Comentário ao Salmo 2 – Santo Agostinho

1 1.2“Por que as nações se agitaram e os povos tramaram em vão? Os reis da terra se sublevaram e os príncipes unidos conspiraram contra o Senhor e o seu Cristo”. “Por que” em vez de “em vão”. Pois, eles não conseguiram realizar o intento de pôr termo à vida de Cristo. Trata-se dos perseguidores do Senhor, citados também nos Atos dos Apóstolos (At 4,26).

2 3“Quebremos suas cadeias e sacudamos o seu jugo”. Embora possa ter outro sentido, aplica-se melhor às pessoas das quais se disse que tramaram em vão. “Quebremos suas cadeias e sacudamos o seu jugo”. Cuidemos de que a religião cristã não nos prenda nem nos seja imposta.

3 4“Rir-se-á deles o que habita nos céus. Deles zombará o Senhor”. É repetição. Ao invés de dizer “o que habita nos céus”, da segunda vez encontra-se “o Senhor”. Em lugar de “rir-se-á” temos “zombará”. Não se tomem carnalmente essas expressões, como se Deus se risse, ou zombasse, torcendo a boca ou o nariz. Mas, hão de ser entendidas no sentido da força concedida por Deus a seus santos. Estes, olhando o futuro, isto é, o nome de Cristo e o seu domínio estendido aos vindouros e alcançando todas as gentes, compreendam que aqueles tramaram em vão. Tal capacidade de previsão constitui a irrisão e zombaria da parte de Deus. “Rir-se-á deles o que habita nos céus”. Se os céus são as almas santas, por meio delas, Deus, que conhece o futuro, rir-se-á e zombará deles.

4 5“Então há de ameaçá-los em sua ira, aterrorizá-los em seu furor”. Mostrando mais claramente como lhes falará, declarou: “Aterrorizá-los-á”, de modo que “sua ira” seja idêntica a “seu furor”. Ira e furor do Senhor não são perturbação da mente e sim força vindicativa, inteiramente justa, pois serve-o submissa toda a criação. Principalmente se considere e mantenha o que consta nos escritos de Salomão: “Senhor poderoso, julgas com tranquilidade, e tudo dispões com grande indulgência” (Sb 12,18). A ira de Deus, portanto, é a comoção da alma, conhecedora da lei de Deus, ao ver o pecador transgredir a mesma lei. Grande é a reivindicação desta comoção das almas justas. Ainda é possível entender a ira de Deus como o próprio obscurecimento da mente dos transgressores da lei de Deus.

5 6“Eu, porém, fui por ele constituído rei em Sião, sua montanha santa, para pregar o mandamento do Senhor”. Trata-se, evidentemente, da pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo. Se conforme a opinião de alguns a palavra Sião significa contemplação, a nada mais devemos aplicá-la do que à Igreja, onde cotidianamente a atenção do espírito se eleva à contemplação da glória de Deus, segundo diz o Apóstolo: “E nós todos que, com a face descoberta, contemplamos a glória do Senhor (2Cor 3,18). O sentido é, portanto, o seguinte: Eu, porém, fui por ele constituído rei de sua santa Igreja, denominada monte, devido à elevação e à firmeza. “Fui por ele constituído rei”, eu cujas cadeias eles pretendiam quebrar e cujo jugo queriam sacudir. “Para pregar o mandamento do Senhor”. Quem não o percebe, se isto continuamente acontece?

6 7“Disse-me o Senhor: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei”. Embora pareça a profecia referir-se ao dia do nascimento de Jesus, enquanto homem, no entanto, têm sentido divino as palavras: Eu hoje te gerei, pois “hoje” significa o presente e na eternidade não há passado, como se algo ainda não existisse, mas apenas no presente, porque aquilo que é eterno existe sempre. Por isso, a autêntica fé católica prega a geração eterna do poder e da sabedoria de Deus, que é o Filho unigênito.

7 8“Pede-me e dar-te-ei as nações por herança”. Isto já no tempo lhe acontece, enquanto homem, que se ofereceu em sacrifício, como substituição de todos os sacrifícios, e que também intercede por nós (Rm 8,34). Assim a palavra pede-me refere-se a toda a economia temporal, realizada em prol do gênero humano, a saber, que as nações se unam sob o nome de cristãs e por conseguinte sejam redimidas da morte e possuídas por Deus. “Dar-te-ei as nações por herança”, e possuí-las-ás para a salvação delas e colherás frutos espirituais. “E como propriedade os confins da terra”. Repete-se. Confins da terra em vez de nações: mas, com maior clareza, para entendermos todas as nações. A propriedade, porém, chama-se acima herança.

8 9.10“Hás de governá-las com cetro de ferro”, com justiça inflexível. “E esmigalhá-las qual vaso de argila”, isto é, esmagarás as ambições terrenas, as preocupações lamacentas do velho homem, tudo o que do limo do pecado foi contraído e implantado. “Agora, ó reis, entendei”. Agora, quer dizer, já renovados, já estraçalhados os revestimentos de barro, isto é, os recipientes carnais do erro, pertencentes à vida passada. Agora entendei. Já sois reis, capazes de reger tudo o que em vós existe de servil e animal, e aptos para a luta, mas não como quem fere o ar, e sim tratando duramente os vossos corpos e reduzindo-os à servidão (1Cor 9,26.27). “Instruí-vos, ó juízes da terra”. Nova repetição: “Instruí-vos” em lugar de “entendei”; “ó juízes da terra” em vez de “ó reis”. A expressão juízes da terra significa os espirituais. Julgamos o inferior a nós e tudo o que está abaixo do homem espiritual denominase, com razão, terra, porque atingido pela nódoa terrena.

9 11“Servi ao Senhor com temor”, a fim de não se transformar em soberba a interpelação: reis, juízes da terra. “E exultai diante dele com temor”. É ótimo o acréscimo: exultai, para não parecer equivalente a infelicidade a frase: “Servi ao Senhor com temor”. De outro lado, evitando uma efusão temerária, acrescentou o salmista, “com temor”, como precaução e guarda circunspecta da santificação. É ainda possível o sentido seguinte: “Agora, ó reis, entendei”, a saber, agora que fui constituído rei, não vos entristeçais, ó reis da terra, como se vos tivesse sido arrebatado um bem próprio. Ao contrário, entendei e instruí-vos. Ser-vos-á proveitosa a sujeição àquele que vos dá entendimento e instrução. Não vos convém dominar temerariamente; mas servi ao Senhor de todos com temor, e exultai por causa da bemaventurança segura e genuína, precavidos e bem avisados, para de lá não cairdes pela soberba.

 10 12“Abraçai a disciplina, para não se irritar o Senhor e não perecerdes no caminho da justiça”. É o mesmo que acima: “entendei e instruí-vos”. Entender e ser instruído é igual a abraçar a disciplina. No entanto, a locução “abraçai” bem indica certo refúgio e defesa contra tudo o que poderia causar dano, se não se abraçasse com grande cuidado. “Para não se irritar o Senhor” foi dito condicionalmente; não quanto à visão do profeta, que é segura, mas relativamente àqueles que são admoestados; pois se costuma duvidar da ira de Deus quando não claramente revelada. Deviam eles dizer a si mesmos: Abracemos a disciplina para não se irritar o Senhor e não perecermos no caminho da justiça. Acima foi exposto como tomar a expressão: “Não se irritar o Senhor. E não perecerdes no caminho da justiça”. Eis o grande castigo, temido por aqueles que prelibaram a doçura da justiça. Quem se desvia do caminho da justiça, há de vagar na maior miséria pelas sendas da iniquidade.

11 13“Quando em breve se inflamar a sua cólera, felizes todos os que nele confiam”, isto é, quando vier o castigo preparado para os ímpios e pecadores, não atingirá os que confiam no Senhor e ainda lhes será de grande utilidade, instruindo-os e exaltando-os em vista do reino. Não afirmou: “Quando em breve se inflamar a sua cólera, estarão em segurança todos os que nele confiam”, como se dissesse apenas que não serão punidos, mas denominou-os felizes. Representa isso o resumo e o cúmulo de todos os bens. A meu ver, em breve, significa algo de repentino, que advirá enquanto os pecadores estiverem pensando que será remoto e em futuro longínquo.

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.