Comentário de Santo Agostinho ao Salmo 42

1 Este salmo é curto, para satisfação das mentes dos ouvintes, sem molestar o estômago dos que estão em jejum. Alimenta-se dele a nossa alma. Declara estar triste aquele que o canta. Acredito que esteja triste devido a seu jejum, ou melhor, a sua fome. Pois o jejum é voluntário, enquanto a fome é uma necessidade. A Igreja tem fome, tem fome o corpo de Cristo, aquele homem espalhado por toda a terra, cuja Cabeça está no alto, e os membros em baixo. Sua voz, em todos os salmos, ora salmodiando, ora gemendo, ora se alegrando na esperança, já muito conhecida e familiar, devemos considerar como sendo nossa. Não nos detenhamos longamente, para deixarmos entrever a todos vós quem é que fala. Esteja cada um no corpo de Cristo, e assim se exprima.

2 1Todos aqueles que se aperfeiçoam, que gemem com o anseio daquela cidade celeste, que estão cientes de serem peregrinos, que se mantêm no caminho, que lançaram a sua âncora, a sua esperança, no desejo daquela terra inteiramente estável, isto tudo vós bem o conheceis. Sabeis, portanto, que esta espécie de homens, esta boa semente, este trigo de Cristo geme no meio do joio; e será assim até que chegue o tempo da colheita, isto é, até o fim do mundo, conforme nos explica a verdade que não falha. Geme, pois, no meio do joio, quer dizer, entre os malvados, dolosos e sedutores, turbulentos e iracundos, ou envenenados pelas insídias. Verifica ao redor de si que se acha ao lado deles como num só campo, por todo o mundo, e que recebe a mesma chuva, ventos iguais; juntos são alimentados no meio de contrariedades, têm em comum os dons de Deus, que são concedidos em geral aos bons e aos maus por aquele que faz seu sol se levantar sobre bons e maus, e chover sobre justos e injustos (cf Mt 5,45). Vê, por conseguinte, a descendência de Abraão, a geração santa quantas coisas tem agora em comum com os maus, dos quais um dia há de se separar, isto é, nascerem igualmente, partilharem das mesmas condições de todo gênero humano, de modo semelhante terem corpos mortais, simultaneamente utilizarem-se da luz, das fontes, dos frutos, das prosperidades e adversidades do mundo: fome ou abundância, paz ou guerra, saúde ou peste. Vendo, pois, quantas coisas os bons têm em comum com os maus, com os quais, porém, não têm causa comum, prorrompe nesta prece: “Julga-me, ó Deus, e distingue da causa de uma gente ímpia a minha causa”. Pede: “Julga-me, ó Deus”. Não temo o teu juízo, porque conheço a tua misericórdia. “Julga-me, ó Deus, e distingue da causa de uma gente ímpia a minha causa”. Por enquanto, nesta peregrinação, ainda não separas um lugar para mim, porque vivo misturado ao joio até o tempo da colheita. Ainda não separas para mim a chuva, nem a luz: distingue a minha causa. Haja diferença entre aquele que acredita em ti, e aquele que não crê. A fraqueza é igual, mas a consciência difere; igual o labor, diverso o desejo. O desejo dos ímpios perecerá; poderíamos duvidar acerca dos anelos dos justos, se não fosse seguro aquele que promete. O fim de nossos desejos é quem fez as promessas. Dar-se-á a si mesmo, porque já se deu; dar-se-á como imortal aos imortais, porque já se deu enquanto mortal aos mortais. “Julga-me, ó Deus, e distingue da causa da gente ímpia a minha causa. Livra-me do homem iníquo e enganador”, isto é, “da gente ímpia”. “Do homem”, de certa espécie de homens, porque há homem e homem e dentre esses dois um será tomado e o outro deixado (cf Mt 24,40).

3 2Até a colheita faz-se mister paciência, com uma indeterminada separação, por assim dizer, uma vez que bons e maus, ainda não discriminados, acham-se misturados (portanto não separados), apesar de continuar o joio sendo joio, e o trigo, trigo (portanto já distintos). Como igualmente a fortaleza é necessária, imploremo-la àquele que nos ordenou sermos fortes. Não seremos aquilo que ele mandou, se ele mesmo não nos fizer tais, conforme a palavra: “Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 10,22; 24,13). Imediatamente acrescenta o salmista, visando a que a alma não se arrogue fortaleza, para não se debilitar: “Tu és, meu Deus, a minha fortaleza. Por que me repeliste? E por que ando eu triste, quando me aflige o inimigo?” Interroga qual o motivo de sua tristeza. “Por que ando eu triste, quando me aflige o inimigo?” Ando triste, o inimigo me aflige com tentações cotidianas, sugerindo amor ao mal, ou medo do que seria errado temer. A alma, lutando contra uma e outra coisa, embora não se deixe apanhar, corre perigo, contrai tristeza e diz a Deus: “Por quê?” Interroga-o e ouça a resposta. Pergunta, pois, no salmo, a causa de sua tristeza, dizendo: “Por que me repeliste? E por que ando eu triste?” Ouça a resposta de Isaías, venha-lhe em socorro a leitura que se acaba de recitar: “O espírito procederá de mim, e criei todas as almas. Por causa do pecado, contristei-o um pouco e dele escondi a minha face; contristou-se e prosseguiu, entristecido, por seus caminhos” (Is 57,16.17, sg. LXX). A solução da questão: “Por que me repeliste? E por que ando eu triste?” é a seguinte: “Por causa do pecado”. O pecado é a causa de tua tristeza, seja a justiça o motivo de tua alegria. Querias pecar, mas sem sofrer; não te bastava ser injusto, querias ainda agir injustamente e ficar impune. Considera a palavra mais exata de outro salmo: “Foi bom que me humilhaste, para que eu aprenda as tuas justificações” (Sl 118,71). Orgulhoso, aprendera a iniquidade, aprenda humilhado as tuas justificações. “E por que ando eu triste, quando me aflige o inimigo?” Queixas-te do inimigo. Na verdade, ele aflige, mas tu foste quem lhe deu acesso. E agora, sabes como agir. Escolhe teu plano, aceita o rei, exclui o tirano.

4 3Mas para agir desta maneira, presta atenção ao que o salmista diz, as suas súplicas, a sua oração. Reza o que ouves, reza ao ouvires; esta voz é de todos nós: “Envia a tua luz e a tua verdade. Elas me conduziram e guiaram até o monte santo e os teus tabernáculos”. Tua luz, tua verdade: dois nomes, uma realidade. O que é a luz de Deus senão a verdade de Deus? Ou o que é a verdade de Deus, senão a sua luz? E ambas são um só Cristo. “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Ele é a luz, ele é a verdade. Venha, pois, e nos liberte, distinguindo da causa de uma gente ímpia a nossa causa. Livre-nos do homem iníquo e enganador. Separe o trigo do joio, porque ele enviará seus anjos no tempo da messe, para tirarem de seu reino todos os escândalos, e os lançarem no fogo ardente, reunindo o trigo no celeiro (cf Mt 13,41-43). Envie sua luz e sua verdade, porque elas já nos guiaram e nos conduziram até o seu monte santo e o seu tabernáculo. Temos o penhor, mas esperamos o prêmio. Seu santo monte é a sua santa Igreja. É aquele monte que surgiu de uma pedra mínima, segundo a visão de Daniel, e esmagou os reinos da terra; e cresceu tanto que encheu toda a face da terra (cf Dn 2,35). Neste monte é que o salmista foi ouvido, conforme declara aquele que diz: “Elevei ao Senhor a minha voz e ele me ouviu de seu monte santo” (Sl 3,5). Quem orar fora deste monte, não espere ser ouvido com proveito para a vida eterna. É verdade que muitos são atendidos em muitos pedidos. Não se congratulem por terem sido ouvidos; foram ouvidos também os demônios, que podiam ser mandados, para entrar nos porcos (cf Mt 8,32). Anelemos ser atendidos em vista da vida eterna, segundo o desejo que formulamos: “Envia a tua luz e a tua verdade”. Aquela luz penetra nos olhos do coração: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8). Agora estamos em sua montanha, isto é, em sua Igreja, e em seu tabernáculo. O tabernáculo é próprio dos que peregrinam, e a casa dos que nela coabitam. O tabernáculo é a morada dos peregrinos e dos que militam. Ao ouvires falar de tabernáculo, entende que se trata de guerra, acautela-te do inimigo. Como será a casa? “Felizes os que habitam em tua casa. Louvar-te-ão pelos séculos dos séculos” (Sl 83,5).

5 4Que esperança alimentamos, depois de conduzidos ao tabernáculo, e estabelecidos em seu santo monte? “E eu me aproximarei do altar de Deus”. Existe um altar sublime e invisível, ao qual não tem acesso o injusto. A ele só tem acesso quem se aproxima com segurança deste; ali encontrará sua vida quem junto deste distingue a sua causa. “E eu me aproximarei do altar de Deus”. Partindo de seu monte santo, de seu tabernáculo, de sua santa Igreja, eu me aproximarei do sublime altar de Deus. Qual será o sacrifício ali? Aquele que entra, é tomado para o holocausto. “Eu me aproximarei do altar de Deus”. Por que diz: “do altar de Deus, do Deus que alegra a minha juventude”? Juventude significa vida nova. Alegra minha nova vida, aquele que contristou minha vida antiga. Agora ando eu triste na vida antiga, mas então alegrar-me-ei na vida nova. “Cantar-te-ei ao som da cítara, Deus, meu Deus”. O que significa cantar ao som da cítara, cantar ao som do saltério? Nem sempre se canta ao som da cítara, nem sempre ao som do saltério. Estes dois instrumentos musicais se distinguem e diferem um do outro; é bom considerá-lo e guardá-lo na memória. Ambos são carregados e tocados com as mãos, e significam nossas obras corporais. Um e outro são agradáveis, se tocados por quem sabe usar o saltério ou a cítara. Saltério chama-se o instrumento que tem a cavidade na parte superior, quer dizer, o tímpano ou madeira côncava, que dá ressonância às cordas, nele apoiadas. A cítara tem a madeira côncava e sonora na parte inferior. São distintas as nossas obras, se vêm do saltério, ou da cítara. Mas ambas são agradáveis a Deus e suaves aos seus ouvidos. Quando, pois, agimos de acordo com os mandamentos de Deus, obedecendo às suas ordens e atentos para cumprir seus preceitos e ao agirmos não sofremos, trata-se do saltério. Assim também agem os anjos. Eles nada sofrem. Quando, porém, sofremos alguma tribulação, tentação, escândalo nesta terra, como padecemos na parte inferior, isto é, a que faz com que sejamos mortais, e como esta tribulação nos provém de nossa primeira condição, e sofremos muito da parte dos seres inferiores, trata-se da cítara. Sai um som suave da parte inferior; sofremos e salmo-diamos, ou antes, cantamos e tocamos cítara. Ao dizer o Apóstolo que devia por preceito divino evangelizar e pregar o evangelho em toda a terra, evangelho que dizia não ter recebido dos homens nem através de um homem, mas por Jesus Cristo (cf Gl 1,12). As cordas soavam, na parte superior. Ao declarar, ao invés: “Nós nos gloriamos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a perseverança, a perseverança uma virtude comprovada, a virtude comprovada a esperança” (Rm 5,3.4), a cítara ressoava, da parte inferior sim, mas de maneira suave. A paciência é sempre suave para Deus. Se desfaleces nas tribulações, quebraste a cítara. Por que então diz: “Cantar-te-ei ao som da cítara”? Por causa da palavra: “E por que ando eu triste, quando me aflige o inimigo?” Ele sofria em consequência de uma aflição terrena, e no entanto queria agradar a Deus e dar-lhe graças, forte na tribulação. Devia apresentar-se paciente, diante de Deus, uma vez que não se pode ficar isento de tribulação. “Cantar-te-ei ao som da cítara, Deus, meu Deus”.

6 5Novamente dirige-se a sua alma, para que capte o som proveniente daquela cavidade inferior de madeira: “Por que estás triste, ó minha alma? E por que me perturbas?” Acho-me cercado de tribulações, de doenças, de tristezas. Por que me perturbas, ó minha alma? Quem assim se exprime? A quem se dirige? Sabemos todos que se dirige a sua alma; está bem claro. É a ela que dirige a palavra. “Por que estás triste, ó minha alma? E por que me perturbas?” Pergunta-se qual a pessoa que fala. Será a carne que fala à alma, apesar de que a carne inanimada não fale? Seria mais adequado dizer que a alma fala à carne do que a carne à alma. Mas, visto que não disse: Por que estás triste, ó minha carne, mas: “Por que estás triste, ó minha alma?” não é a alma que fala à carne. Se ela falasse à carne, talvez não dissesse: “Por que estás triste?” E sim: Que dor estás sentindo? A tristeza é a dor da alma. Uma incomodidade corporal pode chamar-se dor, mas não tristeza. Mas, às vezes, a alma se contrista devido a uma dor corporal. Difere ter dor de constristar-se. A carne sente dor, enquanto a alma se entristece. Evidencia-se com a palavra: “Por que estás triste, ó minha alma?” Não é a alma que fala à carne, porque não foi dito: Por que estás triste, ó minha carne? Nem é a carne que se dirige à alma, visto que seria absurdo que a parte inferior se dirigisse à superior. Entendemos, então que temos algo onde se encontra a imagem de Deus, a saber, a mente, a razão. A mente invocava a luz de Deus e a verdade de Deus. Com ela entendemos o que é justo e o que é injusto, discernimos o verdadeiro do falso. Ela denomina-se intelecto, do qual carecem os animais. Se alguém negligenciar o intelecto, e o pospõe a outros bens, rejeitando-o como se não o possuísse, escute o que lhe diz o salmo: “Não sejais como o cavalo e o mulo, sem inteligência” (Sl 31,9). Nosso intelecto, por conseguinte, fala a nossa alma. Esta se sente enfraquecida no meio das tribulações, cansada de tanta angústia, oprimida pelas tentações, doente de tantos trabalhos. A mente se alça para as alturas, apreende a verdade, e diz: “Por que estás triste, ó minha alma? E por que me perturbas?”

7 Vede se não é esta a fala do Apóstolo em sua luta, prefigurando a alguns, talvez mesmo a nós, e declarando: “Apraz-me a lei de Deus, segundo o homem interior, mas percebo outra lei em meus membros”, isto é, certos movimentos carnais; e numa luta quase desesperada invoca a graça de Deus: “Infeliz de mim! Quem me libertará deste corpo de morte? A graça de Deus, por Jesus Cristo Senhor nosso” (Rm 7,22.25). Dignou-se o Senhor prefigurar em si mesmo os que lutam desta forma, afirmando: “A minha alma está triste até a morte” (Mt 26,38). Ele sabia bem com que finalidade viera. Teria horror da paixão aquele que havia dito: “Tenho o poder de dar a minha alma e de retomá-la; ninguém ma arrebata, mas eu a dou livremente” (Jo 10,17.18)? Mas: “A minha alma está triste até a morte”. Quem o disse era uma figura de seus membros. Por vezes a alma acredita com firmeza e sabe muito bem que o homem irá, segundo sua fé, para o seio de Abraão; acredita isto, e no entanto, ao sobrevir um perigo de morte, perturba-se por causa de sua afinidade com a vida neste mundo; presta ouvidos àquela voz de Deus interna, ouve interiormente um canto racional. Assim, do alto no silêncio, vem um som perceptível pelo espírito, não pelo ouvido. Quem ouvir tal cântico, aborrece o estrépito material, e a vida humana inteira parece-lhe um tumulto que impede a audição de um som vindo do alto, imensamente deleitável, incomparável, inefável. De fato, quando sucede tal perturbação, o homem sente o ataque e diz a sua alma: “Por que estás triste, ó minha alma? E por que me perturbas?” Ou será que isto aconteceu porque dificilmente se encontra uma vida purificada, diante do juiz que julga até o que é puro e irrepreensível? Pode haver uma vida humana, na qual não encontrem os homens o que repreender, segundo as normas da justiça. Mas, se os olhos de Deus são que examinam, se a norma que mede sem possibilidade de engano é que procede, Deus encontra no homem algo de repreensível, que não aparecia aos homens, nem mesmo àquele cujo íntimo há de ser julgado. Experimentando tal receio a alma talvez se perturbe; de certo modo, pergunta-lhe a mente: Por que estás receosa acerca dos pecados, que não podes evitar inteiramente? “Espera em Deus; ainda o louvarei”. Estas palavras curam algumas faltas; as demais são purificadas por fiel confissão. De fato, teme, se te declaras justo, se não repetes a palavra de outro salmo: “Não chames a juízo o teu servo” (Sl 142,2). Preciso de tua misericórdia. Pois, se empregares um julgamento sem misericórdia, para onde irei? “Se observares as iniquidades, Senhor, quem resistirá?” (Sl 129,3). “Não chames a juízo o teu servo, porque nenhum vivente se justificará em tua presença” (Sl 142,2). Por conseguinte, se não se justificará vivente algum em tua presença, quem vive aqui na terra, por mais que viva na justiça, infeliz dele se Deus o chamar a juízo. Pela boca de outro profeta Deus censura desta mesma forma os arrogantes e soberbos: “Por que pleiteais comigo? Vós todos vos rebelastes contra mim, oráculo do Senhor” (Jr 2,29). Não pleiteies, portanto, em juízo; esforçate por ser justo; à medida que puderes, confessa-te pecador; espera sempre a misericórdia; e nesta humilde confissão, fala confiante a tua alma que te perturba e se agita contra ti: “Por que estás triste, ó minha alma? E por que me perturbas?” É possível que quisesses confiar em ti mesmo: “Espera no Senhor”, não em ti. O que és em ti mesmo? O que provém de ti? Seja ele a tua cura, ele que recebeu os ferimentos por tua causa. “Espera no Senhor; ainda o louvarei”. Como? “A salvação de minha face e meu Deus”. Tu és a salvação de minha face, e me curarás. Estando doente dirijo-me a ti. Conheço o médico e não me gabo de estar são. O que significa: Conheço o médico e não me gabo de estar são? Tem idêntico sentido ao que se exprime em outro salmo: “Eu disse: Compadece-te de mim, Senhor, cura a minha alma, porque pequei contra ti” (Sl 40,5).

8 Esta oração, irmãos, é uma garantia. Mas, vigiai, praticando boas obras. Tocai o saltério, obedecendo aos preceitos; tocai a cítara, suportando os sofrimentos. “Reparte o teu pão com o faminto” (Is 58,7), ouviste de Isaías. Não penses que só o jejum basta. O jejum te castiga, mas não nutre a outrem. Frutuosas serão tuas economias se prestarem algum alívio ao próximo. Retiraste um pouco do que te era destinado; a quem o darás? Onde colocas aquilo que negaste a ti mesmo? Quantos pobres poderão se saciar com a refeição de que nos privamos hoje! Jejua de sorte a te alegrares de te refazeres enquanto teu próximo come, e de seres ouvido por causa de suas orações. Isaías diz a este respeito: “Ainda estarás falando e te direi: Aqui estou. Isto, se deres de bom ânimo o pão ao faminto” (cf Is 58,9.10). Por vezes, o pão é dado com tristeza e murmuração; procura-se antes ver-se livre da importunação do mendigo do que saciar a fome do indigente. “Deus ama a quem dá com alegria” (2Cor 9,7). Se dás o pão com tristeza, perdes simultaneamente o pão e o merecimento. Por conseguinte, dá de bom ânimo, de forma que Deus que vê no teu íntimo, enquanto, ainda falares, te responda: “Aqui estou”. As orações dos que praticam o bem são rapidamente ouvidas. A justiça do homem nesta vida consiste em jejum, esmola e oração. Queres que tua oração voe para Deus? Dá-lhe duas asas: o jejum e a esmola. A luz de Deus, a verdade de Deus assim nos encontre, com segurança, quando vier nos livrar da morte aquele que veio sofrer a morte por nossa causa. Amém

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

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