Comentário de Santo Agostinho ao Salmo 28

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1 1.2“Salmo de Davi, para a conclusão do tabernáculo”. O salmo dirige-se ao mediador de mão forte, a respeito da perfeição da Igreja neste mundo, onde ela milita no tempo, contra o diabo.

2 Fala o profeta: “Trazei ao Senhor, filhos de Deus, trazei cordeirinhos ao Senhor”. Trazei ao Senhor a vós mesmos. Os apóstolos, pastores do rebanho, por meio do evangelho, vos geraram. “Rendei ao Senhor glória e honra”. Por vossas obras seja o Senhor honrado e glorificado. “Dai ao Senhor a glória devida ao seu nome”. Este se torne conhecido gloriosamente por toda a terra. “Adorai ao Senhor no átrio de seu santuário”. Adorai ao Senhor em vosso coração, grande e santificado. Sois sua santa e régia habitação.

3 3“A voz do Senhor ressoou sobre as águas”. A voz de Cristo prevalece sobre os povos. “O Deus de majestade trovejou”. O Deus de majestade, de uma nuvem, sua carne, pregou de modo terrível a penitência. “Voz do Senhor acima de muitas águas”. O mesmo Senhor Jesus, após ter emitido a voz acima dos povos, e os ter atemorizado, converteu-os para si e habitou neles.

4 4“Voz do Senhor majestosa”. Voz do Senhor atuante neles e fazendo-os poderosos. “Voz do Senhor majestosa”. Voz do Senhor que neles faz grandes coisas.

5 5“Voz do Senhor que despedaça os cedros”. Voz do Senhor que humilha os soberbos, pela contrição do coração. “Quebra os cedros do Líbano”. Pela penitência o Senhor quebra os orgulhosos por causa do brilho da nobreza terrena, quando para confundi-los escolheu o que é vil neste mundo, para nele mostrar a sua divindade.

6 6“E os despedaçará como a um vitelo do Líbano”. Cortada sua soberba elevação, há de derrubá-los, para que imitem a humildade do Senhor, que como um vitelo foi levado como vítima ao sacrifício pelos nobres deste século. “Os reis da terra se sublevaram e os príncipes unidos conspiraram contra o Senhor e o seu Cristo (Sl 2,2). E o amado como a um novilho de búfalo”. Pois, o bem-amado e unigênito do Pai despojou-se de sua nobreza; e fez-se homem, como filho de judeus, que ignoravam a justiça de Deus (Rm 10,3) e se gabavam orgulhosamente de uma peculiar justiça sua.

7 7“Voz do Senhor a retalhar flamas de fogo”. A voz do Senhor, que atravessava sem lesão alguma o calor agitado dos perseguidores, ou que dividia a furiosa raiva de seus perseguidores, de sorte que diziam alguns: Acaso seria o Cristo? Outros, porém declaravam: “Não. Ele engana o povo” (Jo 7,12). De tal modo traçava uma linha divisória em seu insano tumulto que atraía uns a seu amor, e a outros abandonava em sua malícia.

8 8“Voz do Senhor a sacudir o deserto”. Voz do Senhor que impelia à fé povos outrora “sem esperança e sem Deus no mundo” (Ef 2,12). Entre eles não havia profeta, nem pregador da palavra de Deus, como se ali fosse inabitada região. “E o Senhor fará tremer o deserto de Cades”. E então o Senhor fará celebrar-se a palavra santa de suas Escrituras, menosprezadas pelos judeus que a não entendiam.

9 9“A voz do Senhor prepara os cervos”. A voz do Senhor, primeiro, prepara os que superam e repelem as línguas envenenadas. “E desnudará as selvas”. E então revelar-lhes-á as obscuridades dos livros divinos e as sombras dos mistérios, onde com liberdade apascentarse-ão. “Mas em seu templo todos clamarão: Glória”. Em sua Igreja todos os regenerados para a esperança eterna louvam a Deus, pelos próprios dons, recebidos do Espírito Santo.

10 10“O Senhor habita no dilúvio”. Em primeiro lugar, o Senhor habita no dilúvio deste mundo em seus santos, como em uma arca, a saber, recolhidos na Igreja. “E o Senhor se assentará como rei eternamente”. E em seguida se assentará, reinando eternamente sobre eles.

11 11“O Senhor dará força a seu povo”. O Senhor dará força a seu povo em luta nas procelas e turbilhões deste mundo, porque não lhes prometeu a paz neste mundo. “O Senhor concede a seu povo a bênção da paz. O Senhor abençoará seu povo, dando-lhes a paz em si mesmo, porque, conforme ele disse: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou” (Jo 14,27).

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

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