A quem ele veio e como a tornou? Venha ele nas palavras proféticas. Eis o esposo; venha até nós. Amemo-lo. Se nele encontrarmos qualquer deformidade, não o amemos. Ele encontrou muita feiura, e nos amou; se nele encontrarmos, não o amemos. Mesmo no fato de se ter revestido da carne, de sorte que dele se dissesse até: “Vimo-lo, e não tinha beleza nem esplendor” (Is 53,2), se considerares a misericórdia com a qual agiu, também nisso ele é belo. Mas, o profeta falava em lugar dos judeus, quando dizia: “Vimo-lo, e não tinha beleza nem esplendor”. Por quê? Porque não foi entendido. Para os que entendem, a máxima beleza está em que “o Verbo se fez carne” (Jo 1,14). “Quanto a mim, não aconteça gloriar-me senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14), disse um dos amigos do esposo. É pouco não te envergonhares dela; além disso, deves gloriar-te. Por que não tinha beleza nem esplendor? Porque Cristo crucificado, para os judeus é escândalo, para os gentios é loucura (cf 1Cor 1,23.25). Por que razão, porém, até na cruz teve beleza? Porque o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. Para nós, porém, já fiéis, o esposo, sempre belo, vem ao nosso encontro. É belo enquanto Deus, o Verbo junto de Deus; belo no seio virginal, onde não perdeu a divindade, mas assumiu a humanidade; belo o Verbo, ao nascer como criança; pois, mesmo enquanto criança, ao sugar o leite materno, ao ser carregado nos braços, os céus se manifestaram, os anjos cantaram louvores, a estrela guiou os magos, e foi adorado no presépio, qual alimento dos mansos (cf Lc 2,8-14; Mt 2,1). É, portanto, belo no céu, belo na terra; belo no seio, belo nos braços dos pais; belo nos milagres, belo entre os flagelos; belo quando convida à vida, belo quando não teme a morte; belo ao entregar a alma, belo ao retomá-la; belo no madeiro da cruz, belo no sepulcro, belo no céu. Ouvi o cântico, com entendimento, e a fraqueza da carne não aparte vossos olhos do esplendor daquela beleza. A justiça é a suprema e verdadeira beleza. Onde percebes algo de injusto, não vês mais beleza. Se ele é totalmente justo, é totalmente belo. Venha, portanto, para que o vejamos com os olhos do espírito, descrito com louvores por um de seus profetas. Assim inicia o salmista:

4 2“Prorrompeu de meu coração uma palavra boa”. Quem fala? O Pai, ou o profeta? Alguns supuseram que é o Pai quem fala: “Prorrompeu de meu coração uma palavra boa”, recomendando-nos o seu nascimento inefável. Ele disse: “Prorrompeu de meu coração uma palavra boa”, a fim de que não penses que Deus empregou algum meio para gerar o Filho. Um homem, para gerar filhos, precisa do matrimônio, sem o qual não pode procriar; não julgues ter Deus precisado de união matrimonial para gerar o Filho. Hoje, ó homem, teu coração gera um plano, e para isso não precisa de mulher. Segundo o plano preconcebido, edificas alguma coisa; e aquela massa volumosa, antes de ser construída, existe em teu plano; e está presente o que hás de fazer, naquilo por meio do qual vais construir. Elogias a construção ainda inexistente, ainda não realizada, mas apenas planejada. Um outro igualmente não pode apreciar teu plano, a menos que o enuncies, ou ele já o veja realizado. Por conseguinte, tudo foi feito pelo Verbo, e o Verbo de Deus; examina a construção levantada pelo Verbo, e pela obra admira o planejamento. Qual o Verbo, pelo qual foi feito o céu e a terra, e todo o ornato do céu, a fecundidade da terra, a amplidão do mar, a difusão do ar, o fulgor das estrelas, a claridade do sol e da luz? Tudo isso é visível. Vá além. Pensa nos Anjos, Principados, Tronos, Dominações, Potestades (cf Cl 1,16); tudo foi feito por ele (Jo 1,3). Como, pois, todas as coisas foram criadas sendo boas? Prorrompendo a palavra pela qual foram feitas: “palavra boa”. Portanto, o Verbo é bom; a ele foi dito: “Bom mestre”. E o mesmo Verbo respondeu: “Por que me perguntas sobre o que é bom? Ninguém é bom senão só Deus” (Mt 19,17; Mc 10,18). Foi interpelado: “Bom mestre”, e replica: “Por que me perguntas sobre o que é bom?” E acrescenta: “Ninguém é bom senão só Deus”. Como então ele também é bom, a não ser porque é Deus? Não somente Deus, mas também com o Pai um só Deus. Ao afirmar: “Ninguém é bom senão só Deus”, não se separou dele, mas se uniu. “Prorrompeu de meu coração uma palavra boa”. Deus Pai assim se exprimiu a respeito de seu Verbo bom e benfeitor nosso, e por ele, o único bom, podemos nós ser bons em certa medida.

5 Continua o salmo: “Ao rei digo as minhas obras”. Ainda é o Pai quem fala? Se o Pai ainda fala, investiguemos como entendê-lo, de acordo com a fé verdadeira e católica: “Ao rei digo as minhas obras”. Se pois, o Pai diz as suas obras a seu Filho, nosso rei, quais as obras que há de dizer, uma vez que todas as obras do Pai foram feitas pelo Filho? Ou talvez: “Ao rei digo as minhas obras”, porque “digo” significa a geração do Filho? Estou com receio de que os mais lentos não possam entender tudo; mesmo assim, vou dizer. Siga quem puder, para não suceder que fique sem saber quem pode entender, porque eu não disse. Lemos em outro salmo: “Deus falou uma só vez” (Sl 61,12). Tantas vezes ele falou pelos profetas, tantas vezes pelos apóstolos, e hoje fala por seus santos, e no entanto diz o salmista: “Deus falou uma só vez”. Como falou uma só vez, a não ser porque proferiu um só Verbo? Acima entendemos que a palavra: “Prorrompeu de meu coração uma palavra boa” refere-se à geração do Filho; parece-me que a frase seguinte é uma repetição, de maneira que: “Prorrompeu de meu coração uma palavra boa” é reiterado por: “Digo”. Qual o sentido de : “Digo”? Profiro uma palavra. E de onde tira Deus esta palavra, senão de seu coração, de seu íntimo? Não dizes senão o que tiras de teu coração; a tua palavra, que soa e passa, não é retirada de outra fonte; e tu te admiras de que Deus assim fale? Mas a palavra de Deus é eterna. Tu dizes algo agora, mas pouco antes estavas calado. Ou agora ainda não proferes a palavra; ao começares a pronunciá-la, rompes o silêncio, e geras um verbo que antes não existia. Não é deste modo que Deus gerou o Verbo. A prolação de Deus é sem começo nem fim, todavia profere uma só Palavra. Se esta passasse, poderia proferir outra. Ao invés, como permanece quem diz e o que é dito; é proferido uma só vez e não termina; e está única vez não tem início, nem repetição, porque não passa o que é dito uma só vez. Por conseguinte, identifica-se: “Prorrompeu de meu coração uma palavra boa” com a expressão: “Ao rei digo as minhas obras”. Por que razão: “digo as minhas obras”? Porque no próprio Verbo se acham todas as obras de Deus. Tudo o que Deus havia de fazer na criação, já estava no Verbo; e não existiria na realidade, se não estivesse no Verbo, como também no teu caso não existiria o edifício, se não estivesse em teu plano. Assim se encontra no evangelho: “O que foi feito nele era vida” (Jo 1,3.4). Era, portanto, o que foi feito, mas no Verbo; e todas as obras de Deus estavam nele, antes de existirem. O Verbo, contudo, era, e este verbo era Deus, e estava junto de Deus, e era filho de Deus, com o Pai era um só Deus. “Ao rei digo as minhas obras”. Ouça o Verbo a falar quem o entende; e veja o Verbo eterno com o Pai. No Verbo existem mesmo as coisas futuras, nele estão presentes mesmo as coisas passadas. Tais são as obras de Deus no Verbo, enquanto Verbo, enquanto Unigênito, enquanto Verbo de Deus.

6 O que segue? “Minha língua é como o cálamo de um escriba, a escrever velozmente”. Que semelhança, meus irmãos, que semelhança tem a língua de Deus com o cálamo de um escriba? Que semelhança tem a pedra com Cristo? Em que se assemelha o cordeiro ao Salvador? O que tem que ver o leão com a força do Unigênito? (cf. 1Cor 10,4; Jo 1,29; Ap 5,5). No entanto, usam-se tais expressões; e se não fossem usadas, de nenhum modo por meio dessas coisas visíveis estaríamos informados sobre as invisíveis. Assim também não rejeitemos a humilde comparação deste cálamo, nem a confrontemos com a excelência do Verbo. Pergunto, pois, por que disse que sua língua é como o cálamo de um escriba a escrever velozmente? Por mais rápido que seja este escriba, não tem comparação com aquela velocidade referida em outro salmo: “Veloz corre a sua palavra” (Sl 147,15). Mas, a meu ver, à proporção do que ousa uma inteligência humana, aplica-se talvez à pessoa do Pai a expressão: “Minha língua é como o cálamo de um escriba”. O que a boca profere, soa e passa, mas o que se escreve permanece. Como Deus profere o verbo palavra que não soa e passa, mas a diz para permanecer, Deus preferiu compará-la a um escrita e não a um som. O acréscimo: “a escrever velozmente” incita a mente a entender. Mas não se detenha preguiçosa, olhando os copistas, ou observando quaisquer escribas velozes; se der atenção a isto, ficará aí. Pense velozmente na palavra: “velozmente”, e verifique o motivo de ter sido dito: “velozmente”. A velocidade de Deus é tal que nada existe de mais veloz. Ao se escrever, traçase letra por letra, sílaba por síbala, palavra por palavra; não se passa à segunda antes de gravar a primeira. Em Deus, porém, nada de mais veloz, porque não há muitas palavras, nem se omite palavra, mas tudo se encerra numa só.

7 3Eis aí o Verbo assim proferido, eterno, coeterno ao eterno; virá como esposo. “Muito belo, acima dos filhos dos homens. Acima dos filhos dos homens”. Por que não acima dos anjos? O que quer dizer: “Acima dos filhos dos homens”, senão que ele é homem? Disse: “Acima dos filhos dos homens, muito belo”, para que não se pense que Cristo é um homem qualquer. É homem acima dos filhos dos homens; é também entre os filhos dos homens, acima deles; ainda dentre os filhos dos homens, acima deles. “Pairou a graça nos teus lábios. Porque a Lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade nos vieram por Jesus Cristo” (Jo 1,17). “Pairou a graça nos teus lábios”. Com razão, veio em meu socorro, porque me deleito “na lei de Deus segundo o homem interior; mas percebo outra lei em meus membros, que peleja contra a lei da minha razão e que me acorrenta à lei do pecado que existe em meus membros. Infeliz de mim! Quem libertará deste corpo de morte? A graça de Deus por Jesus Cristo Senhor nosso (Rm 7,22-25). Pairou a graça nos teus lábios”. Ele veio até nós com a palavra da graça, com o ósculo da graça. Que de mais suave do que esta graça? A quem pertence esta graça? “Felizes aqueles cujas iniquidades foram perdoadas e cujos pecados foram apagados” (Sl 31,1). Se ele viesse como juiz severo e não pairasse tal graça em seus lábios, quem poderia esperar salvação? Quem não temeria receber o que é devido ao pecador? Ele veio com a graça. Não exigiu o que era devido e solveu aquilo que ele mesmo não devia. O inocente era devedor da morte? E a ti pecador, o que era devido a não ser castigo? Ele perdoou o teu débito, e pagou o que não devia. Grande graça! Por que graça? Porque gratuita. Por conseguinte, podes dar graças, mas não retribuir; é impossível. O salmista procurava como retribuir e disse: “Com que retribuirei ao Senhor por tudo com que me retribuiu?” De certo modo encontrou: “Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor” (Sl 115,12.13). Retribuis-lhe, tomando o cálice da salvação e invocando o nome do Senhor? Quem te deu o cálice da salvação? Ele permaneceu em ação de graças; mas não teve que retribuir. Encontra alguma coisa para dar a Deus que não tenhas recebido dele; e retribuirás a sua graça. Mas acautela-te. Podes encontrar algo que não tenhas recebido dele, quando procurares: o teu pecado. Este, certamente, não recebeste dele, mas também não deves dar-lhe. Isto foi o que os judeus lhe deram. Retribuíram o bem com o mal. Dele receberam a chuva, mas não deram fruto e sim espinhos dolorosos. Por conseguinte, qualquer coisa que quiseres dar a Deus do que é teu, chegarás à conclusão de que só de Deus o recebeste. Esta é a graça de Deus que paira em teus lábios. Ele te fez e gratuitamente. Não existia a quem dar a graça, antes que criasse. Estavas perdido, e ele te procurou; e tendo te encontrado te chamou novamente. Não imputou os atos passados, e prometeu bens futuros. Verdadeiramente, “pairou a graça em seus lábios”.

8 “Por isso Deus te abençoou para sempre”. É difícil de entender que se atribuam ao Pai as palavras: “Por isso Deus te abençoou para sempre”. Parecem mais adequadas à pessoa do profeta. As mudanças repentinas de pessoa, e inteiramente de improviso, encontram-se nas Sagradas Escrituras; para um bom observador, elas estão mesmo cheias disso. “Senhor, livra a minha alma de lábios iníquos e de língua enganadora”. E imediatamente depois: “Qual será a tua paga, o teu castigo, ó língua enganadora?” Antes era uma pessoa, e agora outra. Lá de um suplicante, aqui de alguém que socorre. “Aguçadas setas de poderosos, com carvões devoradores”. Uma pessoa pergunta: “Qual será a tua paga, o teu castigo?” e nos versículos seguintes, já é outra: “Ai de mim! porque minha peregrinação muito se prolongou” (Sl 119,2-5). Em poucos versículos tão frequente mudança de pessoas exige atenção. Não se exprime o lugar em que muda. Não se diz: Aqui fala um homem, aqui é Deus quem fala. Mas pelas próprias palavras se entende o que é referente a um homem, e o que pertence a Deus. Um homem, portanto, e dizia: “Prorrompeu de meu coração uma palavra boa. Ao rei digo as minhas obras”. Era um homem que falava, aquele que escreveu o salmo; mas falava em lugar de Deus. Começa a dizer em sua própria pessoa: “Por isso Deus te abençoou para sempre”. Pois, Deus havia dito: “Pairou a graça nos teus lábios”, àquele que ele fizera muito belo, acima dos filhos dos homens, sendo também homem a quem ele colocara como Deus acima de todas as coisas; o eterno fala coeterno. O profeta, portanto, encheu-se de gáudio inefável e atento ao que Deus Pai revelara a respeito do Filho ao homem, pode proferir estas palavras, em lugar de Deus: “Por isso Deus te abençoou para sempre”. Por quê? Por causa da graça. A que se refere aquela graça? Ao reino dos céus. No primeiro Testamento Deus prometera a terra. Um foi o prêmio ou a promessa feita aos que estavam sob a lei, e outra aos que viviam sob a graça. A terra dos cananeus era destinada aos judeus, que viviam sob a Lei, e o reino dos céus aos cristãos que vivem sob a graça. Por conseguinte, o reino, aquela terra pertencente aos que estavam sob a Lei, passou; o reino dos céus, destinado aos que vivem sob a graça, não passa. Por isso, “Deus te abençoou”, não por um tempo, mas “para sempre”.

9 Não faltaram também os que preferiam atribuir todas as palavras acima ao profeta. E a frase: “Prorrompeu de meu coração uma palavra boa”, entender-se-ia do profeta, a cantar um hino. Quem canta um hino a Deus, tira de seu coração uma palavra boa, como o que blasfema extrai de seu coração uma palavra má. E o acréscimo: “Ao rei digo as minhas obras” significaria que a obra mais elevada do homem consiste em louvar a Deus. Ele quer aprazer-te com sua beleza, e a ti compete louvá-lo com ação de graças. Se o louvor de Deus não for a tua obra, começarás a amar-te a ti mesmo, e serás do número daqueles dos quais diz o Apóstolo: “Os homens serão egoístas” (2Tm 3,2). Não tenhas complacência por ti mesmo, mas apraza-te aquele que te fez; assim te desagradará o que fizeste em ti. Seja tua obra o louvor de Deus, prorrompa de teu coração uma palavra boa. Dize, portanto, “ao rei as tuas obras”, porque foi o rei que fez com que dissesses, e deu-te o que oferecer. Devolve-lhe o que é seu. Não reclames a tua parte da herança para partir para longe, gastar tudo com meretrizes e apascentar porcos. Lembrai-vos do que está escrito no evangelho. Foi também a nosso respeito que foi dito: “Ele estava morto e tornou a viver; ele estava perdido e foi reencontrado!” (Lc 15,32).

10 “Minha língua é como o cálamo de um escriba a escrever velozmente”. Houve quem entendesse que o profeta disse o que escrevia, e por isso compara sua língua ao cálamo de um escriba. Com a expressão: “a escrever velozmente” quis dar a entender que escrevia o que bem depressa haveria de acontecer, de tal sorte que escrever velozmente significa escrever coisas iminentes, escrever o que não há de tardar. Deus mostrou o Cristo, sem tardança. Como decorreu depressa o que já se vê realizado! Lembra-te das gerações que te precederam. Parece que Adão foi feito ontem. Assim é do que lemos acerca do princípio; portanto, foram feitas velozmente. Velozmente virá também o dia do juízo. Antecipa-te à sua vinda veloz; virá velozmente. Mais velozmente deves mudar. Virá a presença do juiz, mas vê o que diz o profeta: “Com louvores saiamos ao seu encontro” (Sl 94,2). “Pairou a graça nos teus lábios, por isso Deus te abençoou para sempre”.

11 4“Cinge a espada a teu flanco, ó poderosíssimo”. Tua “espada”, tua palavra? Espada que prostrou os inimigos, espada a separar o filho do pai, a filha da mãe, a nora da sogra. No evangelho lemos o seguinte: “Não vim trazer paz, mas espada”. E: “Numa casa com cinco pessoas, estarão divididas três contra duas e duas contra três, isto é, filho contra pai, filha contra mãe, nora contra sogra” (Mt 10,34-35; Lc 12,51-53). Quem trouxe esta divisão pela espada, a não ser Cristo? De fato, irmãos, vemos isto todos os dias. Um jovem quer servir a Deus e isto desagrada ao pai; ficam divididos. O pai promete herança terrestre, mas ele ama a celeste. Um promete uma coisa, enquanto o segundo escolhe outra. Não considere o pai esta ação como injúria. É somente Deus que é preferido a ele; e no entanto briga com o filho que quer servir a Deus. Mas o gládio espiritual tem mais força para separar do que o laço do sangue para unir. Sucede o mesmo com a filha contra a mãe, e muito mais a nora contra a sogra. Pois, às vezes encontram-se numa mesma casa a nora e a sogra, uma herética e a outra católica. Se este gládio age ali com força, não há perigo de se rebatizar. Uma filha pode estar contra a mãe e não o pode a nora contra a sogra?

12 Isto acontece, em geral, também no gênero humano: o filho contra o pai. Outrora éramos filhos do diabo. Aos que ainda éramos infiéis, foi dito: “Vós sois do diabo, vosso pai” (Jo 8,44). Donde provém nossa infidelidade, a não ser do diabo, nosso pai? Não que ele nos tenha criado, mas porque nós o imitamos. Assim está logo o filho contra o pai, como vereis. Apareceu aquele gládio. Renuncia-se ao diabo. Encontra-se outro pai, encontra-se outra mãe. Ele, apresentando-se para ser imitado, gerava para a perdição. Os dois progenitores que encontramos, geram para a vida eterna. O filho contra o pai. A filha contra a mãe. A multidão dos judeus que acreditou separou-se da Sinagoga. Nora contra sogra. A turba dos gentios que se aproxima chama-se nora, porque Cristo, seu esposo, é filho da Sinagoga. De onde nasceu o Filho de Deus segundo a carne? Da Sinagoga. Ele deixou pai e mãe e uniu-se a sua esposa, a fim de serem dois numa só carne (cf Gn 2,24). Isto não é conjetura nossa, mas afirmação do Apóstolo: “É grande este mistério: refiro-me à relação entre Cristo e a sua Igreja” (Ef 5,32). De certa maneira, ele deixou o pai; não o fez inteiramente, para uma separação, mas a fim de assumir a carne humana. Como abandonou? “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo” (Fl 2,6). E como foi que deixou igualmente a mãe? Deixou o povo judaico, a Sinagoga observante dos antigos sacramentos. Constitui idêntica figura a pergunta: “Quem é minha mãe e quem são os meus irmãos?” (Mt 12,48). Cristo ensinava no interior, enquanto eles permaneciam de fora. Vede se agora ainda não procedem assim os judeus. Cristo ensina na Igreja e eles ficam de fora. Que é uma sogra? A mãe do esposo. A mãe do esposo, nosso Senhor Jesus Cristo, é a Sinagoga. Por conseguinte, nora é a Igreja, proveniente dos gentios, que não adotou a circuncisão carnal e foi contra a sogra. “Cinge a espada a teu flanco”. Tratando destes assuntos, referíamo-nos ao poder deste gládio.

13 “Cinge a espada”, a tua palavra, “a teu flanco, ó poderosíssimo”, sobre a coxa carrega a espada. O que significa: “a teu flanco”, sobre a coxa? A carne. Daí vem a palavra: “O cetro não se afastará de Judá, nem o chefe de sua coxa” (Gn 49,10). O próprio Abraão, que recebera a promessa de uma descendência, na qual seriam abençoadas todas as gentes, ao enviar seu servo à procura, para seu filho, de uma esposa — que lhe daria a prole santa, em que seriam abençoadas todas as nações, crendo firmemente que daquele humilde germe viria a sua grandeza, isto é, o Filho de Deus, nascido dos filhos dos homens, e progênie de Abraão — não fez o servo, seu mensageiro, jurar assim? Disse ele: “Mete tua mão debaixo de minha coxa. Eu quero te fazer jurar”. Equivale a dizer: Coloca tua mão sobre o altar, sobre o evangelho, sobre o profeta, sobre um objeto santo. “Mete tua mão debaixo de minha coxa” (Gn 12,3; 24,2.3; 26,4). Tem confiança. Não te envergonhes, mas compreende a realidade. Por isso, “cinge a espada a teu flanco, poderosíssimo”. Poderosíssimo, mesmo quanto ao flanco, porque o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens (cf 1Cor 1,25). “Poderosíssimo”.

14 5“Com tua beleza e teu esplendor”. Recebe a justiça, que sempre te faz belo e esplêndido. “Avança, marcha vitorioso e reina”. Não é isto que vemos? Certamente já se realizou. Considera a terra inteira. Ele avançou, marchou vitorioso e reina. Todas as nações lhe estão sujeitas. Que se via então em espírito? O mesmo que agora se experimenta realmente. Quando estas palavras eram proferidas, Cristo ainda não reinava, ainda não avançara, ainda não marchava vitorioso. Era anunciado. Agora já se realizou, já temos tudo isso. Deus já nos deu muitas coisas; faltam poucas. “Avança, marcha vitorioso e reina”.

15 “Com a verdade, a mansidão e a justiça”. Foi devolvida a verdade, quando esta brotou da terra, e a justiça olhou do céu (cf Sl 84,12). Apresentou-se Cristo, diante da expectativa do gênero humano, a fim de que na descendência de Abraão fossem abençoadas todas as gentes. Foi pregado o evangelho; ele é a verdade. Que é a mansidão? Sofreram os mártires e daí veio para o reino de Deus entre os povos muito progresso e adiantamento. Os mártires sofriam, sem desânimo, sem resistência. Declaravam tudo e nada ocultavam. Prontos para tudo, sem recusar coisa alguma. Grande mansidão! O corpo de Cristo agiu conforme aprendeu de sua Cabeça. Ele foi o primeiro a ser levado como ovelha ao matadouro, e como cordeiro diante do tosquiador não abriu a sua boca; tão manso que, pendente da cruz, pedia: “Pai, perdoa-lhes; não sabem o que fazem” (Is 53,7; Lc 23,34). Por que: com justiça? Ele virá também para julgar e retribuir a cada um conforme suas obras (cf Rm 2,6). Disse a verdade, suportou a iniquidade, há de trazer a equidade. “A tua destra te conduzirá admiravelmente”. Somos conduzidos por sua destra, e ele mesmo pela sua. Ele é Deus e nós somos homens. Foi conduzido por sua destra, isto é, por seu poder. Efetivamente, possui o mesmo poder que o Pai, a mesma imortalidade; tem a divindade do Pai, a eternidade do Pai, a virtude do Pai. A sua destra o conduzirá admiravelmente, praticando ações divinas, padecendo sofrimentos humanos, e prostrando com sua bondade as maldades dos homens. Ainda está sendo conduzido, e aonde não chegou o conduzirá a sua direita. Guia-o aquilo mesmo que ele deu a seus santos. “A tua destra te conduzirá admiravelmente”.

16 6 “Tuas setas aguçadas”, poderosíssimas. São palavras a traspassarem os corações e a excitarem o amor. Daí dizer o Cântico dos cânticos: “Estou doente de amor” (Ct 2,5; 5,8). Diz que está ferida pelo amor, isto é, declara que ama, inflama-se, suspira pelo esposo, que a atingiu com a seta da palavra. “Tuas setas aguçadas, poderosíssimas”, que traspassam e atuam. “Aguçadas, poderosíssimas, farão cair os povos a teus pés”. Quais? Os que, feridos, caíram. Vemos povos submissos a Cristo, mas não a cair. Explica o salmista onde caem: “no coração”. Ali erguiam-se contra Cristo, e é ali que caem perante Cristo. Saulo blasfemava contra Cristo; estava ereto. Suplica a Cristo; caiu, ficou prostrado. Foi morto o inimigo de Cristo para que vivesse o discípulo de Cristo. Do céu partiu a seta, Saulo foi ferido no coração. Era ainda Saulo, não se convertera em Paulo. Ainda ereto, não fora prostrado. Recebeu a seta no coração e caiu. Não se prostrou com a face por terra quando caiu, e sim quando disse: “Que devo fazer, Senhor?” (At 22,10). Ias à procura dos cristãos para prendê-los e arrastá-los ao suplício; e agora perguntas a Cristo: “Que devo fazer?”. Ó seta aguçada, poderosíssima, que atingiu e derrubou Saulo, para se tornar Paulo! Acontece aos povos o mesmo que a ele. Olhai as gentes, vede como estão sujeitas a Cristo. Portanto: “Farão cair os povos a teus pés. Atingirão o coração dos inimigos do rei”, a saber, o coração de teus inimigos. Denomina-se a si próprio rei, sabe que é rei. “Farão cair os povos a teus pés. Atingirão o coração dos inimigos do rei”. Eram inimigos. Atingidos por tuas setas, caíram diante de ti. De inimigos tornaram-se amigos; morreram os inimigos e vivem os amigos. Este o sentido do título: “Por aqueles que serão mudados”. Procuramos entender cada palavra, cada versículo; mas pesquisamos de sorte que ninguém duvide tratar-se de Cristo. “Farão cair os povos a teus pés. Atingirão o coração dos inimigos do rei”.

17 7“Teu trono, ó Deus, permanece pelos séculos dos séculos”, porque Deus te abençoou para sempre, e pairou a graça em teus lábios. A sede do reino judaico era temporal, pertencente àqueles que estavam sob a Lei, não aos que estavam sob o regime da graça. Cristo veio libertar os que estavam sob a Lei e estabelecê-los sob a graça. “Teu trono permanece pelos séculos dos séculos”. Por que razão? Porque aquele primeiro trono do rei era temporal. Por que agora o trono permanece pelos séculos dos séculos? Porque é de Deus. “Teu trono, ó Deus, permanece pelos séculos dos séculos”. Oh divindade na eternidade! Deus não poderia ter um trono temporal. “Teu trono, ó Deus, permanece pelos séculos dos séculos. De retidão é teu cetro real”. É cetro de retidão, que dirige os homens. Eles eram curvos, distorcidos. Queriam reinar para si, amavam-se a si mesmos, compraziam-se em suas obras más; não submetiam sua vontade a Deus, mas queriam dobrar a vontade de Deus, segundo suas concupiscências. O pecador, o iníquo, muitas vezes, revolta-se contra Deus porque não chove; e não quer que Deus se irrite contra ele quando ele resvala. E quase todos os dias os homens se assentam para disputar contra Deus: Devia agir assim; isto não está bem feito. Tu sabes perfeitamente o que fazes, e ele não? Estás distorcido. Ele é reto. Como unir o torto ao reto? Não se ajustam. Se num pavimento liso colocas uma tábua curva, não se ajusta, não adere, não se adapta ao pavimento. O pavimento, de fato, é todo igual; mas o que é curvo não se adapta ao liso. A vontade de Deus, portanto, é certa, e a tua é curva. A dele te parece curva, porque não consegues te ajustar a ela. Corrige-te de acordo com ela, ao invés de querer entortá-la de conformidade contigo. Como não consegues entortá-la, é inútil esforçar-te por fazê-lo; ela é sempre reta. Queres ajustar-te a ele? Corrige-te. Será o seu cetro que te governará, cetro de retidão. Rei é aquele que rege. Não rege, se não corrige. Nosso rei é rei de homens retos. Como ele é sacerdote, pois nos santifica, também é rei que nos rege. Como está dito em outra passagem? “Com o santo, serás santo e com o inocente serás inóquo. Com o eleito, serás eleito e com o perverso serás adverso” (Sl 17,26.27). Deus não é perverso, mas os perversos assim o julgam. Se o bem te apraz, Deus é bom para ti. Mas se te desagrada, parece-te que Deus é mau. Deus se torna curvo para ti, pois assim te faz a tua curvatura, enquanto a retidão de Deus sempre permanece. Escuta o que diz outro salmo: “Como o Deus de Israel é bom para os retos de coração!” (Sl 72,1).

18 8“De retidão é teu cetro real. Amaste a justiça e odiaste a iniquidade”. Vê o cetro de retidão: “Amaste a justiça e odiaste a iniquidade”. Aproxima-te deste cetro. Cristo seja o teu rei. Este cetro te governe; não te esmigalhe. É cetro de ferro, inflexível. Como foi dito? “Hás de governálas com cetro de ferro e esmigalhá-las qual vaso de argila” (Sl 2,9). A uns governa e a outros esmigalha; governa os homens espirituais e esmigalha os carnais. Por conseguinte, aproximate deste cetro. Por que receias? Ele consiste inteiramente no seguinte: “Amaste a justiça e odiaste a iniquidade”. O que temos? Talvez fosses iníquo; ouves dizer que teu rei odeia a iniquidade e sentes temor. Mas há um recurso. O que ele odeia? A iniquidade; acaso te odeia? Mas, existe iniquidade em ti? Deus a odeia. Odeia também tu a maldade, e ambos odiareis uma só coisa. Tornar-te-ás amigo de Deus, se odeias o que ele odeia. E amarás o que ele ama. Desagrade-te em ti a maldade, e seja-te aprazível a sua criatura. Pois, és um homem iníquo. Proferi dois nomes; dois nomes: homem e iníquo. Nestes dois um se aplica à natureza e outro à culpa. Uma foi criada por Deus para ti; a outra é obra tua. Ama o que Deus criou, odeia o que fizeste, porque ele também o odeia. Vê como começas a te unir a ele, odiando o que ele odeia. Ele há de punir o pecado, porque seu cetro é de retidão. E se não punir o pecado? Ele não o pode fazer. O pecado deve ser punido. Se não devesse ser castigado, nem seria pecado. Previne-te. Não queres que ele castigue? Castiga-te tu mesmo. Por enquanto ele poupa, adia, retém a mão, prepara o arco, isto é, ameaça. Clamaria tanto que há de ferir, se quisesse ferir? Sustém a mão diante de teus pecados; não adies. Converte a ti mesmo, castigando-te por causa de teus pecados, porque eles não podem ficar impunes. Hão de ser punidos, ou por ti, ou por ele. Reconhece-os para que ele te perdoe. Presta atenção ao exemplo dado no salmo penitencial: “Desvia a tua face de meus pecados”. Por acaso pediu: Afasta-te de mim? Em outra passagem diz abertamente: “Não desvies de mim a tua face” (Sl 26,9). Portanto: “desvia a tua face de meus pecados”. Não olhes os meus pecados. Ver para Deus é dar atenção. Diz-se que o juiz dá atenção, isto é, aplica o espírito à causa; atende para castigar, porque é juiz. Assim também Deus é juiz. “Desvia a tua face de meus pecados” (Sl 50,11). Não desvies tu a face deles se queres que Deus deles desvie a sua face. Vê como aquele mesmo salmo propõe isto a Deus: “Reconheço o meu crime e o meu pecado está sempre diante de mim” (Sl 50,5). Não quer que esteja diante de Deus aquilo que ele tem diante de si. “De retidão é teu cetro real”. Ninguém se lisonjeie demais, confiando na misericórdia de Deus; o seu cetro é de retidão. Então dizemos que Deus não é misericordioso? Quem é mais misericordioso do que ele que poupa tanto os pecadores, a ponto de não pensar mais no passado de todos os que se convertem? Ama-o, enquanto é misericordioso, mas acata igualmente o fato de que é veraz. A misericórdia não pode roubarlhe a justiça, nem a justiça tira-lhe a misericórdia. Enquanto isto, ele adia, mas tu não deves adiar, porque seu cetro real é cetro de retidão.

19 “Amaste a justiça e odiaste a iniquidade, por isso, ó Deus, te ungiu o teu Deus”. Ungiu-te para amares a justiça e odiares a iniquidade. E vê como ele se exprime: “Por isso, ó Deus, te ungiu o teu Deus”. Ó Deus, o teu Deus te ungiu. Deus é ungido por Deus. De fato, em latim, podia-se pensar que o nome é repetido, no mesmo caso; em grego, porém, é evidentíssima a distinção. Um interpela e outro é interpelado. “Deus te ungiu”. A ti, “ó Deus, te ungiu o teu Deus”, como se dissesse: Por isso ungiu-te a ti, ó Deus, o teu Deus. Assim deve-se tomar, assim se deve entender, assim é bem evidente em grego. Portanto, quem é Deus ungido por Deus? Digam-nos os judeus. Nossas Escrituras são comuns. Deus, ungido por Deus. Se ouves falar de ungido, entende que é Cristo. Pois, Cristo vem de crisma; o nome de Cristo vem de unção. Em outros reinos não se ungiam os reis e sacerdotes. Isso só se fazia no reino onde Cristo foi profetizado e ungido e de onde viria o nome de Cristo. Jamais em outra parte, absolutamente, em nenhuma nação, em nenhum reino. Deus, portanto, é ungido por Deus; com que óleo, senão um óleo espiritual. O óleo visível é um sinal. O óleo invisível existe no mistério, o óleo espiritual é interior. Deus é ungido para nós, é enviado a nós; e o próprio Deus a ser ungido era homem também. Mas era homem sem deixar de ser Deus. Era Deus e se dignou ser homem. Verdadeiro homem, verdadeiro Deus; em nada falaz, em nada falso, porque em toda a parte veraz, em toda a parte verdade. Deus, portanto, e homem; e Deus ungido porque homem-Deus, que é o Cristo.

20 Foi em figura disto que Jacó colocou uma pedra sob a cabeça e dormiu (cf Gn 28,11). O patriarca Jacó tinha posto uma pedra sob a cabeça. Estava dormindo, com a cabeça apoiada na pedra, e viu o céu aberto, uma escada que ia do céu à terra, e anjos a subirem e descerem. Depois, acordou, ungiu a pedra, e se afastou. A pedra representava Cristo para ele; por isso a ungiu. Vede como Cristo era anunciado. Qual o sentido daquela unção da pedra, principalmente para os patriarcas, que adoravam um só Deus? O feito constituía uma figura. Depois, ele se afastou dali. Não ungiu a pedra e voltou ali sempre para adorar e sacrificar. Exprimiu um mistério; não começou um sacrilégio. Vede qual é a pedra: “A pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se a pedra angular” (Sl 117,22). Como Cristo é a Cabeça do homem, a pedra foi colocada no ângulo capital. Atenção ao grande mistério: Cristo é pedra, “pedra viva, rejeitada, é verdade, pelos homens, mas diante de Deus eleita e preciosa”, diz S. Pedro (1Pd 2,4). E a pedra estava sob a cabeça, porque a Cabeça do homem é Cristo (cf 1Cor 11,3). A pedra foi ungida, porque Cristo vem de crisma, unção. E por revelação de Cristo, vê-se uma escada da terra ao céu, ou do céu à terra, e anjos subindo e descendo. Veremos melhor seu significado ao relembrarmos o testamento evangélico do próprio Senhor (cf Gn 28,11.12; Jo 1,51). Sabeis que Jacó se chama também Israel. Ao lutar ele com o anjo e prevalecer, recebeu a bênção do vencido, e teve mudado seu nome, passando a chamar-se Israel (Gn 32,28). O povo de Israel também se prevaleceu contra Cristo, crucificando-o; no entanto, nos que acreditaram em Cristo, ele foi bendito por aquele sobre o qual havia prevalecido. Mas como muitos não acreditaram, daí a razão da coxeadura de Jacó. Bênção e claudicação. Bênção para os fiéis, pois sabemos que depois muitos daquele povo acreditaram. Coxeadura para aqueles que não creram. Como muitos não acreditaram e poucos creram, para que Jacó se tornasse coxo o anjo tocou o tendão de sua coxa. O que significa o tendão de sua coxa? A multidão do povo. Vede, portanto, aquela escada. O evangelho conta que o Senhor ao ver Natanael disse: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há fingimento” (Jo 1,47). O mesmo é dito de Jacó: “Jacó era um homem sem fingimento, morando sob tendas” (Gn 25,27). Lembrado disto, o Senhor vendo Natanael, homem sem fingimento, daquela nação e daquele povo, disse: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há fingimento”. Chamou-o de israelita, em quem não havia fingimento, por causa de Jacó. “De onde me conheces?” perguntou-lhe Natanael. “Eu te vi, quando estavas sob a figueira” (Jo 1,47.48), respondeu-lhe o Senhor, isto é, quando estavas no meio daquele povo, sujeito à Lei, que o protegia, como sombra material, eu te vi. Qual o sentido da resposta: Ali eu te vi? Eu me compadeci de ti. Natanael recordou-se de que estivera de fato debaixo da figueira e ficou admirado porque pensava que ninguém o vira quando lá estava; disse: “Tu és o Filho de Deus, és o Rei de Israel”. Quem disse essas palavras? Aquele que ouvira ser ele verdadeiro israelita, em quem não havia fingimento. Respondeu o Senhor: “Crês, só porque te disse: Eu te vi sob a figueira? Verás coisas maiores do que estas”. Fala com Israel, com Jacó, com aquele que pusera uma pedra sob a cabeça. “Verás coisas maiores do que estas”. Quais? A pedra já estava sob sua cabeça. “Em verdade vos digo: Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem” (Jo 1,49.50.51). Subam e desçam os anjos de Deus por aquela escada. Faça-se isto na Igreja. Os anjos de Deus são núncios da verdade. Subam e vejam: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus”. Desçam e vejam: “O Verbo se fez carne, e habitou entre nós” (Jo 1,1.14). Subam e elevem os grandes; desçam e nutram os pequenos. Vede Paulo subindo: “Se nos deixamos arrebatar como para fora do bom senso, foi por causa de Deus”. Vede descendo: “Se somos sensatos, é por causa de vós” (2Cor 5,13). Vede-o a subir. “É realmente de sabedoria que falamos entre os perfeitos”. Vede-o a descer: “Dei-vos a beber leite, não alimento sólido” (1Cor 2,6 e 3,2). Assim acontece na Igreja: sobem e descem os anjos de Deus sobre o Filho do homem. No alto está o Filho do homem, para junto do qual sobem de coração, a saber, ele é a Cabeça; e em baixo está o Filho do homem, isto é, o corpo. Seus membros acham-se na terra, e a Cabeça no alto; sobe-se para junto da Cabeça, desce-se para junto dos membros. Cristo está ali, e Cristo acha-se aqui. Pois, se estivesse apenas no céu, e não na terra, como se explica a palavra: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 9,4). Quem lhe foi molesto no céu? Ninguém. Nem os judeus, nem Saulo, nem o diabo tentador. Ninguém ali o molestava. Mas, como sucede no corpo humano, a língua grita porque o pé foi pisado.

21 “Amaste a justiça e odiaste a iniquidade, por isso, ó Deus, te ungiu o teu Deus”. Falamos de Deus, que foi ungido, isto é, de Cristo. Não é possível falar mais claramente o nome de Cristo do que dizer: Deus ungido. Como ele é “muito belo, acima dos filhos dos homens”, assim foi ungido “com o óleo da alegria, de preferência a seus companheiros”. Quais os seus companheiros? Os filhos dos homens, porque o próprio Filho do homem se fez partícipe da mortalidade deles, para que eles participassem de sua imortalidade.

22 9“Tuas vestes exalam perfume de mirra, aloés e cássia”. Bons odores exalam tuas vestes. Suas vestes são os seus santos, seus eleitos, toda a sua Igreja, que ele apresenta a si mesmo, sem mancha nem ruga (cf Ef 5,27). Lavou-a em seu sangue, para tirar a mácula; e estendeu-a na cruz para desfazer as rugas. Daí vem o bom odor, que vem representado pelos nomes de certos aromas. Ouve a Paulo, aquele mínimo, fímbria do manto que tocou a mulher que sofria de um fluxo de sangue e ficou curada (cf Mt 9,20). Escuta-o a dizer: “Somos o bom odor de Cristo em toda a parte, entre aqueles que se salvam e aqueles que se perdem” (2Cor 2,15). Não disse: Bom odor para aqueles que se salvam, e mau odor para os que se perdem; mas: “Somos o bom odor, entre aqueles que se salvam e aqueles que se perdem”. Que um homem se salve devido a um bom odor é provável e crível; mas qual a razão de se perder um homem por causa de um bom odor? Grande virtude, grande verdade! Embora não se entenda, assim é. Pois, para que saibas como é difícil de entender, logo acrescentou o Apóstolo: “E quem estaria à altura?” (2Cor 2,15). Quem compreende que possam morrer alguns devido a um bom odor? Todavia, direi alguma coisa, irmãos. Eis que o próprio Paulo pregava o evangelho; muitos o amavam, como pregador do evangelho e muitos o invejavam. Os que o amavam, salvaram-se pelo bom odor; os invejosos, perdiam-se com seu bom odor. No entanto, também para os que se perdiam não era mau cheiro, porém bom odor. Por esta razão era mais invejado, uma vez que nele prevalecia a graça cheia de bondade. Ninguém inveja um miserável. Ele era glorioso na pregação da palavra de Deus e vivia segundo a regra daquele cetro de retidão. Amavam-no os que nele amavam a Cristo, os que seguiam o bom odor. Amava o amigo de seu esposo a própria esposa, que diz no Cântico dos cânticos: “Correremos ao odor de teus perfumes” (Ct 1,3). Aqueles invejosos, porém, quanto mais viam-no na glória da pregação do evangelho e a sua vida íntegra, tanto mais se torciam de inveja, e morriam pelo bom odor.

23 10“Tuas vestes exalam perfume de mirra, aloés e cássia; das casas de marfim te deleitaram as filhas dos reis”. As filhas de reis deleitaram a Cristo das casas de marfim, das casas grandes, dos palácios reais, de qualquer uma dessas que quiseres. Queres tomar as casas de marfim no sentido espiritual? Entende as grandes casas, os grandes tabernáculos de Deus como sendo os corações dos santos, que são reis pelo domínio da carne, que controlam as multidões de afeições humanas, castigam o corpo e o reduzem à servidão, porque nisto o deleitam as filhas dos reis. Efetivamente todas as almas que nasceram através de sua pregação e evangelização são filhas de reis. As Igrejas, filhas dos apóstolos, são filhas de reis. Pois, Cristo é o “Rei dos reis” (Ap 19,16). Os apóstolos são os reis, acerca dos quais se disse: “Também vós vos sentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel” (Mt 19,28). Pregaram a palavra da verdade e geraram as Igrejas, não para si, mas para Cristo. A este mistério se refere o que foi escrito na Lei: “Quando dois irmãos moram juntos e um deles morre, o cunhado tomará a mulher de seu irmão, e suscitará uma descendência; não para si, mas para seu irmão” (Dt 25,5). Cristo disse: “Ide anunciar a meus irmãos” (Mt 28,10). E reza o salmo: “Anunciarei o teu nome a meus irmãos” (Sl 21,23). Cristo morreu, ressuscitou, subiu aos céus, ausentou-se corporalmente. Seus irmãos tomaram sua esposa, a fim de gerar filhos pela pregação do evangelho, não por si mesmos, mas por meio do evangelho, em vista do nome de seu irmão. Diz o Apóstolo: “Fui eu quem pelo evangelho vos gerou” (1Cor 4,15). Em consequência disso, os apóstolos, suscitando uma descendência a seu irmão, denominaram a todos os que geraram, não paulinos ou petrinos, mas cristãos. Vede se não é tal o sentido que se destaca nestes versículos. Ao falar o salmista de “casas de marfim”, referia-se a palácios amplos, belos, suaves, quais são os corações dos santos, e acrescentou: “Deles te deleitaram as filhas dos reis, rendendo honras”. “As filhas dos reis”, as filhas dos teus apóstolos; mas, “rendendo honras”, porque suscitaram eles uma prole a seu irmão. Por tal motivo, ao verificar Paulo que os filhos que ele suscitara a seu irmão se prevaleciam de seu nome, exclamou: “Paulo terá sido crucificado em vosso favor” (1Cor 1,13)? Como se exprime a Lei? O Filho tenha o nome do defunto. Nasça para ele, tenha o seu nome. Paulo observa esta prescrição da Lei. Aos que queriam tomar seu nome, ele adverte: “Paulo terá sido crucificado em vosso favor?” Voltai o olhar para o defunto: “Paulo terá sido crucificado em vosso favor?” Como então será? Quando os geraste, impuseste-lhes o teu nome? Não. Pois, continua: “Ou fostes batizados em nome de Paulo” (1Cor 1,13)? “As filhas dos reis te deleitaram, rendendo honras”. Retende, guardai a recomendação: “rendendo honras”. Possuir a veste nupcial é isto: procurar a sua honra, a sua glória. Podeis também aplicar a expressão: “filhas dos reis” às cidades que acreditaram em Cristo, e foram fundadas pelos reis; e: “das casas de marfim”, aos ricos, soberbos, orgulhosos. “As filhas dos reis te deleitaram, rendendo honras”, porque não buscaram a honra de seus pais, e sim a tua honra. Que se me mostre em Roma, em honra de Rômulo, um templo tão grandioso quanto lá te aponto a memória de Pedro. Quem é honrado na lembrança de Pedro, senão aquele que morreu por nós? Somos cristãos, não petrinos. Embora gerados pelo irmão do defunto, temos o nome daquele que morreu. Nascidos através do primeiro, mas para o segundo. Eis que Roma, Cartago, mais e mais cidades são filhas dos reis. E deleitaram o rei, rendendo-lhe honra. E todos constituem uma só rainha.

24 Qual o cântico nupcial? Eis que no meio de cânticos de alegria avança a própria esposa. O esposo estava chegando, e era descrito. Para ele se voltara toda a nossa atenção. Avance agora também a rainha. “À tua direita assiste a rainha”. A que está à esquerda não é rainha. Também à esquerda haverá uma, à qual se dirá: “Ide para o fogo eterno”. À direita estará aquela que ouvirá: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o reino preparado para vós desde a criação do mundo” (Mt 25,34.41). “À tua direita assiste a rainha, em vestes recamadas de ouro, com ornatos variegados”. Em que consiste a veste desta rainha? É preciosa e variegada: os mistérios da doutrina, em várias línguas. Uma é a língua africana, outra a síria, outra a grega, outra a hebraica, e mais outras. Estas línguas constituem a variedade na veste da rainha. Como a variedade nas vestes chegam a uma unidade concorde, assim todas as línguas se relacionam com a fé única. Haja variedade na veste, mas não cissura. A variedade representa a diversidade das línguas e, a veste figura a unidade; o que seria o ouro nesta variedade? A sabedoria. Qualquer que seja a variedade das línguas, apregoa-se um só ouro; o ouro não é diverso, mas há variedade. Na verdade, todas as línguas pregam a mesma sabedoria, a mesma doutrina e a mesma disciplina. Variedade nas línguas, ouro nas sentenças.

25 11Dirige-se o profeta (de bom grado, canta) a esta rainha e a cada um de nós, contanto que reconheçamos onde estamos, e nos empenhemos em pertencer àquele corpo, permanecendo unidos pela fé e a esperança aos membros de Cristo. Ele nos fala, portanto: “Ouve, filha, vê”. Fala-lhe como um dos pais, porque são filhas dos reis. Embora fale o profeta, embora fale o Apóstolo, como a uma filha (Assim dizemos: nossos pais os profetas, nossos pais os apóstolos. E se os consideramos nossos pais, eles nos têm como filhos), fala também a única voz paterna à única filha: “Ouve, filha, vê”. Primeiro ouve e depois vê. Os apóstolos vieram a nós com o evangelho, pregaram-nos o que ainda não vemos. Acreditamos ouvindo, e crendo veremos, conforme diz o próprio esposo, através do profeta: “Um povo que eu não conhecia pôs-se a meu serviço. Logo que ouviu, obedeceu-me” (Sl 17,45). O que quer dizer: “Logo que ouviu”? Que não viu. Os judeus viram e o crucificaram. Os gentios não viram e acreditaram. Venha a rainha, do povo dos gentios, em vestes recamadas de ouro, com ornatos variegados; venha dentre os gentios, venha ornada de todas as línguas, na unidade da sabedoria. Seja-lhe dito: “Ouve, filha, vê”. Se não ouvires, não verás. Ouve para purificares o coração com a fé, como o Apóstolo disse nos Atos dos Apóstolos: “Purificou seus corações pela fé” (At 15,9). Ouvimos aquilo que devemos crer, antes de ver. Acreditando purifiquemos o coração, de sorte a podermos ver. Ouve para creres, purifica o coração pela fé. E quando tiver purificado o coração, o que verei? “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8). “Ouve, filha, vê, e inclina teu ouvido”. Não basta ouvir; ouve humildemente: “Inclina teu ouvido; esquece o teu povo e a casa de teu pai”. Havia certo povo, e determinada casa de teu pai, onde nasceste: o povo de Babilônia, tendo o diabo como rei. Seja de onde for que vieram os pagãos, vieram do diabo, seu pai; mas renunciaram a seu pai, o diabo. “Esquece o teu povo e a casa de teu pai”. Ele te gerou disforme, pois te tornou pecadora; Cristo te regenera, faz-te bela, porque justifica a ímpia. “Esquece teu povo e a casa de teu pai”.

26 12“De tua beleza se encantará o rei”. Qual beleza, senão a que ele mesmo criou? “Encantou-se de tua beleza”. De que beleza? Da pecadora, da iníqua, da ímpia, qual era junto do diabo, seu pai, e no meio de seu povo? Não. Mas, a daquela da qual foi dito: “Quem é esta que sobe alvejada?” (Ct 8,5). Antes não era alva, mas depois se tornou branca. Se vossos pecados forem como escarlate, tornar-se-ão alvos como a neve (cf Is 1,18). “De tua beleza se encantou o rei”. Qual rei? “Ele é o Senhor teu Deus”. Já vês que deves deixar teu pai, e teu povo, e vir para junto deste rei, o teu Deus. Teu Deus é o teu rei. Teu rei é esposo. Tu te desposas a Deus, teu rei, por ele dotada, decorada, redimida, curada. Tudo o que tens para agradar-lhe foi ele que te deu.

27 13“E adorá-lo-ão as filhas de Tiro, com suas dádivas”. É a teu rei, o teu Deus, que “adorarão as filhas de Tiro, com suas dádivas. As filhas de Tiro”, as filhas dos gentios. Da parte ao todo. Tiro é uma terra vizinha daquele de onde partiu a profecia. Representava as nações que haveriam de acreditar em Cristo. De lá era a cananeia, que o Senhor a princípio chamou de cão. Para se saber de onde era, o evangelho assim narra: “Jesus retirou-se para a região de Tiro e de Sidônia. E eis que uma mulher cananeia, daquela região, veio gritando”, etc., conforme descrito nesta passagem. Anteriormente, junto de seu pai e no meio de seu povo, era cão, ladrando atrás deste rei; depois, acreditando nele, tornou-se bela. E o que mereceu ouvir? “Mulher, grande é a tua fé” (Mt 15,21-28)! “De tua beleza se encantou o rei. Adorá-lo-ão as filhas de Tiro, com suas dádivas”. Quais? O rei quer que elas se aproximem com dádivas, e deseja encher seus tesouros; mas ele mesmo dá com que enchê-los, e por vosso intermédio. Ele diz: Venham e adorem com dádivas. O que significa: com dádivas? “Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e o caruncho os destroem, e onde os ladrões arrombam e roubam, mas ajuntai tesouros nos céus, onde nem os ladrões, nem a traça destroem. Pois onde está o teu tesouro aí estará também teu coração” (Mt 6,19-21). Vinde com dádivas: “Dai esmolas e tudo ficará puro para vós” (Lc 11,41). Vinde com dádivas para junto daquele que diz: “Misericórdia é que eu quero, e não sacrifício” (Os 6,6; Mt 9,13). Os judeus deviam apresentar-se àquele templo que era sombra do futuro com touros e carneiros, com bodes, e diversos outros animais aptos para o sacrifício. Com aquele sangue se fazia o que era uma figura de outra realidade. Agora já veio o sangue, que fora figurado por todos aqueles; veio o próprio rei, e ele quer dádivas. Quais? Esmolas. Ele há de julgar um dia, e há de remunerar a alguns. Dirá: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o reino preparado para vós desde a criação do mundos”. Por quê? “Eu tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Estive nu e me vestistes, era forasteiro e me recolhestes. Estive doente e preso e me visitastes”. São estas as dádivas com as quais adoram ao rei as filhas de Tiro; porque ao dizerem: “Quando foi que te vimos…?”, ele, que é do alto e da terra, conforme os anjos que sobem e descem, dirá: “Toda vez que o fizestes a um desses mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,34-40).

28 “Adorá-lo-ão as filhas de Tiro com suas dádivas”. Quais são as filhas de Tiro e como o adorarão com dádivas, quis dizer o salmista mais claramente: “Imploram teu favor os ricos do povo”. Estas filhas de Tiro que adoram, com dádivas, são os ricos do povo, aos quais fala o Apóstolo, amigo do esposo: “Aos ricos deste mundo, exorta-os que não sejam orgulhosos, nem ponham sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus vivo, que nos provê de tudo com abundância, para que nos alegremos; enriqueçam-se com boas obras, sejam pródigos, capazes de partilhar”. Adorem com dádivas, mas não as percam; ponham em segurança onde sempre as encontrem. “Estarão acumulando para si mesmos um belo tesouro para o futuro a fim de obterem a verdadeira vida” (1Tm 6,17-19). Adorando, com dádivas, “imploram teu favor”. Vão à igreja, e lá dão esmolas. Não o façam do lado de fora, isto é, não fiquem de fora, mas deem na igreja. O rosto desta esposa e rainha será favorável aos que as derem. Foi por isso que os cristãos vendiam seus bens (cf At 4,54), e implorando o favor desta rainha, vinham com dádivas; e colocavam aos pés dos apóstolos os dons que traziam. O amor era ardente na Igreja. O favor da rainha era a Igreja, o favor desta rainha era o obséquio das filhas de Tiro, isto é, dos ricos que adoravam, com dádivas. “Imploram teu favor os ricos do povo”. E os que hão de implorar o favor, e aquela cujo rosto eles procurarão, constituem uma só esposa, uma só rainha, a mãe e os filhos simultaneamente pertencendo todos a Cristo, à Cabeça.

29 14.15Mas como estas obras e estas esmolas podem ser feitas no intuito de jactância diante dos homens, adverte o próprio Senhor: “Guardai-vos de praticar a vossa justiça diante dos homens para serdes vistos por eles” (Mt 6,1). Como, porém, devem ser realizadas publicamente, por causa da face da esposa, diz: “Brilhem vossas obras diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, eles glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16), isto é, não façais vossas obras publicamente para vossa glória, e sim para glória de Deus. E quem pode saber, diz alguém, se procuro a glória de Deus ou a minha? Pode-se verificar que dou ao pobre; mas quem vê com que intenção eu dou? Basta que Deus te veja; vê aquele que retribuirá. Ama o teu íntimo aquele que o vê. Ama interiormente; seja amado também interiormente aquele que fez o teu íntimo e a sua própria beleza. Não te deleite ser visto por olhos que veem o exterior e ser louvado. Dá atenção a como prossegue o salmo: “Toda a glória da filha do rei é interior”. No exterior, a veste é de ouro e variegada; mas aquele que amou a sua formosura, conhece sua beleza interior. Qual é ela? A da consciência. Ali Cristo vê, ama, fala, castiga, coroa. Seja, portanto, oculta a tua esmola, porque “toda a glória da filha do rei é interior, vestida com roupagens de franjas de ouro e multicolores”. A beleza é interior. As franjas de ouro representam a variedade das línguas, a beleza da doutrina. De que adiantam estas, se não houver a beleza interior?

30 “As virgens que a seguem serão conduzidas ao rei”. Verdadeiramente assim aconteceu. A Igreja acreditou, constituiu-se no meio de todas as gentes. Agora como desejam as virgens agradar àquele rei? Como são estimuladas? A Igreja as precede. “As virgens que a seguem serão conduzidas ao rei, suas companheiras te serão apresentadas”. As que foram conduzidas não são estranhas, mas companheiras, a ela pertencem. E como disse: “ao rei”, volta-se para ele o salmista e assim se exprime: a ti. “Suas companheiras te serão apresentadas”.

31 16“Levadas no meio do júbilo e exultação, ingressam no templo real”. Templo real é a própria Igreja. Como se constrói o templo? De homens que entram no templo. Quais são as pedras vivas, senão os fiéis de Deus? “Ingressam no templo real”. Há virgens fora do templo do rei, as monjas heréticas; são, de fato, virgens, mas que lhe adianta isso se forem conduzidas ao templo do rei? O templo do rei se acha na unidade; o templo do rei não é ruinoso, separado, dividido. A caridade é a juntura das pedras vivas. “Ingressam no templo real”.

32 17“Teus filhos tomaram o lugar de teus pais”. Nada de mais evidente. Prestai atenção ao próprio templo do rei, porque o salmista dele fala, tendo em vista a unidade difundida por toda a terra. As que quiseram ser virgens, não podem agradar ao esposo, se não forem conduzidas ao templo do rei. “Teus filhos tomaram o lugar de teus pais”. Os apóstolos te geraram; eles foram enviados, eles pregaram, são os pais. Mas, por acaso, podiam permanecer sempre fisicamente conosco? Embora um deles tenha dito: “O meu desejo é partir e ir estar com Cristo, pois isso me é muito melhor, mas o permanecer na carne é mais necessário por vossa causa” (Fl 1,23.24), ele assim falou, na verdade, mas por quanto tempo pôde ficar? Teria permanecido até hoje? Até amanhã? Com sua partida a Igreja ficou deserta? De modo algum. “Teus filhos tomaram o lugar de teus pais”. O que significa: “Teus filhos tomaram o lugar de teus pais”? Os pais, os apóstolos foram enviados. Em lugar deles nasceram teus filhos, que foram estabelecidos como bispos. De onde surgiram hoje os bispos, existentes em todo o mundo? A própria Igreja os denomina pais, aqueles que ela gerou, e estabeleceu nas sedes dos pais. Não te consideres, portanto, abandonada, porque não vês a Pedro, nem a Paulo, nem aqueles por meio dos quais nasceste. A paternidade se originou para ti de tua prole. “Teus filhos tomaram o lugar de teus pais. Tu os estabelecerás príncipes sobre toda a terra”. Vê como se dilatou grandemente o templo do rei; assim conheçam as virgens, não conduzidas ao templo do rei, que não tomam parte nestas núpcias. “Teus filhos tomaram o lugar de teus pais. Tu os estabelecerás príncipes sobre toda a terra”. Esta é a Igreja católica. Seus filhos foram estabelecidos príncipes sobre toda a terra; os filhos tomaram o lugar dos pais. Reconhecem-no os que foram cortados; venham à unidade, sejam conduzidos ao templo do rei. Deus colocou seu templo em toda a parte, consolidado sobre os fundamentos dos profetas e dos apóstolos. A Igreja gerou filhos, e estabeleceu-os em lugar de seus pais, como príncipes sobre toda a terra.

33 18“Lembrar-se-ão de teu nome através das gerações e os povos te louvarão”. Que adianta, louvar, mas fora do templo? Que utilidade há em rezar, mas não no monte? “Elevei ao Senhor a minha voz e ele me ouviu de seu monte santo” (Sl 3,5). De que monte? Daquele do qual está escrito: “Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte” (Mt 5,14). De que monte? Aquele que Daniel viu surgir de uma pequena pedra, e que esmagou todos os reinos da terra, enchendo-a toda inteira (cf Dn 2,35). Sobre ele adore quem quiser receber, peça ali quem quiser ser ouvido, confesse quem quiser ser perdoado. Por isso, “os povos te louvarão eternamente e pelos séculos dos séculos”. Efetivamente, na vida eterna não haverá gemidos dos pecadores; contudo, nos louvores divinos daquela superna e perpétua cidade não faltará a confissão de tamanha felicidade. A esta mesma cidade canta outro salmo: “Coisas gloriosas são ditas de ti, cidade de Deus” (Sl 86,3); de ti, esposa de Cristo, rainha, filha de rei, e esposa do rei. Seus príncipes lembraram-se de seu nome em todas as gerações das gerações, isto é, enquanto decorrem os séculos, que incluem muitas gerações. Eles praticam a caridade, em seu favor, a fim de que libertada deste século, reine com Deus eternamente. Por esta razão, os povos a louvarão eternamente; então, ali serão visíveis e manifestos os corações luminosos de todos em perfeita caridade, para que ela se conheça inteira e plenamente, enquanto na terra em muitas de suas partes ela se desconhece. Daí admoestar-nos o Apóstolo a nada julgarmos antes do tempo, até que venha o Senhor, que iluminará o que está oculto nas trevas, e manifestará os desígnios dos corações, e então cada um receberá de Deus o louvor que lhe for devido (cf 1Cor 4,5). A própria cidade santa de certo modo se louvará, uma vez que os povos que a constituem louvam-na eternamente, de sorte que tudo lhe será patente, uma vez que parte alguma do que há em si lhe estará oculto.

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

Comentário de Santo Agostinho ao Salmo 43

1 1.2“Salmo de Davi, para a conclusão do tabernáculo”. O salmo dirige-se ao mediador de mão forte, a respeito da perfeição da Igreja neste mundo, onde ela milita no tempo, contra o diabo.

1 1Este salmo atribuiu-se aos filhos do Coré, conforme traz seu título. Coré se traduz por Crânio ou Calvário, e encontramos escrito no evangelho que nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado no lugar chamado Calvário. Por isso torna-se claro que este salmo é cantado pelos filhos de sua paixão. A este respeito temos o testemunho evidente e firme do apóstolo Paulo. Quando a Igreja padecia perseguições da parte dos gentios, deste salmo ele tirou o versículo que citou como exortação e conforto. Nele, de fato, se encontra a palavra que Paulo incluiu em sua epístola: “Por tua causa somos postos à morte o dia todo, somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro” (Rm 8,36). Ouçamos, portanto, no salmo a voz dos mártires. E vede como é boa a motivação desta palavra dos mártires: “Por tua causa”. Assim igualmente o Senhor quando disse: “Bem-aventurados os que são perseguidos, acrescentou: por causa da justiça” (Mt 5,10), para que não sucedesse que alguém ao sofrer perseguição, quisesse se gloriar de seus padecimentos, apesar de não ser boa a sua causa. Por conseguinte exorta os seus: Sereis felizes quando os homens vos fizerem isto ou aquilo, ou o disserem, por minha causa. Por esta razão, também a palavra: “Por tua causa somos postos à morte o dia todo”.

2 Existe um plano de Deus muito profundo, que merece longa consideração, e cujo motivo vamos procurar. Deus tirou os nossos pais, os patriarcas e todo o povo de Israel, com mão forte, do Egito. Afogou no mar os inimigos que os perseguiam. Conduziu-os através de povos que se lhes opunham, venceu seus inimigos e colocou-os na terra prometida. Deu-lhes grandes vitórias, apesar de seu pequeno número contra uma multidão de inimigos. Depois, aprouve-lhe de certo modo afastar de si o seu povo, de sorte que seus santos sofreram matanças, mortes, sem resistência, defesa ou impedimento. Ele como que apartava seu rosto de seus gemidos, parecia esquecê-los, como se não fosse o Deus que, com mão forte e braço levantado, por evidente poder, livrou do Egito, como disse, a nossos pais, quer dizer, aquele povo, e tendo vencido e expulsado de sua terra as nações o constituísse num reino, para admiração de todos, porque frequentemente muitos foram superados por poucos. Foi tudo isto que se começou a cantar, com gemidos de confissão, no presente salmo. Tais acontecimentos não foram em vão. É preciso entender por que se deram. Efetivamente, é manifesto que eles se deram, mas devemos investigar profundamente por que razão assim sucedeu. O título não traz apenas: “Dos filhos de Coré”, mas: “Para inteligência, dos filhos do Coré”. Encontra-se também naquele salmo, cujo primeiro versículo o próprio Senhor recitou na cruz: “Meu Deus, meu Deus, olha-me. Por que me desamparaste?” semelhante maneira de se exprimir. Prefigurando-nos no que dizia e em seu corpo (visto que somos seu corpo e ele é nossa Cabeça), a voz que se ouviu da cruz não era sua, mas nossa. Pois, Deus nunca o abandonou e ele jamais se afastou do Pai. Foi por nossa causa que ele proferiu as palavras: “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?”, e em seguida: “Estão longe de minha salvação as vozes de meus delitos”. Demonstra assim em nome de quem falou, uma vez que nele não se achou pecado. Ele declara ainda no mesmo salmo: “Clamarei durante o dia, e não me escutarás; e à noite…” (Subentende-se: e não me escutarás). Além disso acrescenta: “e não para minha loucura” (Sl 21,2.3), isto é, não me ouvirás, de sorte que eu entenda, e não para que enlouqueça. O que significa: não ouvirás, de sorte que eu entenda? Quer dizer que não me atenderás no tocante aos bens temporais, para eu compreender que de ti hei de esperar os eternos. Por conseguinte, Deus não abandona e se aparentemente se afasta, retira o objeto mal desejado e ensina qual convém desejar. Se Deus sempre nos cumulasse de prosperidade material, com abundância de tudo, e enquanto somos mortais não sofrêssemos tribulação alguma, nem aflições e angústias, diríamos talvez serem esses os bens supremos que Deus concede a seus servos, e não desejaríamos outros maiores da parte dele. Por isto, ele mistura com as falsas suavidades desta vida as amarguras das tribulações, para que busquemos a outra vida, suave e salutar. Este o sentido do título: “Para inteligência, dos filhos de Coré”. Por fim, vejamos o salmo, e nele tudo isso se evidenciará.

3 2.3“Ouvimos, ó Deus, com nossos próprios ouvidos. Nossos pais nos contaram a obra que fizeste em seus dias, nos tempos de outrora”. Eles recordam o que ouviram de seus pais, admirados porque parece que Deus abandonou aqueles que ele quis experimentar nos sofrimentos, e de certo modo dizem: Nossos pais não nos contaram coisas como essas que padecemos. Pois, no salmo 21 foi dito: “Em ti confiaram os nossos pais, esperaram e os livraste. Eu, porém, sou verme e não homem. Opróbrio dos homens e abjeção da plebe” (Sl 21,5.7). Esperaram e os livraste; eu esperei e me abandonaste, e foi em vão que em ti acreditei, que meu nome está escrito junto de ti, e teu nome se gravou em mim? Foi isto que nossos pais nos indicaram. “Para implantá-los, com tua mão dispersaste nações, abateste povos e os expulsaste”. Quer dizer, expulsaste povos de seu país, para os introduzir e implantar, e confirmar seu reino com tua misericórdia. Tudo isso nossos pais nos contaram.

4 4Mas talvez puderam realizar tais feitos porque eram fortes guerreiros, invencíveis, exercitados, belicosos? De modo nenhum. Não foi isto que nossos pais nos contaram, nem o que se encontra na Escritura. Ela contém apenas o que segue: “Não foi por sua espada que conquistaram a terra, nem foi seu braço que os salvou. Foi a tua direita e foi o teu braço, foi o resplendor de tua face. Tua direita”, teu poder; “teu braço”, teu próprio Filho. “E o resplendor de tua face”; qual o sentido da expressão? Apareceste por meio de tais sinais que eles entendiam estares presente. Quando Deus se nos revela por meio de algum milagre, vemos com nossos olhos a sua face? Mas o efeito miraculoso manifesta aos homens a sua presença. Enfim, todos os que se admiram diante de tais fatos, o que dizem? Vi a Deus presente. “Foi a tua direita e foi o teu braço, foi o resplendor de tua face, porque os amaste”, a saber, de tal modo agiste em relação a eles por que os amaste. Quem observasse esse modo de agir, diria que verdadeiramente Deus estava com eles e neles agia.

5 5E então? Deus era um outrora e é outro agora? De modo algum. Como continua? “És o meu rei e o meu Deus”. Tu és o mesmo, não mudaste. Vejo os tempos mudados, ao invés do Criador dos tempos que não muda. “És o meu rei e o meu Deus”. Costumas conduzir-me, reger-me, socorrer-me. “Que deste a vitória a Jacó. Que deste?” O que significa? Embora estejas oculto, por tua substância e natureza, pelas quais és o que és, e não te apresentaste a nossos pais segundo aquilo que és, de modo que te vissem face a face, contudo, dás a vitória a Jacó através de seres criados. Efetivamente a visão face a face é reservada aos libertados, por ocasião da ressurreição. Igualmente os pais, no Novo Testamento apesar de terem visto a revelação de teus mistérios, e haverem anunciado os segredos que lhes foram revelados, todavia afirmaram que viram em espelho e enigma, e estar reservada ao futuro a visão face a face, ao se realizar a palavra do Apóstolo: “Pois morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus; quando Cristo, que é a vossa vida, se manifestar, então vós também com ele sereis manifestados em glória” (cf 1Cor 13,12; Cl 3,3.4). Está reservada para esta ocasião a visão face a face, referida por João: “Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas o que nós seremos ainda não se manifestou. Sabemos que por ocasião desta manifestação seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é” (1Jo 3,2). Em consequência, embora então nossos pais não te tenham visto face a face como tu és, embora tal visão esteja reservada para a ressurreição final, embora tenha sido através dos anjos, tu é que “deste a vitória a Jacó”. Não estás presente apenas por ti mesmo, mas por meio de qualquer de tuas criaturas tu te apresentas. Assim ordenas, em prol da salvação de teus servos; neste intuito agem aqueles a quem ordenas. Tu és o meu rei e meu Deus, tu dás a vitória a Jacó. Por que razão, então, sofremos agora tais males?

6 6É possível que sejam apenas fatos passados os que nos foram contados; quanto ao futuro, nada disto é de se esperar. Muito ao contrário. “Por ti repeliremos o inimigo”. Por conseguinte, nossos pais nos contaram a obra que fizeste em seus dias, nos tempos de outrora, porque para implantá-los, com tua mão dispersaste nações e abateste povos. São fatos passados; no futuro, como será? “Por ti repeliremos o inimigo”. Época virá em que todos os inimigos dos cristãos serão ventilados como palha, carregados pelo vento como a poeira e varridos da superfície da terra. Se, portanto, tais feitos relativos ao passado nos são contados, e outros tantos são prenunciados quanto ao futuro, por que lutamos no meio dos acontecimentos presentes, senão “para inteligência, dos filhos de Coré? Por ti repeliremos o inimigo, e em teu nome desprezaremos os que se levantam contra nós”. Refere-se ao futuro.

7 7“Não é em meu arco que porei a confiança, nem é minha espada que me salvará”. Nem a nossos pais foi a sua espada.

8 8“Mas tu nos salvaste dos que nos afligiam”. Fala no pretérito acerca do futuro; fala como se fosse fato passado, por ser tão certo como se já estivesse realizado. Prestai atenção. Muitos profetas assim se exprimem no pretérito ao prenunciarem eventos futuros, ainda não realizados. O salmista também diz, ao prenunciar a futura paixão do Senhor: “Traspassaramme as mãos e os pés. Contaram todos os meus ossos”. Ele não disse: Traspassarão e contarão. “Estiveram a olhar-me e me examinaram”. Não disse: Olharão e examinarão. “Dividiram entre si as minhas vestes” (Sl 21,17.19). Não disse: Dividirão. Todos esses verbos estão no pretérito, enquanto os eventos são futuros, porque para Deus os acontecimentos futuros são tão certos como se fossem passados. Para nós são certos os fatos passados; os futuros, incertos. Sabemos que alguma coisa aconteceu, e é impossível fazer com que não tenha sucedido o que já aconteceu. Imagina um profeta para o qual seja tão certo o futuro quanto o passado para ti; e como aquilo de que te lembras ter acontecido, é impossível que não esteja feito, assim o que este profeta conhece que há de suceder no futuro seja impossível que não aconteça. É por isso que ele afirma com segurança como feitos pretéritos o que ainda há de vir. É isto o que nós esperamos. “Mas tu nos salvaste dos que nos afligiam e confundiste os que nos odiavam”.

9 9“Em Deus nos gloriaremos todo dia”. Vede como inclui também verbos no futuro, para entenderes que as palavras que disse no pretérito são predições do futuro. “Em Deus nos gloriaremos todo dia, e celebraremos o teu nome para sempre”. Qual o motivo de dizer: “Gloriaremos e celebraremos”? A razão está em que nos salvaste dos que nos afligiam, hás de dar-nos o reino eterno, e em nós se realizará a palavra: “Felizes os que habitam em tua casa, Senhor. Louvar-te-ão pelos séculos dos séculos” (Sl 83,5).

10 10Por conseguinte, o futuro está garantido para nós, os fatos passados nos foram contados por nossos pais. E agora? “Agora, porém, nos rejeitaste e confundiste”. Confundiste, não diante de nossa consciência, mas perante os homens. Houve uma época em que os cristãos eram atormentados, tinham de fugir de toda parte, em todo lugar se dizia como insulto e opróbrio: Este homem é cristão. Onde está, pois, aquele nosso Deus, nosso rei, que dá a vitória a Jacó? Onde se acha aquele que realizou tudo o que contaram nossos pais? Onde está quem fará tudo o que o Espírito Santo nos revelou? Terá Deus mudado? Ao contrário, tudo isso se realiza “para inteligência, dos filhos de Coré”. Cumpre-nos entender a sua vontade de que sofrêssemos tudo isso nesta época intermediária. Quais são esses sofrimentos? “Agora, porém, nos rejeitaste e confundiste e já não sais à frente de nossos exércitos, ó Deus”. Avançamos contra nossos inimigos e não vais conosco. Enfrentamo-los, eles prevalecem e nós somos fracos. Onde está o teu poder? Onde está tua direita e teu valor? Onde o terreno enxuto no meio do mar? Onde os egípcios perseguidores a perecerem nas ondas? Onde a resistência de Amalec, vencida pelo sinal da cruz (cf Ex 14,21.27; 17,11)? “Já não sais à frente de nossos exércitos, ó Deus”.

11 11“Puseste-nos atrás de nossos inimigos”. Eles adiante, e nós atrás. Eles vencedores, e nós vencidos. “E os que nos odiaram, saqueavam”; a quem, senão a nós?

12 12“Entregaste-nos como ovelhas para o corte, e nos dispersaste entre as nações”. As nações nos devoraram. É uma figura dos que sucumbiram diante dos tormentos, de sorte que foram assimilados pelo corpo dos pagãos. A Igreja os chora, como a membros seus que foram devorados.

13 13“Vendeste o teu povo por um nada”. Vimos os que deste, mas não o que recebeste por eles. “E não houve multidão em júbilo”. Quando os cristãos perseguidos fugiam dos inimigos idólatras, havia reuniões e júbilo diante de Deus? Cantavam-se hinos nas Igrejas de Deus, que costumam fazê-los ressoar aos ouvidos de Deus, com paz, concórdia, suavidade da união fraterna? “E não houve multidão em júbilo”.

14 14.15“Fizeste-nos o opróbrio dos vizinhos, zombaria e irrisão para os que nos cercam. Reduziste-nos a servir de exemplo às nações”. O que significa: “servir de exemplo”? Ao maldizerem, os homens tomam por exemplo alguém que eles odeiam, dizendo: Morras desta maneira, assim sejas castigado. Quantas vezes se disseram então palavras semelhantes? Sejas crucificado do mesmo modo. Ainda hoje não faltam inimigos de Cristo, os próprios judeus, que ao defendermos a Cristo contra eles, respondem-nos: Que morras como ele. Não lhe haveriam infligido tal morte, se não tivessem verdadeiro horror daquele tipo de morte. Que mistério haveria, se eles tivessem podido entender? O cego quando é ungido, não vê o colírio na mão do médico. Até a própria cruz foi empregada em favor dos perseguidores de Cristo. Posteriormente, estes foram curados, e acreditaram naquele que haviam matado. “Reduzistenos a servir de exemplo às nações; os povos meneiam a cabeça”. Meneiam a cabeça, como insulto. “Falavam torcendo os lábios e meneavam a cabeça” (Sl 21,8). Assim agiram para com o Senhor e para com todos os seus santos, que eles puderam perseguir, prender, pôr em ridículo, entregar, atormentar, matar.

15 16.17“Tenho sempre a vergonha diante de mim e a confusão cobre-me o rosto, por causa das recriminações e dos insultos”. Isto é, por causa dos que me insultam e me recriminam porque te adoro e te louvo. Incriminam-me a respeito daquele nome que apaga todos os meus crimes. “Por causa das recriminações e dos insultos” contra mim. “Em face do inimigo e do perseguidor”. Que sentido tem isto? Os feitos mencionados do passado, não se realizam em nós, e os que se esperam no futuro ainda não se veem. Os do passado são os seguintes: O povo foi tirado do Egito, com grande glória para ti, Senhor; foi libertado dos perseguidores, conduzido entre os povos, e expulsas outras nações, foi estabelecido em um reino. Quais são os feitos no futuro? O povo de Deus há de ser retirado do Egito deste mundo, guiado por Cristo, que aparecerá em sua glória. Haverá de colocar os santos à direita, os maus à esquerda, sendo estes condenados com o diabo à pena eterna, enquanto Cristo e os santos receberão eternamente o reino. Esses eventos são futuros, e os outros passados. Entre um e outros, o que acontece? Tribulações. Por que razão? Para se revelar a alma que adora a Deus, e até que ponto o adora; para se manifestar se o adora gratuitamente, sendo gratuita a salvação que recebeu. Se, no entanto, Deus te disser: O que me deste para seres criado? Certamente, se me prometeste algo depois que foste criado, não podias prometer-me antes de seres feito. Que resposta lhe daremos, se foi ele que primeiro nos fez gratuitamente, por ser bom e não por termos merecido alguma coisa? Em seguida, o que diremos a respeito de nossa restauração, do segundo nascimento? Foram nossos méritos que fizeram o Senhor nos dar a salvação perpétua? De modo nenhum. Se o Senhor levasse em alguma conta os nossos méritos, teria vindo para nossa condenação. Não veio inspeccionar os merecimentos, mas conceder a remissão dos pecados. Não existias e foste criado; o que deste a Deus? Eras malvado e foste libertado; o que deste a Deus? O que tens que dele não recebeste gratuitamente? Com justeza é denominada graça, porque é dada gratuitamente. Por este motivo, exige-se de ti que o adores gratuitamente, mas não por te dar bens temporais, e sim por outorgar os eternos.

16 Cuida de não imaginares os bens eternos como não são; se cogitares deles de maneira carnal, não adorarás a Deus gratuitamente. Como? Se adoras a Deus porque te dá uma propriedade, não o cultuarás porque a tira? Mal talvez dirás: Eu o adoro, porque me dará uma quinta eternamente. Ainda tens a mente corrupta; não o adoras com um casto amor, ainda ambicionas uma recompensa. Queres possuir no século futuro o que forçosamente deixarás neste. Queres mudar o desejo carnal, não amputá-lo. Não é louvável o jejum de quem reserva o estômago para uma ceia lauta. Às vezes os convidados para um banquete jejuam a fim de comerem com maior avidez. Seria este um jejum de abstenção ou antes classifica-se como uma forma de gula? Não esperes, pois, que Deus te dará o que ele manda que aqui se despreze. Era esta a esperança dos judeus, que se perturbavam com a questão. Pois, eles esperam também a ressurreição, mas acham que hão de ressuscitar e gozar dos mesmos prazeres corporais que aqui apreciam. Por isto, ao lhes ser proposta aquela questão pelos saduceus, que não acreditam na ressurreição, a respeito da mulher que desposou sucessivamente sete irmãos, e eles queriam saber de quem seria ela na ressurreição, ficaram atordoados, sem saber responder. Ao invés, ao ser proposto o mesmo problema ao Senhor, uma vez que na ressurreição prometida não há tais prazeres, mas existem alegrias eternas derivadas do próprio Deus, ele respondeu: “Estais enganados, desconhecendo as Escrituras e o poder de Deus. Com efeito, na ressurreição, nem eles se casam, nem elas se dão em casamento; pois nem mesmo podem morrer” (Mt 22,29.30; Lc 20,35.36). A saber, lá não haverá sucessor, porque ninguém há de falecer. Como será, então? “Mas serão todos como os anjos de Deus”. A menos que penses que os anjos usufruem de banquetes cotidianos e se embriagam de vinho como tu, ou julgas que os anjos têm esposas. Nada disto se encontra entre os anjos. Sua alegria consiste naquilo que disse o Senhor: “Não sabeis que os seus anjos veem continuamente a face do Pai” (Mt 18,10)? Se a alegria dos anjos está em ver a face do Pai, prepara-te para tal regozijo. Podes encontrar algo de melhor do que ver a face de Deus? Se até mesmo suspeitares existir algo de mais belo do que o ser do qual deriva toda beleza, infeliz amor que te aprisiona de tal modo que não mereces pensar em Deus! O Senhor se encarnara, e aos homens aparecia como homem. O que havia de grandioso na sua aparência? A carne mostrava-se à carne. Em que se mostrava a importância daquele do qual foi dito: “Nós vimos, e não tinha beleza nem esplendor” (Is 53,2). Quem é que não tinha beleza nem esplendor? O mesmo de quem se disse: “Muito belo, acima dos filhos dos homens” (Sl 44,3). Enquanto homem, não tinha beleza nem esplendor; mas era belo naquilo em que é superior aos filhos dos homens. Por conseguinte, apresentando-se aos olhos dos que o viam na condição de uma carne desfigurada, o que disse? “Quem tem meus mandamentos e os observa é que me ama; e quem me ama será amado por meu Pai. Eu o amarei e a ele me manifestarei” (Jo 14,21). Promete que se mostrará, embora o vissem. Mas qual o sentido disso? Parecia dizer: Vedes a condição de servo, enquanto a de Deus está oculta. Pela primeira eu vos atraio, mas vos reservo a visão da segunda. Com aquela nutro os pequeninos, com esta alimento os adultos. Efetivamente, a fé que nos purifica prepara-nos para as coisas invisíveis, isto é, tudo isso se realizou “para inteligência, dos filhos de Coré”, e assim fossem subtraídos aos santos os bens que possuíam, até mesmo a vida temporal, a fim de que não adorassem o Deus eterno por causa de bens temporais, mas com casto amor suportassem os sofrimentos passageiros.

17 18.19Finalmente como se exprimem os filhos de Coré, que entenderam isso? “Sobreveio-nos tudo isso, sem que te houvéssemos esquecido”. O que significa: “sem que te houvéssemos esquecido? Nem termos traído a tua aliança. Nosso coração não voltou atrás. Desviaste nossas sendas de teus caminhos”. Este é o sentido: Nosso coração não voltou atrás, não nos esquecemos de ti, não traímos tua aliança, e estamos sujeitos a grandes tribulações e perseguições da parte da nações. “Desviaste nossas sendas de teus caminhos”. Nossas sendas eram os atrativos mundanos; nossas sendas eram as prosperidades temporais; desviaste nossas sendas de teus caminhos, e mostraste-nos como é estreito e apertado o caminho que conduz à vida. “Desviaste nossas sendas de teus caminhos”. Qual o sentido da expressão: “Desviaste as nossas sendas de teus caminhos”? Seria como se nos dissesse o salmista: Estais sujeitos à tribulação, a muitos padecimentos, à perda de muitos bens apreciáveis neste mundo; mas não vos abandonei no caminho estreito que vos mostro. Procuráveis caminhos largos; o que vos digo, então? Aquele caminho leva à vida eterna; o que quereis trilhar conduz à morte. “Largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição. E muitos são os que entram por ele. Estreito e apertado o caminho que conduz à vida. E poucos são os que o encontram!” (Mt 7,13.14). Quais são estes poucos? São aqueles que toleram as tribulações, que suportam as tentações, que não desfalecem diante destes trabalhos, e que não são dos que recebem a palavra com alegria e quando vem o calor do sol, o tempo da tribulação, murcham; mas têm a raiz da caridade, conforme ouvimos na leitura que acaba de ser feita do evangelho (cf Mt 13,20.21.23; Mc 4,16.17.20; Lc 8,13-15). Que tenhas, eu te digo, a raiz da caridade, a fim de que, ao arder o sol, não te queime, mas dê crescimento. “Sobreveionos tudo isso, sem que te houvéssemos esquecido, nem termos traído a tua aliança. Nosso coração não voltou atrás”. Mas, como fazemos tudo isso no meio das aflições, trilhando o caminho estreito, “desviaste nossas sendas de teus caminhos”.

18 20“Porque nos humilhaste no lugar da fraqueza”. Hás de exaltar-nos, portanto, no lugar da fortaleza. “E nos envolveste das sombras da morte”. Sombras da morte representam a nossa mortalidade. A verdadeira morte é a condenação em companhia do diabo.

19 21“Se tivéssemos olvidado o nome de nosso Deus”. Trata-se da inteligência dos filhos de Coré. “E estendido as mãos para um deus estranho”.

20 22“Não o teria Deus percebido? Ele que penetra os segredos do coração”. Penetra e percebe. Se penetra os segredos do coração, o que ele faz ali? “Não o teria Deus percebido?” Sabe para si, percebe por nossa causa. Em verdade às vezes procura e diz que vem conhecer aquilo que te faz notório. Declara-te sua obra, não o seu conhecimento. Dizemos frequentemente: Que dia alegre! quando o tempo está firme. Por acaso o dia se alegra? Mas dizemos que está alegre porque nos torna alegres. E afirmamos: O céu está triste. As nuvens não sentem, mas os homens vendo este aspecto do céu se entristecem. Por isso, diz-se que é triste porque ocasiona tristeza. Assim também se diz que Deus vem a saber quando nos torna cientes. Deus diz a Abraão: “Agora sei que temes a Deus” (Gn 22,12). Antes não sabia? De fato, o próprio Abraão é que não se conhecia; a prova o fez conhecedor. Não raro o homem pensa poder o que não pode, ou julga não poder o que pode. A divina providência o experimenta e pela prova ele se torna ciente. Então se diz que Deus o conheceu, porque o fez conhecer. Por acaso Pedro se conhecia quando disse ao médico: “Mesmo que tivesse de morrer contigo…” (Mt 26,35)? O médico o examinara e sabia o que havia no corpo do doente; este não o sabia. Veio a prova. O médico demonstrou a verdade do diagnóstico, e o doente perdeu sua presunção. Assim também conhece Deus e examina. Conhece. Como examina? Por tua causa, para que te encontres a ti mesmo, e agradeças àquele que te fez. “Não o teria Deus percebido?”

21 “Ele penetra os segredos do coração”. O que significa: “penetra os segredos”? Que segredos? “Por tua causa somos postos à morte todo dia e somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro”. Podes assistir à morte de um homem; não sabes, contudo, porque é morto. Deus o sabe. É um segredo. Talvez alguém me diga: Ele foi preso por causa do nome de Cristo, e confessa seu nome. Mas, os hereges também não confessam o nome de Cristo e não morrem por causa dele? Na verdade, na própria igreja católica não faltou (nem pode faltar), quem sofresse para obter uma glória humana? Se faltassem desses homens, o Apóstolo não teria dito: “Ainda que eu entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse a caridade, isso nada me adiantaria” (1Cor 13,3). Sabia ser possível que alguns o fizessem por jactância, não por amor. Por conseguinte, isso não é evidente; só Deus vê, nós não o podemos. Pode julgar somente aquele que penetra os segredos dos corações. “Por tua causa somos postos à morte todo dia e somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro”. Conforme já disse, o Apóstolo Paulo daí tirou um testemunho para exortar os mártires a não desfalecerem nas tribulações sofridas pelo nome de Cristo.

22 23“Levanta-te, por que, dormes, Senhor?” A quem se dirigem essas palavras? E quem fala? Não se diria que dorme e ronca quem assim se exprime: “Levanta-te, por que dormes, Senhor?” Ele te responderá: Sei o que estou dizendo; sei que não dorme o guarda de Israel (cf Sl 120,2); todavia os mártires exclamam: “Levanta-te, por que dormes, Senhor?” Ó Senhor Jesus! Foste morto, dormiste na paixão, já ressuscitaste por nossa causa. Sabemos bem que foi por nós que ressuscitaste. Por que motivo ressuscitaste? Os gentios que nos perseguem, te consideram morto, não creem que ressuscitaste. Levanta-te, portanto, também para eles. Por que dormes, não para nós, mas para eles? Se eles acreditassem que já ressuscitaste, acaso poderiam perseguir teus fiéis? Mas, por que perseguem? Aniquila, mata aqueles que acreditaram em ti, que sofreste péssima morte. Ainda dormes para eles; levanta-te para que entendam que ressuscitaste, e fiquem quietos. Enfim, acontece que os mártires, ao morrerem assim falam, dormem; e acordam por meio da sua morte, a Cristo que verdadeiramente morreu, Cristo ressurgiu, de certo modo, entre os gentios, isto é, eles acreditaram na ressurreição. Assim, progressivamente eles foram acreditando, ao se converterem para Cristo. Tornaram-se um grande número, e os perseguidores, receosos, cessaram de perseguir. Qual o motivo? Porque Cristo ressurgiu no meio dos gentios. Antes, enquanto eles não acreditavam, Cristo dormia. “Desperta. Não nos repilas para sempre”.

23 24“Por que ocultas a tua face?” como se estivesses ausente, esquecido de nós? “Esqueces nossa miséria e tribulação?”

24 25“Nossa alma está prostrada até o pó”. Onde está prostrada? Até o pó, quer dizer, o pó nos persegue. Perseguem-nos aqueles, dos quais disseste: “Bem diversa será a sorte dos ímpios, poeira que o vento carrega da superfície da terra” (Sl 1,4). “Nossa alma está prostrada até o pó e colado ao solo está nosso ventre”. Parece-me que se refere a um castigo excessivamente humilhante: ficar prostrado com o ventre colado ao chão. Quem se prostra até dobrar os joelhos, ainda pode abaixar-se mais; quem, porém, se prostra até que o ventre fique aderente ao solo, não tem mais como humilhar-se. Se quisesse fazer mais, já não seria humilhar-se, mas sepultar-se. É possível que diga alguém: Nós nos humilhamos até o pó; além disso, não temos o que fazer; já nos sobreveio a suprema humilhação, venha, portanto, a compaixão.

25 Será talvez, irmãos, que a Igreja lamenta com tais palavras os que se deixaram persuadir pelos perseguidores a praticar o mal, de sorte que os que perseveraram declarem: “Nossa alma está prostrada até o pó”? Quer dizer, cobertos deste pó, nas mãos dos ímpios e dos perseguidores, “nossa alma está prostrada até o pó”, invocando-te para que nos auxilies na tribulação; “nosso ventre está colado ao solo”, isto é, consentiu no mal, provindo deste pó; é por isto que ele diz: “está colado”. Se, com razão, dizes a Deus, quando amas e ardes de caridade: “Minha alma aderiu a ti” (Sl 62,9); e: “Para mim é bom aderir a Deus” (Sl 72,28), de fato, aderes a Deus quando estás de acordo com ele. Foi com exatidão que se disse estar o ventre aderente ao solo para figurar os que, não tolerando a perseguição, consentiram no desejo dos malvados; assim eles aderiram à terra. Mas qual o motivo de serem chamados “ventre” senão porque são carnais? Desta sorte, boca da Igreja são os santos, os espirituais; ventre são os carnais. Por conseguinte, a boca da Igreja se destaca; o ventre fica resguardado, porque é mais sensível e fraco. Faz uma referência a isto certa passagem da Escritura que diz ter o evangelista recebido um livro: “O livro na minha boca era doce como mel; e amargo no meu ventre” (Ap 10,10). O que significa senão que os homens espirituais compreendem os preceitos supremos, mas os carnais não os captam, e que estes preceitos alegram os espirituais, enquanto contristam os carnais? Qual o conteúdo deste livro, meus irmãos? “Vende os teus bens e dá aos pobres” (Mt 19,21.22). Como são doces estas palavras à boca da Igreja! Fizeram-no os espirituais todos. Ao contrário, se as repetires a um homem carnal: Pratica isto, mas facilmente se retirará de ti, entristecido, como fez aquele jovem rico, chamado pelo Senhor, do que atenderá as tuas palavras. Por que se afastou, entristecido, a não ser porque aquele livro é doce na boca e amargo no ventre? Suponhamos que emprestaste algum ouro ou prata e te encontraste na alternativa de perdê-lo, ou talvez cometer um pecado; ou ainda ter de lançar injúrias à Igreja, ou blasfemar. Angustiado entre a perda pecuniária ou a lesão à justiça, ouves um conselho: Perde o dinheiro para não perderes a justiça. Tu, porém, não achas doce a justiça em tua boca, mas ainda és contado no número dos membros fracos, que a Igreja considera como pertencentes ao ventre; entristecido, preferes perder uma parte da justiça a ter prejuízo monetário. Tu te feres com maior prejuízo, enchendo tua sacola e esvaziando teu coração. Provavelmente é destes que fala o salmista: “Colado está ao solo nosso ventre”.

26 26“Levanta-te, Senhor, socorre-nos”. Efetivamente, caríssimos, ele se levantou e nos socorreu. Pois, quando ele se levantou, isto é, quando ressurgiu, e se fez notório às nações, as perseguições cessaram. Mesmo aqueles que estavam aderentes à terra, foram libertados, e fazendo penitência, foram restituídos ao corpo de Cristo, embora fossem fracos, imperfeitos, de maneira a se realizar neles a palavra: “Teus olhos viram minha imperfeição. Em teu livro todos serão inscritos. Levanta-te, Senhor, e ajuda-nos e salva-nos por teu nome” (Sl 138,16). Isto se deu gratuitamente, por causa de teu nome, e não por mérito de minha parte. Foste tu que te dignaste fazê-lo, sem que eu disso fosse digno. Como poderíamos, sem teu auxílio, até mesmo não te esquecer, não deixar nosso coração voltar atrás, não estender as mãos para um deus estranho? De onde tiraríamos força se tu não nos falasses interiormente, não nos exortasses, nem nos abandonasses? Por conseguinte, quer sejamos pacientes nas tribulações, quer estejamos alegres na prosperidade, “resgata-nos”, mas não por nossos méritos e sim por causa de teu nome.

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

Comentário de Santo Agostinho ao Salmo 42

1 Este salmo é curto, para satisfação das mentes dos ouvintes, sem molestar o estômago dos que estão em jejum. Alimenta-se dele a nossa alma. Declara estar triste aquele que o canta. Acredito que esteja triste devido a seu jejum, ou melhor, a sua fome. Pois o jejum é voluntário, enquanto a fome é uma necessidade. A Igreja tem fome, tem fome o corpo de Cristo, aquele homem espalhado por toda a terra, cuja Cabeça está no alto, e os membros em baixo. Sua voz, em todos os salmos, ora salmodiando, ora gemendo, ora se alegrando na esperança, já muito conhecida e familiar, devemos considerar como sendo nossa. Não nos detenhamos longamente, para deixarmos entrever a todos vós quem é que fala. Esteja cada um no corpo de Cristo, e assim se exprima.

2 1Todos aqueles que se aperfeiçoam, que gemem com o anseio daquela cidade celeste, que estão cientes de serem peregrinos, que se mantêm no caminho, que lançaram a sua âncora, a sua esperança, no desejo daquela terra inteiramente estável, isto tudo vós bem o conheceis. Sabeis, portanto, que esta espécie de homens, esta boa semente, este trigo de Cristo geme no meio do joio; e será assim até que chegue o tempo da colheita, isto é, até o fim do mundo, conforme nos explica a verdade que não falha. Geme, pois, no meio do joio, quer dizer, entre os malvados, dolosos e sedutores, turbulentos e iracundos, ou envenenados pelas insídias. Verifica ao redor de si que se acha ao lado deles como num só campo, por todo o mundo, e que recebe a mesma chuva, ventos iguais; juntos são alimentados no meio de contrariedades, têm em comum os dons de Deus, que são concedidos em geral aos bons e aos maus por aquele que faz seu sol se levantar sobre bons e maus, e chover sobre justos e injustos (cf Mt 5,45). Vê, por conseguinte, a descendência de Abraão, a geração santa quantas coisas tem agora em comum com os maus, dos quais um dia há de se separar, isto é, nascerem igualmente, partilharem das mesmas condições de todo gênero humano, de modo semelhante terem corpos mortais, simultaneamente utilizarem-se da luz, das fontes, dos frutos, das prosperidades e adversidades do mundo: fome ou abundância, paz ou guerra, saúde ou peste. Vendo, pois, quantas coisas os bons têm em comum com os maus, com os quais, porém, não têm causa comum, prorrompe nesta prece: “Julga-me, ó Deus, e distingue da causa de uma gente ímpia a minha causa”. Pede: “Julga-me, ó Deus”. Não temo o teu juízo, porque conheço a tua misericórdia. “Julga-me, ó Deus, e distingue da causa de uma gente ímpia a minha causa”. Por enquanto, nesta peregrinação, ainda não separas um lugar para mim, porque vivo misturado ao joio até o tempo da colheita. Ainda não separas para mim a chuva, nem a luz: distingue a minha causa. Haja diferença entre aquele que acredita em ti, e aquele que não crê. A fraqueza é igual, mas a consciência difere; igual o labor, diverso o desejo. O desejo dos ímpios perecerá; poderíamos duvidar acerca dos anelos dos justos, se não fosse seguro aquele que promete. O fim de nossos desejos é quem fez as promessas. Dar-se-á a si mesmo, porque já se deu; dar-se-á como imortal aos imortais, porque já se deu enquanto mortal aos mortais. “Julga-me, ó Deus, e distingue da causa da gente ímpia a minha causa. Livra-me do homem iníquo e enganador”, isto é, “da gente ímpia”. “Do homem”, de certa espécie de homens, porque há homem e homem e dentre esses dois um será tomado e o outro deixado (cf Mt 24,40).

3 2Até a colheita faz-se mister paciência, com uma indeterminada separação, por assim dizer, uma vez que bons e maus, ainda não discriminados, acham-se misturados (portanto não separados), apesar de continuar o joio sendo joio, e o trigo, trigo (portanto já distintos). Como igualmente a fortaleza é necessária, imploremo-la àquele que nos ordenou sermos fortes. Não seremos aquilo que ele mandou, se ele mesmo não nos fizer tais, conforme a palavra: “Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 10,22; 24,13). Imediatamente acrescenta o salmista, visando a que a alma não se arrogue fortaleza, para não se debilitar: “Tu és, meu Deus, a minha fortaleza. Por que me repeliste? E por que ando eu triste, quando me aflige o inimigo?” Interroga qual o motivo de sua tristeza. “Por que ando eu triste, quando me aflige o inimigo?” Ando triste, o inimigo me aflige com tentações cotidianas, sugerindo amor ao mal, ou medo do que seria errado temer. A alma, lutando contra uma e outra coisa, embora não se deixe apanhar, corre perigo, contrai tristeza e diz a Deus: “Por quê?” Interroga-o e ouça a resposta. Pergunta, pois, no salmo, a causa de sua tristeza, dizendo: “Por que me repeliste? E por que ando eu triste?” Ouça a resposta de Isaías, venha-lhe em socorro a leitura que se acaba de recitar: “O espírito procederá de mim, e criei todas as almas. Por causa do pecado, contristei-o um pouco e dele escondi a minha face; contristou-se e prosseguiu, entristecido, por seus caminhos” (Is 57,16.17, sg. LXX). A solução da questão: “Por que me repeliste? E por que ando eu triste?” é a seguinte: “Por causa do pecado”. O pecado é a causa de tua tristeza, seja a justiça o motivo de tua alegria. Querias pecar, mas sem sofrer; não te bastava ser injusto, querias ainda agir injustamente e ficar impune. Considera a palavra mais exata de outro salmo: “Foi bom que me humilhaste, para que eu aprenda as tuas justificações” (Sl 118,71). Orgulhoso, aprendera a iniquidade, aprenda humilhado as tuas justificações. “E por que ando eu triste, quando me aflige o inimigo?” Queixas-te do inimigo. Na verdade, ele aflige, mas tu foste quem lhe deu acesso. E agora, sabes como agir. Escolhe teu plano, aceita o rei, exclui o tirano.

4 3Mas para agir desta maneira, presta atenção ao que o salmista diz, as suas súplicas, a sua oração. Reza o que ouves, reza ao ouvires; esta voz é de todos nós: “Envia a tua luz e a tua verdade. Elas me conduziram e guiaram até o monte santo e os teus tabernáculos”. Tua luz, tua verdade: dois nomes, uma realidade. O que é a luz de Deus senão a verdade de Deus? Ou o que é a verdade de Deus, senão a sua luz? E ambas são um só Cristo. “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Ele é a luz, ele é a verdade. Venha, pois, e nos liberte, distinguindo da causa de uma gente ímpia a nossa causa. Livre-nos do homem iníquo e enganador. Separe o trigo do joio, porque ele enviará seus anjos no tempo da messe, para tirarem de seu reino todos os escândalos, e os lançarem no fogo ardente, reunindo o trigo no celeiro (cf Mt 13,41-43). Envie sua luz e sua verdade, porque elas já nos guiaram e nos conduziram até o seu monte santo e o seu tabernáculo. Temos o penhor, mas esperamos o prêmio. Seu santo monte é a sua santa Igreja. É aquele monte que surgiu de uma pedra mínima, segundo a visão de Daniel, e esmagou os reinos da terra; e cresceu tanto que encheu toda a face da terra (cf Dn 2,35). Neste monte é que o salmista foi ouvido, conforme declara aquele que diz: “Elevei ao Senhor a minha voz e ele me ouviu de seu monte santo” (Sl 3,5). Quem orar fora deste monte, não espere ser ouvido com proveito para a vida eterna. É verdade que muitos são atendidos em muitos pedidos. Não se congratulem por terem sido ouvidos; foram ouvidos também os demônios, que podiam ser mandados, para entrar nos porcos (cf Mt 8,32). Anelemos ser atendidos em vista da vida eterna, segundo o desejo que formulamos: “Envia a tua luz e a tua verdade”. Aquela luz penetra nos olhos do coração: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8). Agora estamos em sua montanha, isto é, em sua Igreja, e em seu tabernáculo. O tabernáculo é próprio dos que peregrinam, e a casa dos que nela coabitam. O tabernáculo é a morada dos peregrinos e dos que militam. Ao ouvires falar de tabernáculo, entende que se trata de guerra, acautela-te do inimigo. Como será a casa? “Felizes os que habitam em tua casa. Louvar-te-ão pelos séculos dos séculos” (Sl 83,5).

5 4Que esperança alimentamos, depois de conduzidos ao tabernáculo, e estabelecidos em seu santo monte? “E eu me aproximarei do altar de Deus”. Existe um altar sublime e invisível, ao qual não tem acesso o injusto. A ele só tem acesso quem se aproxima com segurança deste; ali encontrará sua vida quem junto deste distingue a sua causa. “E eu me aproximarei do altar de Deus”. Partindo de seu monte santo, de seu tabernáculo, de sua santa Igreja, eu me aproximarei do sublime altar de Deus. Qual será o sacrifício ali? Aquele que entra, é tomado para o holocausto. “Eu me aproximarei do altar de Deus”. Por que diz: “do altar de Deus, do Deus que alegra a minha juventude”? Juventude significa vida nova. Alegra minha nova vida, aquele que contristou minha vida antiga. Agora ando eu triste na vida antiga, mas então alegrar-me-ei na vida nova. “Cantar-te-ei ao som da cítara, Deus, meu Deus”. O que significa cantar ao som da cítara, cantar ao som do saltério? Nem sempre se canta ao som da cítara, nem sempre ao som do saltério. Estes dois instrumentos musicais se distinguem e diferem um do outro; é bom considerá-lo e guardá-lo na memória. Ambos são carregados e tocados com as mãos, e significam nossas obras corporais. Um e outro são agradáveis, se tocados por quem sabe usar o saltério ou a cítara. Saltério chama-se o instrumento que tem a cavidade na parte superior, quer dizer, o tímpano ou madeira côncava, que dá ressonância às cordas, nele apoiadas. A cítara tem a madeira côncava e sonora na parte inferior. São distintas as nossas obras, se vêm do saltério, ou da cítara. Mas ambas são agradáveis a Deus e suaves aos seus ouvidos. Quando, pois, agimos de acordo com os mandamentos de Deus, obedecendo às suas ordens e atentos para cumprir seus preceitos e ao agirmos não sofremos, trata-se do saltério. Assim também agem os anjos. Eles nada sofrem. Quando, porém, sofremos alguma tribulação, tentação, escândalo nesta terra, como padecemos na parte inferior, isto é, a que faz com que sejamos mortais, e como esta tribulação nos provém de nossa primeira condição, e sofremos muito da parte dos seres inferiores, trata-se da cítara. Sai um som suave da parte inferior; sofremos e salmo-diamos, ou antes, cantamos e tocamos cítara. Ao dizer o Apóstolo que devia por preceito divino evangelizar e pregar o evangelho em toda a terra, evangelho que dizia não ter recebido dos homens nem através de um homem, mas por Jesus Cristo (cf Gl 1,12). As cordas soavam, na parte superior. Ao declarar, ao invés: “Nós nos gloriamos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a perseverança, a perseverança uma virtude comprovada, a virtude comprovada a esperança” (Rm 5,3.4), a cítara ressoava, da parte inferior sim, mas de maneira suave. A paciência é sempre suave para Deus. Se desfaleces nas tribulações, quebraste a cítara. Por que então diz: “Cantar-te-ei ao som da cítara”? Por causa da palavra: “E por que ando eu triste, quando me aflige o inimigo?” Ele sofria em consequência de uma aflição terrena, e no entanto queria agradar a Deus e dar-lhe graças, forte na tribulação. Devia apresentar-se paciente, diante de Deus, uma vez que não se pode ficar isento de tribulação. “Cantar-te-ei ao som da cítara, Deus, meu Deus”.

6 5Novamente dirige-se a sua alma, para que capte o som proveniente daquela cavidade inferior de madeira: “Por que estás triste, ó minha alma? E por que me perturbas?” Acho-me cercado de tribulações, de doenças, de tristezas. Por que me perturbas, ó minha alma? Quem assim se exprime? A quem se dirige? Sabemos todos que se dirige a sua alma; está bem claro. É a ela que dirige a palavra. “Por que estás triste, ó minha alma? E por que me perturbas?” Pergunta-se qual a pessoa que fala. Será a carne que fala à alma, apesar de que a carne inanimada não fale? Seria mais adequado dizer que a alma fala à carne do que a carne à alma. Mas, visto que não disse: Por que estás triste, ó minha carne, mas: “Por que estás triste, ó minha alma?” não é a alma que fala à carne. Se ela falasse à carne, talvez não dissesse: “Por que estás triste?” E sim: Que dor estás sentindo? A tristeza é a dor da alma. Uma incomodidade corporal pode chamar-se dor, mas não tristeza. Mas, às vezes, a alma se contrista devido a uma dor corporal. Difere ter dor de constristar-se. A carne sente dor, enquanto a alma se entristece. Evidencia-se com a palavra: “Por que estás triste, ó minha alma?” Não é a alma que fala à carne, porque não foi dito: Por que estás triste, ó minha carne? Nem é a carne que se dirige à alma, visto que seria absurdo que a parte inferior se dirigisse à superior. Entendemos, então que temos algo onde se encontra a imagem de Deus, a saber, a mente, a razão. A mente invocava a luz de Deus e a verdade de Deus. Com ela entendemos o que é justo e o que é injusto, discernimos o verdadeiro do falso. Ela denomina-se intelecto, do qual carecem os animais. Se alguém negligenciar o intelecto, e o pospõe a outros bens, rejeitando-o como se não o possuísse, escute o que lhe diz o salmo: “Não sejais como o cavalo e o mulo, sem inteligência” (Sl 31,9). Nosso intelecto, por conseguinte, fala a nossa alma. Esta se sente enfraquecida no meio das tribulações, cansada de tanta angústia, oprimida pelas tentações, doente de tantos trabalhos. A mente se alça para as alturas, apreende a verdade, e diz: “Por que estás triste, ó minha alma? E por que me perturbas?”

7 Vede se não é esta a fala do Apóstolo em sua luta, prefigurando a alguns, talvez mesmo a nós, e declarando: “Apraz-me a lei de Deus, segundo o homem interior, mas percebo outra lei em meus membros”, isto é, certos movimentos carnais; e numa luta quase desesperada invoca a graça de Deus: “Infeliz de mim! Quem me libertará deste corpo de morte? A graça de Deus, por Jesus Cristo Senhor nosso” (Rm 7,22.25). Dignou-se o Senhor prefigurar em si mesmo os que lutam desta forma, afirmando: “A minha alma está triste até a morte” (Mt 26,38). Ele sabia bem com que finalidade viera. Teria horror da paixão aquele que havia dito: “Tenho o poder de dar a minha alma e de retomá-la; ninguém ma arrebata, mas eu a dou livremente” (Jo 10,17.18)? Mas: “A minha alma está triste até a morte”. Quem o disse era uma figura de seus membros. Por vezes a alma acredita com firmeza e sabe muito bem que o homem irá, segundo sua fé, para o seio de Abraão; acredita isto, e no entanto, ao sobrevir um perigo de morte, perturba-se por causa de sua afinidade com a vida neste mundo; presta ouvidos àquela voz de Deus interna, ouve interiormente um canto racional. Assim, do alto no silêncio, vem um som perceptível pelo espírito, não pelo ouvido. Quem ouvir tal cântico, aborrece o estrépito material, e a vida humana inteira parece-lhe um tumulto que impede a audição de um som vindo do alto, imensamente deleitável, incomparável, inefável. De fato, quando sucede tal perturbação, o homem sente o ataque e diz a sua alma: “Por que estás triste, ó minha alma? E por que me perturbas?” Ou será que isto aconteceu porque dificilmente se encontra uma vida purificada, diante do juiz que julga até o que é puro e irrepreensível? Pode haver uma vida humana, na qual não encontrem os homens o que repreender, segundo as normas da justiça. Mas, se os olhos de Deus são que examinam, se a norma que mede sem possibilidade de engano é que procede, Deus encontra no homem algo de repreensível, que não aparecia aos homens, nem mesmo àquele cujo íntimo há de ser julgado. Experimentando tal receio a alma talvez se perturbe; de certo modo, pergunta-lhe a mente: Por que estás receosa acerca dos pecados, que não podes evitar inteiramente? “Espera em Deus; ainda o louvarei”. Estas palavras curam algumas faltas; as demais são purificadas por fiel confissão. De fato, teme, se te declaras justo, se não repetes a palavra de outro salmo: “Não chames a juízo o teu servo” (Sl 142,2). Preciso de tua misericórdia. Pois, se empregares um julgamento sem misericórdia, para onde irei? “Se observares as iniquidades, Senhor, quem resistirá?” (Sl 129,3). “Não chames a juízo o teu servo, porque nenhum vivente se justificará em tua presença” (Sl 142,2). Por conseguinte, se não se justificará vivente algum em tua presença, quem vive aqui na terra, por mais que viva na justiça, infeliz dele se Deus o chamar a juízo. Pela boca de outro profeta Deus censura desta mesma forma os arrogantes e soberbos: “Por que pleiteais comigo? Vós todos vos rebelastes contra mim, oráculo do Senhor” (Jr 2,29). Não pleiteies, portanto, em juízo; esforçate por ser justo; à medida que puderes, confessa-te pecador; espera sempre a misericórdia; e nesta humilde confissão, fala confiante a tua alma que te perturba e se agita contra ti: “Por que estás triste, ó minha alma? E por que me perturbas?” É possível que quisesses confiar em ti mesmo: “Espera no Senhor”, não em ti. O que és em ti mesmo? O que provém de ti? Seja ele a tua cura, ele que recebeu os ferimentos por tua causa. “Espera no Senhor; ainda o louvarei”. Como? “A salvação de minha face e meu Deus”. Tu és a salvação de minha face, e me curarás. Estando doente dirijo-me a ti. Conheço o médico e não me gabo de estar são. O que significa: Conheço o médico e não me gabo de estar são? Tem idêntico sentido ao que se exprime em outro salmo: “Eu disse: Compadece-te de mim, Senhor, cura a minha alma, porque pequei contra ti” (Sl 40,5).

8 Esta oração, irmãos, é uma garantia. Mas, vigiai, praticando boas obras. Tocai o saltério, obedecendo aos preceitos; tocai a cítara, suportando os sofrimentos. “Reparte o teu pão com o faminto” (Is 58,7), ouviste de Isaías. Não penses que só o jejum basta. O jejum te castiga, mas não nutre a outrem. Frutuosas serão tuas economias se prestarem algum alívio ao próximo. Retiraste um pouco do que te era destinado; a quem o darás? Onde colocas aquilo que negaste a ti mesmo? Quantos pobres poderão se saciar com a refeição de que nos privamos hoje! Jejua de sorte a te alegrares de te refazeres enquanto teu próximo come, e de seres ouvido por causa de suas orações. Isaías diz a este respeito: “Ainda estarás falando e te direi: Aqui estou. Isto, se deres de bom ânimo o pão ao faminto” (cf Is 58,9.10). Por vezes, o pão é dado com tristeza e murmuração; procura-se antes ver-se livre da importunação do mendigo do que saciar a fome do indigente. “Deus ama a quem dá com alegria” (2Cor 9,7). Se dás o pão com tristeza, perdes simultaneamente o pão e o merecimento. Por conseguinte, dá de bom ânimo, de forma que Deus que vê no teu íntimo, enquanto, ainda falares, te responda: “Aqui estou”. As orações dos que praticam o bem são rapidamente ouvidas. A justiça do homem nesta vida consiste em jejum, esmola e oração. Queres que tua oração voe para Deus? Dá-lhe duas asas: o jejum e a esmola. A luz de Deus, a verdade de Deus assim nos encontre, com segurança, quando vier nos livrar da morte aquele que veio sofrer a morte por nossa causa. Amém

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

Comentário de Santo Agostinho ao Salmo 41

1 2Há muito anela nossa alma alegrar-se convosco a respeito da palavra de Deus, e nele vos saudar, pois ele é nosso auxílio e nossa salvação. Ouvi por nosso intermédio o que Deus nos inspira, e exultai nele conosco, em sua palavra, em sua verdade, em sua caridade. Tomamos um salmo, para vos comentar, de acordo com vosso desejo. Ele começa por um santo desejo, e diz quem o canta: “Como o cervo anseia pelas fontes das águas, assim aspira a minha alma por ti, meu Deus”. Quem além, quem quer que sejas tu, se está em teu poder o que buscas? No entanto, não é apenas um só homem, mas é um só corpo: o corpo de Cristo, que é a Igreja (cf Cl 1,24). Não se encontra tal desejo em todos que entram na Igreja; contudo todos os que experimentaram a suavidade do Senhor, e que reconhecem no cântico aquilo que a saboreiam, não pensem que estão sozinhos, mas acreditem que tais sementes foram espalhadas no campo do Senhor por todo o orbe da terra, e constitui a voz de certa unidade cristã o que segue: “Como o cervo anseia pelas fontes das águas, assim aspira a minha alma por ti, meu Deus”. De fato, não seria errado entender que se trata da voz dos que, ainda catecúmenos, se apressam a aceder à graça do santo batismo. Daí provém que solenemente se canta este salmo, para que desejem a fonte da remissão dos pecados, “como o cervo anseia pelas fontes das águas”. Assim seja, e na Igreja tenha aceitação verdadeira e solene tal interpretação. Contudo, irmãos, parece-me que mesmo com o batismo não se sacia este desejo dos fiéis. Talvez, se sabem onde estão como peregrinos, e para onde devem passar, inflamem-se, com anelos mais ardentes.

2 1O título do salmo é o seguinte: “Para o fim. Inteligência, dos filhos de Coré. Salmo”. Encontram-se os filhos de Coré igualmente em títulos de outros salmos, 1 e lembramos-nos de já haver explicado e nos ter estendido sobre o significado deste nome. Apesar disto, agora relembramos o título, e sem prejuízo do que foi explanado, falemos sobre ele, porque nem todos estavam presentes durante nossa explicação. Houve um homem chamado Coré e teve filhos, que eram conhecidos sob o nome de filhos de Coré (cf Nm 26,11). Nós, porém, perscrutemos o segredo desta figura, e o nome dê à luz o mistério de que está prenhe. É grande sacramento a denominação de filhos de Coré atribuída aos cristãos. Por que filhos de Coré? Porque filhos do esposo, filhos de Cristo. Os cristãos são apelidados filhos do esposo. Por que razão Cristo seria Coré? Porque Coré significa Calvário. Vamos um pouco longe. Perguntava qual a razão de se denominar a Cristo de Coré. Procuro saber com maior insistência por que Cristo tem referência a Calvário. Logo não nos ocorre que Cristo foi crucificado no Calvário (cf Mt 27,33)? É claro que ocorre. Por conseguinte, os filhos do esposo (cf Mt 9,15), os filhos de sua paixão, os filhos redimidos em seu sangue, os filhos de sua cruz, que na fronte trazem o sinal daquilo que os inimigos fincaram no Calvário, chamam-se filhos de Coré; para que eles o entendam é que se canta o presente salmo. Despertemos, portanto, nossa inteligência; e se é para nós que se canta, entendamos. O que haveremos de entender? E qual o objeto deste conhecimento, proveniente do canto do salmo? Ouso dizer: “Sua realidade invisível tornou-se inteligível, desde a criação do mundo, através das criaturas” (cf Rm 1,20). Avante, irmãos. Compreendei minha avidez, tomai parte neste meu desejo; amemos conjuntamente, juntos tenhamos esta sede ardente, juntos corramos para a fonte do entendimento. Aspiremos, portanto, como o cervo pela fonte, não a fonte desejada pelos que ainda não receberam o batismo em vista da remissão dos pecados, mas, já batizados, anelemos por aquela fonte da qual diz outra passagem escriturística: “Pois em ti está a fonte da vida”. Fonte e luz igualmente o designam. Porque “na tua luz contemplamos a luz” (Sl 35,10). Se Cristo é fonte, também é luz. Com razão é também a inteligência, porque sacia a alma ávida de saber. Todo aquele que entende, é iluminado por certa luz não corporal, não carnal, não exterior, mas interior. Existe, portanto, irmãos, certa luz interior, que não possuem os que não entendem. Daí dirigir-se o Apóstolo, com censuras, àqueles que desejam esta fonte de vida, e dela alguma coisa percebem: “Não andeis mais como andam os demais gentios, na futilidade de seus pensamentos, com entendimento entenebrecido, alienados da vida de Deus pela sua ignorância e pela cegueira dos seus corações” (Ef 4,17.18). Se eles têm a inteligência obscurecida, isto é, obscurecem-se porque não entendem, os que entendem ficam iluminados. Corre à fonte, deseja o manancial das águas. Junto de Deus está a fonte da vida e a fonte inexaurível; na sua luz temos uma luz indefectível. Deseja tal luz, certa fonte, certa luz que teus olhos desconhecem. Os olhos interiores são capazes de vê-la. A sede interior arde no desejo de tal fonte. Corre para a fonte, deseja-a; mas não de qualquer forma, nem corras como qualquer animal. Corre como o cervo. O que quer dizer: como o cervo? Não haja tardança na corrida, corre sem preguiça, sem disídia anela pela fonte. Sabemos que o cervo tem grande velocidade.

3 2Mas talvez a Escritura não quis apenas isto levar em conta no cervo, mas também insinuar outra coisa. Ouve o que acontece ainda ao cervo. Ele mata as serpentes, e depois de matá-las sente sede mais ardente, e por isso, mortas as serpentes, corre mais veloz para as fontes. As serpentes representam teus vícios. Consome as serpentes da iniquidade, e desejarás com mais ardor a fonte da verdade. A avareza talvez te insinua uma ação tenebrosa, e sibila contra a palavra de Deus, contra os mandamentos de Deus. Se alguém te diz: Despreza-a, não pratiques o mal; se preferes fazer o mal a desprezar alguma vantagem passageira, escolhes a mordedura da serpente, ao invés de matá-la. Por conseguinte, se ainda favoreces teu vício, tua ambição, tua avareza, tua serpente, se ainda encontro em ti tal desejo, como correrás para a fonte das águas? Quando hás de aspirar pela fonte da sabedoria, se ainda sofres as consequências do veneno da malícia? Mata em ti tudo o que é contrário à verdade; e se te vires de certo modo isento das perversas ambições, não pares como se não houvesse mais o que desejar. Existe ainda alguma coisa que te eleve, se já conseguiste afastar os obstáculos que havia em ti. Se és um cervo, provavelmente me dirás: Deus sabe que não sou mais avaro, não desejo o bem alheio, não ardo de cupidez por um adultério, não me consumo de ódio ou inveja de alguém, etc. Dirás: Não faço tais coisas, e talvez procuras o que te pode deleitar. Anela por algum prazer; aspira pelas “fontes das águas”. Deus tem com que te refazer, e desalterar aquele que o procura sedento, depois de matar as serpentes, como um cervo veloz.

4 Nota-se outra coisa ainda no cervo. Conta-se que os cervos, e isto alguns já presenciaram (ninguém escreveria isto a respeito deles, se não o tivesse visto), conta-se que os cervos quando avançam no meio de um bando, ou quando procuram outras partes da terra nadando, apoiam suas cabeças uns nos outros, de sorte que um vai à frente, e o segundo põe sobre ele a cabeça, e assim em seguida, todos eles, até o fim do rebanho. Quando o da frente, que suportava em primeiro lugar o peso da cabeça, fica cansado, vai para o fim, de modo que outro toma o seu lugar, e carrega o que ele carregava, para que o primeiro descance, apoiando a cabeça, como os demais faziam: assim vão se alternando em carregar o peso e terminam a viagem, ajudando-se mutuamente. Não seria de uma espécie de cervos que fala o Apóstolo: “Carregai o peso uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6,2)? 1 Cf. Sl 41.43-48; 83.84.86.87.

5 3Um cervo desses já fiel, embora ainda não veja o que crê, procura entender o que ama, sofre da parte dos cervos que, ao contrário, têm a inteligência obscurecida, estão mergulhados nas trevas interiores, e obcecados pela cupidez dos vícios. Além disso, insultam o fiel, que não mostra aquele em quem crê, dizendo: “Onde está o teu Deus?” Ouçamos o que este cervo replica a tais palavras, a fim de que possamos também fazer o mesmo. Em primeiro lugar, exprimiu qual a sua sede: “Como o cervo anseia pelas fontes das águas, assim aspira a minha alma por ti, meu Deus”. Mas, se o cervo busca as fontes das águas para se lavar? Não sabemos se é para beber ou para se lavar. Ouve como continua o salmista, e cessa a interrogação: “Minha alma tem sede do Deus vivo”. Digo: “Como o cervo anseia pelas fontes das águas, assim aspira a minha alma por ti, meu Deus”, do mesmo modo que declaro: “Minha alma tem sede do Deus vivo”. De que tem sede? “Quando irei me apresentar ante a face de Deus?” Esta é a minha sede: ir me apresentar. Tenho sede na peregrinação, tenho sede no percurso; serei desalterado quando chegar. Mas: “Quando irei?” Para Deus será em breve, mas tarda para meu desejo. “Quando irei apresentar-me ante a face de Deus?” Este desejo é idêntico àquele que fez o salmista exclamar em outra parte: “Uma só coisa pedi ao Senhor, e a procurarei: Habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida” (Sl 26,4). Com que intuito? “Para contemplar as delícias do Senhor, quando me apresentar ante a face do Senhor”.

6 4Neste ínterim, enquanto medito, enquanto corro, enquanto estou a caminho, antes de ir, antes de apresentar-me, “minhas lágrimas noite e dia se tornaram o meu pão, quando se me rediz: Onde está o teu Deus? Minhas lágrimas se tornaram”, não minha amargura, mas o “meu pão”. Eram-me suaves estas lágrimas. Tendo sede daquela fonte, como ainda não podia beber, com maior avidez absorvia minhas lágrimas. Ele não disse: Minhas lágrimas se tornaram minha bebida, para não parecer que as desejava, como se fossem fontes de águas. Tornaram-se meu pão as minhas lágrimas, nessas delongas, mas permanece a sede que me devora e me arrasta para as fontes das águas. Efetivamente, engolindo suas lágrimas, sem dúvida sente mais sede das águas das fontes. Em verdade, noite e dia minhas lágrimas se tornaram o meu pão. Os homens tomam de dia este alimento que se chama pão; de noite, dormem. Quanto ao pão das lágrimas, eles o comem dia e noite, quer se entenda por dia a prosperidade neste mundo e que por noite se signifique a adversidade. Na prosperidade ou na adversidade derramo as lágrimas de meus anelos, cuja avidez não diminui. Quando no mundo tudo corre bem para mim, reputo como mal, enquanto não me apresento ante a face de Deus. Por que tentas levar-me a congratular-me, como se fosse dia, quando a prosperidade mundana me sorri? Não é enganadora? Não é transitória, caduca, mortal? Não é temporal, volúvel, passageira? Não causa mais decepção do que deleite? Como então, mesmo com ela, as minhas lágrimas não se tornariam o meu pão? Verdadeiramente, mesmo quando a felicidade deste mundo nos cerca com seu brilho, enquanto estamos neste corpo, estamos em pregrinação longe do Senhor (cf 2Cor 5,6), “quando se me rediz cada dia: Onde está o teu Deus?” Se for um pagão que me diz isto, não posso replicar-lhe: “Onde está o teu Deus?” Pois, há de mostrar-me seu deus com o dedo. Aponta para uma pedra e responde: Aqui está o meu deus. “Onde está o teu Deus?” Se eu zombar da pedra e aquele que me mostrou ficar envergonhado, tira os olhos da pedra, olha para o céu, e talvez apontando para o sol, dirá novamente: Aqui está o meu deus. “Onde está o teu Deus?” Ele encontra o que mostrar aos olhos corporais; eu, porém, fico como se não tivesse o que mostrar. De fato é ele que não tem olhos para ver o que eu poderia mostrar. Ele pôde indicar a meus olhos corporais o sol, seu deus; a que olhos eu apresentarei o criador do sol?

7 Porquanto ouço diariamente: “Onde está o teu Deus?” e alimentado com minhas lágrimas cotidianas, medito noite e dia a pergunta que ouvi: “Onde está o teu Deus?” procuro também eu o meu Deus, a fim de verificar se é possível não só acreditar, mas igualmente ver alguma coisa. Pois, vejo as coisas que meu Deus criou, mas não vejo meu Deus que as fez. Mas, tendo em vista que assim como o cervo anseia pelas fontes das águas, e junto de Deus está a fonte da vida, e ainda este salmo para inteligência têm por título: salmo dos filhos de Coré; considerando também que a realidade invisível de Deus tornou-se inteligível através das criaturas, o que farei para encontrar o meu Deus? Olho a terra; ela foi criada. Grande é sua beleza, mas teve um artífice. Admirável o milagre da germinação das sementes, mas tudo isto teve um criador. Mostro a grandeza do mar e sua extensão, com espanto e admiração, e busco seu artífice. Contemplo o céu e a beleza das estrelas; admiro o esplendor do sol, suficiente para iluminar o dia, e a lua que alivia as trevas noturnas. Tudo isto é admirável, louvável, estupendo. E não se acham só na terra, mas também no céu. Mas, ainda não se estanca a minha sede. Louvo tudo isso que admiro, mas tenho sede daquele que o fez. Volto-me para mim mesmo, e perscruto, busco quem sou eu que me interrogo desta maneira. Descubro que tenho corpo e alma; governo o primeiro, sou governado pela segunda. O corpo deve servir e a alma dirigir. Distingo que minha alma é melhor do que o corpo, e verifico que a alma, não o corpo, é que faz tais perguntas. No entanto, sei que percorro com o corpo tudo o que percorri. Louvava a terra, e a conhecera pelos olhos. Tecia elogios ao mar, e o vira com os olhos. Conhecera com os olhos o céu, os astros, o sol e a lua, que elogiara. Os olhos, membros corporais, são as janelas da alma. Está dentro quem as vê através delas; quando ela está ausente pelo pensamento, é em vão que se abrem as janelas. Não alcanço com estes olhos meu Deus, que fez todos esses objetos visíveis a meus olhos. Contemple a alma algo por si mesma, e verifique se não difere do que percebo com os olhos, como a cor e a luz; pelos ouvidos, como o canto e o som; pelo nariz, como os odores suaves; pelo paladar e a língua, como as coisas saborosas; por todo o corpo, como o que é duro ou mole, frio ou quente, áspero ou liso; mas, se ao contrário, não é algo que se vê interiormente? O que significa ver interiormente? Ver o que não é cor, nem som, nem odor, nem sabor, nem calor, nem frio, nem objeto duro ou mole. Queira saber a cor da sabedoria. Ao pensarmos na justiça, e gozarmos interiormente de sua beleza, através do pensamento, o que soa a nossos ouvidos? O que pomos na boca? Que vapor entra pelo nariz? O que tocam as mãos e nos dá prazer? Está no interior, é bela, é louvada e contemplada; e se os olhos estão nas trevas, a alma goza daquela luz. O que é que via Tobias, quando dava conselhos de vida ao filho que via, enquanto ele estava cego (cf Tb 4,2)? Há alguma coisa que percebe a alma, ela que rege o corpo, o orienta e o habita. Ela não o capta pelos olhos corporais, nem pelos ouvidos, nem pelo nariz, nem pelo paladar, nem pelo tato corporal, mas por si mesma; e de fato, vê melhor por si mesma do que por meio de seu servo. É bem assim. Vê-se a si mesma por si. A alma, como se conhece, se vê. Não procura auxílio dos olhos corporais para se ver. Ao contrário. Para se ver em si como se conhece, faz abstração de todos os sentidos corporais, que lhe trazem impedimento e barulho. Mas, talvez seja Deus algo de semelhante à alma? É verdade que Deus só pode ser visto pela alma, mas não como a alma se vê. A alma procura saber alguma coisa de Deus, a respeito de que não a isultem os que perguntam: “Onde está o teu Deus?” Busca a verdade imutável, a substância indefectível. Tal não é a alma, pois retrocede e avança, conhece e ignora, lembra-se e esquece-se; ora quer uma coisa, ora não quer. Em Deus não há tal mutabilidade. Se disser: Deus é mutável, insultar-me-ão os que me interrogam: “Onde está o teu Deus?”

8 5Ao procurar meu Deus entre as coisas visíveis e corporais, sem encontrá-lo; ao buscar sua substância em mim mesmo, como se fosse semelhante a mim, sem igualmente o achar, percebo que meu Deus é alguma coisa acima de minha alma. Portanto, para atingi-lo “meditei essas coisas, e minha alma se expandiu acima de si mesma”. Quando minha alma poderia atingir o que está acima dela, se não se expandisse acima de si mesma? Se permanecesse em si, nada veria a não ser a si mesma; e por se ver, nem por isso veria seu Deus. Digam os que me insultam: “Onde está o teu Deus?” digam-no. Eu, enquanto não vejo, enquanto sofro com essas delongas, dia e noite absorvo as minhas lágrimas. Digam eles ainda: “Onde está o teu Deus?” Consequentemente, procuro meu Deus em meio aos corpos terrestres ou celestes, e não o encontro; procuro sua substância em minha alma, mas não a encontro; entreguei-me a cogitações sobre meu Deus, desejoso de que se me tornasse inteligível sua realidade invisível, através das criaturas (cf Rm 1,20) e “minha alma se expandiu acima de si mesma”, e só lhe resta atingir a meu Deus. A casa de meu Deus está acima de minha alma; ali ele habita, de lá me olha, de lá me criou, me governa, cuida de mim, me incita, chama, dirige, conduz e guia.

9 Aquele que possui ocultamente uma excelsa morada, tem igualmente na terra seu tabernáculo. Seu tabernáculo terrestre é sua Igreja, que ainda peregrina. Mas é na Igreja que há de ser procurado, porque no tabernáculo se encontra o caminho que leva à casa. Por isso, expandia minha alma acima de mim mesmo para atingir a meu Deus; por que assim agi? “Porque entrarei no local do tabernáculo”. Fora do tabernáculo, estarei procurando meu Deus num caminho errado. “Porque entrarei no local do tabernáculo admirável, até a casa de Deus”. Entrarei no local do tabernáculo, do tabernáculo admirável, até a casa de Deus. Pois, já admiro muitas coisas no tabernáculo. Oh, quantas coisas admiro no tabernáculo! Pois, tabernáculo de Deus na terra são os homens fiéis; admiro neles o serviço que seus membros lhes prestam, porque o pecado não impera neles, de sorte que obedeçam a seus desejos, nem entregam seus membros, como armas de injustiça, ao pecado, mas se oferecem ao Deus vivo, por meio de boas obras (Rm 6,12.13). Admiro que os membros corporais sejam subordinados à alma que serve a Deus. Contemplo a própria alma que obedece a Deus, planeja seus atos, refreia as ambições, repele a ignorância, tolera todas as coisas ásperas e duras, dispendendose em justiça e caridade para com os outros. Contemplo também estas virtudes na alma; mas ainda ando no lugar do tabernáculo. Vou além; e embora seja admirável o tabernáculo, fico estupefacto ao chegar à casa de Deus. A esta casa se refere outro salmo, após ter-se proposto uma questão dura e difícil: a de saber por que razão nesta terra com frequência tudo corre bem para os maus, e mal para os bons, e disse: “Meditei para compreender este problema. Pareceu-me penosa tarefa, até que entrei no santuário de Deus e percebi qual a sua sorte” (Sl 72,16-17). A fonte donde brota o entendimento está no santuário de Deus, na casa de Deus. Ali entendeu o salmista a sorte de cada um deles, e encontrou a solução do problema da felicidade dos iníquos e das dificuldades dos justos. Como solucionou? Viu que as penas dos maus são adiadas, reservadas para o fim, e que os bons são provados aqui, por meio de trabalhos, para que no final consigam a herança. Foi isto que ele veio a saber no santuário de Deus, entendendo as últimas soluções. Subindo do tabernáculo chegou à casa de Deus. No entanto, ao contemplar as partes do tabernáculo, foi conduzido à casa de Deus, seguindo certa suavidade, e um deleite interior e oculto, como se da casa de Deus viesse o som suave de algum órgão. Enquanto andava no tabernáculo, e tendo ouvido determinado som interior, foi conduzido por sua suavidade, e pôs-se a seguir aquela melodia, fez abstração de todos os ruídos da carne e do sangue, e alcançou a casa de Deus. Relembra seu caminho e por onde foi conduzido, como se lhe disséssemos: Contemplavas o tabernáculo nesta terra. Como chegaste ao mais recôndito da casa de Deus? “Entre gritos de alegria e de louvor, e sons festivos”. Quando aqui na terra, os homens fazem uma festa estrondosa, têm o costume de pôr instrumentos e músicos, ou qualquer espécie de música que se presta à lascívia, ou a excitam, diante de sua casa. E se a ouvirmos ao passar por ali, o que dizemos? O que está acontecendo aqui? E obtemos a resposta de que se trata de uma festa. Aqui se celebra um natalício, ou um casamento, de sorte que aqueles cantos não parecem inadequados, mas se desculpa a sensualidade com a festa. Ao invés, na casa de Deus, a festa é eterna. Ali não se celebra coisa alguma que seja transitória. O coro dos anjos é eternamente festivo. A presença de Deus traz uma alegria indefectível. É um dia de festa, sem início e sem fim. Daquela eterna e perpétua festividade ressoa não sei bem que eco canoro, suave aos ouvidos de nosso coração; mas isto se o ruído do mundo não o abafa. O eco daquela festa é agradável ao ouvido daquele que anda no tabernáculo e considera os milagres de Deus em prol da redenção dos fiéis, e ainda atrai fortemente o cervo às fontes das águas.

10 6Mas, irmãos, enquanto estamos neste corpo, estamos longe do Senhor, o corpo corruptível pesa sobre a alma e — tenda de argila — oprime a mente pensativa (cf 2Cor 5,6; Sb 9,15). Se conseguimos dissipar um pouco as névoas que nos cercam, caminhando pelo desejo, uma vez ou outra alcançamos aquele som, de forma a captarmos, após muitos esforços, algum dos bens daquela casa; mas, devido ao peso de nossa fraqueza, recaímos em nossos hábitos e reincidimos em nossos costumes. Da mesma forma que ali havíamos encontrado motivos de alegria, aqui não nos faltam ocasiões de gemermos. Em consequência de tudo isto, o cervo absorve noite e dia de suas lágrimas e impelido por seus desejos às fontes das águas, a saber, a doçura interior que vem de Deus, expande sua alma acima de si, para atingir os bens superiores. Caminha em direção ao lugar do tabernáculo admirável, até a casa de Deus. Levado pela alegria causada pelo som interior e inteligível, despreza as riquezas exteriores, e é arrebatado pelas interiores. Mas não deixa de ser homem e ainda geme, ainda carrega a frágil carne, ainda corre perigo no meio dos escândalos deste mundo. Volta, portanto, o olhar para si mesmo, como se tivesse partido de lá, e diz a si mesmo no meio destas tristezas, comparando os bens atuais com aqueles que fora ver, e saiu depois de ter visto: “Por que estás triste, ó minha alma? E por que me perturbas?” Assim é. Alegramo-nos por causa de determinada doçura interior e por termos percebido, apesar de ter sido apenas breve e rapidamente, algo de imutável, com a penetração do espírito. Por que ainda me perturbas, por que estás triste ainda? Pois, não duvidas a respeito de teu Deus. Tens o que responder aos que te perguntam: “Onde está o teu Deus?” Já pressenti algo de imutável; por que me perturbas? “Espera em Deus”. E parece que a alma lhe responde silenciosamente: Por que te perturbo? Não será porque ainda não estou onde se encontra aquela suavidade, que de tal modo me raptou, quase de passagem? Por acaso já bebo daquela fonte, sem receio algum? Não receio mais escândalo algum? Já me sinto segura, como se já tivesse domado e vencido todas as concupiscências? Não está vigilante contra mim o diabo, meu inimigo? Não me arma cotidianamente laços insidiosos? Não queres que te perturbe, achando-me no mundo e peregrinando longe da casa de meu Deus? Perturbado por sua alma, replica: “Espera em Deus”, como que dando a razão desta perturbação: os males que superabundam neste mundo. Neste ínterim, habita nele, com esperança. Ver o que se espera, não é esperar. E se esperamos o que não vemos, é na perseverança que o aguardamos (cf Rm 8,24-25).

11 “Espera em Deus”. Por que: “Espera? Porque ainda o louvarei”. Qual o objeto do louvor? “A salvação de minha face e meu Deus”. A salvação não pode provir de mim mesmo. Isto eu digo e confesso: “A salvação de minha face e meu Deus”. O salmista, receoso em consequência do que parcialmente conhece, inspeccionou solicitamente se o inimigo não estaria se insinuando, e ainda não diz: Estou completamente seguro. Mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos interiormente, suspirando pela redenção de nosso corpo (cf Rm 8,23). Ao se consumar em nós a salvação, viveremos sem fim na casa de Deus, sem fim louvando aquele ao qual foi dito: “Felizes os que habitam em tua casa. Louvar-te-ão pelos séculos dos séculos” (Sl 83,5). Ainda não acontece tudo isso, porque a salvação prometida ainda não chegou; mas confesso a meu Deus em esperança, dizendo-lhe: “Salvação de minha face e meu Deus”. Pois fomos salvos em esperança; e ver o que se espera, não é esperar (cf Rm 8,24). Persevera, portanto, para alcançares; persevera até que venha a salvação. Escuta a teu Deus, que te fala no teu íntimo: “Espera no Senhor, age virilmente, conforte-se teu coração e espera no Senhor” (Sl 26,14), pois que “aquele que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 10,22; 24,13). “Por que estás triste, ó minha alma? E por que me perturbas? Espera em Deus; ainda o louvarei”. Meu louvor é o seguinte: “Salvação de minha face e meu Deus”.

12 7“Dentro de mim, inquieta-se a minha alma”. Acaso se perturba junto de Deus? Junto de mim é que se perturba. Ela se refazia perto do que é imutável, e junto do que é mutável se perturbava. Sei que é permanente a justiça de meu Deus, mas desconheço se a minha há de permanecer. O Apóstolo me atemoriza, ao dizer: “Aquele que julga estar de pé, tome cuidado para não cair” (1Cor 10,12). Uma vez que em mim não há firmeza, nem confio em mim mesmo: “Dentro de mim, inquieta-se a minha alma”. Queres que não se inquiete? Não pare em ti, e dize: “A ti, Senhor, elevei a minha alma” (Sl 24,1). Escuta a explicação desta passagem. Não confies em ti, mas espera em teu Deus. Se confias em ti, tua alma se inquieta, pois sabe que em ti não há segurança. Se minha alma se inquieta dentro de mim, só me resta a humildade, e que ela não presuma de si mesma. Só resta que a alma se torne muito pequena, e humilhe-se para merecer ser exaltada. Nada atribua a si mesma, a fim de que lhe conceda Deus o que lhe for útil. Dentro de mim se inquietou a minha alma e foi a soberba que causou tal inquietação, “por isso lembro-me de ti da terra do Jordão, e desde o pequeno monte do Hermon”. De onde me lembrei de ti? Do monte pequeno e da terra do Jordão. Talvez se refira ao batismo, que dá a remissão dos pecados. Ninguém corre em busca da remissão dos pecados sem antes não se desgostar de si mesmo. Ninguém acorre à procura da remissão dos pecados se não se confessar pecador; e ninguém se declara pecador, senão humilhando-se diante de Deus. “Por isso lembro-me de ti da terra do Jordão, e desde o pequeno monte”. Não foi de um monte elevado. Partindo do monte pequeno, ele se tornará grande, “pois todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado” (Lc 14,11; 18,14). Se procuras qual a interpretação desses nomes, verás que Jordão significa: descida deles. Desce, portanto, para subires; não te eleves, para não escorregares. “Desde o pequeno monte do Hermon”. Hermon traduz-se por: anátema. Censura-te a ti mesmo, desgostando-te de ti; desagradarás a Deus, se te comprazes em ti mesmo. Tendo em vista que Deus é quem nos dá todos os bens, porque ele é bom e não por sermos dignos, porque ele é misericordioso e não que tenhamos merecido alguma coisa, lembrei-me de Deus “da terra do Jordão e do Hermon”. Como se lembra com humildade, merecerá gozar ao ser exaltado. Não se exalta em si quem se gloria no Senhor.

13 8“Um abismo chama a outro abismo, ao fragor das tuas cascatas”. É possível que terminemos o salmo, porque me estimula a vossa atenção, cuja intensidade estou vendo. Não me preocupo tanto com vosso cansaço de tanto ouvir porquanto podeis verificar como estou coberto de suor, pelo esforço de falar. Vendo meu labor, certamente haveis de colaborar; não é por minha causa que me empenho, mas pela vossa. Portanto, ouvi; verifico que quereis escutar. “Um abismo chama outro abismo, ao fragor das tuas cascatas”. É a Deus que se dirige o salmista; dele se lembrou da terra do Jordão e do Hermon. Falou cheio de admiração: “Um abismo chama outro abismo, ao fragor das tuas cascatas”. Qual é o abismo que chama a outro? De fato, entender isto é um abismo. Abismo é um lugar profundo, impenetrável, incompreensível. Costuma-se dar este nome principalmente a uma imensa quantidade de água. É grande sua profundidade, a distância até o fundo, ao qual não se pode chegar. Finalmente, foi declarado em outra passagem: “Os teus juízos são como o abismo profundo” (Sl 35,7). A Escritura chama a atenção para o fato de que os juízos de Deus são incompreensíveis. Qual o abismo que invoca outro abismo? Se o abismo é uma profundeza, não seria um abismo o coração humano? O que há de mais profundo do que este abismo? Os homens podem falar, ser vistos através do movimento dos membros, ser ouvidos pela palavra; mas quem pode penetrar seu pensamento, examinar seu coração? Quem compreende o que faz internamente, o que pode, como age, como dispõe em seu íntimo, o que quer, o que não quer? Razoavelmente pode-se entender por abismo o homem, acerca do qual foi dito: “O homem sondará a profundidade do coração e Deus será exaltado” (Sl 63,7.8). Por conseguinte, se o homem é um abismo, como é que um abismo chama outro abismo? Seria um homem que chama a outrem? Invoca como Deus é invocado? Não. Mas invoca, quer dizer: chama a si. Pois, foi dito de alguém: Invoca a morte1 , isto é, vive de tal modo que chama a morte para si. Pois ninguém faz uma oração para invocar a morte, mas é levando uma vida má que os homens invocam a morte. “Um abismo chama outro abismo”. Um homem chama a outro. Ao se aprender a sabedoria, a fé, um abismo chama a outro. Os santos pregadores da palavra de Deus chamam outro abismo, porquanto eles mesmos são um abismo. Diz o Apóstolo, para notificar que eles são um abismo: “Pouco me importa ser julgado por vós ou por um tribunal humano” (1Cor 4,3). Ouvi o que diz adiante, para entenderdes a que ponto ele é um abismo: “Eu também não me julgo a mim mesmo” (1Cor 4,3). Acreditais haver no homem tão grande profundidade que ele mesmo não sabe o que existe em si? Quanta profundidade tinha a fraqueza latente em Pedro, quando desconhecia o que se passava no seu íntimo e com temeridade prometia que haveria de morrer com o Senhor ou por ele! Que abismo! Este abismo, contudo, era patente aos olhos de Deus. Pois, Cristo lhe prenunciou o que ele mesmo ignorava. Todo homem, portanto, por mais santo, por mais justo, por mais perfeito que seja, é um abismo, e chama outro abismo, quando prega a outrem verdades da fé, ou relativas à vida eterna. É útil o abismo àquele que ele chama, se o faz ao fragor de tuas cascatas. “Um abismo chama a outro abismo”, um homem lucra a outro, mas não com sua voz, mas “ao fragor de tuas cascatas”.

14 Existe outro modo de entender: “Um abismo chama a outro abismo, ao fragor de tuas cascatas”. Fico tremendo, quando minha alma está perturbada, e tenho um medo veemente de teus juízos, pois “os teus juízos são como o abismo profundo” (Sl 35,7; 41,8), e “um abismo chama a outro abismo”. Existe certa condenação, proferida num juízo teu, enquanto estamos presos a esta carne mortal, aflita, pecadora, cheia de incomodidades e de escândalos, sujeita às concupiscências, pois disseste ao homem que pecara: “Terás de morrer”, e “com o suor de teu rosto comerás teu pão” (Gn 2,17; 3,19). Este é o primeiro abismo de teus juízos. Mas, se os homens viveram mal, “um abismo chama a outro abismo”, porque eles vão de pena em pena, de trevas em trevas, de profundezas em profundezas, de suplício em suplício, e do ardor da concupiscência às chamas do inferno. Provavelmente foi isso o que receou este homem, que dizia: “Dentro de mim inquieta-se a minha alma, por isso lembro-me de ti, Senhor, da terra do Jordão e do Hermon”. Devo ser humilde. Tive horror de teus juízos, e temor veemente de teus juízos; por isso “dentro de mim inquieta-se a minha alma”. Quais os teus juízos que receio? Seriam pequenos estes teus juízos? São grandes, duros, molestos; mas quem dera que fossem os únicos! “Um abismo chama a outro abismo, ao fragor de tuas cascatas”. Tu ameaças, tu afirmas que também após estes labores presentes resta outra condenação: “Ao fragor de tuas cascatas, um abismo chama a outro abismo”. Para onde me afastarei longe de tua face, e fugirei de teu espírito (cf Sl 138,7), se um abismo chama a outro abismo, e depois destes trabalhos ainda nos ameaçam outros mais graves?

15 “Todas as tuas ondas e vagas sobre mim passaram”. Vagas são as penas que já sinto, ondas as que me ameaçam. Tudo o que sofro constitui as tuas vagas; as ameaças são as ondas. Nas vagas acha-se o abismo que chama, nas ondas o que é chamado. Nos trabalhos que passo estão todas as tuas vagas; nos mais pesados que me ameaçam, chegaram a mim as tuas ondas. A ameaça ainda não pesa, mas está suspensa. Mas como tu libertas, disse a minha alma: “Espera em Deus; ainda o louvarei, a salvação de minha face e meu Deus”. À medida que aumentam os males, mais suave será tua misericórdia.

16 9Por conseguinte, diz: “Durante o dia concedeu o Senhor a sua misericórdia e de noite a declarará”. Ninguém quer quando está atribulado. Dai atenção enquanto tudo corre bem; ouvi quando tudo está bem; aprendei, enquanto estais tranquilos, a doutrina da sabedoria, e guardai a palavra de Deus, como alimento. Quando alguém se acha no meio da tribulação, deve ser-lhe útil o que ouviu quando estava tranquilo. Efetivamente, na prosperidade Deus te manda sua misericórdia, se o servires fielmente, porque te livra da tribulação; mas não te declara esta misericórdia que te concedeu durante o dia, a não ser quando chega a noite. Ao vir a tribulação, então seu auxílio não te abandona; mostra que foi genuíno o que te mandou durante o dia. Está escrito em certa passagem: “Oportuna é a sua misericórdia por ocasião da tribulação; é como a nuvem de chuva no tempo da seca” (Eclo 35,24). “Durante o dia concedeu o Senhor a sua misericórdia e à noite a declarará”. Demonstra que te socorreu somente ao chegar a tribulação, da qual serás livrado por aquilo que te prometeu durante o dia. Por isso, admoestados somos a imitar a formiga. Como o dia representa a prosperidade neste mundo, assim a noite é figura da adversidade. De outro modo ainda, o verão figura a prosperidade no mundo, e o inverno significa a adversidade. E o que faz a formiga? Junta no verão o que lhe será útil no inverno. Portanto, enquanto é verão, quando tudo corre bem, enquanto estais tranquilos, ouvi a palavra de Deus. Como será possível, no meio das tempestades deste mundo, atravessardes sem tribulação o mar inteiro? Como será possível? A quem isto pode suceder? Se acontece a alguém, ainda mais é de recear a própria tranquilidade. “Durante o dia concedeu o Senhor a sua misericórdia e à noite a declarará”.

17 9.10Qual o teu modo de agir nesta peregrinação? O que farás? “Está comigo a oração ao Deus da minha vida”. Assim faço eu, cervo sedento que anseia pelas fontes das águas, e recorda-se da suavidade daquela voz que o conduzirá através do tabernáculo até à casa de Deus, enquanto o corpo corruptível pesa sobre a alma (cf Sb 9,15): “Tenho em mim a oração ao Deus da minha vida”. No intuito de suplicar a meu Deus não preciso ir fazer compras além mar; ou navegar para ser atendido por meu Deus, ou ir buscar de longe incenso ou aromas, ou trazer do rebanho novilho ou carneiro: “Tenho em mim a oração ao Deus de minha vida”. Possuo em meu íntimo a vítima a imolar, dentro de mim o incenso a oferecer, interiormente o sacrifício com que tornarei propício o meu Deus: “Sacrifício a Deus é o espírito contrito” (Sl 50,19). Que espírito contrito tenho interiormente, qual sacrifício? Ouve: “Direi a meu Deus: És o meu protetor. Por que me esqueceste?”. Suporto tais trabalhos neste mundo que parece teres me esquecido. Tu, porém, estás me exercitando. Sei que diferes a concessão do que me prometeste, mas não retiras a promessa; todavia “por que me esqueceste?” Como se fôssemos nós a falar, clamou nossa Cabeça: “Deus, meu Deus, por que me desamparaste” (Sl 21,2; Mt 27,46)? “És o meu protetor. Por que me repeliste?”

18 11“Por que me repeliste? Por que me repeliste”, da fonte da inteligência imutável da verdade? Por que devido ao peso e à carga de minha iniquidade, repleto de desejos por ela, fui jogado para baixo? Esta mesma palavra se encontra em outra passagem: “Eu disse no meu êxtase”: quando contemplou algo de grandioso em seu arroubo “eu disse no meu êxtase: Fui rejeitado do alcance de teus olhos” (Sl 30,23). Comparou a sua situação com aquela à qual fora elevado, e viu que fora lançado longe do alcance dos olhos de Deus, como acontece aqui: “Por que me repeliste? E por que ando eu triste, quando me aflige o inimigo e quebra-me os ossos?” Trata-se daquele diabo tentador, e do crescimento da iniquidade, cuja abundância fará com que esfrie o amor de muitos (cf Mt 24,12). Ao constatarmos que muitas vezes as igrejas talvez cedam diante dos escândalos, não dirá o corpo de Cristo: O inimigo “quebra-me os ossos”? Pois, ossos designam os fortes, e por vezes até os fortes cedem diante das tentações. E se algum dos membros de Cristo considera tudo isso, não há de clamar em lugar do corpo de Cristo: “Por que me repeliste? E por que ando eu triste, quando me aflige o inimigo e quebra-me os ossos?” Não atinge apenas as minhas carnes, quebra-me os ossos. Vês aqueles que pareciam ter alguma fortaleza cederem diante das tentações os fracos perderem a confiança quando veem os fortes sucumbirem. Quão imensos são estes perigos, meus irmãos!

19 11.12“Os inimigos que me atormentam, recriminam-me”. Novamente aquela voz: “Quando se me rediz cada dia: Onde está o teu Deus?” São especialmente as igrejas que o dizem, em suas provas: “Onde está o teu Deus?” Quantas vezes ouviram-no os mártires, fortes e pacientes, quantas vezes foi-lhes dito: “Onde está o vosso Deus?” Ele vos livre, se puder. Os homens viam seus tormentos exteriores, mas não consideravam que interiormente seriam coroados. “Os inimigos que me atormentam, recriminam-me, a dizer cada dia: Onde está o teu Deus?’ Por isso, uma vez que minha alma me perturba, o que lhe direi senão: “Por que estás triste, ó minha alma? E por que me perturbas?” E ela de certo modo me responde: Não queres que te perturbe, estando cercada de tantos males? Suspiro pelo bem, tenho sede, labuto, e não queres que te perturbe? “Espera em Deus; ainda o louvarei”. Externa a própria confissão, repete em confirmação de sua esperança: “A salvação de minha face e meu Deus”.

1 Cf Esopo. Fabr. 6.

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.