Comentário de Santo Agostinho ao Salmo 43

0 comentário

1 1.2“Salmo de Davi, para a conclusão do tabernáculo”. O salmo dirige-se ao mediador de mão forte, a respeito da perfeição da Igreja neste mundo, onde ela milita no tempo, contra o diabo.

1 1Este salmo atribuiu-se aos filhos do Coré, conforme traz seu título. Coré se traduz por Crânio ou Calvário, e encontramos escrito no evangelho que nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado no lugar chamado Calvário. Por isso torna-se claro que este salmo é cantado pelos filhos de sua paixão. A este respeito temos o testemunho evidente e firme do apóstolo Paulo. Quando a Igreja padecia perseguições da parte dos gentios, deste salmo ele tirou o versículo que citou como exortação e conforto. Nele, de fato, se encontra a palavra que Paulo incluiu em sua epístola: “Por tua causa somos postos à morte o dia todo, somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro” (Rm 8,36). Ouçamos, portanto, no salmo a voz dos mártires. E vede como é boa a motivação desta palavra dos mártires: “Por tua causa”. Assim igualmente o Senhor quando disse: “Bem-aventurados os que são perseguidos, acrescentou: por causa da justiça” (Mt 5,10), para que não sucedesse que alguém ao sofrer perseguição, quisesse se gloriar de seus padecimentos, apesar de não ser boa a sua causa. Por conseguinte exorta os seus: Sereis felizes quando os homens vos fizerem isto ou aquilo, ou o disserem, por minha causa. Por esta razão, também a palavra: “Por tua causa somos postos à morte o dia todo”.

2 Existe um plano de Deus muito profundo, que merece longa consideração, e cujo motivo vamos procurar. Deus tirou os nossos pais, os patriarcas e todo o povo de Israel, com mão forte, do Egito. Afogou no mar os inimigos que os perseguiam. Conduziu-os através de povos que se lhes opunham, venceu seus inimigos e colocou-os na terra prometida. Deu-lhes grandes vitórias, apesar de seu pequeno número contra uma multidão de inimigos. Depois, aprouve-lhe de certo modo afastar de si o seu povo, de sorte que seus santos sofreram matanças, mortes, sem resistência, defesa ou impedimento. Ele como que apartava seu rosto de seus gemidos, parecia esquecê-los, como se não fosse o Deus que, com mão forte e braço levantado, por evidente poder, livrou do Egito, como disse, a nossos pais, quer dizer, aquele povo, e tendo vencido e expulsado de sua terra as nações o constituísse num reino, para admiração de todos, porque frequentemente muitos foram superados por poucos. Foi tudo isto que se começou a cantar, com gemidos de confissão, no presente salmo. Tais acontecimentos não foram em vão. É preciso entender por que se deram. Efetivamente, é manifesto que eles se deram, mas devemos investigar profundamente por que razão assim sucedeu. O título não traz apenas: “Dos filhos de Coré”, mas: “Para inteligência, dos filhos do Coré”. Encontra-se também naquele salmo, cujo primeiro versículo o próprio Senhor recitou na cruz: “Meu Deus, meu Deus, olha-me. Por que me desamparaste?” semelhante maneira de se exprimir. Prefigurando-nos no que dizia e em seu corpo (visto que somos seu corpo e ele é nossa Cabeça), a voz que se ouviu da cruz não era sua, mas nossa. Pois, Deus nunca o abandonou e ele jamais se afastou do Pai. Foi por nossa causa que ele proferiu as palavras: “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?”, e em seguida: “Estão longe de minha salvação as vozes de meus delitos”. Demonstra assim em nome de quem falou, uma vez que nele não se achou pecado. Ele declara ainda no mesmo salmo: “Clamarei durante o dia, e não me escutarás; e à noite…” (Subentende-se: e não me escutarás). Além disso acrescenta: “e não para minha loucura” (Sl 21,2.3), isto é, não me ouvirás, de sorte que eu entenda, e não para que enlouqueça. O que significa: não ouvirás, de sorte que eu entenda? Quer dizer que não me atenderás no tocante aos bens temporais, para eu compreender que de ti hei de esperar os eternos. Por conseguinte, Deus não abandona e se aparentemente se afasta, retira o objeto mal desejado e ensina qual convém desejar. Se Deus sempre nos cumulasse de prosperidade material, com abundância de tudo, e enquanto somos mortais não sofrêssemos tribulação alguma, nem aflições e angústias, diríamos talvez serem esses os bens supremos que Deus concede a seus servos, e não desejaríamos outros maiores da parte dele. Por isto, ele mistura com as falsas suavidades desta vida as amarguras das tribulações, para que busquemos a outra vida, suave e salutar. Este o sentido do título: “Para inteligência, dos filhos de Coré”. Por fim, vejamos o salmo, e nele tudo isso se evidenciará.

3 2.3“Ouvimos, ó Deus, com nossos próprios ouvidos. Nossos pais nos contaram a obra que fizeste em seus dias, nos tempos de outrora”. Eles recordam o que ouviram de seus pais, admirados porque parece que Deus abandonou aqueles que ele quis experimentar nos sofrimentos, e de certo modo dizem: Nossos pais não nos contaram coisas como essas que padecemos. Pois, no salmo 21 foi dito: “Em ti confiaram os nossos pais, esperaram e os livraste. Eu, porém, sou verme e não homem. Opróbrio dos homens e abjeção da plebe” (Sl 21,5.7). Esperaram e os livraste; eu esperei e me abandonaste, e foi em vão que em ti acreditei, que meu nome está escrito junto de ti, e teu nome se gravou em mim? Foi isto que nossos pais nos indicaram. “Para implantá-los, com tua mão dispersaste nações, abateste povos e os expulsaste”. Quer dizer, expulsaste povos de seu país, para os introduzir e implantar, e confirmar seu reino com tua misericórdia. Tudo isso nossos pais nos contaram.

4 4Mas talvez puderam realizar tais feitos porque eram fortes guerreiros, invencíveis, exercitados, belicosos? De modo nenhum. Não foi isto que nossos pais nos contaram, nem o que se encontra na Escritura. Ela contém apenas o que segue: “Não foi por sua espada que conquistaram a terra, nem foi seu braço que os salvou. Foi a tua direita e foi o teu braço, foi o resplendor de tua face. Tua direita”, teu poder; “teu braço”, teu próprio Filho. “E o resplendor de tua face”; qual o sentido da expressão? Apareceste por meio de tais sinais que eles entendiam estares presente. Quando Deus se nos revela por meio de algum milagre, vemos com nossos olhos a sua face? Mas o efeito miraculoso manifesta aos homens a sua presença. Enfim, todos os que se admiram diante de tais fatos, o que dizem? Vi a Deus presente. “Foi a tua direita e foi o teu braço, foi o resplendor de tua face, porque os amaste”, a saber, de tal modo agiste em relação a eles por que os amaste. Quem observasse esse modo de agir, diria que verdadeiramente Deus estava com eles e neles agia.

5 5E então? Deus era um outrora e é outro agora? De modo algum. Como continua? “És o meu rei e o meu Deus”. Tu és o mesmo, não mudaste. Vejo os tempos mudados, ao invés do Criador dos tempos que não muda. “És o meu rei e o meu Deus”. Costumas conduzir-me, reger-me, socorrer-me. “Que deste a vitória a Jacó. Que deste?” O que significa? Embora estejas oculto, por tua substância e natureza, pelas quais és o que és, e não te apresentaste a nossos pais segundo aquilo que és, de modo que te vissem face a face, contudo, dás a vitória a Jacó através de seres criados. Efetivamente a visão face a face é reservada aos libertados, por ocasião da ressurreição. Igualmente os pais, no Novo Testamento apesar de terem visto a revelação de teus mistérios, e haverem anunciado os segredos que lhes foram revelados, todavia afirmaram que viram em espelho e enigma, e estar reservada ao futuro a visão face a face, ao se realizar a palavra do Apóstolo: “Pois morrestes e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus; quando Cristo, que é a vossa vida, se manifestar, então vós também com ele sereis manifestados em glória” (cf 1Cor 13,12; Cl 3,3.4). Está reservada para esta ocasião a visão face a face, referida por João: “Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas o que nós seremos ainda não se manifestou. Sabemos que por ocasião desta manifestação seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é” (1Jo 3,2). Em consequência, embora então nossos pais não te tenham visto face a face como tu és, embora tal visão esteja reservada para a ressurreição final, embora tenha sido através dos anjos, tu é que “deste a vitória a Jacó”. Não estás presente apenas por ti mesmo, mas por meio de qualquer de tuas criaturas tu te apresentas. Assim ordenas, em prol da salvação de teus servos; neste intuito agem aqueles a quem ordenas. Tu és o meu rei e meu Deus, tu dás a vitória a Jacó. Por que razão, então, sofremos agora tais males?

6 6É possível que sejam apenas fatos passados os que nos foram contados; quanto ao futuro, nada disto é de se esperar. Muito ao contrário. “Por ti repeliremos o inimigo”. Por conseguinte, nossos pais nos contaram a obra que fizeste em seus dias, nos tempos de outrora, porque para implantá-los, com tua mão dispersaste nações e abateste povos. São fatos passados; no futuro, como será? “Por ti repeliremos o inimigo”. Época virá em que todos os inimigos dos cristãos serão ventilados como palha, carregados pelo vento como a poeira e varridos da superfície da terra. Se, portanto, tais feitos relativos ao passado nos são contados, e outros tantos são prenunciados quanto ao futuro, por que lutamos no meio dos acontecimentos presentes, senão “para inteligência, dos filhos de Coré? Por ti repeliremos o inimigo, e em teu nome desprezaremos os que se levantam contra nós”. Refere-se ao futuro.

7 7“Não é em meu arco que porei a confiança, nem é minha espada que me salvará”. Nem a nossos pais foi a sua espada.

8 8“Mas tu nos salvaste dos que nos afligiam”. Fala no pretérito acerca do futuro; fala como se fosse fato passado, por ser tão certo como se já estivesse realizado. Prestai atenção. Muitos profetas assim se exprimem no pretérito ao prenunciarem eventos futuros, ainda não realizados. O salmista também diz, ao prenunciar a futura paixão do Senhor: “Traspassaramme as mãos e os pés. Contaram todos os meus ossos”. Ele não disse: Traspassarão e contarão. “Estiveram a olhar-me e me examinaram”. Não disse: Olharão e examinarão. “Dividiram entre si as minhas vestes” (Sl 21,17.19). Não disse: Dividirão. Todos esses verbos estão no pretérito, enquanto os eventos são futuros, porque para Deus os acontecimentos futuros são tão certos como se fossem passados. Para nós são certos os fatos passados; os futuros, incertos. Sabemos que alguma coisa aconteceu, e é impossível fazer com que não tenha sucedido o que já aconteceu. Imagina um profeta para o qual seja tão certo o futuro quanto o passado para ti; e como aquilo de que te lembras ter acontecido, é impossível que não esteja feito, assim o que este profeta conhece que há de suceder no futuro seja impossível que não aconteça. É por isso que ele afirma com segurança como feitos pretéritos o que ainda há de vir. É isto o que nós esperamos. “Mas tu nos salvaste dos que nos afligiam e confundiste os que nos odiavam”.

9 9“Em Deus nos gloriaremos todo dia”. Vede como inclui também verbos no futuro, para entenderes que as palavras que disse no pretérito são predições do futuro. “Em Deus nos gloriaremos todo dia, e celebraremos o teu nome para sempre”. Qual o motivo de dizer: “Gloriaremos e celebraremos”? A razão está em que nos salvaste dos que nos afligiam, hás de dar-nos o reino eterno, e em nós se realizará a palavra: “Felizes os que habitam em tua casa, Senhor. Louvar-te-ão pelos séculos dos séculos” (Sl 83,5).

10 10Por conseguinte, o futuro está garantido para nós, os fatos passados nos foram contados por nossos pais. E agora? “Agora, porém, nos rejeitaste e confundiste”. Confundiste, não diante de nossa consciência, mas perante os homens. Houve uma época em que os cristãos eram atormentados, tinham de fugir de toda parte, em todo lugar se dizia como insulto e opróbrio: Este homem é cristão. Onde está, pois, aquele nosso Deus, nosso rei, que dá a vitória a Jacó? Onde se acha aquele que realizou tudo o que contaram nossos pais? Onde está quem fará tudo o que o Espírito Santo nos revelou? Terá Deus mudado? Ao contrário, tudo isso se realiza “para inteligência, dos filhos de Coré”. Cumpre-nos entender a sua vontade de que sofrêssemos tudo isso nesta época intermediária. Quais são esses sofrimentos? “Agora, porém, nos rejeitaste e confundiste e já não sais à frente de nossos exércitos, ó Deus”. Avançamos contra nossos inimigos e não vais conosco. Enfrentamo-los, eles prevalecem e nós somos fracos. Onde está o teu poder? Onde está tua direita e teu valor? Onde o terreno enxuto no meio do mar? Onde os egípcios perseguidores a perecerem nas ondas? Onde a resistência de Amalec, vencida pelo sinal da cruz (cf Ex 14,21.27; 17,11)? “Já não sais à frente de nossos exércitos, ó Deus”.

11 11“Puseste-nos atrás de nossos inimigos”. Eles adiante, e nós atrás. Eles vencedores, e nós vencidos. “E os que nos odiaram, saqueavam”; a quem, senão a nós?

12 12“Entregaste-nos como ovelhas para o corte, e nos dispersaste entre as nações”. As nações nos devoraram. É uma figura dos que sucumbiram diante dos tormentos, de sorte que foram assimilados pelo corpo dos pagãos. A Igreja os chora, como a membros seus que foram devorados.

13 13“Vendeste o teu povo por um nada”. Vimos os que deste, mas não o que recebeste por eles. “E não houve multidão em júbilo”. Quando os cristãos perseguidos fugiam dos inimigos idólatras, havia reuniões e júbilo diante de Deus? Cantavam-se hinos nas Igrejas de Deus, que costumam fazê-los ressoar aos ouvidos de Deus, com paz, concórdia, suavidade da união fraterna? “E não houve multidão em júbilo”.

14 14.15“Fizeste-nos o opróbrio dos vizinhos, zombaria e irrisão para os que nos cercam. Reduziste-nos a servir de exemplo às nações”. O que significa: “servir de exemplo”? Ao maldizerem, os homens tomam por exemplo alguém que eles odeiam, dizendo: Morras desta maneira, assim sejas castigado. Quantas vezes se disseram então palavras semelhantes? Sejas crucificado do mesmo modo. Ainda hoje não faltam inimigos de Cristo, os próprios judeus, que ao defendermos a Cristo contra eles, respondem-nos: Que morras como ele. Não lhe haveriam infligido tal morte, se não tivessem verdadeiro horror daquele tipo de morte. Que mistério haveria, se eles tivessem podido entender? O cego quando é ungido, não vê o colírio na mão do médico. Até a própria cruz foi empregada em favor dos perseguidores de Cristo. Posteriormente, estes foram curados, e acreditaram naquele que haviam matado. “Reduzistenos a servir de exemplo às nações; os povos meneiam a cabeça”. Meneiam a cabeça, como insulto. “Falavam torcendo os lábios e meneavam a cabeça” (Sl 21,8). Assim agiram para com o Senhor e para com todos os seus santos, que eles puderam perseguir, prender, pôr em ridículo, entregar, atormentar, matar.

15 16.17“Tenho sempre a vergonha diante de mim e a confusão cobre-me o rosto, por causa das recriminações e dos insultos”. Isto é, por causa dos que me insultam e me recriminam porque te adoro e te louvo. Incriminam-me a respeito daquele nome que apaga todos os meus crimes. “Por causa das recriminações e dos insultos” contra mim. “Em face do inimigo e do perseguidor”. Que sentido tem isto? Os feitos mencionados do passado, não se realizam em nós, e os que se esperam no futuro ainda não se veem. Os do passado são os seguintes: O povo foi tirado do Egito, com grande glória para ti, Senhor; foi libertado dos perseguidores, conduzido entre os povos, e expulsas outras nações, foi estabelecido em um reino. Quais são os feitos no futuro? O povo de Deus há de ser retirado do Egito deste mundo, guiado por Cristo, que aparecerá em sua glória. Haverá de colocar os santos à direita, os maus à esquerda, sendo estes condenados com o diabo à pena eterna, enquanto Cristo e os santos receberão eternamente o reino. Esses eventos são futuros, e os outros passados. Entre um e outros, o que acontece? Tribulações. Por que razão? Para se revelar a alma que adora a Deus, e até que ponto o adora; para se manifestar se o adora gratuitamente, sendo gratuita a salvação que recebeu. Se, no entanto, Deus te disser: O que me deste para seres criado? Certamente, se me prometeste algo depois que foste criado, não podias prometer-me antes de seres feito. Que resposta lhe daremos, se foi ele que primeiro nos fez gratuitamente, por ser bom e não por termos merecido alguma coisa? Em seguida, o que diremos a respeito de nossa restauração, do segundo nascimento? Foram nossos méritos que fizeram o Senhor nos dar a salvação perpétua? De modo nenhum. Se o Senhor levasse em alguma conta os nossos méritos, teria vindo para nossa condenação. Não veio inspeccionar os merecimentos, mas conceder a remissão dos pecados. Não existias e foste criado; o que deste a Deus? Eras malvado e foste libertado; o que deste a Deus? O que tens que dele não recebeste gratuitamente? Com justeza é denominada graça, porque é dada gratuitamente. Por este motivo, exige-se de ti que o adores gratuitamente, mas não por te dar bens temporais, e sim por outorgar os eternos.

16 Cuida de não imaginares os bens eternos como não são; se cogitares deles de maneira carnal, não adorarás a Deus gratuitamente. Como? Se adoras a Deus porque te dá uma propriedade, não o cultuarás porque a tira? Mal talvez dirás: Eu o adoro, porque me dará uma quinta eternamente. Ainda tens a mente corrupta; não o adoras com um casto amor, ainda ambicionas uma recompensa. Queres possuir no século futuro o que forçosamente deixarás neste. Queres mudar o desejo carnal, não amputá-lo. Não é louvável o jejum de quem reserva o estômago para uma ceia lauta. Às vezes os convidados para um banquete jejuam a fim de comerem com maior avidez. Seria este um jejum de abstenção ou antes classifica-se como uma forma de gula? Não esperes, pois, que Deus te dará o que ele manda que aqui se despreze. Era esta a esperança dos judeus, que se perturbavam com a questão. Pois, eles esperam também a ressurreição, mas acham que hão de ressuscitar e gozar dos mesmos prazeres corporais que aqui apreciam. Por isto, ao lhes ser proposta aquela questão pelos saduceus, que não acreditam na ressurreição, a respeito da mulher que desposou sucessivamente sete irmãos, e eles queriam saber de quem seria ela na ressurreição, ficaram atordoados, sem saber responder. Ao invés, ao ser proposto o mesmo problema ao Senhor, uma vez que na ressurreição prometida não há tais prazeres, mas existem alegrias eternas derivadas do próprio Deus, ele respondeu: “Estais enganados, desconhecendo as Escrituras e o poder de Deus. Com efeito, na ressurreição, nem eles se casam, nem elas se dão em casamento; pois nem mesmo podem morrer” (Mt 22,29.30; Lc 20,35.36). A saber, lá não haverá sucessor, porque ninguém há de falecer. Como será, então? “Mas serão todos como os anjos de Deus”. A menos que penses que os anjos usufruem de banquetes cotidianos e se embriagam de vinho como tu, ou julgas que os anjos têm esposas. Nada disto se encontra entre os anjos. Sua alegria consiste naquilo que disse o Senhor: “Não sabeis que os seus anjos veem continuamente a face do Pai” (Mt 18,10)? Se a alegria dos anjos está em ver a face do Pai, prepara-te para tal regozijo. Podes encontrar algo de melhor do que ver a face de Deus? Se até mesmo suspeitares existir algo de mais belo do que o ser do qual deriva toda beleza, infeliz amor que te aprisiona de tal modo que não mereces pensar em Deus! O Senhor se encarnara, e aos homens aparecia como homem. O que havia de grandioso na sua aparência? A carne mostrava-se à carne. Em que se mostrava a importância daquele do qual foi dito: “Nós vimos, e não tinha beleza nem esplendor” (Is 53,2). Quem é que não tinha beleza nem esplendor? O mesmo de quem se disse: “Muito belo, acima dos filhos dos homens” (Sl 44,3). Enquanto homem, não tinha beleza nem esplendor; mas era belo naquilo em que é superior aos filhos dos homens. Por conseguinte, apresentando-se aos olhos dos que o viam na condição de uma carne desfigurada, o que disse? “Quem tem meus mandamentos e os observa é que me ama; e quem me ama será amado por meu Pai. Eu o amarei e a ele me manifestarei” (Jo 14,21). Promete que se mostrará, embora o vissem. Mas qual o sentido disso? Parecia dizer: Vedes a condição de servo, enquanto a de Deus está oculta. Pela primeira eu vos atraio, mas vos reservo a visão da segunda. Com aquela nutro os pequeninos, com esta alimento os adultos. Efetivamente, a fé que nos purifica prepara-nos para as coisas invisíveis, isto é, tudo isso se realizou “para inteligência, dos filhos de Coré”, e assim fossem subtraídos aos santos os bens que possuíam, até mesmo a vida temporal, a fim de que não adorassem o Deus eterno por causa de bens temporais, mas com casto amor suportassem os sofrimentos passageiros.

17 18.19Finalmente como se exprimem os filhos de Coré, que entenderam isso? “Sobreveio-nos tudo isso, sem que te houvéssemos esquecido”. O que significa: “sem que te houvéssemos esquecido? Nem termos traído a tua aliança. Nosso coração não voltou atrás. Desviaste nossas sendas de teus caminhos”. Este é o sentido: Nosso coração não voltou atrás, não nos esquecemos de ti, não traímos tua aliança, e estamos sujeitos a grandes tribulações e perseguições da parte da nações. “Desviaste nossas sendas de teus caminhos”. Nossas sendas eram os atrativos mundanos; nossas sendas eram as prosperidades temporais; desviaste nossas sendas de teus caminhos, e mostraste-nos como é estreito e apertado o caminho que conduz à vida. “Desviaste nossas sendas de teus caminhos”. Qual o sentido da expressão: “Desviaste as nossas sendas de teus caminhos”? Seria como se nos dissesse o salmista: Estais sujeitos à tribulação, a muitos padecimentos, à perda de muitos bens apreciáveis neste mundo; mas não vos abandonei no caminho estreito que vos mostro. Procuráveis caminhos largos; o que vos digo, então? Aquele caminho leva à vida eterna; o que quereis trilhar conduz à morte. “Largo e espaçoso é o caminho que conduz à perdição. E muitos são os que entram por ele. Estreito e apertado o caminho que conduz à vida. E poucos são os que o encontram!” (Mt 7,13.14). Quais são estes poucos? São aqueles que toleram as tribulações, que suportam as tentações, que não desfalecem diante destes trabalhos, e que não são dos que recebem a palavra com alegria e quando vem o calor do sol, o tempo da tribulação, murcham; mas têm a raiz da caridade, conforme ouvimos na leitura que acaba de ser feita do evangelho (cf Mt 13,20.21.23; Mc 4,16.17.20; Lc 8,13-15). Que tenhas, eu te digo, a raiz da caridade, a fim de que, ao arder o sol, não te queime, mas dê crescimento. “Sobreveionos tudo isso, sem que te houvéssemos esquecido, nem termos traído a tua aliança. Nosso coração não voltou atrás”. Mas, como fazemos tudo isso no meio das aflições, trilhando o caminho estreito, “desviaste nossas sendas de teus caminhos”.

18 20“Porque nos humilhaste no lugar da fraqueza”. Hás de exaltar-nos, portanto, no lugar da fortaleza. “E nos envolveste das sombras da morte”. Sombras da morte representam a nossa mortalidade. A verdadeira morte é a condenação em companhia do diabo.

19 21“Se tivéssemos olvidado o nome de nosso Deus”. Trata-se da inteligência dos filhos de Coré. “E estendido as mãos para um deus estranho”.

20 22“Não o teria Deus percebido? Ele que penetra os segredos do coração”. Penetra e percebe. Se penetra os segredos do coração, o que ele faz ali? “Não o teria Deus percebido?” Sabe para si, percebe por nossa causa. Em verdade às vezes procura e diz que vem conhecer aquilo que te faz notório. Declara-te sua obra, não o seu conhecimento. Dizemos frequentemente: Que dia alegre! quando o tempo está firme. Por acaso o dia se alegra? Mas dizemos que está alegre porque nos torna alegres. E afirmamos: O céu está triste. As nuvens não sentem, mas os homens vendo este aspecto do céu se entristecem. Por isso, diz-se que é triste porque ocasiona tristeza. Assim também se diz que Deus vem a saber quando nos torna cientes. Deus diz a Abraão: “Agora sei que temes a Deus” (Gn 22,12). Antes não sabia? De fato, o próprio Abraão é que não se conhecia; a prova o fez conhecedor. Não raro o homem pensa poder o que não pode, ou julga não poder o que pode. A divina providência o experimenta e pela prova ele se torna ciente. Então se diz que Deus o conheceu, porque o fez conhecer. Por acaso Pedro se conhecia quando disse ao médico: “Mesmo que tivesse de morrer contigo…” (Mt 26,35)? O médico o examinara e sabia o que havia no corpo do doente; este não o sabia. Veio a prova. O médico demonstrou a verdade do diagnóstico, e o doente perdeu sua presunção. Assim também conhece Deus e examina. Conhece. Como examina? Por tua causa, para que te encontres a ti mesmo, e agradeças àquele que te fez. “Não o teria Deus percebido?”

21 “Ele penetra os segredos do coração”. O que significa: “penetra os segredos”? Que segredos? “Por tua causa somos postos à morte todo dia e somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro”. Podes assistir à morte de um homem; não sabes, contudo, porque é morto. Deus o sabe. É um segredo. Talvez alguém me diga: Ele foi preso por causa do nome de Cristo, e confessa seu nome. Mas, os hereges também não confessam o nome de Cristo e não morrem por causa dele? Na verdade, na própria igreja católica não faltou (nem pode faltar), quem sofresse para obter uma glória humana? Se faltassem desses homens, o Apóstolo não teria dito: “Ainda que eu entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse a caridade, isso nada me adiantaria” (1Cor 13,3). Sabia ser possível que alguns o fizessem por jactância, não por amor. Por conseguinte, isso não é evidente; só Deus vê, nós não o podemos. Pode julgar somente aquele que penetra os segredos dos corações. “Por tua causa somos postos à morte todo dia e somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro”. Conforme já disse, o Apóstolo Paulo daí tirou um testemunho para exortar os mártires a não desfalecerem nas tribulações sofridas pelo nome de Cristo.

22 23“Levanta-te, por que, dormes, Senhor?” A quem se dirigem essas palavras? E quem fala? Não se diria que dorme e ronca quem assim se exprime: “Levanta-te, por que dormes, Senhor?” Ele te responderá: Sei o que estou dizendo; sei que não dorme o guarda de Israel (cf Sl 120,2); todavia os mártires exclamam: “Levanta-te, por que dormes, Senhor?” Ó Senhor Jesus! Foste morto, dormiste na paixão, já ressuscitaste por nossa causa. Sabemos bem que foi por nós que ressuscitaste. Por que motivo ressuscitaste? Os gentios que nos perseguem, te consideram morto, não creem que ressuscitaste. Levanta-te, portanto, também para eles. Por que dormes, não para nós, mas para eles? Se eles acreditassem que já ressuscitaste, acaso poderiam perseguir teus fiéis? Mas, por que perseguem? Aniquila, mata aqueles que acreditaram em ti, que sofreste péssima morte. Ainda dormes para eles; levanta-te para que entendam que ressuscitaste, e fiquem quietos. Enfim, acontece que os mártires, ao morrerem assim falam, dormem; e acordam por meio da sua morte, a Cristo que verdadeiramente morreu, Cristo ressurgiu, de certo modo, entre os gentios, isto é, eles acreditaram na ressurreição. Assim, progressivamente eles foram acreditando, ao se converterem para Cristo. Tornaram-se um grande número, e os perseguidores, receosos, cessaram de perseguir. Qual o motivo? Porque Cristo ressurgiu no meio dos gentios. Antes, enquanto eles não acreditavam, Cristo dormia. “Desperta. Não nos repilas para sempre”.

23 24“Por que ocultas a tua face?” como se estivesses ausente, esquecido de nós? “Esqueces nossa miséria e tribulação?”

24 25“Nossa alma está prostrada até o pó”. Onde está prostrada? Até o pó, quer dizer, o pó nos persegue. Perseguem-nos aqueles, dos quais disseste: “Bem diversa será a sorte dos ímpios, poeira que o vento carrega da superfície da terra” (Sl 1,4). “Nossa alma está prostrada até o pó e colado ao solo está nosso ventre”. Parece-me que se refere a um castigo excessivamente humilhante: ficar prostrado com o ventre colado ao chão. Quem se prostra até dobrar os joelhos, ainda pode abaixar-se mais; quem, porém, se prostra até que o ventre fique aderente ao solo, não tem mais como humilhar-se. Se quisesse fazer mais, já não seria humilhar-se, mas sepultar-se. É possível que diga alguém: Nós nos humilhamos até o pó; além disso, não temos o que fazer; já nos sobreveio a suprema humilhação, venha, portanto, a compaixão.

25 Será talvez, irmãos, que a Igreja lamenta com tais palavras os que se deixaram persuadir pelos perseguidores a praticar o mal, de sorte que os que perseveraram declarem: “Nossa alma está prostrada até o pó”? Quer dizer, cobertos deste pó, nas mãos dos ímpios e dos perseguidores, “nossa alma está prostrada até o pó”, invocando-te para que nos auxilies na tribulação; “nosso ventre está colado ao solo”, isto é, consentiu no mal, provindo deste pó; é por isto que ele diz: “está colado”. Se, com razão, dizes a Deus, quando amas e ardes de caridade: “Minha alma aderiu a ti” (Sl 62,9); e: “Para mim é bom aderir a Deus” (Sl 72,28), de fato, aderes a Deus quando estás de acordo com ele. Foi com exatidão que se disse estar o ventre aderente ao solo para figurar os que, não tolerando a perseguição, consentiram no desejo dos malvados; assim eles aderiram à terra. Mas qual o motivo de serem chamados “ventre” senão porque são carnais? Desta sorte, boca da Igreja são os santos, os espirituais; ventre são os carnais. Por conseguinte, a boca da Igreja se destaca; o ventre fica resguardado, porque é mais sensível e fraco. Faz uma referência a isto certa passagem da Escritura que diz ter o evangelista recebido um livro: “O livro na minha boca era doce como mel; e amargo no meu ventre” (Ap 10,10). O que significa senão que os homens espirituais compreendem os preceitos supremos, mas os carnais não os captam, e que estes preceitos alegram os espirituais, enquanto contristam os carnais? Qual o conteúdo deste livro, meus irmãos? “Vende os teus bens e dá aos pobres” (Mt 19,21.22). Como são doces estas palavras à boca da Igreja! Fizeram-no os espirituais todos. Ao contrário, se as repetires a um homem carnal: Pratica isto, mas facilmente se retirará de ti, entristecido, como fez aquele jovem rico, chamado pelo Senhor, do que atenderá as tuas palavras. Por que se afastou, entristecido, a não ser porque aquele livro é doce na boca e amargo no ventre? Suponhamos que emprestaste algum ouro ou prata e te encontraste na alternativa de perdê-lo, ou talvez cometer um pecado; ou ainda ter de lançar injúrias à Igreja, ou blasfemar. Angustiado entre a perda pecuniária ou a lesão à justiça, ouves um conselho: Perde o dinheiro para não perderes a justiça. Tu, porém, não achas doce a justiça em tua boca, mas ainda és contado no número dos membros fracos, que a Igreja considera como pertencentes ao ventre; entristecido, preferes perder uma parte da justiça a ter prejuízo monetário. Tu te feres com maior prejuízo, enchendo tua sacola e esvaziando teu coração. Provavelmente é destes que fala o salmista: “Colado está ao solo nosso ventre”.

26 26“Levanta-te, Senhor, socorre-nos”. Efetivamente, caríssimos, ele se levantou e nos socorreu. Pois, quando ele se levantou, isto é, quando ressurgiu, e se fez notório às nações, as perseguições cessaram. Mesmo aqueles que estavam aderentes à terra, foram libertados, e fazendo penitência, foram restituídos ao corpo de Cristo, embora fossem fracos, imperfeitos, de maneira a se realizar neles a palavra: “Teus olhos viram minha imperfeição. Em teu livro todos serão inscritos. Levanta-te, Senhor, e ajuda-nos e salva-nos por teu nome” (Sl 138,16). Isto se deu gratuitamente, por causa de teu nome, e não por mérito de minha parte. Foste tu que te dignaste fazê-lo, sem que eu disso fosse digno. Como poderíamos, sem teu auxílio, até mesmo não te esquecer, não deixar nosso coração voltar atrás, não estender as mãos para um deus estranho? De onde tiraríamos força se tu não nos falasses interiormente, não nos exortasses, nem nos abandonasses? Por conseguinte, quer sejamos pacientes nas tribulações, quer estejamos alegres na prosperidade, “resgata-nos”, mas não por nossos méritos e sim por causa de teu nome.

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

Categorias

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *