Comentário de Santo Agostinho ao Salmo 38

SERMÃO Pregado em Cartago, junto da mesa de S. Cipriano, na quarta-feira.

1 1O título do salmo, que acabamos de cantar, e empreendemos comentar, é o seguinte: “Para o fim, a Iditun, cântico de Davi”. Aguardamos, ouvimos as palavras de alguém, chamado Iditun. Se cada um de nós pode ser Iditun, encontre-se a si mesmo, e ouça a si mesmo neste canto. Verificarás quem se chamava Iditun, entre os homens da antiguidade; nós, porém, ouçamos o sentido deste nome, e na interpretação do nome busquemos entender a realidade. Pudemos encontrar em nossa pesquisa entre os nomes, traduzidos para nós do hebraico para o latim por estudiosos das divinas Letras, que Iditun significa: Aquele que atravessa por eles 2 . Quem, então, é este que atravessa? Em meio de quem? Pois, não se encontra apenas: Aquele que atravessa, mas: por eles atravessa. Ao atravessar canta, ou é ao cantar que atravessa? Quer cante ao atravessar, ou atravesse ao cantar, acabamos de cantar o cântico de alguém que atravessa. Que veja Deus, para quem cantamos, se também nós atravessamos. Mas, se alguém cantar atravessando, alegre-se por ser o que cantou. Se alguém cantou ainda apegado à terra, anele por tornar-se aquilo que cantou. No meio deles atravessou quem é denominado: Aquele que atravessa; no meio deles, apegados ao chão, curvados para a terra, cogitando das coisas de baixo, colocando sua esperança nas coisas transitórias. A quem ele ultrapassou, senão aos que permaneceram no mesmo lugar?

2 Sabeis que alguns salmos têm a inscrição: Cânticos graduais. No grego é bem evidente o significado de anabathmon. Anabathmi são degraus, mas enquanto ascendentes, não descendentes. No vernáculo, como não temos palavra peculiar, disse o salmista a palavra usada geral, e falando de degraus, ficou ambíguo se eram para subir ou descer. Mas porque não são palavras, nem discursos, sons imperceptíveis (cf Sl 18,4), uma língua expõe o que diz a outra; e torna-se claro em uma o que era ambíguo na outra. Como ali, então, alguém que sobe canta, também aqui canta quem atravessa. Esta ascensão, porém, e esta passagem, não se faz por meio dos pés, das escadas, das asas; e, no entanto, se considerares o homem interior, faz-se tanto por pés, quanto por escadas e por asas. Pois, se não é por pés, como é que o homem interior pede: “Não me pisoteie a soberba” (Sl 35,12)? Se não por escadas, como foi que Jacó viu uma escada, por onde subiam e desciam os anjos (cf Gn 28,12)? Se não tem asas, quem é que reza: “Quem me dará asas como as da pomba, para voar e repousar”? (Sl 54,7)? Mas, entre as coisas materiais, os pés são uma coisa, outra as escadas, outra as asas. Interiormente, contudo, pés, escadas e asas são os afetos da boa vontade. Por meio destes, então, andemos, subamos, voemos. Ao ouvir alguém falar aqui daquele que atravessa, e opta por imitá-lo, não procure saltar fossas pela leveza do corpo, ou passar voando sobre algum obstáculo um tanto alto. Estou me referindo aos corpos; pois este alguém também deve saltar fossas. “Abrasados pelo fogo, destruídos. Perecerão ante a ameaça de tua face” (Sl 79,17). Quais são estes, “abrasados pelo fogo, destruídos, e que perecerão ante a ameaça” do Senhor, senão os pecados? Foram abrasados pelo fogo, por ação da concupiscência que inflama para o mal; e foram destruídos, por ação da timidez, inativa em mau sentido. Daí se originam todos os pecados, a saber, do desejo ou do temor. Ultrapasse tudo isso, portanto, aquele que essas coisas podem prender na terra; erga suas escadas, crie asas. Veja se alguém se reconhece nesta descrição; ou antes, pela graça do Senhor muitos se reconhecem, talvez já tendo por nada o mundo e tudo o que deleita no mundo. Escolhem a retidão na vida, que passam aqui entre alegrias espirituais. E estas donde provêm àqueles que ainda andam pela terra, senão da palavra divina, do verbo de Deus, de alguma parábola das Escrituras pesquisada e investigada, da suavidade da descoberta, precedida pelo trabalho da busca? Existem santas e boas delícias nos livros. Elas não estão no ouro e na prata, em banquetes e no luxo, na caça e na pesca, nos jogos e divertimentos, nas frivolidades do teatro, na procura e na recepção de honras ruinosas. Não há verdadeiras alegrias nisso tudo, ao passo que, nos livros, nenhuma. Ao invés, aquela alma que ultrapassou as coisas inferiores, declara ter-se deleitado nos livros e por isso diz com verdade e segurança: “Os injustos me falaram de deleites, mas não como em tua lei, Senhor” (Sl 118,83). Venha ainda este Iditun, atravesse por aqueles que se deleitam nas coisas inferiores; e se deleite nessas outras delícias, alegre-se com a palavra do Senhor, no deleite da lei do Altíssimo. Mas o que dizemos? Daqui ainda há de se passar a outra coisa? Ou aqui tem para onde atravessar aquele que o deseja fazer? Ouçamos antes a sua voz. Parece-me que já este habitava no meio das palavras de Deus, e lá aprendeu o que vamos ouvir. 2 Jerônimo. Nom. hebr., pg. 48,22.

3 2Eu disse: “Velarei sobre minha conduta, a fim de não pecar por minha língua”. Imaginar um homem que atue no meio de outros homens, e que ao ler, explicar, pregar, admoestar, censurar, persuadir, ocupado no trabalho e no seu ofício entre certas dificuldades humanas, embora já atravesse entre aqueles que não se deleitam nessas coisas (e como é difícil que alguém não deslise e peque, pois está escrito: “Aquele que não peca no falar é realmente um homem perfeito” [Tg 3,2]), tenha dito algo de que se arrepender, e saído de sua boca o que gostaria de anular, e não pode. Não é inultimente que a língua é úmida; por isso facilmente escorrega. Vendo, portanto, quanto é difícil, uma vez que o homem necessita falar, que não profira algumas palavras que preferia não ter dito, aborrecido por causa destes pecados, procura evitá-los. Sofre desta dificuldade, ao atravessar. Não me julgue quem ainda não atravessou; passe, e experimentará aquilo de que falo; então será testemunha e filho da verdade. Por conseguinte, como lhe aconteceu tal coisa, decidira não falar, para não proferir algo de que se arrepender. É isto que indicam suas primeiras palavras: “Disse: Velarei sobre minha conduta, a fim de não pecar por minha língua”. Guarda, pois, teus caminhos, ó Iditun, e não peques pela língua; pondera o que hás de dizer, examina, consulta interiormente a verdade, e assim fala ao ouvinte de fora. Procuras agir assim muitas vezes no meio de perturbações, como espírito preocupado, enquanto a alma fraca, que carrega o peso do corpo curruptível, quer ouvir e falar. Ouvir interiormente, falar exteriormente. Por vezes, perturbada pelo esforço de se expressar, falha por falta de reflexão; então, fala alguma coisa que não deveria dizer. Contra esse mal, o melhor remédio é o silêncio. Acha-se, então, presente um pecador, com peculiar conotação: orgulhoso e invejoso. Ouve aquele que atravessa a falar, capta as palavras, arma ciladas. É difícil que não se encontre algo que tenha sido proferido como não se devia. Mas, ele, ao ouvir, não perdoa, e por inveja calunia. Contra esses tais, Iditun, ao atravessar, decidira calar; por conseguinte cantou: “Eu disse: Velarei sobre minha conduta, a fim de não pecar por minha língua”. Enquanto sou presa de caluniadores, ou quero captar, embora não seja apanhado, “velarei sobre minha conduta, a fim de não pecar por minha língua”. Apesar de ter ultrapassado os prazeres terrenos, embora não me prendam os afetos passageiros dos bens temporais, embora já despreze as coisas ínfimas e me eleve às melhores (e entre as melhores, basta-me o deleite da inteligência diante de Deus), que necessidade tenho de falar para captar os ouvintes, e dar acesso aos caluniadores? “Eu disse: Velarei sobre minha conduta, a fim de não pecar por minha língua. Pus guarda a minha língua”. Por que razão? Por causa dos piedosos, dos aplicados, dos fiéis, dos santos? De forma nenhuma. Que ouçam, para que elogiem o que aprovarem; quanto ao que reprovam, no meio talvez de muitas coisas que aprovam, desculpem mais do que censurem. Por causa de quem, então, queres vigiar sobre tua conduta, a fim de não pecar com a língua, e pões guarda a tua boca? Escuta: “Quando o pecador tomou posição contra mim”. Não ficou junto de mim, mas “contra mim”. O que direi, finalmente, como darei satisfação? Falo de coisas espirituais a um homem carnal; por fora vê e ouve, interiormente é surdo e cego. O homem carnal não aceita o que vem do Espírito de Deus (cf 1Cor 2,14). Se não houvesse homem carnal, quando haveria calúnia? Feliz de quem profere a palavra aos ouvidos de quem quer ouvir (cf Eclo 25,12), e não os ouvidos de um pecador que toma posição contra ele. Eram destes últimos os numerosos judeus que cercavam a Cristo, e a seu redor estavam enfurecidos, quando ele como ovelha para o corte foi levado, e como um cordeiro que permanece mudo na presença de seus tosquiadores, não abriu a boca (cf Is 53,7). O que dirás aos orgulhosos, turbulentos, caluniadores, litigiosos, loquazes? O que dirás de santo e piedoso, acerca da religião, ultrapassando-os? Se mesmo o Senhor disse aos que o ouviam de bom grado, desejosos de aprender, famintos do alimento da verdade: “Tenho ainda muito a vos dizer, mas não podeis agora compreender” (Jo 16,12)? E o Apóstolo: “Não vos pude falar como a homens espirituais, mas tão-somente como a homens carnais” (1Cor 3,1.2), acerca dos quais não perdia a esperança, mas devia cuidar de nutri-los. Pois, continua: “Como crianças em Cristo. Dei-vos a beber leite, não alimento sólido, pois não o podíeis suportar”. Por isso, mesmo agora, disse: “Mas nem mesmo agora podeis” (1Cor 3,1.2). Não te apresses para ouvir o que não compreendes, mas cresce para compreenderes. Assim dirigimos a palavra ao pequenino, que deve ser alimentado no seio da mãe Igreja com piedoso leite, para torná-lo idôneo a se aproximar da mesa do Senhor. O que poderei falar de semelhante ao pecador que toma posição contra mim, e julga-se capaz ou finge sê-lo, daquilo que não entende? Se lhe explico e ele não entende, não reconhece que não entendeu, mas pensa que eu fui vencido. Por isso, diante do pecador que toma posição contra mim, “pus guarda a minha boca”.

4 3E como prossegue? “Ensurdeci, fui humilhado, abstive-me de proferir até palavras boas”. Aquele que atravessou sofre dificuldade em certo degrau, para o igual já passou; e procura ultrapassá-lo para evitar este obstáculo. Eu receava pecar, de sorte que não falava, impunhame silêncio; dissera: “Velarei sobre minha conduta, a fim de não pecar por minha língua”. Receoso de falar, para não pecar, “ensurdeci, fui humilhado, abstive-me de proferir até palavras boas”. Enquanto receava demais falar palavras más, calei as boas. “Ensurdeci fui humilhado, obstive-me de proferir até palavras boas”. Por que dizia palavras boas, a não ser porque ouvia? “Faze-me ouvir o júbilo e a alegria” (Sl 50,10). O amigo do esposo está presente e o ouve; é tomado de alegria, não por causa de sua própria voz, e sim devido à do esposo (cf Jo 3,29). Ouve o que deve dizer, para dizer a verdade. Pois, quem mente, fala do que lhe é próprio (cf Jo 8,44). O salmista sofreu algo de triste e molesto; com esta confissão adverte a nos precavermos, não a imitarmos o que ele padeceu. Temendo demais, conforme disse, falar alguma coisa má, decidiu nada proferir, nem palavras boas; e como decidiu calar-se, começou por não ouvir. Se tu atravessas, paras, esperando ouvir de Deus o que dizer aos homens. Passas correndo entre Deus que é rico, e o pobre desejoso de ouvir. Podes ouvir de Deus e falar ao pobre. Se preferes não lhe falar, não merecerás ouvir de Deus. Desprezas o pobre, serás desprezado pelo rico. Tu te esqueceste de que és servo, estabelecido pelo Senhor sobre a criadagem, para dar-lhe o alimento em tempo oportuno (Mt 24,45)? Como queres receber se és preguiçoso para dar? Com justiça, portanto, uma vez que não quiseste transmitir o que receberas, ser-te-á vedado receber aquilo que ambicionavas. Querias uma coisa e tinhas outra; dá o que tens, para mereceres receber o que não tens. Por isso, pus guarda a minha boca e impus-me silêncio, porque via que em toda parte era perigoso falar. Fiz, então, o que não queria: “Ensurdeci, fui humilhado”; não: me humilhei, mas: “Fui humilhado. Ensurdeci, fui humilhado, abstive-me de proferir até palavras boas”. Comecei a calar até palavras boas, pelo receio de dizer palavras más, e ser criticado o meu conselho. “Abstive-me, então de palavras boas. E minha dor recrudesceu”. Com o silêncio, de certo modo descan-çara da dor que caluniadores e críticos me haviam infligido. Cessara a dor causada pelos caluniadores; mas ao abster-me de palavras boas, recrudesceu a minha dor. Comecei a sentir mais por ter calado o que devia falar do que sentiria por ter dito o que não devia. “E minha dor recrudesceu”.

5 4.5“Com a reflexão, acendeu-se o fogo”. Meu coração começou a ficar inquieto. Via os insensatos, e definhava, sem censurá-los; e assim calado, o zelo de tua casa me consumia (cf Sl 118,158 e Sl 68,10). Considerei meu Senhor, a dizer: “Servo mau e preguiçoso, devias ter depositado o meu dinheiro com os banqueiros e, ao voltar, eu o receberia com juros” (Mt 25,26-27). Livre Deus os seus ministros do que segue: “Lançai-o lá fora nas trevas” (ib 30), de mãos e pés amarrados, o servo, não perdulário, mas preguiçoso em colocar o dinheiro. O que devem esperar os que gastaram numa vida devassa, se são condenados os que guardaram com preguiça? “Com a reflexão, acendeu-se o fogo”. O salmista, nesta hesitação entre falar e calar, no meio dos que estão prontos a caluniar e os que afetam procurar instrução, entre ricos e pobres, sofrendo as zombarias dos que tinham em abundância e o desprezo dos soberbos, considerando felizes os que têm fome e sede de justiça (cf Sl 122,4; Mt 5,6); em trabalhos de ambos os lados, aflitos em ambos; periclitando para não lançar as pérolas aos porcos, periclitando para dar o alimento aos companheiros de serviço; nesta tribulação, procurou outro lugar melhor, longe deste ministério, no qual o homem tanto labuta e corre perigo. Suspirando por certo fim, quando não sofrerá mais estes males, aquele fim, quando o Senhor dirá ao bom despenseiro: “Entra na alegria de teu Senhor” (Mt 25,21), disse: “E falou a minha língua”. O salmista, no meio de tais tribulações, tais perigos, tais dificuldades, apesar de se deleitar na lei do Senhor, no entanto, pelo crescimento da iniquidade, o amor de muitos esfriará (Mt 24,12), no meio destas aflições, diz: “E falou a minha língua”. A quem? Não a um ouvinte, a quem procuro ensinar, mas àquele que me atenderá e por quem desejo ser esclarecido. “Falou a minha língua” àquele a quem ouço interiormente, se ouço o que é bom, o que é verdade. O que falou? “Faze-me conhecer, Senhor, o meu fim”. Ultrapassei algumas metas, e cheguei a outras; estas são melhores do que as ultrapassadas; mas ainda resta o que ultrapassar. Pois, não permaneceremos aqui, onde sofremos tentações, escândalos, ouvintes e caluniadores. “Faze-me conhecer, Senhor, o meu fim”, o fim que me falta, não o curso presente.

6 Refere-se ao fim que o Apóstolo visava ao correr; confessava sua imperfeição, por ver em si uma coisa, e procurar em outro lugar coisa diferente. Pois, diz: “Não que eu já o tenha alcançado ou que já seja perfeito. Irmãos, eu não julgo que eu mesmo o tenha alcançado”. E para não dizeres: Se o Apóstolo não alcançou, eu é que hei de alcançar? Se o Apóstolo não é perfeito, eu é que sou perfeito? Vê o que ele faz, presta atenção ao que fala. O que fazes, Apóstolo? Ainda não alcançaste, ainda não és perfeito? O que fazes? Para que ação me estimulas? O que me propões a imitar e seguir? Diz ele: “Uma coisa faço: esquecendo-me do que fica para trás e avançando para o que está diante, prossigo para o alvo, para o prêmio da vocação do alto, que vem de Deus em Cristo Jesus” (Fl 3,12-14), segundo a intenção, ainda não segundo a obtenção, à posse. Não recaiamos naquilo que já ultrapassamos, nem nos detenhamos no ponto onde chegamos. Corramos, empenhemo-nos, estamos a caminho. Não fiques tão tranquilo a respeito das coisas que ultrapassaste quanto solícito a respeito daquelas que ainda não alcançaste. “Esquecendo-me do que fica para trás e avançando para o que está diante prossigo para o alvo, para o prêmio da vocação do alto, que vem de Deus em Cristo Jesus”. Pois, ele é o fim. Um só porém; ele é aquela única coisa. “Senhor, mostra-nos o Pai e isto nos basta!” (Jo 14,9). Um só fim, que em outro salmo é denominado: uma só coisa: “Uma só coisa pedi ao Senhor, e a procurarei (Sl 26,4). Esquecendo-me do que fica para trás e avançando para o que está diante. Uma só coisa pedi ao Senhor, e a procurarei. Habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida”. Para quê? “Para contemplar as delícias do Senhor” (Sl 26,4). Ali me alegrarei por causa dos companheiros, não temerei os adversários; ali, o que contempla comigo é amigo e não inimigo caluniador. Este Iditun desejou o seguinte: conhecer-se quando estava aqui, para saber o que lhe faltava; não tanto alegrar-se do que alcançara quanto desejar o que ainda não obtivera; havendo atravessado por alguns bens, não permanecer no caminho, mas, pelo desejo, ser arrebatado aos bens do alto; até que ele, havendo ultrapassado alguns bens, atravessasse por todos, e sendo atingido por algumas gotas de orvalho, provenientes da nuvem das Escrituras do Senhor, chegasse, como o cervo, à fonte da vida, naquela luz visse a luz, e se escondesse no esconderijo da face do Senhor, da perturbação dos homens (cf Sl 41,2; 35,10; 30,21), onde diria: Aqui estou bem, nada mais quero, amo a todos, e não temo a ninguém. Bom desejo, santo desejo. Congratulai-vos conosco, vós que já o possuís; e rezai para que o tenhamos permanentemente, para não desanimarmos no meio dos escândalos. Pois, também nós o pedimos para vós. Pois, nós não somos dignos de rezar por vós, e vós indignos de orar em nosso favor. O Apóstolo se recomenda a seus ouvintes, aos quais pregava a palavra de Deus (cf Cl 4,3). Portanto, rezai por nós, irmãos, para que vejamos claramente o que devemos ver, e digamos com exatidão o que nos cabe dizer. De resto, sei que este desejo é de poucos. Não me entendem bem senão os que experimentaram o que falo. No entanto, falamos a todos, os que já possuem tal desejo e os que ainda não o têm. Aos que o têm, para que conosco suspirem por aqueles bens; aos que não o têm, para que sacudam a preguiça, passem além das coisas inferiores, cheguem à doçura da lei do Senhor, e não fiquem no meio dos deleites dos iníquios. Muitos narram muitas coisas, e muitos louvam muitas coisas; os iníquos a coisas iníquas. Efetivamente, também as coisas iníquas apresentam deleites, mas não como a tua lei, Senhor (cf Sl 118,85). Digam, portanto, conosco os que acreditam que nós também as dizemos. É questão interna, que não pode ser demonstrada por palavras. Mas, quem assim age, acredite que outro também o faz; não se julgue o único a ter recebido o dom de Deus. Diga, portanto, nestas circunstâncias, Iditun: “Faze-me conhecer, Senhor, o meu fim”.

7 “E qual é o número de meus dias”. Pergunto que número de dias é este. Posso dizer, posso entender número sem número, como posso dizer anos sem anos. Onde se acham os anos, de certo modo há número. No entanto: “Tu és sempre o mesmo e teus anos não terminam” (Sl 101,28). Faze-me conhecer o número de meus dias; mas qual é? Como, então? Este número em que estás, não existe? Em verdade, se observo bem, não existe. Se me detenho, é como se fosse; se ultrapasso, não existe mais; se sacudindo esses dias para longe, contemplar os do alto, se comparar estes últimos que permanecem, com os transitórios, vejo até que ponto estes são reais e qual o que tem mais aparência de ser do que de fato existe. Direi que existem esses meus dias? Diria que esses meus dias existem; e darei com temeridade tão grande nome ao curso das coisas passageiras? Pois, deficiente como sou, quase não existo; esqueço-me daquele que disse: “Eu sou aquele que é” (Ex 3,14). Existe, portanto, algum número dos dias? Existe, e é sem fim. Nestes nossos dias, direi que algo existe, se retenho o dia, acerca do qual me perguntas se existe; ou para me interrogares, retém aquele a respeito do qual me interrogas. Tu o retens? Se retiveste o dia de ontem, retém também o de hoje. Mas, dizes, não tenho mais o dia de ontem, porque já não existe; retenho aquele dia em que estou, e que está comigo. Então tu te esqueceste de quanto já passou desde a aurora? O dia de hoje não começou à primeira hora? Apresenta-me sua primeira hora; apresenta-me a segunda, que talvez também já tenha passado. Dizes-me: Apresento a terceira; talvez seja agora. Certamente há estes dias, e existe também o terceiro dia; e se me apresentas a terceira, será a hora, não o dia. Não obstante, nem isto te concedo, se comigo tudo isso ultrapassaste. Dá-me ao menos a terceira hora, esta em que estás. Se um pouco dela já passou, e resta ainda um pouco, não podes dar-me o passado, porque já não existe, nem o que resta porque ainda não veio. O que me darás, então, desta hora que agora passa? O que me darás dela, para aplicarlhe a palavra: É? Ao proferires a palavra: É (est), certamente trata-se de uma sílaba. O momento é um, e a sílaba (est), tem três letras. Ao emiti-la, não chegas à segunda letra da palavra, antes de terminar a primeira; a terceira só ressoará quando a segunda houver terminado. O que me darás desta única sílaba? E reténs o dia, se não seguras uma só sílaba? Os minutos voam e arrastam tudo; segue seu curso a torrente das realidades. Desta torrente, em nosso favor bebe no caminho aquele que já exaltou a cabeça (cf Sl 109,7). Estes dias, portanto, não são. Mais passam do que vêm; e quando vêm, não podem parar: juntam-se, seguem-se mas não param. Nada do passado volta novamente; espera-se que passe o que há de vir. Ainda não está em nosso poder, ainda não veio; quando vier, não o podemos reter. “Qual é, portanto, o número de meus dias?” Não falo do que não é, que me perturba com a maior dificuldade e perigo, e é e não é. Mas, não podemos dizer que existe o que não permanece. Também não que não existe o que vem e passa. Procuro aquele simples é, aquele é genuíno, aquele é verdadeiro, aquele é da Jerusalém, esposa de meu Senhor, onde não haverá morte, nem falha, onde haverá um dia que não passa, mas que permanece, que não é precedido por um ontem, nem avança para um amanhã. “Faze-me conhecer este número de meus dias”.

8 “Para que eu saiba o que me resta”. Em meus trabalhos, falta-me isto, e enquanto me faltar, não me digo perfeito; enquanto não o recebo, digo: “Não que eu já o tenha alcançado ou que já seja perfeito. Prossigo para o alvo, para o prêmio da vocação do alto” (Fl 3,12.14). Receberei tal recompensa por meu curso. O fim da corrida será certa morada, a própria morada da pátria, sem peregrinação, sem sedição, sem tentação. Por conseguinte: “Faze-me conhecer qual o número dos meus dias, para que eu saiba o que me resta”. Uma vez que ali ainda não me acho, que não me ensoberbeça pelo que já sou, a fim de estar nele e não ter em mim a minha justiça. Em comparação com aquilo que é, e dando atenção ao que ainda inteiramente não é, parece-me ser mais o que falta do que aquilo que já tenho; tornar-me-ei mais humilde pelo que me falta do que orgulhoso pelo que já possuo. Pois, aqueles que julgam ter alguma coisa enquanto vivem na terra, por causa do orgulho não recebem o que falta. Pensam ser grandioso o que já têm. Se alguém pensa ser alguma coisa, quando nada é, engana a si mesmo (cf Gl 6,3). Nem por isso se torna importante, porque o inchaço e o tumor imitam a grandeza, mas não são sadios.

9 6Por conseguinte, já este que atravessa age ocultamente no coração, de tal sorte que só o sabe quem age de igual modo. Como se já tivesse alcançado o que pedira, tornando-se-lhe conhecido o seu fim, o número de seus dias (não o número que passa, mas o número que é), dá atenção às coisas que atravessou e as compara ao conhecimento anterior. Como se lhe dissesses: Por que desejaste saber o número de teus dias? O que dizes destes dias? Deste conhecimento conclui outra coisa e diz: “Eis que reduziste os meus dias à velhice”. Envelhecem aqueles que eu queria fazer novos, novos que nunca envelhecessem, para poder dizer: “Passaram-se as coisas antigas; eis que se fizeram novas” (2Cor 5,17), agora em esperança, então na realidade. Mas, renovados pela fé e pela esperança, quantas coisas antigas ainda fazemos? Não fomos revestidos de Cristo a tal ponto que nada mais tenhamos de Adão. Vede Adão a envelhecer em nós, e Cristo a se renovar: “Embora em nós, o homem exterior vá caminhando para a sua ruína, o homem interior se renova dia a dia” (2Cor 4,16). Se atendemos, pois, ao pecado, à mortalidade, ao tempo passageiro, ao gemido, ao labor, ao suor, às idades que se sucedem, sem parar, indo insensivelmente da infância à velhice, vemos nisto o homem velho, o dia velho, o antigo cântico, o Antigo Testamento. Se nos voltamos para o interior, ao que há de ser renovado, às coisas imutáveis, encontramos o homem novo, o dia novo, o cântico novo, o Novo Testamento. Amemos esta novidade. Não temamos o que é velho. Agora, pois, neste curso, passamos do antigo ao novo. Esta passagem se realiza com a corrupção das coisas exteriores e a renovação das interiores, até que isto mesmo que exteriormente se corrompe, pague o débito da natureza, morra, se renove, e isto na ressurreição. Então, na realidade todas as coisas se farão novas, as restantes que agora existem em esperança. É alguma coisa o que fazes agora, despindo o que é velho correndo para o que é novo. O salmista, correndo para o que é novo, e avançando para o que está diante, diz: “Faze-me conhecer, Senhor, o meu fim, e qual é o número dos meus dias, para que eu saiba o que me resta”. Ele ainda traz consigo a Adão, mas apressa-se em direção a Cristo. “Eis que reduziste meus dias à velhice”. Dias antigos oriundos de Adão, fizeste-os velhos; envelhecem cada dia, de tal modo que uma vez serão consumidos. “Diante de ti a minha vida é como um nada”. Diante de ti, Senhor, como nada é minha vida. Diante de ti que o vês. Também eu o vejo diante de ti, não diante dos homens. O que direi? Com que palavras posso mostrar que nada sou em comparação daquele que é? Mas interiormente posso dizer, e de algum modo perceber. “Diante de ti”, Senhor, onde estão teus olhos, não onde estão os olhos dos homens. E como sou diante de teus olhos? “A minha vida é como um nada”.

10 “Não obstante, é vaidade todo homem que vive na terra. Não obstante”, o que eu dizia? Eis que já ultrapassei tudo o que é mortal, desprezei as coisas inferiores, pisei os bens terrenos, subi até ao deleite da lei do Senhor, hesitei acerca do número dos dias do Senhor, e ainda desejei aquele fim sem fim; anelei por saber o número dos meus dias, porque o número destes dias nada é; já me tornei assim, tantas coisas ultrapassei, e almejo aquelas que permanecem. “Não obstante”, enquanto estou aqui, assim como eu sou, enquanto estou neste mundo, enquanto me acho com esta carne mortal, enquanto a vida do homem sobre a terra é uma tentação (cf Jó 7,1), enquanto suspiro no meio dos escândalos, enquanto eu que estou de pé receio cair, enquanto forem incertos para mim os males e os bens, “é vaidade todo homem que vive na terra. Todo homem”, digo, quer pare ou atravesse, até mesmo Iditun, pertence a esta vaidade universal, porque tudo é vaidade, e vaidade das vaidades. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol (Ecl 1,2 e 3)? Acaso também Iditun ainda está debaixo do sol? Ele tem ainda alguma coisa debaixo do sol, e alguma coisa além. Debaixo do sol, ele está desperto, dorme, come, bebe, tem fome, tem sede, sente vigor, fatigase, torna-se menino, jovem, velho, duvida acerca do que desejar e temer; por tudo isso passa debaixo do sol mesmo Iditun, mesmo aquele que o ultrapassou. Como, então, ele atravessa? Devido àquele desejo: “Faze-me, conhecer o meu fim, Senhor”. Este desejo é acima do sol, não debaixo do sol. Debaixo do sol estão todas as coisas visíveis; tudo o que não é visível não está debaixo do sol. A fé não é visível, a esperança não é visível, a caridade não é visível, a benignidade não é visível, finalmente não é visível aquele temor casto que permanece pelos séculos dos séculos (cf Sl 18,10). Em tudo isso, encontra Iditun suavidade e consolo, e vivendo acima do sol, porque tem a cidadania dos céus (cf Fl 3,20), geme por causa daquilo que ainda tem debaixo do sol. Despreza e lastima essas últimas coisas, enquanto deseja ardentemente as outras. Falou das primeiras, fale também das segundas. Ouvistes quais os bens desejáveis, ouvi quais os desprezíveis. “Não obstante, é vaidade todo homem que vive na terra”.

11 7“Em verdade, passa o homem, como em imagem”. Qual imagem, senão a referida na Escritura: “Façamos o homem a nossa imagem e semelhança (Gn 1,26)? Passa o homem, como em imagem. Em verdade”, porque esta imagem é algo de grandioso. Depois de: “em verdade vem: no entanto”. A palavra que ouvistes: “Em verdade pertence ao que está acima do sol”. A seguinte: “No entanto” trata do que está debaixo do sol. A primeira pertence a verdade, a segunda à vaidade. “Em verdade”, pois, passa “o homem como em imagem, no entanto, é em vão que ele se atormenta”. Ouve qual é a sua perturbação, e vê se não é vã, para que a calques, a ultrapasses, e habites no alto, onde não existe tal vaidade. Qual? “Acumula tesouros e não sabe para quem ajuntará”. Tola vaidade! “Feliz o homem, que põe no Senhor a esperança e não olhou vaidades e enganosas loucuras” (Sl 39,5). Ao falar assim, ó avaro, parece-te que eu deliro. Parecem-te palavras senis. Tu, que és um homem de grandes conselhos e grande prudência, excogitas cada dia acerca do modo de ganhar dinheiro, de negócios, de agricultura, talvez também de eloquência, de jurisprudência, de milícia, e acrescentas também empréstimos. Homem judicioso, nenhuma ocasião perdes de acumular dinheiro, e de ocultá-lo cuidadosamente. Exploras o próximo, mas acautelas-te de quem pode te explorar. Receias sofrer aquilo que fazes. Não te corriges, ao sofreres alguma coisa. Mas, não sofres. És um homem prudente, guardas com cuidado e não só ajuntas muito bem. Tens onde colocar, a quem confiar, a fim de que nada se estrague do que ajuntaste. Interrogo teu coração, examino a tua prudência. Eis que amontoaste, guardaste, de tal modo que nada se perca do que guardaste. Diga-me: para quem guardas? Não trato contigo do mal que há em tua avareza vã. Não o lembro, não o exagero. Apenas proponho, discuto aquilo de que a leitura do presente salmo me dá oportunidade de discutir. Certamente acumulas, entesouras. Não digo: Não aconteça que enquanto recolhes, sejas colhido. Não digo: Cuidado para não seres roubado, ao roubares. Falarei com maior clareza. Talvez estando cego por causa de tua avareza, não ouviste ou não entendeste. Nem digo: Não suceda que enquanto procuras roubar ao menor, sejas presa do maior. Pois, não percebes que estás no mar, nem vês que os peixes menores são devorados pelos maiores. Não digo isto, não falo das dificuldades e perigos na própria aquisição de dinheiro, de quanto sofrem os que o acumulam, como correm perigo, como quase enfrentam a morte. Passo por cima disso tudo. Sem dúvida, acumulas sem encontrar contradição, guardas sem padeceres furto. Examina teu coração, e tua grande prudência, que zomba de mim, que me considera louco por falar deste modo. Mas, respondeme: Para quem reservas o que entesouras? Sei o que queres dizer, como se não me ocorresse aquilo que queres dizer. Hás de responder: Guardo para meus filhos. É uma palavra de amor paterno, uma desculpa da iniquidade. Dizes: Economizo para meus filhos. Está bem. Guardas para teus filhos. Será que Iditun não estava ciente disso? Sabia-o muito bem, mas o contava entre os dias antigos; por isso o desprezava, apressando-se em direção aos novos.

12 Mas, vou examinar-te e a teus filhos. Guardas as riquezas, tu que hás de passar, para outros que vão passar; ou antes, tu que passas, para outros que passam. Havia falado que tinhas de passar, como se agora permanecesses. Hoje mesmo, desde que começamos a falar até o momento atual, percebes que envelhecemos. Pois, nem sentes o crescimento de teus cabelos. Agora, enquanto estás de pé, enquanto estás aqui, enquanto falas ou fazes alguma coisa, crescem teus cabelos. Não cresceram de repente, de sorte que devesses procurar um cabeleireiro. O tempo voa, tanto para os que entendem quanto para os que não o percebem, ou estão entregues a alguma ocupação má. Tu passas, e guardas para teu filho que também passa. Em primeiro lugar, quero te perguntar: Sabes se o filho, para quem guardas teu bem, há de possuí-lo? Ou se ainda não nasceu, se há de nascer? Economizas para teus filhos, e é incerto se os terás, ou se hão de possuir; nem colocas teu tesouro no lugar certo. Teu Senhor não daria a seu servo um conselho para que perdesse seus bens. És o servo muito rico de um importante pai de família. Deu-te o que amas, o que tens, e não quer que percas seu dom aquele que se dará a si mesmo a ti. Mas, diria que nem mesmo o que te deu por certo tempo, ele quer que o percas. É muito, superabundante, ultrapassa as tuas necessidades, já é certamente supérfluo. Nem isto quero que percas, diz o teu Senhor. Mas, o que hei de fazer? Vai para outro lugar; não é seguro o lugar onde o puseste. Sem dúvida queres servir à avareza; vê se talvez não seja até conveniente à própria avareza o meu conselho. Queres possuir o que tens, e não perder; mostro o lugar onde deves colocá-lo. Não entesoures na terra, sem saber para quem guardas teus bens, e depois, como há de consumi-los o que os possuir, o que os tiver em sua posse. Talvez venha a possuir, mas escravizado, e não conservará o que herdar. É possível que estejas guardando para ele, mas o percas antes que ele venha. Dou um conselho a tua solicitude: “Ajuntai para vós tesouros nos céus” (Mt 6,20). Aqui na terra, se queres conservar riquezas, procuras um depósito; talvez não confies em tua casa por causa de teus domésticos. Entregas, então, a um banco; ali é difícil uma perda. O ladrão não tem fácil acesso e tudo é bem guardado. Por que pensas nisto, senão porque não tens lugar melhor para depositar? E se eu te apresentar um melhor? Eu te direi: Não entregues a um menos capaz. Há alguém mais idôneo, confia a ele. Possui grandes depósitos, onde as riquezas não se podem perder. Ele é grande e mais rico do que todos. Talvez logo respondas: Como ousarei confiar a ele? Mas, se ele mesmo te convida? Reconhece-o. Não é só pai de família, mas é também o teu Senhor. Ele te diz: Não quero, meu servo, que percas teu pecúlio. Descobre onde deves colocá-lo. Por que o colocas num lugar onde podes perdê-lo? Ou onde, se não perderes, tu não poderás ficar para sempre? Há um lugar para onde hei de te transferir. Teus bens te precedam lá; não receies perdê-los. Fui o doador, serei o guarda. Isto é o que te diz o teu Senhor. Interroga a tua fé, e vê se queres dar-lhe crédito. Responderás: Considero perdido o que não vejo, quero ver meus bens aqui. Querendo vê-los aqui, nem os verás, nem os terás ali. Suponhamos que tens algum tesouro escondido na terra; quando sais, não o levas contigo. Vieste para ouvir o sermão, para acumular riquezas interiores, e ficas pensando nas exteriores. Acaso as trouxeste contigo para cá? Aí está; agora não as vês. Acreditas que as tens em casa, porque sabes que as depositaste; mas sabes se não as perdeste? Quantos voltaram para casa, e não encontraram o que depositaram. Provavelmente agora estremeceram os corações dos ambiciosos. Como disse que muitos frequentemente voltaram para casa e não encontraram o que haviam guardado, disse cada um no coração: Longe de nós, ó Bispo. Deseja-nos o bem, reza por nós. Longe de nós que tal aconteça, não seja assim. Creio em Deus que encontrarei na íntegra o que guardei. Crês em Deus e não confias nele? Creio em Cristo, que estará são e salvo o que guardei; ninguém se aproximará, ninguém o roubará. Acreditando em Cristo queres estar certo de que nada perderás dos bens de tua casa; ficarás mais seguro, acreditando em Cristo, se colocares teus bens lá onde ele aconselhou que pusesses. Acaso tens confiança em teu escravo, e desconfias de teu Senhor? Sentes segurança em tua casa, e desconfias do céu? Mas, dizes, como colocarei meus bens no céu? Dei-te o conselho; põe onde te digo. Não quero que saibas como chegará ao céu. Põe nas mãos dos pobres, dá aos necessitados. O que te importa como chegará? Não levarei até lá o que eu recebo? Ou esqueceste a palavra: “Toda vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes” (Mt 25,40)? Se tivesses um amigo possuidor de alguns fossos ou cisternas, e todos os recipientes para guardar algum líquido, ou vinho ou óleo, e estivesses procurando onde esconder ou guardar teus frutos, e ele te dissesse: Eu os guardo para ti. Se tivesse canais ocultos e certas passagens para chegar àqueles recipientes, de modo que por estes canais corresse ocultamente o que se derramasse às claras; e ele te dissesse: Derrama aqui o que tens, julgarias que aquele lugar não é aquilo que pensavas, e terás receio de derramar. Ele que conhece os mecanismos ocultos de seus depósitos, não te diria: Derrama sem medo? Daqui eles correm para ali; não vês por onde, mas acredita em mim que os fabriquei. Aquele por quem foram criadas todas as coisas, fez moradas para todos nós; quer que ali nos preceda o que temos, para não o perdermos aqui na terra. Quando guardas teus bens na terra, dize-me para quem os acumulas? Tens filhos; acrescenta mais um, e dá alguma coisa a Cristo. “Acumula tesouros e não sabe para quem ajuntará. É em vão que se atormenta”.

13 8“E agora”, quando, fala este Iditun, considerando certa vaidade, meditando determinada verdade, colocado no meio entre o que lhe é inferior e o que lhe é superior (inferior aquilo que ele ultrapassou, superior aquilo para que avança); “e agora”, disse, quando ultrapassei alguma coisa, quando muitas calquei, quando já não estou preso aos bens temporais, ainda não sou perfeito, ainda não recebi. “Pois fomos salvos em esperança; e ver o que se espera, já não é esperar. Acaso alguém espera o que vê? E se esperamos o que não vemos, é na perseverança que o aguardamos” (Rm 8,24-25). E agora o que posso esperar? Não é o Senhor? Ele é minha esperança e deu-me tudo isto que é desprezível; dar-me-á a si mesmo também, ele que está acima de todas as coisas, por quem tudo foi feito e que me criou no meio delas, ele é a minha esperança, o Senhor. Vedes Iditun, irmãos, vedes como ele espera. Ninguém, portanto, se diga perfeito aqui; engana-se, ilude-se, erra se o diz. Não é possível conseguir a perfeição aqui na terra. E o que adiantaria, se perdesse a humildade? “E agora, o que posso esperar? Não é o Senhor?” Quando vier, já não será esperado. Então será a perfeição. Agora, porém, por mais que atravesse Iditun, ainda espera. “Todo o meu tesouro está sempre diante de ti”. Já progredindo, já tendendo para ele, e começando a ser, diz: “Todo o meu tesouro está sempre diante de ti”. Os bens da terra, porém, estão igualmente diante dos homens. Tens ouro, tens prata, escravos, propriedades, árvores, animais, servos; estes bens são visíveis também aos homens; mas há um tesouro que sempre está diante de Deus. “Todo o meu tesouro está sempre diante de ti”.

14 9“Livra-me de todas as minhas iniquidades”. Atravessei muitas coisas. De fato, foi muito o que atravessei, mas “se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós” (1Jo 1,8). Ultrapassei muitas coisas, mas ainda bato no peito, e digo: “Perdoa-nos as nossas dívidas como também nós perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6,12). Tu és, portanto minha esperança, meu fim: “O fim da Lei é Cristo para a justificação de todo o que crê” (Rm 10,4). “De todas”, não somente daquelas que já atravessei, para que não recaia, mas de todas absolutamente; por causa disso agora, batendo no peito, digo: “Perdoanos as nossas dívidas. Livra-me de todas as minhas iniquidades”, pois penso e retenho o que diz o Apóstolo: “Todos nós que somos perfeitos, tenhamos este sentimento”. Havendo declarado que ainda não era perfeito, logo em seguida diz: “Todos nós que somos perfeitos, tenhamos este sentimento”. O que significa: “Todos nós que somos perfeitos”? Já havias afirmado: “Não que eu já o tenha alcançado ou que já seja perfeito”. Segue a ordem das palavras: “Mas uma coisa faço: esquecendo-me do que fica para trás e avançando para o que está diante, prossigo para o alvo, para o prêmio da vocação do alto, que vem de Deus, em Cristo Jesus” (Fl 3,12.13-14). Ele, por conseguinte, não é ainda perfeito, porque prossegue para o prêmio da vocação do alto, que vem de Deus. Ainda não chegou lá, ainda não o encontrou. Se ele ainda não é perfeito, porque ainda não chegou lá, quem de nós é perfeito? Todavia prossegue: “Todos nós que somos perfeitos, tenhamos este sentimento”. Tu não és perfeito, ó Apóstolo, e nós seríamos? Mas escapou-nos que ele agora se diz perfeito? Pois, não disse: Todos vós que sois perfeitos, tenhais este sentimento, mas: “Todos nós que somos perfeitos, tenhamos este sentimento”, tendo afirmado pouco antes: “Não que eu já o tenha alcançado ou que já seja perfeito”. De outra maneira, portanto, aqui não podes ser perfeito, a não ser que saibas que aqui não podes ser perfeito. Tua perfeição consiste em teres ultrapassado algumas coisas, de tal sorte que te apresses para outras; teres ultrapassado algumas coisas de modo que resta outra para a qual deves passar, depois que todas as outras ficaram para trás. Esta é a fé segura. Pois, quem pensar que já chegou, sobe bem alto para cair.

15 Por estas razões, penso de tal modo que me declaro imperfeito e perfeito; imperfeito, de fato, porque ainda não recebi algo que desejo; perfeito, porém, porque sei exatamente o que me falta. Uma vez que assim penso, que desprezo as coisas humanas, que não quero alegrarme com as coisas transitórias, que me rio do avaro que se gaba de prudente e zomba de mim, dizendo que estou louco, uma vez que assim me porto, que lastimo este proceder, digo: “Tu me deste como alvo de escárnio ao insensato”. Quiseste que eu vivesse no meio deles, que entre eles pregasse a verdade, apesar de amarem a vaidade. Só posso ser escarnecido por eles. Fomos dados em espectáculo ao mundo, aos anjos e aos homens (cf 1Cor 4,9). Aos anjos que louvam e aos homens que injuriam. Ou antes, aos anjos que louvam e vituperam, aos homens que elogiam e censuram. Temos armas ofensivas e defensivas, e militamos na glória e no desprezo, na boa e na má fama, tidos como impostores e, não obstante, verídicos (cf 2Cor 6,7.8). Assim somos junto dos anjos, assim junto dos homens. Isto sucede, porque entre os anjos há santos anjos, aos quais apraz nossa vida honesta, e há anjos prevaricadores, aos quais nossa vida bem vivida desagrada. Entre os homens, igualmente, há santos varões, aos quais nossa vida agrada, e malvados, que zombam de nossa vida correta. Ambas são armas, umas da direita, outras da esquerda; no entanto, umas e outras são armas. Uso as da direita e as da esquerda, a saber, os que louvam e criticam, os que prestam honras e os que infligem ultrajes. Com ambas luto com o diabo, com umas e outras o firo: na prosperidade se não me deixo subornar, na adversidade se não desanimo.

16 10.11“Tu me deste como alvo de escárnio ao insensato. Ensurdeci, não abri a boca”. Contra o insensato, “ensurdeci, não abri a boca”. A quem direi o que se passa em mim? Pois, “ouvirei o que falar em mim o Senhor Deus, porque falará de paz a seu povo” (Sl 84,9); mas “para os maus não há paz”, diz o Senhor (Is 48,22). “Ensurdeci, não abri a boca. Porque és tu que me fizeste”. Não abriste a boca, porque foi Deus quem te fez? É estranho. Deus não te deu uma boca para falar? Quem fez o ouvido não ouve? Quem fez o olho, não vê (cf Sl 93,9)? Deus te deu boca para falar; e dizes: “Ensurdeci, não abri a boca; porque és tu que me fizeste”. Ou: “porque és tu que me fizeste”, pertence ao versículo seguinte? “Porque és tu que me fizeste, desvia de mim os teus golpes”. Não me extermines, porque és tu que me fizeste; somente fere para que progrida, e não para que pereça. Bate-me apenas para me plasmar, não para me esmagar. “Porque és tu que me fizeste. Desvia de mim os teus golpes”.

17 12“Sob o rigor de tua mão sucumbi, quando arguído”, isto é, ao me arguires, desfaleci. E qual o significado de tua arguição, senão o que segue? “Por causa da iniquidade castigaste o homem e fizeste consumir-se qual aranha a minha alma”. Muito é o que entendeu este Iditun; o mesmo acontece se alguém entende unido a ele, se alguém com ele atravessa. Afirma que desfaleceu diante das censuras de Deus, e quer que os golpes dele se afastem, porque foi Deus quem o fez. Aquele que o fez, o refaça; o criador o renove. Não obstante, foi sem razão, irmãos, que de tal modo desfaleceu quem quer ser renovado, restaurado? Diz o salmista: “Por causa da iniquidade castigaste o homem”. Todo o meu desfalecimento, minha fraqueza, meu clamor, profundo, devidos todos a minha iniquidade foram instrução, não condenação de tua parte. “Por causa da iniquidade castigaste o homem”. Mais claramente diz outro salmo: “Foi bom que me humilhaste para que eu aprenda as tuas justificações” (Sl 118,71). Fui humilhado e isto é bom para mim; é castigo e simultaneamente graça. O que nos reserva para depois do castigo, se o castigo é uma graça? Dele foi dito igualmente: “Fui humilhado e ele me salvou” (Sl 114,6). E: “Foi bom que me humilhaste para que aprenda as tuas justificações. Por causa da iniquidade castigaste o homem”. A palavra: “Estabeleces dor no preceito” (Sl 93,20), só pôde ser dita a Deus por aquele que atravessa, porque Deus só pôde ser visto por aquele que atravessa. “Estabeleces dor no preceito”, deste-me um preceito de dor. Plasmas a minha dor. Não a deixas informe, mas lhe dás forma. A dor formada que me infliges torna-se um preceito para mim, a fim de ser libertado por ti. Estabeleces a dor, formas a dor, plasmas a dor, não a simulas. Como o artífice plasma. Ele é denominado oleiro (figulus), palavra derivada de plasmar (fingere). Por conseguinte: “Por causa da iniquidade castigaste o homem”. Vejo-me no meio de males, vejo-me castigado, e não vejo maldade em ti. Se, portanto, sofro castigo e não há iniquidade em ti, o que resta senão que por causa da iniquidade castigaste o homem?

18 “E como castigaste?” Diga-me qual a tua instrução, ó Iditun, como foste castigado? “E fizeste cosumir-se, qual aranha, a minha alma”. Esta é a instrução. O que há de mais débil do que uma aranha? Falo do animal. Até mesmo a própria teia, o que há de mais fraco? Observa o animal como se consome. Põe levemente o dedo em cima, e ele morre. Nada absolutamente de mais frágil. Foi assim que tornaste a minha alma, castigando-me por causa da iniquidade. Se este modo de me instruir tornou-me fraco, então o vício era uma espécie de força. Vejo que alguns logo perceberam tudo, mas os mais lentos não devem ser abandonados pelos mais rápidos, para que todos sigam juntos o fio do sermão. O que eu disse, o que deveis entender é o seguinte: Se o ensinamento do Deus justo criou esta fraqueza, então o vício era uma espécie de força. O homem desagradou a Deus por esta força, para ser instruído na fraqueza. A soberba desagradou, para ser instruído pela humildade. Todos os soberbos se dizem fortes. Por isso, venceram muitos que vieram do Oriente e do Ocidente e se assentarão à mesa no reino dos céus, com Abraão, Isaac e Jacó, porque venceram? Porque não quiseram ser fortes. O que quer dizer: não quiseram ser fortes? Tiveram medo de presumir de si mesmos; não estabeleceram a própria justiça, mas submeteram-se à justiça de Deus (cf Rm 10,3). Finalmente declarou o Senhor: “Virão muitos do Oriente e do Ocidente e assentar-se-ão com Abraão, Isaac e Jacó à mesa do reino dos céus, enquanto os filhos do reino”, isto é, os judeus que ignoravam a justiça de Deus, e queriam estabelecer a sua própria, “serão postos para fora, nas trevas”. Lembrai-vos da fé do centurião, único entre os gentios de tal forma fraco, a tal ponto débil que disse: “Não sou digno de receber-te sob o meu teto”. Não era digno de receber o Cristo em sua casa e já o recebera no coração. Efetivamente, aquele mestre da humildade, o Filho do homem já encontrara em seu peito onde reclinar a cabeça. O Senhor, considerando esta palavra do centurião, disse aos que o seguiam: “Em verdade vos digo, em Israel não achei ninguém que tivesse tal fé” (Mt 8,11-12.8.10). A ele o Senhor achou-o fraco, e aos israelitas fortes, de sorte que, estando entre eles, disse: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, e sim os doentes” (ib 9,12). Por causa disto, portanto, isto é, por causa da humildade, “virão muitos do Oriente e do Ocidente, e se assentarão à mesa no reino dos céus, com Abraão, Isaac e Jacó, enquanto os filhos do reino serão postos para fora, nas trevas” (Mt 8,11-12). Eis que sois mortais, carregais uma carne corruptível, e “caireis como um dos príncipes; morrereis como homens” (cf Sl 81,7), e caireis como o diabo. De que vos serve a medicina dos mortais? O diabo é soberbo; é um anjo que não tem carne mortal. Tu, porém, que recebeste carne mortal (e nem isto te adianta para te humilhares em vista de tamanha fraqueza), cairás como um dos príncipes. A principal graça, portanto, dom de Deus, é reduzirnos à confissão de nossa fraqueza. Tudo o que temos de bens, de poder, temos nele, de sorte que “aquele que se gloria, se glorie no Senhor” (1Cor 1,31). “Pois, quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10). “Por causa da iniquidade castigaste o homem e fizeste consumirse, qual aranha, a minha alma”.

19 “Não obstante, em vão se inquieta todo homem que vive sobre a terra”. Repete o que citei há pouco; embora aqui vá adiante: “em vão se inquieta todo homem que vive”; vive de fato na incerteza. Pois, quem está seguro mesmo de seus próprios bens? “Em vão se inquieta. Lance sobre o Senhor os seus cuidados”, lance toda sua solicitude; ele há de nutrir, há de guardar (cf Sl 54,23). O que há de certo nesta terra senão a morte? Considerai todas as coisas, absolutamente, tanto boas quanto más nesta vida, mesmo na justiça ou na iniquidade; o que há de certo senão a morte? Progrediste no bem. Sabes o que és hoje, mas desconheces o que serás amanhã. És pecador. Sabes o que és hoje, mas ignoras o que serás amanhã. Esperas receber dinheiro; é incerto se virá. Esperas uma esposa; é incerto se a receberás, ou como será ela. Esperas filhos; incerto é se nascerão. Nasceram, é incerto se viverão. Vivem; é incerto se vão melhorar ou piorar. Para qualquer lado que te voltes, tudo é incerto. Somente a morte é certa. És pobre; é incerto se enriquecerás. És ignorante; é incerto se te tornarás intruído. És fraco; incerto é se hás de convalescer. Nasceste; é certo que morrerás. Mesmo nesta certeza sobre a morte, é incerto o dia da morte. Entre essas incertezas, entre as quais só a morte é certa, mas de hora incerta, somente dela muito nos precavemos, sem poder de modo algum evitá-la. “Todo homem que vive, em vão se inquieta”.

20 13O salmista entre estas incertezas, já ultrapassa, e achando-se entre algumas coisas mais elevadas, despreza as inferiores e diz: “Escuta, Senhor, minha oração e minha súplica, presta ouvido ao meu pranto”. Acaso, porque já atravessei tantas coisas, tantas ultrapassei, já não choro? Ou choro muito mais? Quem aumenta o saber, aumenta o sofrer (cf Ecl 1,18). Acaso quanto mais está longe o que desejo, tanto mais gemo até que venha, tanto mais choro até que obtenha? Quanto mais aumentam os escândalos, quanto mais abunda a iniquidade, tanto mais esfria a caridade de muitos (cf Mt 24,12)? “Quem fará de minha cabeça um manancial de água, e de meus olhos fonte de lágrimas?” (Jr 8,23) “Escuta, Senhor, minha oração, minhas súplicas; presta ouvido a meu pranto. Não te cales”. Que eu não ensurdeça eternamente. “Não te cales”; eu te ouvirei. Deus fala ocultamente, fala muito ao coração; é som potente no grande silêncio do coração, quando diz em alta voz: “Eu sou a tua salvação” (Sl 34,3). “Dize a minha alma: Eu sou a tua salvação”. O salmista deseja que Deus não cale esta palavra que ele dirige à alma: “Eu sou a tua salvação. Não te cales”.

21 “Diante de ti sou um forasteiro”. Forasteiro, junto de quem? Quando estava perto do diabo, era forasteiro, mas tinha um mau proprietário da casa. Agora já estou perto de ti, mas ainda forasteiro. O que significa: “forasteiro”? Daqui hei de emigrar. Não ficarei aqui eternamente. Chama-se minha casa o lugar onde hei de permanecer eternamente. Sou forasteiro do lugar de onde hei de emigrar. Contudo, junto de meu Deus sou forasteiro. Junto dele hei de permanecer quando receber minha casa. Mas qual é esta casa, para onde há de imigrar desta terra estrangeira? Reconhecer aquela casa, da qual trata o Apóstolo: “Teremos no céu um edifício, obra de Deus, morada eterna, não feita por mãos humanas” (2Cor 5,1). Se no céu esta casa é eterna, ao chegarmos lá, já não seremos inquilinos. Como haverias de ser inquilino na morada eterna? Aqui, sem saber onde e quando te há de dizer o dono da casa: Parte, deves preparar-te. Estarás preparado, se desejares a casa eterna. Não te irrites contra ele, porque diz quando quer: Parte. Não fez contrato contigo, nem se ligou por certa obrigação. Não alugaste a casa por determinado aluguel e por certo tempo. Quando o seu senhor quiser hás de emigrar. No entanto, habitas nela gratuitamente. “Porque diante de ti sou um forasteiro e um peregrino”. Lá, portanto, está a pátria, lá está a casa: “diante de ti sou um forasteiro e um peregrino”. Subentende-se: “diante de ti”. Pois, muitos são peregrinos com o diabo. Os que acreditaram e são fiéis são efetivamente peregrinos, porque ainda não chegaram à sua pátria e sua casa, contudo estão junto de Deus. “Enquanto habitamos neste corpo, estamos fora da nossa mansão, longe do Senhor; e esforçamo-nos por agradar-lhe, quer permaneçamos em nossa mansão, quer a deixemos” (2Cor 5,6.9). “Forasteiro e peregrino, como todos os meus pais”. Se, por conseguinte, sou como todos os meus pais, direi que daqui não sairei, se eles emigraram? Permaneço em condições diferentes daquelas em que eles viveram?

22 14O que me resta, pois, a pedir, se daqui sem dúvida hei de emigrar? “Perdoa-me para que tenha alívio, antes que eu parta”. Vê, vê Iditun, quais as tuas amarras; desatadas essas, buscas alívio antes de partir. Sentes calor, queres te livrar, e dizes: “Tenha alívio. Perdoa-me”. O que Deus te perdoará, senão livrando daquele obstáculo, que te leva a pedir: “Perdoa-nos as nossas dívidas” (Mt 6,12)? “Perdoa-me antes que eu parta e cesse de existir”. Antes da partida, livra-me dos pecados, para não os levar comigo. Perdoa-me para que minha consciência se tranquilize, libertada de uma solicitude ardente; solicitude oriunda de meu pecado (cf Sl 37,19). “Perdoa-me para que tenha alívio”, antes de tudo, “antes que eu parta e cesse de existir”. Se não me perdoares para ter alívio, irei e cessarei de existir. “Antes que eu parta”: se for para lá, cessarei de existir. “Perdoa-me para que tenha alívio”. Sugere a questão: Como cessará de existir? Não irá para o repouso? Deus livre Iditun deste mal. Iditun vai, de fato, e vai para o repouso. Mas, supõe um homem iníquo, que não é Iditun, não atravessa, acumula tesouros aqui, usurpador, malvado, soberbo, jactancioso, orgulhoso, desprezador do pobre que jaz diante de sua porta; acaso ele não existirá? O que significa então: “cesse de existir”? Se aquele rico não existia, quem é que ardia nas chamas? Quem é que desejava que Lázaro molhasse a ponta do dedo para refrescar-lhe a língua? Quem é que dizia: “Pai Abraão, manda Lázaro” (Lc 16,24)? Em verdade, quem falava existia, quem ardia existia, e existirá quem ressurgirá no fim e será condenado com o diabo ao fogo eterno. O que significa então: “cesse de existir” se não se refere a este Iditun, o que quer dizer: é e não é? Pois, ele via aquele fim, de todo o coração, com a penetração do espírito, fim que desejava lhe fosse mostrado: “Faze-me conhecer, Senhor, o meu fim” (Sl 38,5). Via o número de seus dias, que existe; dava atenção a que os seres inferiores, em comparação àquele ser, não são; e dizia que ele não era. As coisas superiores permanecem; as inferiores são mutáveis, mortais, frágeis. A própria dor eterna, cheia de corrupção, não se acaba para que se consuma interminavelmente. Ele olhou, portanto, para aquela feliz região, feliz pátria, casa feliz, onde os santos são participantes da vida eterna e da verdade imutável; e receou ir para fora, onde cessaria de existir; desejava estar onde há o ser supremo. Por conseguinte, devido a esta comparação, colocado entre os dois, ainda receoso diz: “Perdoa-me para que tenha alívio, antes que parta e cesse de existir”. Se não me perdoares os pecados, irei eternamente para longe de ti. E longe de quem estarei eternamente? Daquele que disse: “Eu sou aquele que é”; daquele que declarou: “Dirás aos filhos de Israel: Eu sou enviou-me a vós” (Ex 3,14). Quem caminha em direção contrária àquele que é verdadeiramente, avança para o nada. 23 Portanto, meus irmãos, se fui oneroso as vossas forças corporais, suportai-o, porque também para mim foi penoso. Para dizer a verdade, deste cansaço a culpa é vossa. Se eu percebesse que estáveis cansados com o que eu dizia, logo me calaria.

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

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