Lectio Divina – Quarta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum

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Olá, queridos amigos, irmãos e irmãs,

Nesta quarta-feira da 25ª semana do Tempo Comum, continuamos nosso propósito de incluir a Lectio Divina no nosso itinerário diário de oração. A meditação da Palavra de Deus é parte importante desse edifício espiritual que compõe a oração da Igreja.

Não propomos uma homilia sobre o texto, mas uma descrição do cenário e propomos questionamentos para que cada um possa, pessoalmente, após a meditação da Palavra, realizar o seu próprio diálogo com de Deus pela oração.

Deixemo-nos ser transformados pelo Palavra viva  de Deus.

LECTIO

Evangelho – Lc 9,1-6

Naquele tempo:
1Jesus convocou os Doze,
deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios
e para curar doenças,
2enviou-os a proclamar o Reino de Deus
e a curar os enfermos.
3E disse-lhes: ‘Não leveis nada para o caminho:
nem cajado, nem sacola, nem pão,
nem dinheiro, nem mesmo duas túnicas.
4Em qualquer casa onde entrardes, ficai aí;
e daí é que partireis de novo.
5Todos aqueles que não vos acolherem,
ao sairdes daquela cidade,
sacudi a poeira dos vossos pés, como protesto contra eles.’
6Os discípulos partiram e percorriam os povoados,
anunciando a Boa Nova e fazendo curas em todos os lugares.

Mais uma vez dividiremos essa passagem em duas cenas: na primeira vemos a reunião convocada por Jesus para que estivessem presentes seus apóstolos. Os doze representam a Igreja. Ou seja, Cristo, cabeça, reúne-se com seu corpo. Nesta reunião vemos a Igreja em sua plenitude.

A segunda cena nos mostra os discípulos partindo conforme o mandado de Jesus, percorrendo os lugares, anunciando o Reino e curando os doentes.

A CONVOCAÇÃO DA IGREJA

Destaco três pautas tratadas nesta sublime convocação:

  1. a outorga de poder e autoridade;
  2. o envio para proclamar o Reino de Deus e curas os enfermos;
  3. as instruções sobre o modo de se comportar na missão;

Alguns aspectos são importantes notar:

A OUTORGA

Cristo concede à Igreja poder e autoridade específicos – sobre os demônios e sobre as doenças – não um poder político, temporal ou mundano, mas um poder espiritual e voltado especialmente para o bem do próximo.

Ao outorgar poder e autoridade à sua Igreja, Jesus não cita rivalidade ao Império Romano ou qualquer inimigo do povo de Israel daquele tempo, nem as religiões pagãs que os cercavam, mas cita o nominalmente os demônios, não como um mal abstrato, mas pessoas, o principal inimigo do Reino de Deus.  

Inferimos também que o poder sobre as doenças não se refere ao exercício da medicina, mas a uma autoridade espiritual. O Magistério, desde o Concílio de Trento até o novo Catecismo, reconhece nesta passagem,  presente nos três evangelhos sinóticos a graça sacramental da unção dos enfermos (Concílio de Trento, Sessão 14.ª, de 25 nov. 1551: DH 1695; Catecismo n. 1506);

O ENVIO

Jesus envia a Igreja para “proclamar o Reino Deus e curar os enfermos”. A palavra proclamar, conforme o dicionário, significa “anunciar pública e oficialmente e em voz alta” (Michaelis). Por isso destacamos que Cristo não manda seus discípulos anunciarem uma ideia, uma utopia, mas proclamar oficialmente um Reino que já estava presente desde então.

Além de proclamar o Reino de Deus, os apóstolos deveriam curar os enfermos. Santo Agostinho, no Sermão sobre os pastores, nos ensina sobre o cuidado que deve ter os pastores com os enfermos.

Vejamos que o Santo nos ensina:

Ao enfermo, diz o Senhor, não fortificastes (Ez 34,4). Diz aos maus pastores, aos pastores falsos, que buscam seu interesse, não o de Jesus Cristo. Aos que se alegram com as dádivas do leite e da lã, mas descuram totalmente as ovelhas e não cuidam das doentes. Parece-me haver diferença entre enfermo e doente – pois costuma-se chamar de enfermos os doentes; enfermo quer dizer não firme, e doente o que se sente mal.  

É de se temer sobrevenha uma tentação ao enfermo que o debilite. O doente, ao contrário, já adoeceu por alguma ambição e por esta ambição se vê impedido de entrar no caminho de Deus, de submeter-se ao jugo de Cristo.  

Observai esses homens que desejam viver bem, já decididos a viver bem. São, no entanto, menos capazes de suportar os males do que fazer o bem. Pertence à firmeza do cristão não apenas fazer o bem, mas também tolerar os males. Aqueles, pois, que parecem ardentes nas boas obras, mas não querem ou não podem suportar as provações iminentes, estes são enfermos. Por outro lado, aqueles que amam o mundo e por qualquer desejo mau se afastam até das obras boas, jazem gravemente doentes, visto que pela doença, sem forças, nada de bom podem realizar. O paralítico era um destes, na alma. Os que o carregavam, não podendo levá-lo até junto do Senhor, descobriram o teto e fizeram-no descer. É isto que terias de fazer: descobrir o teto e colocar junto do Senhor a alma paralítica, com todos os membros frouxos, e vazia de obras boas, curvada sob o peso dos pecados e doente com o mal de sua cobiça. Portanto, se todos os seus membros estão frouxos e há paralisia interior para levá-la ao médico – talvez o médico esteja escondido no teu interior: seria este um sentido oculto nas Escrituras – se queres descobrir-lhe o que está oculto, descobre o teto e faze descer diante dele o paralítico. 

A quem assim não procede e desdenha fazê-lo, ouvistes o que lhe dizem: Aos doentes não fortalecestes, ao fraturado não pensastes (Ez 34,4); já explicamos esta passagem. Estava alquebrado pelo terror das provações. Mas surge algo que restaura a fratura, estas palavras de consolo: Fiel é Deus que não permitirá serdes tentados além do que podeis suportar, mas com a tentação vos dará o meio de sair dela para que a possais suportar (1Cor 10,13). (Do Sermão sobre os pastores, de Santo Agostinho, bispo, extraído da Liturgia das Horas, Vol IV)

Vemos que Santo Agostinho fala de uma enfermidade ainda mais importante que a física: a enfermidade da alma, para a qual a Igreja foi especialmente enviada para curar.

AS INSTRUÇÕES

Antes de despedir os Apóstolos o Senhor dá a eles instruções claras sobre o modo de realizar a missão. Algumas características chamam a atenção: a pobreza, o desprendimento, a confiança na providência de Deus, a dependência do acolhimento das pessoas.  

A EXECUÇÃO DA MISSÃO

O texto do Evangelho relata que os discípulos partiram como determinado por Jesus, percorrendo os povoados, anunciando a Boa Nova do Reino que estava sendo inaugurado e fazendo curas.

O resultado da missão, a vitória sobre o demônio e sobre as enfermidades físicas e espirituais são um sinal que o reino de Deus está de fato presente, confirmando também o poder e autoridade de Cristo perante sua Igreja.

MEDITATIO

Diante da Palavra, podemos perguntar:

Em que medida temos vivido nossa a fé na Igreja como sacramento universal de salvação (CIC, n 774-776)?

Temos confiado nesse poder outorgado por Cristo à sua Igreja, indo buscar nos sacramentos a fonte de cura e salvação para nossas enfermidades?

Sentimo-nos também chamados a proclamar em todos os lugares a boa nova do Reino de Deus?

Além das palavras, quais atos da nossa vida proclamam a chegada do Reino de Deus no tempo presente?

Por onde vamos temos oferecido a cura para as enfermidades do próximo, especialmente através do amor e do perdão?

Levamos no caminho da nossa missão algum item pelo qual somos apegados e que nos pesam no cumprimento da nossa missão?

Buscamos a acolhida espontânea das pessoas quando lhe falamos do Reino de Deus. Por outro lado, sabemos acolher aqueles que nos anunciam a Palavra?

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Helber Clayton é leigo católico, servidor público, escritor, casado, formado em Letras, com licenciatura em Língua Portuguesa, Língua Inglesa e respectivas literaturas, Especialista em Língua Latina e Filologia Românica.
Mora em Teixeira de Freitas na Bahia

Comments

  1. Wandeir Duques Moreira disse:

    Muito bom. Nos ajuda muito a refletir o evangelho do dia.

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