Lectio Divina – Quinta-feira da 25ª Semana do Tempo Comum

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Olá, queridos irmãos e irmãs, que nos acompanham nesse caminho de crescimento espiritual através da oração da Igreja. Continuamos nossa busca por ouvir o Senhor através da meditação de sua Palavra.

Muitas passagens da Escritura podem parecer complexas ou rasas demais para ser objeto da meditação. Muitas vezes desistimos facilmente de aprofundar-nos nelas. Mas, como nos diz Guigo, o cartuxo, a meditação “não se detém no exterior, não para na superfície, apoia o pé mais profundamente, penetra no interior, perscruta cada aspecto”. (Scala Claustralium, V)

Vamos diligentemente escutar o que nos diz a passagem do Evangelho de São Lucas, 9, 7-9:

LECTIO

Naquele tempo:
7O tetrarca Herodes ouviu falar
de tudo o que estava acontecendo,
e ficou perplexo, porque alguns diziam
que João Batista tinha ressuscitado dos mortos.
8Outros diziam que Elias tinha aparecido;
outros ainda, que um dos antigos profetas tinha ressuscitado.
9Então Herodes disse: ‘Eu mandei degolar João.
Quem é esse homem, sobre quem ouço falar essas coisas?’
E procurava ver Jesus.

Primeiro, essa passagem nos traz a figura do “tetrarca” Herodes, Herodes Antipas. Ele é chamado de tetrarca porque governava a uma parte do reino que seu pai dividiu em quatro partes… Só relembrando, foi o pai do tetrarca Herodes, chamado de Herodes, o Grande, que, conforme o Evangelho de São Mateus, recebeu a visita dos Reis Magos por ocasião do nascimento de Jesus, e que mandou matar todas as crianças abaixo de dois anos.

Mais tarde, durante seu julgamento, Jesus seria levado a Herodes Antipas, que finalmente o conheceria pessoalmente.

Voltando ao trecho narrado, vemos que, àquela altura, a fama de Jesus tinha chegado aos altos escalões do poder. Herodes tinha ouvido falar de tudo que estava acontecendo. E o que estava acontecendo? Se tivermos a curiosidade de voltar algumas páginas do Evangelho de Lucas, ouviremos dizer que Jesus realizava curas milagrosas, expulsava demônios, até ressuscitava mortos, acalmava tempestades e cativava multidões com sua pregação. Por último, ficamos sabendo que até mesmo seus seguidores também realizavam curas, dominavam os demônios e proclamavam um Reino novo. Herodes estava perplexo. Ainda mais porque diziam que seria João Batista, a quem ele tinha mandado assassinar, que teria ressuscitado, ou até mesmo o grande profeta Elias ou outro dos antigos profetas que teria voltado.

O fato é que todas as pessoas nesta cena conheciam Jesus apenas vagamente. Tinham apenas impressões, baseadas em suposições, em ouvir dizer. Nem Herodes ou nenhum dos que o rodeavam desceu de onde estava para ir conferir de perto o que estava acontecendo. Isso nos remete ao Salmo 94: mesmo vendo as obras de Deus, o coração permaneceu endurecido… O tetrarca queria ver Jesus talvez por curiosidade…

MEDITATIO

Podemos perguntar, como Herodes, quem é esse homem? Qual a nossa reação diante da pessoa de Cristo e suas obras? O conhecemos de fato ou só por ouvir dizer? Desejamos ser tocados por ele ou nos satisfazemos ouvindo os relatos sobre ele? Escutamos sua pregação como se fosse hoje ou lemos como se tivessem permanecido no passado? Andamos com ele pelo deserto, pela cidade, em casa ou no trabalho? Ou apenas nos aproximamos dele em algumas ocasiões? Qual a verdadeira importância de Cristo para nós? De que modo podemos conhecê-lo pessoalmente?

No Evangelho de hoje, em que vemos pessoas tão distantes de Cristo, colocamos em contraste o texto de ontem, quando nos encontramos com os apóstolos, que não apenas conheciam Cristo na intimidade, mas participam internamente de sua missão de anunciar o Reino e curar os enfermos. Mais que isso, foram investidos interiormente com o mesmo poder e autoridade do seu Mestre.

Que possamos nos perguntar sinceramente: em qual nível de intimidade estamos com Cristo? Mais próximo de Herodes ou dos apóstolos? Achamos apenas interessantes suas obras ou participamos verdadeiramente delas? Acompanhamos de longe a missão de Cristo e sua Igreja ou buscamos cada dia mais ser capacitados com seu poder e autoridade?

Trago hoje, para finalizar, o comentário de São Gregório Magno sobre um daqueles homens que conheceram Jesus pessoalmente, na intimidade. O apóstolo Tomé, a quem atribuímos o título de incrédulo. Mas São Gregório nos ensina:

“A incredulidade de Tomé foi mais proveitosa para a nossa fé do que a fé dos discípulos que acreditaram logo. Pois, enquanto ele é reconduzido à fé porque pôde apalpar, o nosso espírito, pondo de lado toda dúvida, confirma-se na fé. Deste modo, o discípulo que duvidou e apalpou tornou-se testemunha da verdade da ressurreição.

Tomé apalpou e exclamou: Meu Senhor e meu Deus! Jesus lhe disse: Acreditaste, porque me viste? (Jo 20,28-29). Ora, como diz o apóstolo Paulo: A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se vêem (Hb 11,1). Logo, está claro que a fé é a prova daquelas realidades que não podem ser vistas. De fato, as coisas que podemos ver não são objeto de fé, e sim de conhecimento direto. Então, se Tomé viu e apalpou, por qual razão o Senhor lhe disse: Acreditaste, porque me viste? É que ele viu uma coisa e acreditou noutra. A divindade não podia ser vista por um mortal. Ele viu a humanidade de Jesus e proclamou a fé na sua divindade, exclamando: Meu Senhor e meu Deus! Por conseguinte, tendo visto, acreditou. Vendo um verdadeiro homem, proclamou que ele era Deus, a quem não podia ver.

            Alegra-nos imensamente o que vem a seguir: Bem-aventurados os que creram sem ter visto (Jo 20,29). Não resta dúvida de que esta frase se refere especialmente a nós. Pois não vimos o Senhor em sua humanidade, mas o possuímos em nosso espírito. É a nós que ela se refere, desde que as obras acompanhem nossa fé. Com efeito, quem crê verdadeiramente, realiza por suas ações a fé que professa. Mas, pelo contrário, a respeito daqueles que têm fé apenas de boca, eis o que diz São Paulo: Fazem profissão de conhecer a Deus, mas negam-no com a sua prática (Tt 1,16). É o que leva também São Tiago a afirmar:A fé, sem obras, é morta (Tg 2,26).” [Das Homilias sobre os Evangelhos, de São Gregório Magno, papa, Extraído da Liturgia das Horas, vol. III]

Que neste dias difíceis em que vivemos, não sejamos como Herodes e seus asseclas, mas como o apóstolo que fortalece a fé buscando conhecer mais intimamente o Cristo Jesus que vive e se manifesta misteriosamente no meio de nós hoje e sempre.

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Helber Clayton é leigo católico, servidor público, escritor, casado, formado em Letras, com licenciatura em Língua Portuguesa, Língua Inglesa e respectivas literaturas, Especialista em Língua Latina e Filologia Românica.
Mora em Teixeira de Freitas na Bahia

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