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Sobre a celebração da bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja

DECRETO
Sobre a celebração
da bem-aventurada Virgem Maria,
Mãe da Igreja
no Calendário Romano Geral

Robert Card. Sarah*

A feliz veneração em honra à Mãe de Deus da Igreja contemporânea, à luz das reflexões sobre o mistério de Cristo e sobre a sua própria natureza, não poderia esquecer aquela figura de Mulher (cf. Gal. 4,4), a Virgem Maria, que é Mãe de Cristo e com Ele Mãe da Igreja.

De certa forma, este fato, já estava presente no modo próprio do sentir eclesial a partir das palavras premonitórias de Santo Agostinho e de São Leão Magno. De fato, o primeiro diz que Maria é a mãe dos membros de Cristo porque cooperou, com a sua caridade, ao renascimento dos fiéis na Igreja. O segundo, diz que o nascimento da Cabeça é, também, o nascimento do Corpo, o que indica que Maria é, ao mesmo tempo, mãe de Cristo, Filho de Deus, e mãe dos membros do seu corpo místico, isto é, da Igreja. Estas considerações derivam da maternidade divina de Maria e da sua íntima união à obra do Redentor, que culminou na hora da cruz.

A Mãe, que estava junto à cruz (cf. Jo 19, 25), aceitou o testamento do amor do seu Filho e acolheu todos os homens, personificado no discípulo amado, como filhos a regenerar à vida divina, tornando-se a amorosa Mãe da Igreja, que Cristo gerou na cruz, dando o Espírito. Por sua vez, no discípulo amado, Cristo elegeu todos os discípulos como herdeiros do seu amor para com a Mãe, confiando-a a eles para que estes a acolhessem com amor filial.

Dedicada guia da Igreja nascente, Maria iniciou, portanto, a própria missão materna já no cenáculo, rezando com os Apóstolos na expectativa da vinda do Espírito Santo (cf. Act 1, 14). Ao longo dos séculos, por este modo de sentir, a piedade cristã honrou Maria com os títulos, de certo modo equivalentes, de Mãe dos discípulos, dos fiéis, dos crentes, de todos aqueles que renascem em Cristo e, também, “Mãe da Igreja”, como aparece nos textos dos autores espirituais assim como nos do magistério de Bento XIV e Leão XIII.

Assim, resulta claramente, sobre qual fundamento o beato papa Paulo VI, a 21 de Novembro de 1964, por ocasião do encerramento da terça sessão do Concílio Vaticano II, declarou a bem-aventurada Virgem Maria “Mãe da Igreja, isto é, de todo o Povo de Deus, tanto dos fiéis como dos pastores, que lhe chamam Mãe amorosíssima” e estabeleceu que “com este título suavíssimo seja a Mãe de Deus doravante honrada e invocada por todo o povo cristão”.

A Sé Apostólica, por ocasião do Ano Santo da Reconciliação (1975), propôs uma missa votiva em honra de Santa Maria, Mãe da Igreja, que foi inserida no Missal Romano. A mesma deu a possibilidade de acrescentar a invocação deste título na Ladaínha Lauretana (1980), e publicou outros formulários na Colectânea de Missas da Virgem Santa Maria (1986). Para algumas nações e famílias religiosas que pediram, concedeu a possibilidade de acrescentar esta celebração no seu Calendário particular.

O Sumo Pontífice Francisco, considerando atentamente quanto a promoção desta devoção possa favorecer o crescimento do sentido materno da Igreja nos Pastores, nos religiosos e nos fiéis, como, também, da genuína piedade mariana, estabeleceu que esta memória da bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, seja inscrita no Calendário Romano na Segunda-feira depois do Pentecostes, e que seja celebrada todos os anos.

Esta celebração ajudará a lembrar que a vida cristã, para crescer, deve ser ancorada no mistério da Cruz, na oblação de Cristo no convite eucarístico e na Virgem oferente, Mãe do Redentor e dos redimidos.

Esta memória deverá, pois aparecer, em todos os Calendário e Livros Litúrgicos para a celebração da Missa e da Liturgia das Horas. Os respectivos textos litúrgicos são apresentados em anexo a este decreto, e a sua tradução, aprovada pelas Conferências Episcopais, serão publicados depois da confirmação por parte deste Dicastério.

Onde a celebração da bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, por norma do direito particular aprovado, já se celebra num dia diferente com grau litúrgico mais elevado, pode continuar a ser celebrada desse modo.

Nada obste em contrário.

Sede da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos,11 de Fevereiro de 2018, memória da bem-aventurada Virgem Maria de Lurdes.

*Prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos
Publicado originalmente em: http://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2018/03/03/0168/00350.html#portD

A descida do Senhor à mansão dos mortos

Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos.

Ele vai antes de tudo à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos dos sofrimentos.

O Senhor entrou onde eles estavam, levando em suas mãos a arma da cruz vitoriosa. Quando Adão, nosso primeiro pai, o viu, exclamou para todos os demais, batendo no peito e cheio de admiração: “O meu Senhor está no meio de nós”. E Cristo respondeu a Adão: “E com teu espírito”. E tomando-o pela mão, disse: “Acorda, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará.

Eu sou o teu Deus, que por tua causa me tornei teu filho; por ti e por aqueles que nasceram de ti, agora digo, e com todo o meu poder, ordeno aos que estavam na prisão: ‘Saí!’; e aos que jaziam nas trevas: ‘Vinde para a luz!’; e aos entorpecidos: ‘Levantai-vos!’

Eu te ordeno: Acorda, tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te dentre os mortos; eu sou a vida dos mortos. Levanta-te, obra das minhas mãos; levanta-te, ó minha imagem, tu que foste criado à minha semelhança. Levanta-te, saiamos daqui; tu em mim e eu em ti, somos uma só e indivisível pessoa.

Por ti, eu, o teu Deus, me tornei teu filho; por ti, eu, o Senhor, tomei tua condição de escravo. Por ti, eu, que habito no mais alto dos céus, desci à terra e fui até mesmo sepultado debaixo da terra; por ti, feito homem, tornei-me como alguém sem apoio, abandonado entre os mortos. Por ti, que deixaste o jardim do paraíso, ao sair de um jardim fui entregue aos judeus e num jardim, crucificado.

Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi, para restituir-te o sopro da vida original. Vê na minha face as bofetadas que levei para restaurar, conforme à minha imagem, tua beleza corrompida.

Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti para retirar de teus ombros o peso dos pecados. Vê minhas mãos fortemente pregadas à árvore da cruz, por causa de ti, como outrora estendeste levianamente as tuas mãos para a árvore do paraíso.

Adormeci na cruz e por tua causa a lança penetrou no meu lado, como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paraíso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava dirigida contra ti.

Levanta-te, vamos daqui. O inimigo te expulsou da terra do paraíso; eu, porém, já não te coloco no paraíso mas num trono celeste. O inimigo afastou de ti a árvore, símbolo da vida; eu, porém, que sou a vida, estou agora junto de ti. Constituí anjos que, como servos, te guardassem; ordeno agora que eles te adorem como Deus, embora não sejas Deus.

Está preparado o trono dos querubins, prontos e a postos os mensageiros, construído o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado para ti desde toda a eternidade”.

De uma antiga Homilia no grande Sábado Santo – Séc.IV – Liturgia das Horas, Vol. II, pág. 439

Quarta-feira de Cinzas: O Jejum, a Abstinência e a Graça da Penitência

Ouça no Spotify:

Textos da Liturgia das Horas:

Dia de jejum e abstinência por instituição: Código de Direito Canônico 1249 a 1253

Textos para a Missa de Quarta-feira de Cinzas:

Vídeo com as Orações de Quarta-feira de Cinzas

OFÍCIO DAS LEITURAS:

LAUDES:

HORA TERÇA:

HORA SEXTA:

HORA NONA:

VÉSPERAS:

Cân. 1249

Todos os fiéis, cada qual a seu modo, estão obrigados por lei divina a fazer penitência; mas, para que todos estejam unidos mediante certa observância comum da penitência, são prescritos dias penitenciais, em que os fiéis se dediquem de modo especial à oração, façam obras de piedade e caridade, renunciem a si mesmos, cumprindo ainda mais fielmente as próprias obrigações e observando principalmente o jejum e a abstinência, de acordo com os cânones seguintes.

Penitência é a íntima e total transformação e renovação do homem pela graça (vertente interior) como as manifestações externas que implicam esta “metanoia”, entre as quais encontra-se a voluntária e amorosa aceitação da Cruz (1).

Cân. 1250

Os dias e tempos penitenciais, em toda a Igreja, são todas as sextas-feiras do ano e o tempo da quaresma.

Cân. 1251

Observe-se a abstinência de carne ou de outro alimento, segundo as prescrições da Conferência dos Bispos, em todas as sextas-feiras do ano, a não ser que coincidam com algum dia enumerado entre as solenidades; observem-se a abstinência e o jejum na quarta-feira de Cinzas e na sexta- feira da paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Diferença entre jejum e abstinência:

O jejum consiste em fazer uma só refeição forte ao dia, renunciando as outras refeições normais, limitando-se ao básico. A abstinência consiste em renunciar a algo específico, como não comer carne ou outro alimento específico.

Cân. 1252

Estão obrigados à lei da abstinência aqueles que tiverem completado catorze anos de idade; estão obrigados à lei do jejum todos os maiores de idade até os sessenta anos começados. Todavia, os pastores de almas e os pais cuidem que sejam formados para o genuíno sentido da penitência também os que não estão obrigados a lei do jejum e da abstinência, em razão da pouca idade.

Cân. 1253

A Conferência dos Bispos pode determinar mais exatamente a observância do jejum e da abstinência, como também substituí-la, totalmente ou em parte, por outras formas de penitência, principalmente por obras de caridade e exercícios de piedade.

LEGISLAÇÃO COMPLEMENTAR AO CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO

Quanto aos cânones 1251 e 1253:

  • Toda sexta-feira do ano é dia de penitência, a não ser que coincida com solenidade do calendário litúrgico. Os fiéis nesse dia se abstenham de carne ou outro alimento, ou pratiquem alguma forma de penitência, principalmente obras de caridade ou exercício de piedade.
  • A quarta-feira de cinzas e a sexta-feira santa, memória da Paixão e Morte de Cristo, são dias de jejum e abstinência. A abstinência pode ser substituída pelos próprios fiéis por outra prática de penitência, caridade ou piedade, particularmente pela participação nesses dias na Sagrada Liturgia.

  1. http://www.mitranh.org.br/catequeses/catequese/22/os-dias-penitenciais

Vinde, Senhor Jesus!

Quando rezamos a Liturgia das Horas nunca rezamos sozinhos. Isto porque essa oração é, por instituição sagrada, oração de todo o povo de Deus que milita neste mundo, daqueles que esperam no purgatório a visão do Senhor e daqueles que já estão diante do trono de Deus e do Cordeiro. Todos os dias, do quatro cantos da terra, corações e vozes fiéis se levantam, nas diversas Horas do dia e da noite, para, na presença da divindade e dos seus anjos, entoar esse cântico de louvor que ressoa desde sempre nas habitações celestes1.

Mas essa não é apenas a oração da Igreja corpo. É também a oração da Igreja cabeça. Portanto não há que se pensar nessa oração sem a presença do próprio Cristo a orar conosco. Tudo o que dissermos na Liturgia das Horas, diremos com Cristo e em Cristo2.

Nas preces das Laudes e Vésperas no Tempo do Advento iremos insistentemente repetir o verbo vir: Vinde, Senhor, Jesus! Vinde salvar-nos! Venha a nós o vosso Reino! E, como toda prece da Igreja é também prece de Cristo, ele mesmo repete conosco, pois deseja ardentemente vir ao nosso encontro para reinar definitivamente no meio de nós (Cf. Ap. 22,20). Na oração, nosso desejo de estar com Deus se funde ao desejo de Deus em estar conosco. Como ensina o Catecismo da Igreja, “Jesus tem sede, e o seu pedido brota das profundezas de Deus que nos deseja. A oração, quer saibamos ou não, é o encontro da sede de Deus com a nossa. Deus tem sede de que nós tenhamos sede d’Ele3. Por isso, no Advento, com Cristo e em Cristo, pedimos que venha o Senhor. Nós e toda a Igreja, com os anjos e suas trombetas, com a multidão dos exércitos celestes entoamos em uma só voz: Vinde, Senhor Jesus! 

Mas ao desejarmos a vinda do Senhor, devemos nos perguntar: Ao vir o Senhor, que templo encontrará em nós? Um templo ornamentado e pronto para celebrar sua vitória? Ou um templo destruído e profanado? Que o Senhor, quando vier, nos encontre vigilantes, com as lâmpadas do nossos templos acesas. Assim ele entrará, se cingirá, servirá à mesa e ceará conosco e nós com ele(Cf. Lc 12, 32; Ap 3,20)

Que neste tempo de graça, possamos receber convenientemente e de coração agradecido este imenso benefício e a enriquecer-nos com seus frutos, de modo que nos preparemos para a chegada de Cristo nosso Senhor com tanta solicitude como se ele estivesse para vir novamente ao mundo4. Que Cristo, sol nascente possa viver em nós, iluminando nossos dias como luz mais brilhante que o sol; Que, junto com ele, possamos caminhar na claridade e estejamos com ele quando o dia declinar; Que nosso coração seja o próprio coração de Cristo a pulsar enchendo nosso ser do divino amor; 

“O Espírito e a Esposa dizem: ‘Vem!’. Possa aquele que ouve dizer também: ‘Vem!’. Aquele que tem sede, venha! E que o homem de boa vontade receba, gratuitamente, da água da vida! Aquele que atesta estas coisas diz: ‘Sim! Eu venho depressa!’. Amém. Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22, 17.20)


  1. São Paulo VI, Constituição Apostólica Laudis Canticum, § 1
  2.  Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas, 1
  3.  Catecismo da Igreja Católica, 2560
  4.  São Carlos Borromeu, Acta Eclesiae Mediolanensis, in Liturgia das Horas, Vol. 1, p. 124.

André, irmão de Simão Pedro

Neste último dia de novembro celebramos o Apóstolo Santo André que, a exemplo do seu Mestre, morreu crucificado por volta do ano 60, na cidade de Patras, hoje localizada na Grécia.

A celebração dos santos na Liturgia da Igreja está intimamente ligada a sua história. Basta lembrar que os túmulos dos santos estão entre os primeiros locais de reunião da Igreja primitiva e, até hoje, seguindo essa tradição, as relíquias dos santos são depositados sob o altar, onde celebramos a Eucaristia. As relíquias de Santo André repousam hoje na mesma cidade grega onde foi crucificado. A elas se juntaram recentemente, por ordem do Papa, partes dos ossos de seu irmão, São Pedro, reunindo-os assim, como no início.

Santo André é conhecido por ser “o protocletos”, ou seja, “o primeiro a escutar o apelo”, como cantamos hoje no hino das Laudes. Foi o primeiro a seguir Jesus, junto com João. Mas André é mais conhecido ainda por ser irmão de Simão Pedro, o príncipe dos apóstolos e chefe da Igreja. A Liturgia das Horas hoje nos lembra desse parentesco diversas vezes no hino e nas antífonas. Mas não é simplesmente pelo fato de ser irmão de Simão Pedro que isso nos é lembrado insistentemente e sim pelo fato de ser André o responsável por levar seu irmão a encontrar-se com Jesus. 

João, que tinha seguido Jesus junto com André, relata em seu Evangelho que André, assim que conheceu Jesus, foi logo, foi depressa, foi sem hesitar, à procura de seu irmão e disse-lhe, sem tanta eloquência, mas com a convicção da fé: “Encontramos o Messias!” E mais: conduziu o seu irmão a Jesus, que transformou Simão em Cefas (que quer dizer Pedra), e naquela pedra edificou sua Igreja.

Santo André, embora tenha sido o primeiro não foi o príncipe, mas levou aquele que seria até o Mestre. André não multiplicou os pães, mas foi ele que convenceu um menino que possuía 5 pães e dois peixes a dividir o que tinha e o levou até aquele que podia multiplicá-los. E o milagre aconteceu.

O dia de Santo André nos leva, portanto, a refletir: quantos como Simão estão esperando que os levemos até Jesus, não tanto com a persuasão das nossas palavras, mas com o testemunho da nossa fé? Quantos milagres pode ainda fazer o Senhor se no meio da multidão pudermos convencer aqueles que tem “pães e peixes” a partilhar com os demais?

Santo André, com sua disposição em anunciar o Messias ajudou a edificar a Igreja de Cristo. Que a oração neste dia em que celebramos a sua festa possa nos dar a mesma disposição e coragem de anunciar o Reino de Deus. Como Santo André, não nos alegremos por nossos cargos ou funções, mas por fazer o nome de cristo conhecido, amado e adorado por toda a terra. Que o mesmo Espírito que moveu Santo André, faça que pela nossa pregação floresçam príncipes e chefes que governem com a sabedoria do alto e que o pão se multiplique onde haja fome.

Santo André, interceda por nós! Amém!

Lectio Divina: Da Terra ao Céu pela Palavra de Deus

Carta de Dom Guigo1, Cartuxo,
ao Ir. Gervásio, sobre a vida contemplativa

I

Ao seu dileto irmão Gervásio, o Ir. Guigo: o Senhor seja o seu deleite.

Amar-te, irmão, é para mim uma dívida, pois foste tu que, primeiro, começaste a me amar. E sou obrigado a te responder, porque, anterior, tua carta me convida a escrever-te.
Proponho-me, assim, a te transmitir certas coisas que pensei sobre o exercício espiritual dos monges, a fim de que possas julgar e corrigir meus pensamentos a propósito de um assunto que tu melhor conheces por experiência, do que eu pela reflexão.
É justo que eu te ofereça, em primeira mão, as primícias do meu trabalho. Pois convém que colhas os primeiros frutos da recente plantação que, em louvável furto, subtraíste à servidão do Faraó e à mole servidão, e colocaste no exército em ordem de batalha, enxertando sabiamente na oliveira o ramo habilmente cortado da oliveira selvagem (cf. 81144,2; Ex 13,14; Ct 6,3.9 e Rm 11,17.24).

II
Os quatro degraus

Um dia, ocupado no trabalho manual, comecei a pensar no exercício espiritual do homem. E eis que, de repente, enquanto refletia, se apresentaram a meu espírito quatro degraus espirituais: a leitura, a meditação, a oração, a contemplação.

Esta é a escada dos monges, que os eleva da terra ao céu. Embora dividida em poucos degraus, ela é de imenso e incrível comprimento, com a ponta inferior apoiada na terra, enquanto a superior penetra as nuvens e perscruta os segredos do céu (cf. Gn 28,12).

Estes degraus, assim como são diversos em nome e em número, também se distinguem pela ordem e o valor.

Se alguém examina diligentemente suas propriedades e funções, o que produz cada um deles para nós, e como diferem e se hierarquizam entre si, achará pequeno e fácil por sua utilidade e doçura todo o trabalho e esforço que lhes dedicar.

A leitura é o estudo assíduo das Escrituras, feito com aplicação do espírito.

A meditação é uma ação deliberada da mente, a investigar com a ajuda da própria razão o conhecimento duma verdade oculta.

A oração é uma religiosa aplicação do coração a Deus, para afastar os males ou obter o bem. A contemplação é uma certa elevação da alma em Deus, suspensa acima dela mesma, e degustando as alegrias da eterna doçura.

Notada, assim, a descrição dos quatro degraus, resta-nos ver a função de cada um em relação a nós.

III
Qual a função de cada um dos citados degraus

A leitura procura a doçura da vida bem-aventurada, a meditação a encontra, a oração a pede, a contemplação a experimenta.

Por isso o Senhor mesmo diz: Buscai e encontrareis, chamai e se vos abrirá. Buscai lendo e encontrareis meditando, chamai orando e abrisse-vos contemplando.2

A leitura, de certo modo, leva à boca o alimento sólido, a meditação o mastiga e tritura, a oração consegue o sabor, a contemplação é a própria doçura que regala e refaz.

A leitura está na casca, a meditação na substância, a oração na petição do desejo, a contemplação no gozo da doçura obtida. Para que se possa ver isto de modo mais expressivo, suponhamos um exemplo entre muitos.

IV
A função da leitura

À leitura, eu escuto: Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus (Mt 5,8).

Eis uma palavra curta, mas cheia de suaves sentidos para o repasto da alma. Ela oferece como que um cacho de uva. A alma, depois de o examinar com cuidado, diz em si mesma: “Pode haver aqui algum bem, voltarei ao meu coração e tentarei, se possível, entender e encontrar esta pureza. Pois é preciosa e desejável tal coisa, cujos possuidores são ditos bem-aventurados, e à qual se promete a visão de Deus, que é a vida eterna, e que é louvada por tantos testemunhos da Sagrada Escritura”.

Desejosa de explicar mais plenamente a si mesma esta coisa, começa a mastigar e a triturar essa uva, e a põe no lagar, enquanto excita a razão a procurar o que é e como pode ser adquirida tão preciosa pureza.

V
A função da meditação

Começa, então, diligente meditação. Ela não se detém no exterior, não pára na superfície, apóia o pé mais profundamente, penetra no interior, perscruta cada aspecto.

Considera, atenta, que não se disse: Bem-aventurados os puros de corpo, mas, sim, “os puros de coração”. Pois não basta ter as mãos inocentes de más obras, se não estivermos, no espírito, purificados de pensamentos depravados. Isto o profeta confirma por sua autoridade, ao dizer: Quem subirá o monte do Senhor? Ou quem estará de pé no seu santuário? Aquele que for inocente nas mãos e de coração puro (Sl 24,3-4).

Depois ela considera quanto o próprio profeta deseja essa pureza, ao orar: Cria em mim, Ó Deus, um coração puro (Sl 51,12) e ainda: Se olhei a iniqüidade no meu coração, o Senhor não me ouvirá (Sl 66,18).

A meditação pensa em como era o bem-aventurado Jó solícito por essa guarda, pois dizia: Fiz um pacto com os meus olhos para não pensar em nenhuma virgem (Jó 31,1). Eis como se dominava o santo homem . que fechava seus olhos para não ver o que é vão, evitando olhar imprudentemente o que depois desejaria contra a sua vontade.

Depois de ter refletido sobre esses pontos e outros semelhantes no que toca à pureza do coração, a meditação começa a pensar no prêmio:

Como seria glorioso e deleitável ver a face desejada do Senhor, mais bela do que a de todos os homens (Sl 45,3), não mais abjeta e vil (cf. Is 53,2), não mais tendo a aparência com que o revestiu sua mãe, mas envergando a estola da imortalidade, e coroado com o diadema que seu Pai lhe deu no dia da ressurreição e da glória, o dia que o Senhor fez (Sl 118,24).

Ela concebe que nesta visão haverá aquela saciedade esperada pelo profeta, ao dizer: Serei saciado quando aparecer a tua glória (Sl 17,15).

Vês quanto licor emanou daquela pequena uva, quanto fogo nasceu duma centelha, quanto se alargou na bigorna da meditação, este pequeno pedaço de metal: Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus!

Mas, quanto mais poderia alargar-se, se alguém experiente viesse ajudar!

Sinto como “é fundo o poço”, mas não passo ainda de um noviço rude, que mal cheguei a tirar poucas gotas.

Inflamada por esses fachos, incitada por tais desejos, a alma começa a pressentir, quebrado o alabastro, a suavidade do ungüento. Não é ainda o gosto, mas é já o cheiro.

Por esse, a alma compreende quão suave seria experimentar essa pureza, cuja meditação a faz saber quanta alegria ela dá. Mas que fará ela?

Ardendo ao desejo de possuí-Ia, não encontra em si como a pode ter.

E quanto mais a procura, mais tem sede.

Enquanto se dá à meditação, sua dor aumenta, porque ainda não sente a doçura que a meditação mostra existir na pureza de coração, mas sem a dar.

Porque não cabe a quem lê nem a quem medita sentir tal doçura, se não recebe do alto (10 19,11) esse dom. Ler e meditar é comum tanto aos bons quanto aos maus, e os próprios filósofos pagãos encontraram, pelo exercício da razão, em que consiste, em suma, o verdadeiro bem.

Mas, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus (Rm 1,21) e, presumindo de suas forças, diziam: Venceremos graças à nossa língua, nossos lábios são nossos (Sl 12,5). Assim, não mereceram receber o que tinham podido ver. Perderam-se em seus pensamentos (Rm 1,21), e a sua sabedoria foi devorada (Sl 107,27)

A sabedoria deles tinha as suas fontes no estudo das ciências humanas, e não no Espírito de sabedoria que é o único a dar a verdadeira sabedoria, isto é, a ciência saborosa que alegra e nutre, com inestimável sabor, a alma que a possui. É dela que foi escrito: A sabedoria não entrará na alma perversa (Sb 1,4).

Esta procede só de Deus. E como o Senhor deu a muitos a missão de batizar, mas guardou só para si o poder e a autoridade de perdoar os pecados pelo batismo, o que levou João a dizer, por antonomásia e de modo preciso: É ele que batiza, assim também podemos dizer: É ele que dá sabor à sabedoria, e faz saborosa a ciência da alma.

A palavra é dada a todos; a sabedoria do espírito, que o Senhor distribui a quem quer e quando quer (cf. 1 Cor 12,11), a poucos é dada.

VI
A função da oração

Vendo, pois, a alma que não pode por si mesma atingir a desejada doçura de conhecimento e da experiência, e que quanto mais se aproxima do fundo do coração (Sl 64,7), tanto mais distante é Deus (cf. Sl 64,8), ela se humilha e se refugia na oração. E diz: Senhor, que não és contemplado senão pelos corações puros, eu procuro, pela leitura e pela meditação, qual é, e como pode ser adquirida a verdadeira doçura do coração, a fim de por ela conhecer-te, ao menos um pouco.

Eu buscava, Senhor, a tua face, a tua face Senhor, eu buscava (cf. Sl 27,8); meditei muito tempo em meu coração, e na minha meditação cresceu um fogo (cf. Sl 39,4) e o desejo de te conhecer ainda mais.

Quando me repartes o pão da Sagrada Escritura, na fração do pão te tomas. conhecido por mim (cf. Lc 24,35). E quanto mais te conheço, tanto mais desejo conhecer-te, não já na casca da leitura, mas no sabor da experiência.

Isto não peço, Senhor, por meus méritos, mas pela tua misericórdia.

Confesso-me indigna pecadora, mas até os cãezinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos (Mt 15,27).

Dá-me, pois, Senhor, o penhor da herança futura, uma gota ao menos da chuva celeste, para arrefecer a minha sede, pois ardo de amor (cf. Ct 2,5).

VII
Efeitos da contemplação

Com essas e outras palavras, a alma inflama o seu desejo, mostra assim o que nela se fez, por encantações invoca o seu Esposo.

E o Senhor, cujos olhos são fixos nos justos e cujos ouvidos estão não só atentos às suas preces (cf. Sl 34, 16), mas presentes nelas, não espera a prece acabar. Pois, interrompendo o curso da oração, apressa-se a vir à alma que o deseja, banhado de orvalho da doçura celeste, ungido dos perfumes melhores.

Ele recria a alma fatigada, nutre a que tem fome, sacia a sua aridez, lhe faz esquecer tudo o que é terrestre, vivifica-a, mortificando-a por um admirável esquecimento de si mesma, e embriagando-a, sóbria a torna.

Como em certas funções carnais a alma se deixa a tal ponto vencer pela concupiscência, que perde o próprio uso da razão e o homem se toma todo carnal, assim, ao contrário, nessa contemplação superior, os movimentos carnais são de tal modo vencidos e absorvidos pela alma, que a carne não contradiz em nada ao espírito, e o homem se torna quase todo espiritual.

VIII
Sinais da vinda da graça

Mas, Senhor, como descobrir quando realizas tudo isso, e qual é o sinal da tua vinda?

São, por acaso, os suspiros e as lágrimas os mensageiros e testemunhas da consolação e da alegria? Se assim é, estamos em presença duma nova antinomia e de uma significação inusitada.

Qual é, com efeito, a relação entre consolação e suspiros, alegria e lágrimas? Se é que se podem chamar lágrimas estas lágrimas, e não antes, abundância transbordante do orvalho interior derramado do céu, indício da purificação interior, limpeza do homem exterior.

No batismo de crianças, a purificação do homem interior é figurada e significada pela ablução exterior. Aqui, ao contrário, a purificação exterior procede da ablução interior.

Ó felizes lágrimas, pelas quais são lavadas as manchas interiores, e as labaredas do pecado se apagam! Bem-aventurados os que assim chorais, porque rireis (cf. Mt 5,5).

Nessas lágrimas reconhece, ó alma, o teu Esposo, abraça o Desejado, embriaga-te em torrente de delícias, suga do seio da consolação o leite e o mel. Estes são os maravilhosos presentinhos e consolos que teu Esposo te distribui e concede, isto é, tuas lágrimas e suspiros.

Ele te trouxe nessas lágrimas a poção sob medida, o pão de dia e de noite, aquele pão que confirma o coração do homem e é mais doce do que o favo de mel.

Ó Senhor Jesus, se são tão doces essas lágrimas que brotam da tua lembrança e do teu desejo, quão doce haverá de ser o gozo experimentado em tua visão manifesta!

Se é tão doce chorar por ti, quanto mais doce será gozar de ti?

Mas, por que exprimimos de público tais secretos colóquios? Por que me esforço por revelar em termos comuns essas inefáveis ternuras? Os que não as experimentaram, não as compreenderão. Eles as leriam mais claramente no livro da experiência, onde a unção divina ensina por si mesma (cf. l Jo 2,27).

De qualquer modo, porém, a letra exterior não aproveita ao leitor, pois a leitura da letra exterior é de pouco sabor, a não ser que uma explicação tire do coração o sentido interior.

IX
A graça se esconde

Ó minha alma, prolonguei por muito tempo este discurso. Pois era bom para nós estar ali, e contemplar com Pedro e João a glória do Esposo, e ficar largo tempo com ele, se ele quisesse fazer ali não duas, nem três tendas (cf. Mt 17,4), mas uma só em que estaríamos juntos, e juntos nos deleitássemos.

Mas eis que já diz o Esposo, Deixa-me partir, pois já sobe a aurora (Gn 32,26), já recebeste a luz da graça e a visita que desejavas.

Dada, pois, a bênção e mortificado o nervo da coxa, e mudado o nome de Jacó para Israel (cf. Gn 32,25-32), o Esposo longamente desejado se retira por um pouco de tempo, depressa escapa.

Ele se arreda, tanto em relação à visita de que falei, quanto à doçura da contemplação. Mas permanece sempre presente, quanto à direção, à graça, à união.

X
Como a ocultação da graça coopera para o nosso bem

Mas não temas, esposa, não desespere, não penses que és desprezada, se o Esposo te oculta por algum tempo a sua face. Tudo isso concorre ao teu bem (cf. Rm 8,28), e ganhas com a partida e com a vinda.

Ele veio para ti, e é também para ti que ele se afasta. Vem para a consolação, afasta-se por cautela, a fim de que a grandeza da consolação não te ensoberbeça, evitando que a presença contínua do Esposo, te leve a desprezar as companheiras e atribuas a consolação não à graça, mas à natureza.

Esta graça, o Esposo a concede quando quer e a quem ele quer, e não se possui como direito hereditário. É conhecido o provérbio que diz que a familiaridade excessiva gera o desprezo. Ele se afasta, pois, para não ser desprezado, se é demais assíduo, e para que, ausente, seja mais desejado, e desejado seja procurado com maior ardor, e longamente querido, seja, enfim, achado com maior alegria.

Além disso, se nunca faltasse essa consolação, que em relação à futura glória a revelar-se em nós (cf. Rm 8,18), é enigmática e parcial, talvez julgássemos que temos aqui cidadania permanente e procuraríamos menos a futura.

Assim, para não tomarmos o exílio por pátria, o penhor pelo pleno valor, é que o Esposo vem de tempo em tempo, ora trazendo consolação, ora a substituindo pelo leito de doente (cf. 8141,4).

Ele permite que saboreemos por um pouco de tempo a sua doçura, mas antes que ela seja plenamente sentida, ele se esvai. Assim, voejando sobre nós de asas abertas, ele nos provoca a voar (cf. Dt 32,11), como se dissesse: Experimentastes um pouco da minha suavidade e doçura, mas, se quereis saciar-vos plenamente, correi atrás de mim ao odor dos meus perfumes (cf. Ct 1,3), levantai os corações para o alto onde estou à direita do Pai. Aí me vereis, não mais em figura e em enigma, mas face a face, e então, o vosso coração gozará plenamente, e o vosso gozo ninguém vos tirará (Jo 16,22).

XI
Com que cuidado a alma se deve comportar depois da visita da graça

Mas, acautela-te, ó esposa. Quando o Esposo se ausenta, não vai para longe. Se não o vês, ele sempre te vê. Ele é cheio de olhos à frente e atrás (cf. Ez 1,18). Jamais podes fugir da sua vista. Tem junto de ti seus enviados, espíritos que são como que mensageiros muito sagazes, que vejam como te conduzes na ausência do Esposo, e te acusem diante dele se descobrirem em ti algum sinal de impureza e de leviandade.

Este Esposo é cheio de zelo. Se, acaso, acolheres um outro amante, ou te empenhas em agradar mais a um outro, ele logo se afasta de ti e se une a outras virgens fiéis.

É delicado esse Esposo, é nobre, é o mais belo dos filhos dos homens (Sl 45,3), e assim, não quer ter uma esposa senão perfeitamente bela. Se ele vir em ti uma mancha, ou uma ruga, logo desvia o seu olhar.

Ele não suporta nenhuma impureza. Sê, pois, casta, sê reservada e humilde, para merecer a visita freqüente do teu Esposo.

Temo que este discurso se tenha prolongado demais, mas a matéria abundante me obrigou a isto, assim como a sua doçura. Não prolonguei por minha espontânea vontade, foi o seu encanto que me arrastou sem sentir.

XII
Recapitulação do que foi dito

Para que se possa ver melhor em conjunto o que foi dito em forma mais desenvolvida, vamos recapitulá-lo em resumo.

Assim como foi notado nos exemplos propostos, podes ver como os ditos degraus se ligam uns aos outros entre si. E como um precede a outro, tanto no tempo, como na casualidade.

Qual primeiro fundamento, vem a leitura. Ela fornece a matéria e nos leva à meditação.

A meditação, por sua vez, perscruta com maior diligência o que se deve desejar, e como que cavando, acha e mostra o tesouro. Mas, como não pode por si mesma obtê-lo, leva-nos à oração.

A oração, elevando-se a Deus com todas as suas forças, obtém o tesouro desejável, a suavidade da contemplação.

Sobrevindo a contemplação, ela recompensa o trabalho dos três degraus referidos, embriagando. a alma sedenta com o orvalho da doçura celeste.

A leitura é feita segundo um exercício mais exterior; a meditação, segundo uma inteligência mais interior; a oração, segundo o desejo; a contemplação passa acima de todo sentido.

O primeiro degrau é dos principiantes; o segundo, dos que progridem; o terceiro, dos fervorosos; o quarto, dos bem-aventurados.

XIII
Como os mesmos degraus são ligados uns aos outros

Estes degraus são de tal modo ligados, e de tal forma servem uns aos outros, que os precedentes pouco ou nada aproveitam sem os seguintes, e os seguintes, por sua vez, nunca ou só raramente, podem ser adquiridos sem os precedentes.

Que adianta, com efeito, ocupar o tempo em contínua leitura, percorrer os feitos e os escritos dos santos, se não exprememos o seu suco, mastigando e ruminando, e não o passamos até ao mais íntimo do coração, engolindo, a fim de por eles considerarmos diligentemente o nosso estado, e cuidarmos de praticar as obras daqueles cujos feitos queremos ler freqüentemente?

Mas, como haveremos de cogitar estas coisas, ou como poderemos evitar que, meditando coisas erradas e vãs, se transgridam os limites constituídos pelos santos Pais, a não ser que sejamos antes instruídos a tal respeito pela leitura ou pelo ensino?

O ensino, de certo modo, se relaciona com a leitura, o que nos leva habitualmente a dizer que lemos para nós mesmos ou para os outros, mas também o que ouvimos dos mestres.

Igualmente, que vale ao homem ver pela meditação o que deve praticar, se não pode fazê-lo senão pelo auxilio da oração e pela graça de Deus? Porque todo dom excelente e todo dom perfeito vem de cima e desce do Pai das luzes (Tg 1,17).

Sem ele nada podemos, ao passo que ele faz em nós as obras, mas não sem nós. Pois somos cooperadores de Deus (1Cor 3,9), como diz o Apóstolo. Deus quer que lhe supliquemos, quer que abramos à graça que vem e bate à porta, o seio da nossa vontade, e lhe demos o nosso consentimento.

O Senhor exigia esse consentimento da Samaritana, quando dizia:

Chama o teu marido (Jo 4,16), como se dissesse: Quero te infundir a graça; aplica o teu livre arbítrio.

Dela exigia a oração: Se soubesses o dom de Deus, e quem é que te diz: Dá-me de beber, serias tu que lhe terias pedido a água viva (ib.1 O).

Inflamada, pois, pelo desejo, volta-se para a oração, dizendo:

Senhor, dá-me desta água, a fim de que eu não tenha mais sede. Assim, portanto, a palavra do Senhor que ouvira e depois meditara, a incitou à oração.

Como haveria de tomar-se solícita na súplica, se antes, a meditação não a tivesse feito arder? Ou de que lhe serviria a precedente meditação, se a oração seguinte não obtivesse o que aquela lhe mostrara?

Para que seja, pois, frutuosa a meditação, é preciso que se lhe siga o fervor da oração, da qual é como um efeito a doçura da contemplação.

XIV
Conseqüências do que foi dito

De tudo isso podemos concluir que a leitura sem a meditação é árida, a meditação sem a leitura é errônea, a oração sem meditação é morna, a meditação sem oração é infrutífera.

A oração com fervor obtém a contemplação, mas a aquisição da contemplação é rara ou miraculosa sem a oração.

Deus, com efeito, cujo poder não tem limites, e cuja misericórdia se estende a todas as suas obras, às vezes suscita das pedras filhos de Abraão (cf. Mt 3,9). É o que se dá quando força corações duros e rebeldes a querer. Ele é como o pródigo que, segundo se costuma dizer, “dá o boi com os chifres”, quando vem sem ser chamado e se envolve sem ser procurado.

Embora tenha isso acontecido a alguns, como a Paulo e alguns outros, não devemos, no entanto, tentar a Deus presumindo tais dons, mas fazer o que nos compete, isto é, ler e meditar a lei de Deus, e rogar-lhe que ajude a nossa fraqueza, e veja a nossa imperfeição. Ele próprio nos ensina a fazer assim, quando diz: Pedi e recebereis, procurai e achareis, batei e abrir-se-vos-á (Mt 7,7). Pois agora o reino dos céus sofre violência, e são os violentos que dele se apoderam (Mt 11,12).

Eis, pois, que as distinções acima assinaladas permitem perceber as propriedades dos vários degraus, como se concatenam entre si, o que produz em nós cada um deles.

Feliz o homem que, tendo o espírito vazio de outros cuidados, deseja sempre passar e repassar por esses degraus. É aquele que, vendendo tudo que possui, compra o campo em que está escondido o tesouro desejável, que é recolher-se e ver como é suave o Senhor (cf. Sl 34,9).

Feliz, sim, aquele que, exercitado no primeiro degrau, bem atento no segundo, fervente no terceiro, alçado acima de si no quarto, se eleva cada vez mais forte, por essas subidas, até ver o Deus dos deuses em Sião (Sl 84,8).

Bem-aventurado é aquele, a quem é dado permanecer, ainda que por pouco tempo, nesse último degrau, e que pode dizer: Eis que sinto a graça de Deus, eis que contemplo com Pedro e João a sua glória no monte, eis que gozo com Jacó os abraços da bela Raquel.

Mas acautele-se ele depois de tal contemplação, para não cair nos abismos por uma queda desordenada, nem voltar, depois de tão grande visita, aos lascivos atos do mundo e às seduções da carne.

Como não pode a fraca ponta da mente humana sustentar mais longamente o esplendor da verdadeira luz, desça suavemente e com ordem algum dos três degraus pelos quais subira, e assim, alternadamente, ora em um ora em outro, demore segundo a moção do livre arbítrio e as circunstâncias de lugar e de tempo. A meu ver, ele estará tanto mais próximo de Deus, quanto mais longe do primeiro degrau. Como é, infelizmente, frágil e miserável a condição humana!

Vemos, pois, abertamente, com o auxílio da razão e os testemunhos das Escrituras, que a perfeição da vida bem-:-aventurada está contida nestes quatros degraus, e que o homem espiritual deve estar sempre a exercitar-se neles.

Mas, quem é que guarda esse modo de viver, quem é ele, e nós o louvaremos? (Eclo 31,9). Querer, muitos querem, mas fazer é de poucos.

Queira Deus que sejamos desses poucos.

XV
Quatro causas que nos retraem dos referidos degraus

São quatro as causas que, o mais das vezes, nos desviam desses degraus: uma necessidade inevitável, a utilidade duma boa ação, a fraqueza humana, a vaidade mundana.

A primeira é desculpável; a segunda é tolerável; a terceira é miserável; a quarta é culpável. E verdadeiramente culpável. A quem, por essa causa, é desviado do seu propósito, melhor seria não ter conhecido a graça de Deus, do que retroceder depois de conhecê-la. Que escusa terá do seu pecado?

Não lhe poderá, acaso, Deus dizer, com razão: Que mais te devia fazer e não fiz? (cf. Is 5,4). Não existias e te criei. Tornaste-te servo do diabo e do pecado, e te redimi. Corrias com os ímpios ao redor do mundo, e te escolhi. Dei-te graça perante meus olhos e queria fazer em ti a minha habitação, e em verdade me desprezaste. Não jogaste para trás somente as minhas palavras, mas a mim mesmo, e andaste em busca das tuas concupiscências.

Mas, ó Deus bom, suave e manso, doce amigo, conselheiro prudente, ajuda forte, como é desumano e temerário aquele que te rejeita, e repele do seu coração um hóspede tão humilde e clemente!

Ó infeliz e nociva troca, rejeitar o seu Criador e acolher pensamentos maus e prejudiciais, e entregar tão depressa a pensamentos impuros e ao espezinhar dos porcos até mesmo aquela câmara secreta do Espírito Santo, que é o fundo do coração, que pouco antes se dirigia às alegrias celestes!

Ainda estão quentes no coração os vestígios do Esposo, e já ali se intrometem desejos adulterinos.

É inconveniente e indecoroso para ouvidos que acabam de ouvir palavras que não é lícito ao homem falar (cf. 2Cor 12,4), entregar-se tão depressa a fábulas e a ouvir maledicências. E para olhos que acabam de ser batizados pelas lágrimas sagradas, de repente se voltar para ver vaidades. Para a língua que acaba de cantar um doce epitalâmio, e que tinha reconciliado o Esposo com a esposa por suas palavras inflamadas e persuasivas, e a introduzira no celeiro (cf. Ct 2,4), de novo se converter às conversas torpes, às leviandades, à urdi dura de dolos, à maledicência.

Não nos aconteça, Senhor, mas se acaso, por fraqueza humana, recairmos nisso, não desesperemos, mas de novo recorramos ao Médico clemente que levanta do pó o indigente e ergue o pobre do monturo (Sl 113,7). E ele, que não quer a morte do pecador, voltará a nos curar e salvar.

Já é tempo de pôr fim a esta carta. Oremos todos ao Senhor que no presente enfraqueça para nós os impedimentos que nos retraem da sua contemplação; no futuro, nos liberte inteiramente deles, levando-nos, mediante os referidos degraus, cada vez mais fortes, a vermos o Deus dos deuses em Sião (Sl 84,8). Ali, os eleitos não experimentarão mais gota a gota nem intermitentemente a doçura da contemplação. Pois terão, em incessante torrente de gozo, a alegria que ninguém tirará, e a paz imutável, a paz nele.

E tu, Gervásio, meu irmão, se do alto, te for dado um dia ascender ao cume desses degraus, lembra-te de mim e ora por mim, quando for bem para ti.

Assim, o véu puxe o véu (cf. Ex 26,33), e aquele que escuta, diga:

Vem! (Ap 22,17).

SCALA CLAUSTRALIUM, de Guigo II
Tradução de D. Timóteo A. Anastásio, O.S.B, antigo Abade do Mosteiro de São Bento. Bahia (BRASIL).


Notas:

  1. Guigo II (†1188) foi o nono sucessor de São Bruno como prior do deserto de Chartreuse, de 1174 até 1180. Faleceu em 1188.
  2. São João da Cruz, nos seus “Ditos de luz e de amor”, no nº 156, reproduz assim este texto de Guigo: “Procurai lendo e encontrareis meditando; chamai orando e abrir-vos-ão contemplando” (Ed.Vozes. Petrópolis,1996, p.108. Desse modo, o santo faz alusão breve aos passos da Lectio Divina monástica.
    Catecismo da Igreja Católica, no nº 2654, volta a acudir a este texto da Escada: “Os Padres espirituais, parafraseando Mt 7,7, resumem assim as disposições de um coração alimentado pela Palavra de Deus na oração: `Buscai lendo, e encontrareis meditando; chamai orando, e se os abrirá pela contemplação´.”

Publicado originalmente em: http://www.chartreux.org/pt/textos/escada-claustro.php

A Sete Horas Canônicas


A Liturgia das Horas é composta por sete momentos distintos, sete convites diários à oração.

RESUMO DAS HORAS CANÔNICAS

Ofício das Leituras – qualquer hora do dia ou da noite

Laudes: ao amanhecer, próximo do nascer do sol

Hora Terça: 9h

Hora Sexta: 12h

Hora Nona: 15h

Vésperas: ao anoitecer, próximo ao por do sol

Completas: antes de dormir, mesmo que passe da meia

Obviamente que para nós que estamos envolvidos com as labutas diárias, trabalho, estudo e outros compromissos, é difícil rezar sete vezes ao dia.

Mas a oração é como um poço. Como aquele poço de Jacó, onde o Senhor está sentado a nos esperar para saciar a nossa sede com a água viva de sua presença. E o coração fiel, tomado pela devoção, e sedento de encontrar-se com o seu Deus, sempre encontrará pelo menos 2 ou 3 momentos para se entreter com Ele, falando e também ouvindo sua voz, num intenso diálogo de amor.

OFICIO DAS LEITURAS

O ofício das leituras é resultado da reforma litúrgica que aconteceu na Igreja após o Concílio Vaticano II. Antes havia as Matinas, que era composta por três noturnos, cada noturno com três salmos mais as leituras longas da Escritura e da patrística. Com a reforma litúrgica, as matinas passam a se chamar OFÍCIO DAS LEITURAS que ficou reduzido a uma tríade de salmos e duas leituras longas, uma da Escritura e outra da patrística ou de algum documento da Igreja. Nas Solenidades e Festas é possível estender a oração, que são acrescidas de mais três cânticos e o Evangelho. Essa extensão do Ofício das Leituras é chamado de Vigílias.

Como vimos, o Ofício das Leituras é originalmente oração noturna, para ser rezada durante a madrugada, mas, com a reforma litúrgica, acrescentou-se também a possibilidade de ser rezado a qualquer hora do dia e da noite, à escolha de quem reza.

LAUDES

Na transição entre a noite e o dia, somos chamados às LAUDES, os louvores da manhã. A finalidade das Laudes é consagrar a Deus os primeiros movimentos de nossa alma, antes de sairmos para o trabalho, de se envolver nos afazeres domésticos, com estudos ou qualquer outra atividade. É a consagração das primícias do dia para o Senhor. A hora mais apropriada para a oração da Laudes é próximo do nascer do sol, que lembra a ressurreição do Senhor na manhã de páscoa, o Sol nascente que nos veio visitar, como exclama Zacarias no famoso canto do Benedictus.

Uma curiosidade: Após as Laudes seguia a Hora Prima, ou seja, a primeira hora após o nascer do sol. A hora prima foi extinta após a reforma litúrgica.

HORA MÉDIA (Terça, Sexta e Noa)

A hora média, também chamada de “horas meridianas” é oração durante o curso do dia. Ela é dividida em três momentos: A HORA TERÇA, A HORA SEXTA E A HORA NONA ou NOA. Esses nomes dados a essas horas são os mesmos que os antigos judeus identificavam as horas do dia a partira do nascer do sol. Desse modo, a hora terça corresponde as 9 da manhã, a hora sexta ao meio-dia, e a hora nona as 15 horas. Esses três momentos também lembram acontecimentos da História da nossa salvação, como a descida do Espírito Santo na manhã de Pentecostes, ás 9 horas, A crucificação do Senhor as 12 horas e morte do Senhor na cruz as 15 horas.

VÉSPERAS

No encontro entre o dia e a noite, somos convidados a rezar as VÉSPERAS. Essa oração deve ser rezada o mais próximo possível do por do sol. Ela sempre nos lembra da fragilidade humana e da esperança da nossa completa restauração em Deus. A oração das vésperas é, portanto uma oração de gratidão por tudo que recebemos de Deus durante o dia e tudo que temos ainda por receber na vida futura. O Senhor, assim como sol que se põe no horizonte, amanhã voltará para nos iluminar e alegrar nossa existência.

COMPLETAS

Por fim, as completas. É a oração que fecha o ciclo da vida de oração. E as completas sempre lembram da morte, não como algo assombroso ou temível, mas como o sono necessário para o despertar de uma nova vida. É uma oração de profunda entrega e confiança em Deus. Nas completas sempre terminamos nos braços da Virgem Mãe, recitando para ela belíssimos e antiquíssimas orações em forma de poesia.

Este é o ciclo completo das HORAS CANÔNICAS propostas para nós pela Igreja. Se não puder rezar os sete, escolha pelo menos dois ou três e viva intensamente essa maravilhosa Oração da Igreja.

Um grande abraço, e que a paz de Nosso Deus esteja em teu coração, em tua vida.

Veja o vídeo no YouTube:

Quando fazemos o Sinal da Cruz na Liturgia das Horas?

O “Sinal da Cruz” é parte integrante dos gestos da Liturgia das Horas.

Listamos a seguir os momentos em que devemos usá-lo.

O Sinal da Cruz sobre os lábios:

  • No Invitatório, ao proferir as palavras “Abri, ó Senhor, os meus lábios…”

O Sinal da Cruz da fronte ao peito, de um ombro a outro:

  • Ao dizer “Vinde, ó Deus, em meu auxílio…”;
  • No Início do Cântico Evangélico (Laudes, Vésperas e Completas)
  • No final da oração, ao proferir a Conclusão da Hora, ou, caso haja, após a bênção do Ministro.