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Advento: as duas vindas de Cristo

O Advento inaugura um novo ano litúrgico. A Liturgia das Horas, acompanhando o itinerário de Cristo e da Igreja em sua obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus reinicia seu virtuoso ciclo, que atingirá o ápice na Páscoa do Senhor, e irá reverberar em todo o resto do ano, fazendo com que o ano litúrgico seja de fato, para aqueles que colhem seus frutos, um tempo de graça e de conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo.

No primeiro Domingo do Advento, no Ofício das Leituras, nos é apresentado um texto extraído das famosas Catequeses de São Cirilo de Jerusalém que é um dos padres da Igreja. Ele Foi bispo de Jerusalém entre os anos 350 e 386. Sua memória litúrgica celebramos no dia 18 de março. 

O texto intitulado “As duas vindas de Cristo” é um perfeito resumo do significado desse tempo litúrgico. A palavra “advento”, oriunda do latim, significa literalmente “vinda”. São Cirilo nos explica que não vivemos nesse tempo apenas a preparação para a celebração do Natal, a primeira vinda de Cristo, mas também a preparação para seu retorno glorioso, sua segunda vinda até nós.

Não nos detemos, portanto, somente na primeira vinda, diz São Cirilo, mas esperamos ainda, ansiosamente, a segunda. E assim como dissemos na primeira: Bendito o que vem em nome do Senhor (Mt 21,9), aclamaremos de novo, no momento de sua segunda vinda, quando formos com os anjos ao seu encontro para adorá-lo: Bendito o que vem em nome do Senhor.

Por tudo isso dizemos que o tempo do Advento é de preparação. Preparar-nos para contemplar a encarnação do Verbo, que assumiu nossa pobre natureza nascendo da Virgem Maria. Preparar-nos, também, em justiça e santidade, para irmos ao encontro do Senhor que virá como rei e juiz de todos os povos.

Para isso, a Liturgia das Horas, assim como toda a Liturgia da Igreja irá ouvir o que anunciam os profetas, proclamar a virtude sublime da esperança, guiar-nos para a vigilância da oração, banhar-nos nas torrentes da divina misericórdia, clamar insistente pela vinda do Senhor o quanto antes.

Que o Senhor nos conceda a graça de seguir esse itinerário de oração e de escuta da Palavra de Deus que agora se inicia. Que nosso coração possa deleitar-se com esse alimento espiritual que nos é oferecido na Sagrada Liturgia da Igreja. Que possamos ouvir, com atenção e docilidade, tudo que nos for anunciado nesse tempo, e que nosso canto, que flui da nossa mente e da nossa voz, possa subir aos céus, onde está o Cordeiro, digno de toda honra e de toda glória pelos séculos dos séculos.

Lectio Divina – Terça-feira da 26ª Semana do Tempo Comum

Olá, caríssimos irmãos e irmãs,

Continuemos a adentrar no Evangelho de São Lucas, acompanhando Jesus em seu plano salvador e deixemo-nos ser envolvidos ao final com o orvalho da doçura celeste que é a consolação do Espírito Santo.

LECTIO

Tomemos o capítulo 9,51-56

51Estava chegando o tempo de Jesus ser levado para o céu.
Então ele tomou a firme decisão de partir para Jerusalém
52e enviou mensageiros à sua frente.
Estes puseram-se a caminho
e entraram num povoado de samaritanos,
para preparar hospedagem para Jesus.
53Mas os samaritanos não o receberam,
pois Jesus dava a impressão de que ia a Jerusalém.
54Vendo isso, os discípulos Tiago e João disseram:
‘Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu
para destruí-los?’
55Jesus, porém, voltou-se e repreendeu-os.
56E partiram para outro povoado.

A Palavra se refere ao tempo de Jesus ser levado ao céu, dando a entender que havia um planejamento prévio: Jesus começa seu ministério na região da Galileia, onde nasceu e foi criado, pregando ao povo e manifestando o poder e autoridade de Deus, ali arrebanha discípulos e apóstolos. Mas devia subir para a capital. Jerusalém. Para concluir sua missão.

Ele sobe para Jerusalém passando pela Samaria, que ficava entre as províncias da Galileia onde ele estava e da Judeia, onde ficava Jerusalém. Vemos aí a indisposição histórica dos samaritanos em relação aos peregrinos que subiam para Jerusalém. Jesus também é vítima dessa intriga e não são recebidos em um povoado samaritano simplesmente porque davam mostras de ir para Jerusalém. Isso irrita profundamente os discípulos. João e Tiago sugerem então mandar descer fogo do céu para destruí-los, lembrando claramente o profeta Elias quando mandou vir fogo do céu para queimar seus inimigos, conforme está narrado no segundo livro dos Reis (2Rs 1, 10-12). Jesus era maior do Elias…

Nesta passagem observamos mais uma vez a empolgação dos discípulos ante o poder que foram demonstrados por Jesus e que foi concedido também a eles. Observamos, além disso a prepotência dessa atitude e como o poder mau direcionado pode ser danoso. Recordamos que é o mesmo João que, poucas linhas atrás, tinha proibido um homem de expulsar demônios porque não pertencia ao grupo dos discípulos. João. O discípulo amado. Autor do quarto Evangelho e do Apocalipse…

Jesus os repreende mais uma vez…

MEDITATIO

Talvez nunca tenhamos sugerido, nem sequer pensado em nada parecido com o que sugeriram os irmãos João e Tiago. Mas que tipo de pensamentos ou desejos temos em relação àqueles que nos rejeitam ou ignoram ou não nos recebem? Consideramos que até mesmo aqueles que são inimigos do Reino de Deus são dignos de compaixão? Acompanhando os textos do Evangelho vemos que os discípulos são constantemente repreendidos por Jesus por causa de sua conduta. E nós? Temos avaliado nossa conduta e aceitamos ser repreendidos por Cristo? Como os discípulos, também estamos no caminho para Jerusalém celeste. Aceitamos a repreensão e continuamos no caminho? Ou quando somos repreendidos pensamos em desistir, ficamos contrariados e rancorosos? Os Evangelhos nos mostram que João e os outros discípulos eram prepotentes, faziam partidos e divisões, sugeriam vingança contra os inimigos, mas são transformados pela presença de Cristo e do Espírito Santo. Também nós nos deixamos ser corrigidos e modelados pela presença de Cristo?

No Ofício das Leituras de hoje, o bispo São Policarpo nos ensina a comportar como discípulos transformados pelo Espírito Santo. O texto é destinado aos presbíteros, mas serve para todos nós. Diz o santo:

Sejam os presbíteros inclinados à compaixão, misericordiosos para com todos, reconduzam os que se desviaram do caminho, visitem todos os enfermos; não se descuidem da viúva, do órfão ou do pobre. Mas sempre cheios de solicitude para o bem diante de Deus e dos homens (cf. 2Cor 8,21), evitem a cólera, a acepção de pessoas, o julgamento injusto. Repilam para longe toda a avareza; não dêem logo crédito contra alguém, não sejam demasiado severos ao julgar, certos de que todos nós somos devedores do pecado. Se, portanto, suplicamos a Deus perdoar-nos, devemos também nós perdoar. Pois estamos diante do Senhor e dos olhos de Deus e teremos todos de comparecer perante o tribunal de Cristo, e cada um prestará contas de si (Rm 14,10.12). Desse modo sirvamo-lo com temor e todo o respeito como nos ordenou ele e os apóstolos, que nos anunciaram o Evangelho, como também os profetas, que predisseram a vinda de nosso Senhor. Atentos, façam todo o bem, afastem-se dos escândalos, dos falsos irmãos e daqueles que usam o nome do Senhor com hipocrisia e induzem ao erro os homens superficiais.

Perseveremos sem cessar em nossa esperança e penhor de nossa justiça, que é Jesus Cristo: Em seu corpo carregou sobre o madeiro os nossos pecados, ele que não cometeu pecado nem se encontrou engano em sua boca (1Pd 2,24.22); mas, por nossa causa, para que vivamos nele, tudo suportou. Sejamos, por conseguinte, imitadores de sua paciência e, se sofremos por seu nome, nós lhe daremos glória. Foi este o exemplo que nos deu em si mesmo, e nós cremos. (Da Carta aos filipenses, de São Policarpo, bispo e mártir, extraído da Liturgia das Horas, vol. IV, p. 279)

Lectio Divina – Segunda-feira, 26ª Semana do Tempo Comum

Olá, meus irmãs e minhas irmãs! Continuemos buscando na Lectio Divina o encontro pessoal com o Cristo, Verbo de Deus.

Que o mesmo Espírito Santo que inspirou as Escrituras inspire nossas mentes e nossos corações com sua sabedoria.

LECTIO

Voltemos ao Evangelho de Jesus Cristo segundo São Lucas 9,46-50

Naquele tempo:
46Houve entre os discípulos uma discussão,
para saber qual deles seria o maior.
47Jesus sabia o que estavam pensando.
Pegou então uma criança, colocou-a junto de si
48e disse-lhes:
“Quem receber esta criança em meu nome,
estará recebendo a mim.
E quem me receber,
estará recebendo aquele que me enviou.
Pois aquele que entre todos vós for o menor,
esse é o maior.”
49João disse a Jesus:
“Mestre, vimos um homem que expulsa demônios em teu nome.
Mas nós o proibimos, porque não anda conosco.”
50Jesus disse-lhe:
“Não o proibais, pois quem não está contra vós,
está a vosso favor.”

Na cena do Evangelho de Hoje vemos os discípulos num embate sobre quem seria o maior. Continuamos notando a empolgação dos discípulos por tudo que estavam presenciando. Já havia disputa por posições naquele grandioso Reino que estava sendo formado.

Jesus em sua sabedoria, aproveita esta situação pra dar mais um ensinamento que iria marcar sua Igreja para sempre. Traz uma criança, coloca no meio deles, e ensina aos discípulos a lógica invertida, marca registrada do Reino de Deus. Quem for menor será maior.

Na passagem seguinte, revemos o mesmo episódio narrado ontem por São Marcos. Os discípulos proíbem um homem que expulsava demônios em nome de Jesus, mas são advertidos para considerar que todos que não são contra eles são a seu favor.

MEDITATIO

Perguntamos ao texto:

Porque Jesus traz uma criança para acabar com a discussão de quem era o maior? À semelhança dos discípulos também temos necessidade de mostrar que somos maiores ou melhores que os outros? Há ainda hoje em nossas comunidades disputas por posições? Nos incomodamos com o progresso dos outros? Temos prazer em diminuir o outro para nos sentirmos maiores? Queremos nos colocarmos acima dos demais?

Na nossa relação com Deus, em que somos parecidos com as crianças? Na pureza? Na Sinceridade? Na dependência de Deus? Na pequenez? O que nos falta para sermos como elas?

A pequena grande doutora da Igreja, Santa Teresinha do Menino Jesus, dizia que queria “permanecer criancinha” perante o bom Deus. Ela nos explica bem o que é ser criancinha:

“É reconhecer o seu nada, é esperar tudo do bom Deus, assim como uma criança pequena espera tudo do pai; é não se preocupar com nada e, de modo algum, fazer fortuna. Mesmo entre os pobres, dá-se à criança o que lhe é necessário, mas assim que ela cresce o pai não quer mais alimentá-la, dizendo-lhe: ‘Agora vá trabalhar, você pode se sustentar’.

Foi para não escutar isso que eu não quis crescer, sentindo-me incapaz de ganhar a vida, a vida eterna do Céu. Permaneci, então, sempre pequena, tendo uma só ocupação: colher flores, as flores do amor e do sacrifício, oferecendo-as ao bom Deus, para seu agrado.

Ser criança é ainda não atribuir a si própria as virtudes praticadas, acreditando-se capaz de alguma coisa; é reconhecer que o bom Deus coloca este tesouro na mão de sua criancinha para que ela se sirva dele quando precisar; mas é sempre o tesouro do bom Deus. Enfim, é nunca desanimar por causa de seus erros, pois as crianças caem com frequência, porém são pequenas demais para se machucar muito.” (Obras de Teresa de Lisieux, p. 1158)

Lectio Divina – 26º Domingo do Tempo Comum

Olá queridos irmãos e irmãs, a graça e a paz do nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos.

Seguimos na Lectio Divina que pode nos ajudar compreender e viver intensamente a Palavra. Que ela se torne oração em nossa vida.

LECTIO

Tomaremos hoje o evangelho de São Marcos 9,38-43.45.47-48

Naquele tempo:
38João disse a Jesus:
‘Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome.
Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue’.
39Jesus disse:
‘Não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome
para depois falar mal de mim.
40Quem não é contra nós é a nosso favor.
41Em verdade eu vos digo:
quem vos der a beber um copo de água,
porque sois de Cristo,
não ficará sem receber a sua recompensa.
42E, se alguém escandalizar
um destes pequeninos que creem,
melhor seria que fosse jogado no mar
com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço.
43Se tua mão te leva a pecar, corta-a!
É melhor entrar na Vida sem uma das mãos,
do que, tendo as duas, ir para o inferno,
para o fogo que nunca se apaga.
45Se teu pé te leva a pecar, corta-o!
É melhor entrar na Vida sem um dos pés,
do que, tendo os dois, ser jogado no inferno.
47Se teu olho te leva a pecar, arranca-o!
É melhor entrar no Reino de Deus com um olho só,
do que, tendo os dois, ser jogado no inferno,
48‘onde o verme deles não morre,
e o fogo não se apaga”.

No Evangelho de hoje São Marcos parece não se preocupa em narrar uma história linear, mas traz diversos ensinamentos fortes de Jesus aos seus discípulos. Podemos dividi-los em pelo menos quatro lições.

Primeiro um fato curioso: alguém expulsava demônios em nome de Jesus. Possivelmente essa pessoa tinha visto Jesus ou os apóstolos em ação e os imitava expulsando demônios. Para os discípulos isso é inaceitável. E cheios de razão proibiram aquele homem e voltam, convictos que fizeram a coisa certa. João, o discípulo amado, se encarrega de relatar o fato a Jesus. A resposta de Jesus talvez tenha surpreendido e até mesmo decepcionado os discípulos. Para o Mestre não há nada de mais. Pelo contrário, adverte os discípulos para não proibir tal coisa, ensinando que todos que não são inimigos do Reino de Deus podem, de alguma forma, colaborar com ele.   

Em seguida, outro ensinamento importante: No Reino de Deus, os menores gestos também são contados e terão sua recompensa. Até um copo d´água doado por causa dele tem sua importância

O terceiro ensinamento trazido por Marcos diz respeito ao perigo do escândalo que tem a ver com mau exemplo, ser pedra de tropeço para os mais vulneráveis. Jesus utiliza de uma hipérbole para advertir sobre a gravidade desse ato.

Só lembrando. A hipérbole é uma figura de linguagem que se utiliza de exageros na expressão para dar ênfase a uma ideia. Jesus usava esse recurso com frequência para ensinar.

A hipérbole é ainda mais utilizada no último ensinamento desse trecho do Evangelho. Jesus fala em cortar uma das mãos, um dos pés ou arrancar um dos olhos, caso algum destes levem ao pecado. Melhor ir para o céu faltando um dos membros do se condenar tendo todos. Com isso enfatiza a característica espiritual do seu Reino. A primazia do espírito sobre a carne. O perigo do pecado, que é um mal espiritual, mais do que qualquer outro perigo do corpo.

MEDITATIO

Diante de tudo isso podemos nos perguntar:

O que podemos pensar, hoje, sobre o ensinamento de Jesus que diz que “aquele que não é contra nós é a nosso favor”? Aprendemos a tolerar aqueles que agem em nome de Jesus, mesmo que não os consideremos como dos nossos?

Qual a nossa contribuição para o Reino de Deus? Temos buscado participar dele desde as mínimas coisas até as grandes?

Temos o cuidado para não ser pedra de tropeço para nenhum dos nos nosso irmãos? Temos dado testemunho de cristãos autênticos?

O que temos, que faz parte de nós, que nos afasta da graça? Temos força para arrancar e jogar fora? Necessitamos de força de Deus para isso? Temos buscado na oração as forças para evitarmos o mal que nos leva ao inferno? Jesus usa a hipérbole para falar de membros importantes do nosso corpo que temos de arrancar se estiverem nos levando a pecar. Quais coisas importantes precisamos arrancar das nossas vidas para crescermos na santidade?

Sobre crescer na santidade, ensina-nos São Policarpo, neste trecho de uma de suas cartas que está no Ofício das Leituras de hoje:

De rins cingidos (1Pd 1,13), servi a Deus no temor (Sl 2,11) e na verdade, abandonando toda palavra vã e erro vulgar. Tendo fé naquele que ressuscitou dos mortos a nosso Senhor Jesus Cristo (1Pd 1,21) e lhe deu a glória e o trono à sua direita. É ele a quem todas as coisas celestes e terrestres se submetem, todo espírito serve e que virá como juiz dos vivos e dos mortos. Deus reclamará seu sangue daqueles que não creem nele. 

Em verdade, quem o ressuscitou dos mortos também nos ressuscitará, se fizermos sua vontade, andarmos segundo seus preceitos e amarmos aquilo que ele amou. Se evitarmos toda injustiça, fraude, avareza, difamação, falso testemunho; se não pagarmos o mal com o mal nem a maldição com a maldição (1Pd 3,9) nem o golpe com outro nem o ódio com o ódio. Bem lembrados dos ensinamentos do Senhor: Não julgueis e não sereis julgados; perdoai e sereis perdoados; tende misericórdia para alcançardes a misericórdia; com a mesma medida com que medirdes sereis medidos (cf. Mt 7,1; Lc 6,36-38); e: Bem-aventurados os pobres e os que sofrem perseguição porque deles é o reino de Deus (cf. Mt 5,3.10). [Extraído da Liturgia das Horas, Vol. IV]

Lectio Divina – Sábado da 25ª Semana do Tempo Comum

Olá, queridos irmãos e irmãs, mais um dia estamos aqui, buscando na meditação da Palavra, aprofundar nosso encontro pessoal com o Senhor a cada dia.

Pela Lectio Divina buscamos não apenas rezar com a Palavra, mas deixar que ela nos transforme completamente, até nos tornarmos, de fato, uma carta de Deus, escrita não com tinta, mas com o Espírito Santo.

Seguimos no Evangelho de São Lucas 9,43b-45:

Naquele tempo:
43bTodos estavam admirados
com todas as coisas que Jesus fazia.
Então Jesus disse a seus discípulos:
44‘Prestai bem atenção às palavras que vou dizer:
O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens.’
45Mas os discípulos não compreendiam o que Jesus dizia.
O sentido lhes ficava escondido,
de modo que não podiam entender;
e eles tinham medo de fazer perguntas sobre o assunto.

O Evangelho de hoje dá ênfase a uma parte importante do ensinamento de Jesus a seus discípulos. Ele insiste em falar da sua paixão, pois o discípulos, como todos, estavam extasiados com tudo que estavam vendo. Mas essa parte do que Jesus dizia, os discípulos teimavam em não compreender. Alguma barreira de entendimento era criada. Tinham medo até de perguntar sobre o assunto.

Nos perguntamos porque isso acontecia? Conhecemos a história. Quando Jesus é condenado e morto, os discípulos ficam atordoados e se dispersam. Até mesmo nos eventos após a ressurreição vemos que estavam ainda incrédulos. Mesmo tendo sido alertados por Jesus do que iria acontecer.

O fato é que os discípulos estavam tão maravilhados com a figura do Cristo de Deus que não queriam aceitar o Servo sofredor das profecias de Isaías, que Jesus tentava lembrar. Até os últimos momentos antes da paixão e até mesmo depois da ressurreição vemos os discípulos se referindo a Jesus como o Messias político, que reinaria sobre a nação. Por serem parte do povo de Israel, com certeza conheciam as profecias sobre o Messias que viria para salvar seu povo. Esse Messias estava ali diante deles. Não era possível imaginar qualquer humilhação que ele pudesse passar.

Pode ser até mesmo que Judas tenha entregado Jesus por ter certeza que nada o aconteceria… Já o tinha visto acalmar tempestades, andar sobre as águas, multiplicar pães, ressuscitar mortos. O que poderia lhe acontecer? Ele era o Cristo de Deus, o libertador de Israel!

Mas Jesus mostra que sua humilhação e sofrimento era parte do plano desde o início.

MEDITATIO

O Catecismo da Igreja Católica nos ensina:

Numerosos judeus, e mesmo alguns pagãos que partilhavam da sua esperança, reconheceram em Jesus os traços fundamentais do messiânico «filho de David», prometido por Deus a Israel. Jesus aceitou o título de Messias a que tinha direito, mas não sem reservas, uma vez que esse título era compreendido, por numerosos dos seus contemporâneos, segundo um conceito demasiado humano, essencialmente político.

Jesus aceitou a profissão de fé de Pedro, que O reconhecia como o Messias, anunciando a paixão próxima do Filho do Homem. Revelou o conteúdo autêntico da sua realeza messiânica, ao mesmo tempo na identidade transcendente do Filho do Homem «que desceu do céu» (Jo 3, 13) e na sua missão redentora como Servo sofredor: «O Filho do Homem […] não veio para ser servido, veio para servir e dar a vida como resgate pela multidão» (Mt 20, 28). Foi por isso que o verdadeiro sentido da sua realeza só se manifestou do cimo da cruz. (CIC, 439-440)

Quantas vezes nós também, assim como os discípulos, desenhamos o Cristo à nossa própria imagem? Aceitamos o Cristo glorioso, com seus milagres e suas curas. Aceitamos também o Cristo crucificado, com suas chagas e sua morte? Nós o reconhecemos nas dores da vida? Sempre encaramos a humilhação e sofrimento como derrota? Enxergamos o Cristo naqueles que sofrem? Consideramos o plano de Deus em tudo que nos acontece? Ou só lembramos dele nos momentos de alegria? Estamos dispostos a entender que os sofrimentos do tempo presente podem nos unir à paixão do Senhor e sua glória?

Lectio Divina – Sexta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum

Olá, meus irmãos e minhas irmãs,

Continuemos a adentrar no Evangelho de São Lucas, como nos propõe a sagrada Liturgia, hoje, no capítulo 9, vers. 18 a 22:

Aconteceu que,
18Jesus estava rezando num lugar retirado,
e os discípulos estavam com ele.
Então Jesus perguntou-lhes:
‘Quem diz o povo que eu sou?’
19Eles responderam: ‘Uns dizem que és João Batista;
outros, que és Elias; mas outros acham
que és algum dos antigos profetas que ressuscitou.’
20Mas Jesus perguntou: ‘E vós, quem dizeis que eu sou?’
Pedro respondeu: ‘O Cristo de Deus.’
21Mas Jesus proibiu-lhes severamente
que contassem isso a alguém.
22E acrescentou: ‘O Filho do Homem deve sofrer muito,
ser rejeitado pelos anciãos,
pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei,
deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia.’

No evangelho de hoje encontramos Jesus rezando com seus discípulos num lugar retirado. Por um instante imaginemos quanta graça deste momento. Estar em um retiro de oração com o próprio Senhor. Mais uma vez, vemos a Igreja em sua plenitude reunida. Desta vez não na atividade missionária, mas no deserto da oração. Mais uma vez, vemos Cristo cabeça, unido ao seu corpo. Desta vez em oração ao Pai. Ele, o sumo sacerdote, que intercede em favor de todos, dirige ao Pai louvores, preces e súplicas. Ali está a Igreja a aprender com seu Mestre o cântico de louvor, desde sempre cantado nas moradas celestes e que o Senhor, naqueles dias, introduzia neste exílio (Cf. Laudis Canticum, 1). A partir daí jamais cessaria esse cântico. Desde então a Igreja, cabeça e corpo, jamais deixaria de estar reunida em oração em favor de todos.

Notamos, mais uma vez, o contraste do conhecimento do povo com o conhecimento dos discípulos. Jesus se interessa em saber até onde os discípulos aprenderam sobre sua pessoa. Ele mesmo estimula o contraste. A multidão não conhece o Mestre intimamente. Apenas usufrui de seus dons. Mas quanto a sua pessoa, pensa ser João Batista, Elias, algum dos antigos profetas… O discípulo de seu lado sabe quem é o Mestre. A ovelha reconhece seu pastor. Reza com ele, aprende com ele, vai para a missão com ele, é revestido da autoridade dele. Sabe que Jesus é o Cristo de Deus. Ou seja, o Messias, o Ungido. Aquele que devia salvar Israel. O discípulo já sabe porque o Reino já lhe foi antecipado, mas embora dele tenha sido feito arauto, porta-estandarte, proclamador oficial, não deve contar nada a ninguém sobre a pessoa de Jesus, pois ainda não é chegado o momento de todos saberem. Imaginemos a ansiedade do discípulo, ávido para espalhar ao mundo a graça de tão profundo conhecimento.

Mas algo de difícil entendimento seria dito por Jesus naquele dia. Para os discípulos, um anticlímax: ‘O Filho do Homem deve sofrer muito,
deve ser rejeitado pelas autoridades de Israel e ser morto, mas ressuscitar no terceiro dia.’ O que o Messias, o Cristo de Deus estaria querendo dizer? Devem ter perguntado. Isso não fazia o menor sentido.

Mas, esqueçamos por enquanto o anticlímax e voltemos ao clímax.

Jesus é o Cristo de Deus!

Desejamos de coração estar com ele? Quanto do nosso tempo reservamos para estar a sós com o Senhor? Como discípulos, temos nos sentado aos pés do Senhor para aprender com ele? Sabemos quem ele é, do que é capaz, o que veio nos oferecer? Estamos unidos a ele em seu cântico de louvor perene que, como sumo-sacerdote eleva incessantemente ao Pai? Pelo batismo, tornamo-nos também ungidos, como Cristo. Em que medida vivemos esta unção celeste que nos foi concedida?

És o Cristo de Deus. Eis a verdade anunciada pelo apóstolo, vinda da profundidade da sua relação com o Mestre, pois conhecia-o pessoalmente.

Se não podemos conhecer o senhor fisicamente, como o apóstolo, foi nos dado conhecê-lo pela oração. É esse o terceiro degrau da Lectio Divina. Somente pela oração chegaremos ao conhecimento pleno do Senhor. Assim nos ensina Guigo, o cartuxo:

Vendo, pois, a alma que não pode por si mesma atingir a desejada doçura de conhecimento e da experiência, e que quanto mais se aproxima do fundo do coração (Sl 64,7), tanto mais distante é Deus (cf. Sl 64,8), ela se humilha e se refugia na oração. E diz: Senhor, que não és contemplado senão pelos corações puros, eu procuro, pela leitura e pela meditação, qual é, e como pode ser adquirida a verdadeira doçura do coração, a fim de por ela conhecer-te, ao menos um pouco.

Eu buscava, Senhor, a tua face, a tua face Senhor, eu buscava (cf. Sl 27,8); meditei muito tempo em meu coração, e na minha meditação cresceu um fogo (cf. Sl 39,4) e o desejo de te conhecer ainda mais.

Quando me repartes o pão da Sagrada Escritura, na fração do pão te tornas conhecido por mim (cf. Lc 24,35). E quanto mais te conheço, tanto mais desejo conhecer-te, não já na casca da leitura, mas no sabor da experiência.

Isto não peço, Senhor, por meus méritos, mas pela tua misericórdia.

Confesso-me indigna pecadora, mas até os cãezinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos (Mt 15,27).

Dá-me, pois, Senhor, o penhor da herança futura, uma gota ao menos da chuva celeste, para arrefecer a minha sede, pois ardo de amor (cf. Ct 2,5). (Scala Claustralium, VI)

Lectio Divina – Quinta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum

Olá, queridos irmãos e irmãs, que nos acompanham nesse caminho de crescimento espiritual através da oração da Igreja. Continuamos nossa busca por ouvir o Senhor através da meditação de sua Palavra.

Muitas passagens da Escritura podem parecer complexas ou rasas demais para ser objeto da meditação. Muitas vezes desistimos facilmente de aprofundar-nos nelas. Mas, como nos diz Guigo, o cartuxo, a meditação “não se detém no exterior, não para na superfície, apoia o pé mais profundamente, penetra no interior, perscruta cada aspecto”. (Scala Claustralium, V)

Vamos diligentemente escutar o que nos diz a passagem do Evangelho de São Lucas, 9, 7-9:

LECTIO

Naquele tempo:
7O tetrarca Herodes ouviu falar
de tudo o que estava acontecendo,
e ficou perplexo, porque alguns diziam
que João Batista tinha ressuscitado dos mortos.
8Outros diziam que Elias tinha aparecido;
outros ainda, que um dos antigos profetas tinha ressuscitado.
9Então Herodes disse: ‘Eu mandei degolar João.
Quem é esse homem, sobre quem ouço falar essas coisas?’
E procurava ver Jesus.

Primeiro, essa passagem nos traz a figura do “tetrarca” Herodes, Herodes Antipas. Ele é chamado de tetrarca porque governava a uma parte do reino que seu pai dividiu em quatro partes… Só relembrando, foi o pai do tetrarca Herodes, chamado de Herodes, o Grande, que, conforme o Evangelho de São Mateus, recebeu a visita dos Reis Magos por ocasião do nascimento de Jesus, e que mandou matar todas as crianças abaixo de dois anos.

Mais tarde, durante seu julgamento, Jesus seria levado a Herodes Antipas, que finalmente o conheceria pessoalmente.

Voltando ao trecho narrado, vemos que, àquela altura, a fama de Jesus tinha chegado aos altos escalões do poder. Herodes tinha ouvido falar de tudo que estava acontecendo. E o que estava acontecendo? Se tivermos a curiosidade de voltar algumas páginas do Evangelho de Lucas, ouviremos dizer que Jesus realizava curas milagrosas, expulsava demônios, até ressuscitava mortos, acalmava tempestades e cativava multidões com sua pregação. Por último, ficamos sabendo que até mesmo seus seguidores também realizavam curas, dominavam os demônios e proclamavam um Reino novo. Herodes estava perplexo. Ainda mais porque diziam que seria João Batista, a quem ele tinha mandado assassinar, que teria ressuscitado, ou até mesmo o grande profeta Elias ou outro dos antigos profetas que teria voltado.

O fato é que todas as pessoas nesta cena conheciam Jesus apenas vagamente. Tinham apenas impressões, baseadas em suposições, em ouvir dizer. Nem Herodes ou nenhum dos que o rodeavam desceu de onde estava para ir conferir de perto o que estava acontecendo. Isso nos remete ao Salmo 94: mesmo vendo as obras de Deus, o coração permaneceu endurecido… O tetrarca queria ver Jesus talvez por curiosidade…

MEDITATIO

Podemos perguntar, como Herodes, quem é esse homem? Qual a nossa reação diante da pessoa de Cristo e suas obras? O conhecemos de fato ou só por ouvir dizer? Desejamos ser tocados por ele ou nos satisfazemos ouvindo os relatos sobre ele? Escutamos sua pregação como se fosse hoje ou lemos como se tivessem permanecido no passado? Andamos com ele pelo deserto, pela cidade, em casa ou no trabalho? Ou apenas nos aproximamos dele em algumas ocasiões? Qual a verdadeira importância de Cristo para nós? De que modo podemos conhecê-lo pessoalmente?

No Evangelho de hoje, em que vemos pessoas tão distantes de Cristo, colocamos em contraste o texto de ontem, quando nos encontramos com os apóstolos, que não apenas conheciam Cristo na intimidade, mas participam internamente de sua missão de anunciar o Reino e curar os enfermos. Mais que isso, foram investidos interiormente com o mesmo poder e autoridade do seu Mestre.

Que possamos nos perguntar sinceramente: em qual nível de intimidade estamos com Cristo? Mais próximo de Herodes ou dos apóstolos? Achamos apenas interessantes suas obras ou participamos verdadeiramente delas? Acompanhamos de longe a missão de Cristo e sua Igreja ou buscamos cada dia mais ser capacitados com seu poder e autoridade?

Trago hoje, para finalizar, o comentário de São Gregório Magno sobre um daqueles homens que conheceram Jesus pessoalmente, na intimidade. O apóstolo Tomé, a quem atribuímos o título de incrédulo. Mas São Gregório nos ensina:

“A incredulidade de Tomé foi mais proveitosa para a nossa fé do que a fé dos discípulos que acreditaram logo. Pois, enquanto ele é reconduzido à fé porque pôde apalpar, o nosso espírito, pondo de lado toda dúvida, confirma-se na fé. Deste modo, o discípulo que duvidou e apalpou tornou-se testemunha da verdade da ressurreição.

Tomé apalpou e exclamou: Meu Senhor e meu Deus! Jesus lhe disse: Acreditaste, porque me viste? (Jo 20,28-29). Ora, como diz o apóstolo Paulo: A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se vêem (Hb 11,1). Logo, está claro que a fé é a prova daquelas realidades que não podem ser vistas. De fato, as coisas que podemos ver não são objeto de fé, e sim de conhecimento direto. Então, se Tomé viu e apalpou, por qual razão o Senhor lhe disse: Acreditaste, porque me viste? É que ele viu uma coisa e acreditou noutra. A divindade não podia ser vista por um mortal. Ele viu a humanidade de Jesus e proclamou a fé na sua divindade, exclamando: Meu Senhor e meu Deus! Por conseguinte, tendo visto, acreditou. Vendo um verdadeiro homem, proclamou que ele era Deus, a quem não podia ver.

            Alegra-nos imensamente o que vem a seguir: Bem-aventurados os que creram sem ter visto (Jo 20,29). Não resta dúvida de que esta frase se refere especialmente a nós. Pois não vimos o Senhor em sua humanidade, mas o possuímos em nosso espírito. É a nós que ela se refere, desde que as obras acompanhem nossa fé. Com efeito, quem crê verdadeiramente, realiza por suas ações a fé que professa. Mas, pelo contrário, a respeito daqueles que têm fé apenas de boca, eis o que diz São Paulo: Fazem profissão de conhecer a Deus, mas negam-no com a sua prática (Tt 1,16). É o que leva também São Tiago a afirmar:A fé, sem obras, é morta (Tg 2,26).” [Das Homilias sobre os Evangelhos, de São Gregório Magno, papa, Extraído da Liturgia das Horas, vol. III]

Que neste dias difíceis em que vivemos, não sejamos como Herodes e seus asseclas, mas como o apóstolo que fortalece a fé buscando conhecer mais intimamente o Cristo Jesus que vive e se manifesta misteriosamente no meio de nós hoje e sempre.

Lectio Divina – Quarta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum

Olá, queridos amigos, irmãos e irmãs,

Nesta quarta-feira da 25ª semana do Tempo Comum, continuamos nosso propósito de incluir a Lectio Divina no nosso itinerário diário de oração. A meditação da Palavra de Deus é parte importante desse edifício espiritual que compõe a oração da Igreja.

Não propomos uma homilia sobre o texto, mas uma descrição do cenário e propomos questionamentos para que cada um possa, pessoalmente, após a meditação da Palavra, realizar o seu próprio diálogo com de Deus pela oração.

Deixemo-nos ser transformados pelo Palavra viva  de Deus.

LECTIO

Evangelho – Lc 9,1-6

Naquele tempo:
1Jesus convocou os Doze,
deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios
e para curar doenças,
2enviou-os a proclamar o Reino de Deus
e a curar os enfermos.
3E disse-lhes: ‘Não leveis nada para o caminho:
nem cajado, nem sacola, nem pão,
nem dinheiro, nem mesmo duas túnicas.
4Em qualquer casa onde entrardes, ficai aí;
e daí é que partireis de novo.
5Todos aqueles que não vos acolherem,
ao sairdes daquela cidade,
sacudi a poeira dos vossos pés, como protesto contra eles.’
6Os discípulos partiram e percorriam os povoados,
anunciando a Boa Nova e fazendo curas em todos os lugares.

Mais uma vez dividiremos essa passagem em duas cenas: na primeira vemos a reunião convocada por Jesus para que estivessem presentes seus apóstolos. Os doze representam a Igreja. Ou seja, Cristo, cabeça, reúne-se com seu corpo. Nesta reunião vemos a Igreja em sua plenitude.

A segunda cena nos mostra os discípulos partindo conforme o mandado de Jesus, percorrendo os lugares, anunciando o Reino e curando os doentes.

A CONVOCAÇÃO DA IGREJA

Destaco três pautas tratadas nesta sublime convocação:

  1. a outorga de poder e autoridade;
  2. o envio para proclamar o Reino de Deus e curas os enfermos;
  3. as instruções sobre o modo de se comportar na missão;

Alguns aspectos são importantes notar:

A OUTORGA

Cristo concede à Igreja poder e autoridade específicos – sobre os demônios e sobre as doenças – não um poder político, temporal ou mundano, mas um poder espiritual e voltado especialmente para o bem do próximo.

Ao outorgar poder e autoridade à sua Igreja, Jesus não cita rivalidade ao Império Romano ou qualquer inimigo do povo de Israel daquele tempo, nem as religiões pagãs que os cercavam, mas cita o nominalmente os demônios, não como um mal abstrato, mas pessoas, o principal inimigo do Reino de Deus.  

Inferimos também que o poder sobre as doenças não se refere ao exercício da medicina, mas a uma autoridade espiritual. O Magistério, desde o Concílio de Trento até o novo Catecismo, reconhece nesta passagem,  presente nos três evangelhos sinóticos a graça sacramental da unção dos enfermos (Concílio de Trento, Sessão 14.ª, de 25 nov. 1551: DH 1695; Catecismo n. 1506);

O ENVIO

Jesus envia a Igreja para “proclamar o Reino Deus e curar os enfermos”. A palavra proclamar, conforme o dicionário, significa “anunciar pública e oficialmente e em voz alta” (Michaelis). Por isso destacamos que Cristo não manda seus discípulos anunciarem uma ideia, uma utopia, mas proclamar oficialmente um Reino que já estava presente desde então.

Além de proclamar o Reino de Deus, os apóstolos deveriam curar os enfermos. Santo Agostinho, no Sermão sobre os pastores, nos ensina sobre o cuidado que deve ter os pastores com os enfermos.

Vejamos que o Santo nos ensina:

Ao enfermo, diz o Senhor, não fortificastes (Ez 34,4). Diz aos maus pastores, aos pastores falsos, que buscam seu interesse, não o de Jesus Cristo. Aos que se alegram com as dádivas do leite e da lã, mas descuram totalmente as ovelhas e não cuidam das doentes. Parece-me haver diferença entre enfermo e doente – pois costuma-se chamar de enfermos os doentes; enfermo quer dizer não firme, e doente o que se sente mal.  

É de se temer sobrevenha uma tentação ao enfermo que o debilite. O doente, ao contrário, já adoeceu por alguma ambição e por esta ambição se vê impedido de entrar no caminho de Deus, de submeter-se ao jugo de Cristo.  

Observai esses homens que desejam viver bem, já decididos a viver bem. São, no entanto, menos capazes de suportar os males do que fazer o bem. Pertence à firmeza do cristão não apenas fazer o bem, mas também tolerar os males. Aqueles, pois, que parecem ardentes nas boas obras, mas não querem ou não podem suportar as provações iminentes, estes são enfermos. Por outro lado, aqueles que amam o mundo e por qualquer desejo mau se afastam até das obras boas, jazem gravemente doentes, visto que pela doença, sem forças, nada de bom podem realizar. O paralítico era um destes, na alma. Os que o carregavam, não podendo levá-lo até junto do Senhor, descobriram o teto e fizeram-no descer. É isto que terias de fazer: descobrir o teto e colocar junto do Senhor a alma paralítica, com todos os membros frouxos, e vazia de obras boas, curvada sob o peso dos pecados e doente com o mal de sua cobiça. Portanto, se todos os seus membros estão frouxos e há paralisia interior para levá-la ao médico – talvez o médico esteja escondido no teu interior: seria este um sentido oculto nas Escrituras – se queres descobrir-lhe o que está oculto, descobre o teto e faze descer diante dele o paralítico. 

A quem assim não procede e desdenha fazê-lo, ouvistes o que lhe dizem: Aos doentes não fortalecestes, ao fraturado não pensastes (Ez 34,4); já explicamos esta passagem. Estava alquebrado pelo terror das provações. Mas surge algo que restaura a fratura, estas palavras de consolo: Fiel é Deus que não permitirá serdes tentados além do que podeis suportar, mas com a tentação vos dará o meio de sair dela para que a possais suportar (1Cor 10,13). (Do Sermão sobre os pastores, de Santo Agostinho, bispo, extraído da Liturgia das Horas, Vol IV)

Vemos que Santo Agostinho fala de uma enfermidade ainda mais importante que a física: a enfermidade da alma, para a qual a Igreja foi especialmente enviada para curar.

AS INSTRUÇÕES

Antes de despedir os Apóstolos o Senhor dá a eles instruções claras sobre o modo de realizar a missão. Algumas características chamam a atenção: a pobreza, o desprendimento, a confiança na providência de Deus, a dependência do acolhimento das pessoas.  

A EXECUÇÃO DA MISSÃO

O texto do Evangelho relata que os discípulos partiram como determinado por Jesus, percorrendo os povoados, anunciando a Boa Nova do Reino que estava sendo inaugurado e fazendo curas.

O resultado da missão, a vitória sobre o demônio e sobre as enfermidades físicas e espirituais são um sinal que o reino de Deus está de fato presente, confirmando também o poder e autoridade de Cristo perante sua Igreja.

MEDITATIO

Diante da Palavra, podemos perguntar:

Em que medida temos vivido nossa a fé na Igreja como sacramento universal de salvação (CIC, n 774-776)?

Temos confiado nesse poder outorgado por Cristo à sua Igreja, indo buscar nos sacramentos a fonte de cura e salvação para nossas enfermidades?

Sentimo-nos também chamados a proclamar em todos os lugares a boa nova do Reino de Deus?

Além das palavras, quais atos da nossa vida proclamam a chegada do Reino de Deus no tempo presente?

Por onde vamos temos oferecido a cura para as enfermidades do próximo, especialmente através do amor e do perdão?

Levamos no caminho da nossa missão algum item pelo qual somos apegados e que nos pesam no cumprimento da nossa missão?

Buscamos a acolhida espontânea das pessoas quando lhe falamos do Reino de Deus. Por outro lado, sabemos acolher aqueles que nos anunciam a Palavra?

Lectio Divina – Festa de São Mateus, apóstolo e evangelista

Olá, Caríssimos amigos, irmãos e irmãs que rezam conosco a Liturgia das Horas Online, gostaria de propor um acréscimo importante para nossa oração diária que é a Lectio Divina. A Liturgia das Horas já contém o grandiosíssimo tesouro da Palavra de Deus, constante principalmente dos salmos, além das leituras e dos ensinamentos da Sagrada Tradição. Mas queremos aprofundar ainda mais a nossa oração, indo buscar na meditação aquele encontro de intimidade com o Deus Verbo.

Nossa proposta não é apresentar uma explicação do texto sagrado, pois acreditamos que o encontro com a Divina Lectio é pessoal, à semelhança da Samaritana no poço de Jacó. Queremos apenas iluminar alguns cenários, propor questionamentos, analogias, mas que cada um possa falar e ouvir o Senhor através do texto, num íntimo diálogo…

Se você acha relevante este conteúdo, pedimos que comente, curta, compartilhe suas impressões para que possamos seguir adiante…

O Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós. Que nós, pela meditação do Verbo, nos transformemos na própria Palavra viva e habitemos em Deus.

1. Lectio.

Evangelho – Mt 9,9-1

Naquele tempo:
9Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus,
sentado na coletoria de impostos,
e disse-lhe: “Segue-me!”
Ele se levantou e seguiu a Jesus.
10Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus,
vieram muitos cobradores de impostos e pecadores
e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos.
11Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos
discípulos: “Por que vosso mestre come
com os cobradores de impostos e pecadores?”
12Jesus ouviu a pergunta e respondeu:
“Aqueles que têm saúde não precisam de médico,
mas sim os doentes.
13Aprendei, pois, o que significa:
‘Quero misericórdia e não sacrifício’.
De fato, eu não vim para chamar os justos,
mas os pecadores”.

Hoje, Festa de São Mateus, o Evangelho do dia nos traz a narração do encontro de Jesus com o futuro apóstolo e evangelista. 

Essa passagem é dividida em duas cenas: 

Na primeira vemos o encontro de Jesus com Mateus, que estava exercendo seu ofício de cobrador de impostos em sua coletoria. Sabemos, por essa e outras passagens que os cobradores de impostos, também chamados de “publicanos” não eram bem vistos na sociedade judaica por cobrarem impostos abusivos em nome do império Romano. Jesus o chama “Segue-me!” O publicano, que estava sentado, levanta-se de onde estava e passa a seguir Jesus.

Caravaggio: O Chamado de Mateus

Na cena seguinte, encontramos Jesus e os discípulos à mesa, na casa de Mateus e, com eles, os amigos de Mateus, cobradores de impostos e outras pessoas de péssima reputação. Aparecem então os fariseus, que eram os “religiosos daquela época”, que parecem seguir Jesus por todo canto, não para aprender com ele, mas para tentar encontrar algo digno de censura. E parecem encontrar, pois criticam Jesus por estar se reunindo com gente de má vida.

Mas Jesus não se desculpa, ao contrário, confirma que é ali mesmo que ele deveria estar, e responde com uma metáfora:  “Aqueles que têm saúde não  precisam de médico, mas sim os doentes”, contextualiza com a profecia de Oséias (Os 6,6): “Quero misericórdia e não sacrifício” e arremata afirmando sua missão junto aos pecadores e não junto aos que se consideram justos.

2. Meditatio

Entre tantas outras  coisas podemos nos perguntar:

Com quais personagens nos identificamos nestas cenas do evangelho que nos são apresentadas hoje? 

Somos como o publicano corrupto que encontra-se com o Senhor e muda de vida? Ou somos os amigos dele que tem também a oportunidade desse encontro com Deus? Somos a voz que convida o pecador a seguir o Cristo? Ou nós somos como o discípulo que acompanhava o seu Mestre e que aprendia com sua palavra e seu exemplo? Ou, na verdade, somos um fariseu, que se julga justo e cumpridor da Lei e que considera indigno tanto o pecador quanto quem está em sua companhia?

Jesus proclama a Mateus: SEGUE-ME!: Somos, hoje, capazes de abandonar o que estamos fazendo, nossos projetos, nossos lucros, nossos sonhos para atender a um chamado específico de Jesus?

Há em nossa volta pessoas que consideramos de “má vida”?  Costumamos sentar-nos com elas ou as desprezamos?

Encerro com um belíssimo trecho extraído das Homilias de São Beda Venerável, presbítero, que está hoje no Ofício das Leituras da Festa de São Mateus:

Jesus viu um homem chamado Mateus, assentado à banca de impostos, e disse-lhe: Segue-me (Mt 9,9). Viu-o não tanto com os olhos corporais quanto com a vista da íntima compaixão. Viu o publicano, dele se compadeceu e o escolheu. Disse-lhe então: Segue-me. Segue, quis dizer, imita; segue, quis dizer, não tanto pelo andar dos pés, quanto pela realização dos atos. Pois quem diz que permanece em Cristo, deve andar como ele andou (1Jo 2,6).

E levantando-se, o seguiu (Mt 9,9). Não é de admirar que o publicano, ao primeiro chamado do Senhor, tenha abandonado os lucros terrenos de que cuidava e, desprezando a opulência, aderisse aos seguidores daquele que via não possuir riqueza alguma. Pois o próprio Senhor que o chamara exteriormente com a palavra, interiormente lhe ensinou por instinto invisível a segui-lo, infundindo em seu espírito a luz da graça espiritual. Com esta compreenderia que quem o afastava dos tesouros temporais podia dar-lhe nos céus os tesouros incorruptíveis.

E aconteceu que, estando ele em casa, muitos publicanos e pecadores vieram e puseram-se à mesa com Jesus e seus discípulos (Mt 9,10). A conversão de um publicano deu a muitos publicanos e pecadores o exemplo da penitência e do perdão. Belo e verdadeiro prenúncio! Aquele que seria apóstolo e doutor dos povos, logo no primeiro encontro arrasta após si para a salvação um grupo de pecadores. Assim inicia o ofício de evangelizar desde os primeiros começos de sua fé aquele que viria a realizar este ofício plenamente com o merecido progresso das virtudes. 

Grupo Liturgia das Horas – Oração e Partilha


CONVITE

A Liturgia das Horas, o tão sublime Ofício Divino, nos propõe um itinerário de oração sem igual, mesmo na vasta imensidão da riqueza católica, eis que nela estão consubstanciadas as palavras das Sagradas Escrituras, da Tradição viva da Igreja e dos ensinamentos do Sagrado Magistério.

Chegando até nós, mais uma vez, o tempo quaresmal, no qual nos recolhemos em oração e penitência para nos prepararmos para a grande festa da Páscoa, estamos ampliando nosso Grupo de Oração e Partilha que tem por base a Liturgia das Horas, para todos que possam se interessar.

Os objetivos gerais continuam sendo aqueles mesmos elencados na Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas, entre os quais, a consagração do tempo e a santificação do homem pelo contato assíduo com a Palavra de Deus (Cf. IGLH, 10-19).

Fundamentos:

A oração abre o dia e dá sentido ao tempo

“O louvor da manhã têm por fim consagrar a Deus os primeiros movimentos da nossa alma e do nosso espírito, de modo a nada empreendermos antes de nos alegrarmos com o pensamento de Deus, para que o corpo não se entregue ao trabalho antes de fazermos o que está escrito: ‘É a vós que eu dirijo a minha prece; de manhã já me escutais! Desde cedo eu me preparo para vós, e permaneço à vossa espera'” (São Basílio Magno).

A Deus falamos, quando rezamos, a Deus ouvimos, quando lemos os divinos oráculos (Santo Ambrósio)

A Liturgia das Horas não é simplesmente leitura de textos sagrados, mas é diálogo entre Deus e o homem (Cf. IGLH, 33). Entre tudo que lemos no Divino Ofício, há palavras que podemos nos apropriar como se fossem nossas para elevá-las a Deus, outras que não refletem nosso estado de espírito, mas as pronunciamos, como Igreja, em nome dos nossos irmãos (Cf. IGLH, 108), outras mesmo dizemos na pessoa de Cristo, sempre presente na Igreja especialmente nas ações litúrgicas (SC 7).

No mesmo texto, como em todo diálogo, às vezes falamos com Deus, outras vezes ele fala conosco. Cabe ao coração atento recolher aquilo que o Espírito está a nos falar e nos move a fazer a partir da Palavra. Esse texto recolhido na oração deve ser guardado na memória para que se torne parte do nosso dia, preenchendo a mente e o coração de uma constante lembrança de Deus (Cf. CIC 2697).

O Verbo se fez carne para que a carne se torne Verbo

Nenhuma oração faz sentido se ela não nos conduz ao aperfeiçoamento, a sermos um só com o Filho de Deus, em verdadeira justiça e santidade (Ef 4,13.24). Por isso, a semente da palavra, lançada no momento da oração, deve encontrar em nós uma terra boa, ou seja, um coração reto e bom, disposto a meditá-la e praticá-la para que produza frutos pela perseverança (Cf Lc 8, 15).

Faz-se necessário que a alma se esforce para aproveitar aquela lição divina retirada da Palavra lida e atualizada pelo Espírito na Liturgia das Horas, transformando-as oração pessoal, em atitudes, ou palavras de edificação para si mesmo e para os demais, fortalecendo a fé, animando a esperança, e efundindo o amor.

A oração da comunidade tem dignidade especial

A Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas nos lembra que a oração individual é necessária e recomendável, mas a oração da comunidade possui dignidade especial (IGLH, 9). Além disso, a comunidade a oferece grande oportunidade de crescimento e aprendizado, pela partilha das experiências e, especialmente, pela prática da caridade fraterna.

Atividades Propostas:

1.      Iniciar o dia com a oração das Laudes, que pode ser substituída, conforme necessidade pessoal pelo Ofício das Leituras ou pela Hora Terça;

2.      Encontrar entre as palavras da Oração da manhã, aquele fragmento texto que deverá ser guardado para a meditação durante o dia;

3.      Compor, a partir do texto guardado, uma oração própria, ou descrever uma ação a ser praticada por causa do mesmo texto;

4.      Rezar as Vésperas diariamente com o grupo, seja presencialmente ou remotamente através das redes sociais;

5.      Partilhar em grupo, pessoalmente ou pelas redes, as dúvidas, os fragmentos da Palavra, orações compostas, ações sugeridas etc, guardando apenas aquilo que considera que deva permanecer em sigilo.

Obs.: 

  • As Horas Canônicas citadas são as principais para os objetivos do Grupo, mas não excluem a oração das outras Horas de acordo com a disponibilidade de cada um, e também podem ser objeto de interação;
  • As atividades aqui propostas se referem exclusivamente à Liturgia das Horas e, obviamente, não exclui as demais ações que todo católico deve praticar. Pelo contrário, devem estimular ainda mais a participação na Santa Missa, a penitência, as obras de misericórdia, a confissão etc.

Alguns frutos (graças) a se buscar:

1.     O desejo pela vida sacramental, que se reflita especialmente na participação ativa no sacrifício eucarístico e na reconciliação pela confissão dos pecados;

2.      A decisão de abandonar os vícios e abraçar as virtudes;

3.      A Dependência da Palavra de Deus como motivação de vida e de oração;

4.      O amor, pelo conhecimento de Deus e de sua Igreja;

5.      A comunhão Fraterna como caminho de aperfeiçoamento.

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