Comentário de Santo Agostinho ao Salmo 37

SERMÃO AO POVO

1 Oportunamente a leitura do evangelho sobre a mulher cananeia corresponde ao que cantamos: “Confesso a minha iniquidade e estou inquieto pelo meu pecado” (Sl 37,19). O Senhor, olhando para as suas iniquidades, a chamou de cão, dizendo: “Não fica bem tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorrinhos” (Mt 15,26). Ela, porém, que soubera confessar a sua iniquidade, e estar inquieta pelo seu pecado, não negou o que a verdade afirmou. Mas confessando sua miséria, impetrou antes a misericórdia, porque estava inquieta por seu pecado. Pois, também pedira a cura da filha, talvez como figura de sua vida. Notai; vamos considerar todo o salmo e explicá-lo, à medida de nossas possibilidades. Esteja o Senhor presente em nossos corações, para que salutarmente nele reconheçamos nossas vozes, e como as descobrirmos repitamo-las, descobrindo sem dificuldade, e proferindo com conhecimento.

2 1Seu título é o seguinte: “Salmo a Davi. Em memória do sábado”. Investiguemos o que foi escrito para nós a respeito do santo profeta Davi, do qual descende, segundo a carne, nosso Senhor Jesus Cristo (cf Rm 1,3), e entre os bens que dele conhecemos pelas Escrituras, não encontramos que ele alguma vez tenha feito memória do sábado. O que haveria de recordar, segundo aquela observância dos judeus que guardavam o sábado? Por que haveria de recordar aquele dia que necessariamente volta cada sete dias? Devia-se observar e não recordar. Ninguém se recorda senão do que não está presente. Por exemplo, estando nesta cidade, recordas-te de Cartago, onde estiveste alguma vez; hoje recordas-te do dia de ontem, ou do ano passado, ou de outro anterior, de alguma ação tua, de alguma coisa que presenciaste, ou a que assististe. O que significa esta memória do sábado, meus irmãos? Quem se recorda assim do sábado? O que é este sábado? Pois, é lembrado com gemidos. Enquanto se lia o salmo, ouvistes e agora quando o retomarmos ouvireis quanta tristeza há nele, quantos gemidos, quantos prantos, que miséria. Mas é feliz quem sofre essa miséria. Por isto, também o Senhor no evangelho denomina felizes a alguns que choram (cf Mt 5,5). Como pode ser feliz, se chora? Como pode ser feliz, se infeliz? Ao contrário, seria infeliz se não chorasse. Por conseguinte, acolhamos aqui a este que se lembra do sábado, a este que chora e nos é desconhecido; oxalá sejamos nós este desconhecido! Há alguém dolente, gemendo, chorando, recordando-se do sábado. Sábado é repouso. Sem dúvida, achava-se o sal-mista em determinada inquietação, e recordava-se com gemidos do repouso.

3 2Ele, portanto, narra e recomenda a Deus a inquietação de que sofria, receoso de qualquer coisa de mais pesado do que a situação em que estava. Pois, diz claramente que estava no meio de males; para isto não há necessidade de intérprete, nem de suspeita, nem de conjectura. Nem há dúvida, segundo suas próprias palavras de que mal sofre. Não é preciso procurar; basta entender o que está dito. Se não temesse algo de pior do que o mal que o tomava, não começaria assim: “Senhor, não me repreendas em teu furor. Corrige-me, mas não em tua ira”. Haveriam alguns de ser corrigidos com a ira de Deus, e serem corrigidos com o seu furor. E talvez nem todos os que serão corrigidos se emendarão; mas alguns que serão salvos, estarão entre os que são corrigidos. Isto sucederá, porque faz-se referência a emenda, que no entanto se realizará como que através do fogo. Alguns serão corrigidos e não se emendarão. Pois, são arguídos aqueles aos quais se dirá: “Tive fome e não me destes de comer. Tive sede e não me destes de beber” etc.; ali, prosseguindo, o Senhor repreende certa desumanidade e esterilidade nos maus, colocados à esquerda, aos quais diz: “Ide para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos” (Mt 25,41.42). O salmista, receando estes males piores do que os desta vida, que o faz chorar e gemer, roga com estas palavras: “Senhor, não me repreendas em teu furor”. Não seja do número daqueles aos quais dirás: “Ide para o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos. Corrige-me mas não em tua ira”. Purifica-me nesta vida, e faze-me tal que já não precise do fogo purificador, como aqueles que se salvarão, mas como que através do fogo. Por que, senão por terem edificado aqui com madeira, feno e palha, sobre fundamento? Edificassem com ouro, prata, pedras preciosas, e estariam garantidos contra ambos os fogos. Não somente livrar-se-iam do fogo eterno que há de atormentar eternamente os ímpios, mas ainda daquele que purificará os que se salvarão através do fogo. Pois, foi dito também: “Ele mesmo, entretanto, será salvo, mas como que através do fogo” (1Cor 3,12.15). E como foi dito: “será salvo”, despreza-se aquele fogo. Apesar de salvos, através do fogo, este será mais doloroso do que tudo o que o homem pode sofrer nesta vida. E sabeis quanto sofreram e podem sofrer; aqui os maus contudo, sofreram tanto quanto poderiam padecer bons e maus. O que não suportou, diante da lei, qualquer malvado, ladrão, adúltero, criminoso, sacrílego que não tenha sofrido qualquer mártir, pela confissão de Cristo? Estes males daqui são muito mais leves; contudo, vede como os homens fazem tudo o que lhe mandares, para não os sofrerem. Quanto melhor seria fazer o que ordena Deus para não sofrerem males mais graves?

4 3Por que suplica o salmista não seja repreendido com furor, nem corrigido com ira? Parece dizer a Deus: Uma vez que já sofro tanto, e grandes males, peço que estes bastem. E começa a enumerá-los, dando satisfação a Deus, oferecendo-lhe seus padecimentos, para não sofrer piores males: “Atingiram-me as tuas setas, e sobre mim abateu-se a tua mão”.

5 4“Não há parte sadia em minha carne, em face de tua cólera”. Já dizia o que sofria aqui na terra; e isto já provinha da ira do Senhor, porque era castigo do Senhor. Qual castigo? O de Adão. Ele fora castigado, e não fora inutilmente que o Senhor lhe dissera: “Morrerás” (Gn 2,17). Tudo o que sofremos nesta vida é devido àquela morte que merecemos pelo primeiro pecado. Efetivamente temos um corpo mortal (que, de fato, não seria mortal), cheio de tentações, cheio de solicitudes, sujeito às dores corporais, sujeito a penúrias, mutável, enfermiço mesmo quando está são, porque na realidade ainda não está plenamente sadio. Pois, de onde vem que dizia: “Não há parte sadia em minha carne”, senão porque a chamada saúde nesta vida, para os que entendem bem e se recordam do sábado, não é na realidade saúde? Pois, se não comerdes, a fome incomoda. Esta é uma espécie de doença natural, porque a natureza nos castiga, devido à pena do pecado. O que seria castigo para o primeiro homem constitui a nossa natureza. Daí dizer o Apóstolo: “Éramos por natureza como os demais, filhos da ira (Ef 2,5). Por natureza, filhos da ira”, isto é, portadores do castigo. Mas, por que motivo diz: “Éramos”? Porque em esperança já não o somos: na realidade, ainda somos. Mas é mais exato dizer o que somos em esperança, porque estamos certos a respeito dela. Nossa esperança não é incerta, de sorte que devamos dela duvidar. Ouve como ele fala da própria glória em esperança. Diz o Apóstolo: “Gememos interiormente, suspirando pela redenção de nosso corpo, esperando a adoção” (Rm 8,23). Como? Ainda não estás redimido, ó Paulo? O preço ainda não foi pago, por ti? O sangue de Cristo ainda não foi derramado? Ele não é o preço de todos nós? Sim, ele é. Mas ouve o que diz o Apóstolo: “Pois fomos salvos em esperança; e ver o que se espera, não é esperar. Acaso alguém espera o que vê? E se esperamos o que não vemos, é na perseverança que o aguardamos” (Rm 8,24-25). O que aguarda na perseverança? A salvação. De quê? Do próprio corpo, porque o disse: “a redenção de nosso corpo”. Se esperava a saúde do corpo, não se tratava da saúde que possuía. Morre de fome e de sede, se não for cuidado. O remédio para a fome é o alimento, e o medicamento da sede é a bebida, e a cura do cansaço é o sono. Subtrai esses medicamentos e vê se aquelas deficiências não a matam. Se forem suspensos estes remédios e não aparecerem as doenças, então há saúde. Se, porém, alguma coisa há que pode te matar, se não comeres, não te gabes de ter saúde, mas gemendo espera a redenção de teu corpo. Alegra-te de teres sido remido; mas ainda não na realidade; na esperança, estás seguro. Se não gemeres na esperança, não alcançarás a realidade. Por conseguinte, uma vez que esta não é a verdadeira saúde, disse: “Não há parte sadia em minha carne, em face de tua cólera”. E o que são as setas que me atingiram? A pena, o castigo, e talvez as dores que necessariamente se sofrem na terra, na alma e no corpo, são as setas. O santo homem Jó refere-se a estas setas. Sofrendo aquelas dores, disse ter sido atingido pelas setas do Senhor (cf Jó 6,4). Costumamos igualmente tomar as setas na acepção de palavras de Deus. Mas, poderia o salmista se lamentar de ter sido ferido por elas? As palavras de Deus, como setas, excitam o amor, não a dor. Ou seria porque o próprio amor não pode existir sem dor? Necessariamente nos condoemos quando não temos o que amamos. Pois, ama e não sente dor quem possui o que ama. Quem, porém, ama, como disse, e ainda não possui o que ama, forçoso é gemer, dolorido. Daí vem a palavra que em lugar da Igreja profere a esposa de Cristo no Cântico dos cânticos: “Estou doente de amor” (Ct 2,5 e 5,8). Disse estar ferida pelo amor. Amava e não possuía o objeto de seu amor; doía-lhe por não possuir. Se lhe doía é porque estava ferida; mas esta ferida arrastava à verdadeira saúde. Quem não estiver atingido por este ferimento, não poderá alcançar a verdadeira saúde. Acaso o ferido há de permanecer sempre assim? Podemos, entretanto, referir as setas que me atingiram às tuas palavras gravadas em meu coração. Tuas palavras fizeram-me lembrar do sábado. A memória do sábado, que ainda não é posse, não me permite ainda alegrar-me, nem reconhecer que minha carne goza de saúde. Nem devo dizer que é saúde, em comparação com a que terei no repouso eterno, quando o que é corruptível revestir a incorrupção (cf 1Cor 15,53) e o que é mortal revestir a imortalidade. Vejo que em comparação com aquela saúde, a da terra é doença.

6 “Não há paz para os meus ossos, em consequência de meus pecados” Costuma-se perguntar de quem é a voz. Alguns tomam-na aqui como sendo de Cristo, por causa de certas expressões no salmo referentes à paixão de Cristo e às quais logo chegaremos, e veremos que se trata da paixão de Cristo. Mas, como diria: “Não há paz para os meus ossos, em consequência de meus pecados”, aquele que nenhum pecado cometera (1Pd 2,22)? A necessidade de entender nos força, portanto, a reconhecer que se trata de Cristo pleno e total, isto é, Cabeça e corpo. Quando Cristo fala, às vezes fala somente em lugar da Cabeça, que é o próprio Salvador, nascido de Maria virgem; por vezes, em lugar de seu corpo, que é a santa Igreja, espalhada por toda a terra. Também nós estamos em seu corpo, se for sincera a nossa fé nele, firme a esperança, ardente a caridade. Estamos em seu corpo, somos seus membros, e encontramo-nos a falar ali, conforme a palavra do Apóstolo: “Porque somos membros do seu corpo” (Ef 5,30). Em muitas passagens assim se exprime o Apóstolo. Pois, se dissermos que não são palavras de Cristo, não serão suas também aquelas palavras: “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste” (Mt 21,46). E lá tens esta expressão: “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste? Longe de minha salvação as vozes de meus delitos” (Sl 21,2), como aqui tens: “Em consequência de meus pecados”. E se Cristo em verdade não tem pecado nem delito, começamos a julgar que não são dele as palavras daquele salmo. Seria dureza e contradição dizer que aquele salmo não se refere a Cristo, quando conhecemos tão claramente a sua paixão, conforme se lê no evangelho. Lá, de fato, temos: “Dividiram entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica lançaram sortes” (Sl 21,19). Por que motivo o próprio Senhor crucificado: “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?” o que quis dar a entender senão que todo aquele salmo se refere a si mesmo, uma vez que repetiu o começo dele? O versículo continua: “as vozes de meu delito”; não há dúvida de que se trata da voz de Cristo. De onde vêm, então, os pecados, a não ser do corpo, que é a Igreja? Pois aqui falam o corpo de Cristo e a Cabeça. Por que falam como se fosse um só homem? Porque, diz o Apóstolo: “serão dois numa só carne. É grande este mistério: refiro-me à relação entre Cristo e a sua Igreja” (Ef 5,31.32). Daí vem igualmente que ao falar Cristo no evangelho, respondendo aos que lhe apresentaram a questão do divórcio, declarou: “Não lestes que desde o princípio Deus os fez homem e mulher? Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá a sua mulher e os dois serão uma só carne? De modo que já não são dois, mas uma só carne” (Mt 19,4-6). Se, pois, ele disse: “Já não são dois, mas uma só carne”, não é de admirar que como uma carne, cabeça e corpo, dimanem também uma carne, uma língua e as mesmas palavras. Portanto, ouçamos somente um, porém sendo a cabeça cabeça e o corpo corpo. Não se dividem as pessoas, mas se distinguem as dignidades, porque a Cabeça salva, e o corpo é salvo. A Cabeça demonstra misericórdia, o corpo chora sua miséria. A Cabeça purifica, o corpo confessa os pecados. A voz, contudo, é uma só, quando não está escrito o que diz o corpo, o que diz a Cabeça. Mas, nós, ao ouvirmos distinguimos; ele, porém, fala como se fosse um só. Por que razão não pode dizer: “meus pecados”, aquele que disse: “Tive fome e não me destes de comer. Tive sede e não me destes de beber. Fui forasteiro e não me recolhestes. Estive doente e preso, e não me visitastes”? Certamente, o Senhor não esteve no cárcere. Por que não poderia se exprimir assim, se àquele que lhe replicou: “Quando é que te vimos com fome ou com sede, ou preso e não te servimos?” assim respondeu, em lugar de seu corpo: “Todas as vezes que o deixastes de fazer a um desses pequeninos que são meus, foi a mim que o deixastes de fazer” (Mt 25,42-45)? Por que não diria: “em consequência de meus pecados”, se disse a Saulo: “Saulo, Saulo por que me persegues?” (At 9,4)? Efetivamente, já no céu, não tinha perseguidor algum. Mas, como ali a Cabeça falava em vez do corpo, assim também aqui a Cabeça profere palavras próprias ao corpo, quando ouvis a voz da Cabeça. Mas, ao ouvirdes as palavras do corpo, não o separeis da Cabeça; nem ao ouvirdes as palavras da Cabeça, a separeis do corpo; porque já não são dois, mas uma só carne.

7 “Não há parte sadia em minha carne, em face de tua cólera”. Mas, talvez Deus se tenha irritado injustamente, ó Adão, ó gênero humano. Deus se irou injustamente! Falaste já reconhecendo teu castigo, já fazendo parte do corpo de Cristo: “Não há parte sadia em minha carne, em face de tua cólera”. Expõe a justiça da ira de Deus, a fim de não pareceres te escusar e acusá-lo. Continua, e declara de onde procede a ira do Senhor. “Não há parte sadia em minha carne, em face de tua cólera. Não há paz para os meus ossos. Não há parte sadia em minha carne”, e repete o salmista: “Não há paz para os meus ossos”. Não repetiu: “em face de tua cólera”, mas enuncia a causa da ira de Deus: “Não há paz para os meus ossos, em consequência de meus pecados”.

8 5“Porque as minhas iniquidades levantaram-me a cabeça e como um fardo pesado me oprimem”. Primeiro enunciou a causa e acrescentou o efeito. Disse o que aconteceu em consequência: “Minhas iniquidades levantaram-me a cabeça”. Soberbo é o iníquo, cuja cabeça é levantada. Ergue-se para o alto aquele que levanta a cabeça contra Deus. Ouvistes a leitura do livro do Esclesiástico: “O princípio do orgulho é o afastar-se do Senhor” (Eclo 10,12). A iniquidade levantou contra Deus, a cabeça daquele que primeiro não quis ouvir o preceito. E como as iniquidades lhe levantaram a cabeça, o que fez Deus? “Como um fardo pesado me oprimem”. Levanta-se a cabeça, porque é leve, como se nada carregasse. Como é leve o que pode ser erguido, ele recebe um peso, que o oprime. “O seu trabalho recair-lhe-á na cabeça, e a sua maldade descer-lhe-á sobre a fronte” (Sl 7,17). “Como um fardo pesado me oprimem”.

9 6“Infectas e purulentas são as minhas chagas, por efeito de minha loucura”. Não é sadio o que tem feridas. Ainda mais se as feridas estão infectas e purulentas. Por que purulentas? Porque infectas. Quem não sabe como isto se dá na vida humana? Tenha alguém apurado o olfato da alma e sentirá como os pecados são fétidos. Contrário a este cheiro dos pecados é aquele odor do qual diz o Apóstolo: “Somos para Deus o bom odor de Cristo, entre aqueles que se salvam” (2Cor 2,15). Mas, de onde vem isto, senão da esperança? De onde, senão da memória do sábado? Uma coisa é o que deploramos nesta vida, outra o que presumimos na outra. O que se deplora é fétido; o que se presume é odorífero. Se não fosse tal odor a nos convidar, nunca nos recordaríamos do sábado. Mas, como temos pelo Espírito este odor, de sorte a dizermos ao Esposo: “Corremos ao odor de teus perfumes” (Ct 1,3), preservamos nosso olfato de nossos maus cheiros, e voltando-nos para o bom odor, respiramos aliviados. Mas se não sentíssemos como são fétidos nossos males, nunca confessaríamos com estes gemidos: “Infectas e purulentas são as minhas chagas”. Donde se originam? “Por efeito de minha loucura”. Por esta razão disse mais acima: “Em consequência de meus pecados”, e agora: “Por efeito de minhas loucuras”.

10 7“Afligem-me desgraças e estou em extremo encurvado”. Por que motivo está encurvado? Porque era orgulhoso. Se fores humilde, serás exaltado; se fores orgulhoso, ficarás encurvado. A Deus não faltará um peso para te curvar. Será aquele peso o fardo de teus pecados, que será colocado em tua cabeça, e ficarás encurvado. O que é curvar-se? Não poder erguer-se. Assim o Senhor encontrou a mulher, encurvada por dezoito anos; não podia se erguer (cf Lc 13,11). Tais são os que têm o coração na terra. Mas uma vez que o Senhor encontrou aquela mulher, e a curou, ouça: corações ao alto. Enquanto está curvado, porém, ainda geme. Curvase aquele que diz: “Um corpo corruptível pesa sobre a alma e oprime a mente pensativa” (Sb 9,15). Gema no meio destas tribulações a fim de receber aquela recompensa, recorde-se do sábado para merecer chegar ao sábado. A celebração dos judeus era um sinal. Sinal de quê? Daquilo de que o salmista se recorda, dizendo: “Afligem-me desgraças e estou encurvado em extremo”. O que significa: “em extremo”? Até a morte. “Todo dia acabrunhado de tristeza. Todo dia, sem interrupção. Todo o dia” quer dizer: toda a vida. Mas, como sabe disto? Desde que começou a recordar-se do sábado. Enquanto recorda-se do que ainda não tem, não queres que esteja acabrunhado? “Todo dia acabrunhado de tristeza”.

11 8“Porque a minha alma se encheu de ilusões e nada há de ileso em minha carne”. O homem todo consta de alma e corpo. A alma está cheia de ilusões, o corpo não tem saúde; o que lhe resta para alegrar-se? Não há de se contristar? “Todo dia acabrunhado de tristeza”. Teremos tristeza, até que nossa alma se livre de ilusões, e nosso corpo recupere a saúde. Esta é a verdadeira saúde, a imortalidade. Se quisesse enumerar todas as ilusões da alma, de quanto tempo precisaria? Qual a alma que não as suporta? Lembro rapidamente como nossa alma está repleta de ilusões. Diante delas, algumas vezes mal conseguimos rezar. Não podemos pensar nos corpos senão por imagens; e muitas vezes irrompem as que não procuramos e queremos passar desta para aquela, e daquelas ir a outras; e às vezes queres voltar àquilo sobre que refletias e deixar o que pensavas, e ocorre-te outra lembrança. Queres te lembrar do que esqueceras, e não te vêm à mente, mas surge antes o que não querias. Onde estava o que esqueceras? E porque depois volta à mente, quando já não procuravas? Quando procuravas, em vez disto ocorreram pensamentos inumeráveis, sem serem desejados. Resumi a questão, sugeri algumas noções, com as quais podeis refletir e descobrir o que é deplorar as ilusões de nossa alma. Ela recebeu a pena da ilusão e perdeu a verdade. Como a ilusão é castigo da alma, a verdade é o seu prêmio. Estando nós entre tais ilusões, veio a nós a verdade, e achando-nos mergulhados nelas, tomou a nossa carne, ou melhor, recebeu-a de nós, do gênero humano. Apareceu aos olhos da carne, curando pela fé aqueles aos quais mostraria a verdade, para que esta se evidenciasse aos olhos curados. Cristo é a verdade, a nós prometida; ao aparecer sua carne, começou a fé, cujo prêmio é a verdade. Cristo não se mostrou na terra qual ele é em si mesmo, mas mostrou sua carne. Pois, se ele se revelasse a si mesmo, os judeus o reconheceriam ao vê-lo; e se o tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o rei da glória (cf 1Cor 2,8). Talvez o tenham visto os discípulos, quando lhe diziam: “Mostra-nos o Pai e isto nos basta”. Ele, porém, mostrando que os discípulos não o haviam visto, acrescentou: “Há tanto tempo estou convosco e não me conheceis? Filipe, quem me vê, vê o Pai”. Se eles viam o Cristo, como ainda procuravam o Pai? Se tivessem visto a Cristo, teriam visto igualmente o Pai. Não viam ainda, portanto, a Cristo os desejosos de verem o Pai. Ouve que ainda não o viam. Em outro lugar, Cristo prometeu que o veriam, como prêmio: “Quem observa os meus mandamentos é que me ama; e quem me ama será amado por meu Pai. Eu o amarei”. Como se lhe fosse perguntado: O que darás a quem te ama? “A ele me manifestarei” (Jo 14,8.9.21). Se aos que o amam prometeu o prêmio de se mostrar a eles, é manifesta a promessa de uma visão da verdade que não nos deixará mais dizer: “A minha alma se encheu de ilusões”.

12 9“Definho, completamente humilhado”. Quem se lembra da sublimidade do sábado, vê a que ponto está humilhado. Quem não imagina a grandeza de tal repouso, não vê onde se acha. Por isto, diz outro salmo: “Eu disse no meu êxtase: Fui rejeitado do alcance de teus olhos” (Sl 30,23). Arrebatada, a mente viu algo de sublime, e que ela não se achava totalmente ali; percebeu um raio da luz eterna (se é possível assim se expressar), e que ela ali não estava; por pouco que entendeu, viu onde estava, e um tanto enfraquecida e constrangida pelos males humanos, declarou: “Eu disse no meu êxtase: Fui rejeitado do alcance de teus olhos”. Vi em êxtase, mais ou menos, a realidade, sinto quanto estou distante e que ali ainda não estou. Lá já estava aquele que disse ter sido arrebatado ao terceiro céu, e ouvido palavras inefáveis, que não é lícito ao homem repetir. Mas voltou novamente para junto de nós, a fim de que em gemidos, se aperfeiçoasse primeiramente, no meio de fraquezas, e depois se revestisse de força. No entanto, animado por ter visto um pouco daquelas realidades, em vista de seu ministério, acrescentou: “Ouvi palavras inefáveis, que não é lícito ao homem repetir” (2Cor 12,4). O que adianta, então, perguntar-me, ou a outro qualquer, a respeito daquilo que não é lícito ao homem repetir? Se não lhe foi lícito falar, seria lícito ouvir? Choremos, contudo, e gemamos em confissão, reconheçamos onde nos encontramos, recordemo-nos do sábado, e com paciência esperemos o que o Senhor prometeu, ele que em si deu-nos exemplo de paciência: “Definho, completamente humilhado”.

13 “Arranca-me rugidos o gemido de meu coração”. Observais que muitas vezes os servos de Deus suplicam com gemidos, e procurais qual o motivo. Nota-se apenas o gemido de um servo de Deus, se alguém está por perto. Pois, há um gemido oculto que o homem não escuta. No entanto, se algum desejo tomar de tal modo o coração que em palavras claras se manifesta a ferida do íntimo do homem, pergunta-se qual o motivo; e pensa consigo mesmo: Talvez esta seja a causa por que geme, e provavelmente aquilo lhe aconteceu. Mas, quem pode entender, senão aquele diante de cujos olhos e ouvidos este homem geme? Por esta razão, ele diz: “Arranca-me rugidos o gemido de meu coração”, uma vez que os homens, se acaso ouvem os gemidos de alguém, em geral ouvem o gemido da carne, mas não ouvem o gemido do coração. Alguém tirou os bens deste homem; arrancou-lhe rugidos, mas não do gemido do coração. Outro ruge porque perdeu o filho; outro, a mulher; outro, porque caiu granizo na vinha, porque a cuba fermentou, porque o jumento foi roubado; outro, porque sofreu algum prejuízo; outro porque tem medo do inimigo. Todos esses rugem, com gemido da carne. O servo de Deus, contudo, a quem arranca rugidos a lembrança do sábado, onde se acha o reino de Deus, que a carne e o sangue não possuirão (1Cor 15,50), diz: “Arranca-me rugidos o gemido do meu coração”.

14 10E quem sabia porque ele rugia? O salmista acrescentou: “Em tua presença estão todos os meus desejos”. Não diante dos homens, que não podem ver o coração, “mas em tua presença estão todos os meus desejos”. Esteja diante dele o teu desejo; e o Pai que vê o que está oculto, te recompensará (cf Mt 6,6). Teu desejo é tua oração; e se o desejo é contínuo, contínua é a oração. Com razão disse o Apóstolo: “Orando sem cessar” (1Ts 5,17). Acaso sem interrupção dobramos os joelhos, prostramo-nos, ou levantamos as mãos, para que ele diga: “Orai sem cessar”? Ou se afirmamos que assim nós rezamos, penso que não podemos fazê-lo sem interrupção. Existe outra oração interior sem interrupção, que é o desejo. Seja o que for que faças, se desejas aquele sábado, não interrompes a oração. Se não queres interromper a oração, não cesses de desejar. Teu contínuo desejo é tua contínua voz. Calarás se desistires de amar. Quais são os que calaram? Aqueles dos quais foi dito: “E pelo crescimento da iniquidade, o amor de muitos esfriará” (Mt 24,12). Esfriamento da caridade é o silêncio do coração; ardor da caridade é o clamor do coração. Se a caridade sempre permanece, sempre clamas; se sempre clamas, sempre desejas; se desejas, lembras-te do repouso. É importante que entendas diante de quem deve estar o rugido de teu coração. Considera qual o desejo que se deve apresentar aos olhos de Deus. Seria para que morra nosso inimigo, desejo que costumam formular os homens na oração, como se fosse justo? Pois, algumas vezes, pedimos o que não devemos. Vejamos aquele pedido que os homens opinam ser justo. Pois, rezam para que morra alguém, a fim de que eles obtenham sua herança. Mas também aqueles que rezam para que morram os inimigos, ouçam o Senhor dizer: “Orai pelos vossos inimigos” (cf Mt 5,44 e Lc 6,24). Não rezem para que morram, mas rezem para que se corrijam; e os inimigos hão de morrer, pois depois de se corrigirem já não serão inimigos. “Mas em tua presença estão todos os meus desejos”. Se o desejo está na presença do Senhor, o gemido não estará? Como pode ser isto, se a voz do desejo é o gemido? Daí a sequência: “E meus gemidos te são manifestos”. De ti não estão escondidos, mas de muitos homens, sim. Por vezes, profere o humilde servo de Deus: “E meus gemidos te são manifestos”. Outras vezes, vê-se o servo de Deus a rir. Acaso morreu o desejo no seu coração? Mas, se há desejo, há igualmente gemido; nem sempre ele atinge os ouvidos dos homens, mas nunca se afasta dos ouvidos de Deus.

15 11“Perturbou-se o meu coração”. Qual o motivo? “Meu vigor me desamparou”. Surge por vezes um imprevisto. O coração se perturba. A terra treme, vem um trovão do céu, ouve-se um golpe horrível ou um grande ruído, talvez se veja um leão no caminho. Produz-se uma comoção: há ladrões de emboscada. O coração se perturba, sente pavor. Cuidados aparecem de todos os lados. Por quê? Porque “meu vigor me desamparou”. Se continuasse aquele vigor, de que se temeria? Qualquer que fosse a notícia, o bramido, o som, caísse o que quisesse, acontecesse qualquer coisa de horrível, não causaria terror. Mas, donde vem aquela perturbação? “Meu vigor me desamparou”. Em quê? “Abandonou-me a claridade de meus olhos”. Abandonou Adão a claridade de seus olhos. Pois, a claridade de seus olhos era o próprio Deus. Tendo-o ofendido, Adão fugiu para a sombra, e escondeu-se entre as árvores do paraíso (cf Gn 3,8). Tinha pavor da face de Deus, e procurou a sombra das árvores. Já no meio das árvores não tinha a claridade dos olhos, de que gozava habitualmente. Se ele, portanto, a perdeu originalmente, e nós, enquanto somos sua descendência, voltamo-nos para o segundo ou novo Adão, como seus membros, porque o novo Adão é espírito vivificante (cf 1Cor 15,45). E clamamos, no seu corpo, confessando: “Abandonou-me a claridade de meus olhos”. E este que confessa, já remido, já no corpo de Cristo, abandona-o a claridade de seus olhos? Abandona-o certamente; está, porém, com ele, enquanto é um daqueles que se recorda do sábado, dos que veem na esperança. Todavia, ainda não é aquela claridade, da qual se fala: “A ele me manifestarei” (Jo 14,21). Há certa luz, porque somos filhos de Deus, e de fato nós a conservamos na fé; mas ainda não se trata da luz que veremos. “Mas o que nós seremos ainda não se manifestou. Sabemos que por ocasião desta manifestação seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é” (1Jo 3,2). Agora há a luz da fé e a luz da esperança. “Enquanto habitamos neste corpo, estamos fora da nossa mansão; longe do Senhor, pois caminhamos pela fé e não pela visão” (2Cor 5,6.7). “E se esperamos o que não vemos, é na perseverança que o aguardamos” (Rm 8,25). Essas palavras são próprias de peregrinos, ainda fora da pátria. E ele diz com razão, diz com verdade; se não é mentiroso, confessará verdadeiramente: “Abandonou-me a claridade de meus olhos”. Todas essas coisas sofre o homem interiormente, onde se encontra consigo mesmo, em si, e para si; elas não provêm de nenhum outro, nem são para ninguém mais além de si mesmo. Ele próprio mereceu as penas acima enumeradas.

16 12Mas, seriam apenas estes os sofrimentos humanos? Interiormente os padecimentos vêm de si mesmo, exteriormente, porém, são provenientes daqueles entre os quais ele vive. Padece de Deus males, e é forçado a sofrer também os dos outros. Daí as duas palavras: “Purifica-me, Senhor, de meus pecados ocultos. E dos alheios, poupa teu servo” (Sl 18,13). Já confessou os pecados ocultos, dos quais quer ser purificado; diga também os alheios, dos quais quer ser poupado. “Amigos”. O que direi, então, dos inimigos? “Amigos e companheiros se aproximaram e pararam contra mim”. Entende bem o que quer dizer: “contra mim pararam”. Se pararam contra mim, caíram contra si. “Amigos e companheiros se aproximaram e pararam contra mim”. Já apreendemos as vozes da Cabeça, começa a brilhar nossa cabeça, na paixão. Mas ainda, ao começar a Cabeça a falar, não separes dela o corpo. Se a Cabeça não quis se separar da voz do corpo, ousará o corpo se separar da paixão da Cabeça? Sofre em Cristo, porque Cristo pareceu pecar em tua fraqueza. Pois, agora aludia a teus pecados com sua boca, e os dizia seus. Dizia: “Diante de meus pecados”, e eles não eram seus. Por conseguinte, como ele quis fossem seus os nossos pecados, por causa de seu corpo, assim também nós queiramos seja nossa a sua paixão, por causa de nossa Cabeça. Não aconteceu a ele ter de suportar amigos que se fizeram inimigos, e a nós, não. Ao contrário, também nós nos preparemos a participar do mesmo sofrimento; não recusemos beber de tal cálice, de sorte que, pela humildade encontremos o desejo de sua exaltação. Cristo respondeu aos apóstolos que ambicionavam obter a sua glória e ainda não cogitavam da humildade, do seguinte modo: “Podeis beber o cálice que estou para beber?” (Mt 20,22). Em consequência, a paixão do Senhor é nossa paixão. E se alguém serve diligentemente a Deus, com fidelidade, cumpra o que deve, conviva com justiça no meio dos homens; quero ver se não sofre, até mesmo o que Cristo enumera aqui acerca de sua paixão.

17 “Amigos e companheiros se aproximaram contra mim, e pararam. Meus vizinhos mantiveram-se a distância”. Quais os próximos que se aproximaram, e quais se mantiveram a distância? Próximos eram os judeus, porque eram da mesma nação. Aproximaram-se também quando o crucificaram. Próximos eram igualmente os apóstolos; e, no entanto, ficaram de longe, para não sofrerem com ele. Pode-se entender a expressão: “meus amigos”, isto é, que fingiram ser meus amigos. Fizeram-se de amigos, ao dizerem: “Sabemos que, de fato, ensinas o caminho de Deus” (Mt 22,16); quando quiseram pô-lo à prova, perguntando se convinha pagar o tributo a César, quando ele os convenceu, pela sua própria boca, eles queriam parecer amigos. Mas, ele não precisava de testemunho a respeito de homem algum, porque conhecia o que havia no homem (cf Jo 2,25). Por isso, tendo eles proferido palavras amigáveis, repondeu-lhes: “Hipócritas! Por que me pondes à prova?” (Mt 22,18). Por isso, “amigos e companheiros se aproximaram contra mim, e pararam. Meus vizinhos mantiveramse a distância”. Sabeis o que disse. Falei de companheiros que se aproximaram, e contudo se mantiveram a distância. Aproximaram-se corporalmente, mas mantiveram-se a distância pelo coração. Quais estavam mais próximos corporalmente do que os que o ergueram na cruz? Quais se achavam mais distantes pelo coração do que os que blasfemaram? Ouvi o profeta Isaías falar desta distância, vede esta proximidade e esta distância: “Este povo me glorifica com os lábios”; aproxima-se corporalmente: “mas o seu coração está longe de mim” (Is 29,13). Próximos e distantes são os memos: próximos com os lábios, distantes pelo coração. Todavia, como os apóstolos se detiveram, distantes, receosos, de maneira mais direta e clara a eles aplicamos estas palavras, entendendo que uns se achegaram e outros ficaram longe. De fato, até Pedro que o havia seguido com certa audácia, de tal modo ainda se achava longe que ao ser interrogado, se perturbou, e por três vezes negou o Senhor, com o qual prometera que haveria de morrer. Posteriormente, para se tornar mais próximo, ele que estava distante, ouviu, após a ressurreição, a pergunta: “Tu me amas?” (cf Mt 26,70; Jo 21,17). Respondeu: “Amo”. Assim falando se aproximava, ele que negando se tornara distante, até que pela tríplice palavra de amor fosse absolvido da tríplice negação. “Meus vizinhos mantiveram-se a distância”.

18 13“Os que tramavam contra minha vida, agiam com violência”. Evidencia-se que tramavam contra sua vida, os que não a possuíam, por não serem de seu corpo. Os que tramavam contra sua vida, estavam longe de sua vida; mas procuravam matá-lo. Procura-se a sua vida. É exato. Em outra passagem censura a outros: “Não há quem procure a minha vida” (Sl 141,5). Censura a alguns que não procuram a sua vida, e ainda condena a outros que procuram a sua vida. Quem é que procura com retidão a sua vida? Os que imitam a sua paixão. Quais são os que procuravam com má intenção a sua vida? Os que agiam com violência e o crucificavam.

19 Prossegue o salmista: “Os que procuravam males em mim, proferiram mentiras”. Qual o sentido da expressão: “Os que procuravam males em mim”? Procuravam muitas coisas, e não encontravam. Talvez queira dizer: Procuravam crimes em mim. Procuravam o que dizer contra ele, e não encontravam (cf Mt 26,59.60). Procuravam males num homem bom, procuravam crimes num inocente; quando encontrariam algo naquele que nenhum pecado cometera? Mas como procuravam pecado naquele que nenhum cometera, restava que inventassem o que não encontravam. Por isso: “Os que procuravam males em mim, proferiram mentiras”, não a verdade. “E urdiam enganos todos os dias”, isto é, sem cessar planejavam mentiras. Sabeis quantos falsos testemunhos foram levantados contra o Senhor, antes da paixão. Sabeis quantos falsos testemunhos, mesmo depois da ressurreição. Notai que mentira falaram aqueles soldados, guardas do sepulcro, a respeito dos quais disse Isaías: “Deram-lhe sepultura com os ímpios” (Is 53,9). (Eles eram maus e não quiseram declarar a verdade, e subornados, espalharam uma mentira.) Foram, também eles, interrogados, e disseram: “Seus discípulos vieram de noite, enquanto dormíamos e o roubaram” (Mt 28,13). Isto é que se chama falar coisas vãs. Se eles estavam dormindo, como sabiam o que acontecera?

20 14.15Por isso, diz o salmista: “Eu, porém, como se fosse surdo, nada ouvia”. Quem não dava resposta ao que ouvia, procedia como se não ouvisse. “Eu, porém, como se fosse surdo, nada ouvia e como se fosse mudo não abria a boca”. E repete: “Semelhante a alguém que não ouve e não tem réplica em sua boca”. Como se ele não tivesse o que lhes dizer, como se não tivesse o que recriminar. Anteriormente, já não censurara muitas coisas, não dissera muitas coisas, não declarara: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!” etc. (Mt 23,13)? No entanto, quando sofria, nada disso proferia. Não quer dizer que não tivesse o que dizer, mas esperava que se cumprisse nele todas as coisas, que se realizassem todas as profecias a seu respeito, conforme fora dito: “Como uma ovelha que permanece muda na presença de seus tosquiadores ele não abriu a boca” (Is 53,7). Convinha que se calasse na paixão, uma vez que não há de se calar no juízo. Viera, pois, para ser julgado, mas posteriormente virá para julgar. Há de julgar com grande poder, porque foi julgado enquanto se matinha em grande humildade.

21 16“Porque em ti depositei minha esperança, Senhor; e tu me escutarás, Senhor, meu Deus”. Prossegue, como se alguém lhe dissesse: Por que não abriste tua boca? Por que não disseste: Poupai? Por que, crucificado, não arguíste os iníquios? “Porque em ti depositei minha esperança, Senhor; e tu me escutarás, Senhor, meu Deus”. Admoestei-te a respeito do que hás de fazer, se ocorrer uma tribulação. Procuras defender-te, e talvez ninguém aceite tua defesa. Tu te perturbas, como se tivesses perdido tua causa, porque não tens defesa ou testemunho de ninguém. Conserva interiormente tua inocência, onde ninguém oprime a tua causa. Se prevaleceu contra ti o falso testemunho, foi diante dos homens; acaso isto valerá diante de Deus, onde tua causa será julgada? Quando Deus for juiz, não haverá outra testemunha do que a tua consciência. Entre um juiz justo e tua consciência, não temas a não ser acerca de tua causa. Se tua causa não for má, não recearás acusador algum, não refutarás falsa testemunha alguma, não procurarás nenhuma verdadeira. Apenas apresenta uma boa consciência, de sorte a poderes dizer: “Porque em ti depositei minha esperança, Senhor; e tu me escutarás, Senhor, meu Deus”.

22 17“Pois disse: Não zombem de mim meus inimigos. Arrogantes, falaram contra mim, quando os meus pés resvalaram”. Novamente volta à fraqueza de seu corpo, e a Cabeça mais uma vez atende a seus pés. Ela não se acha no céu de tal modo que abandone o que possui na terra. De fato, dá atenção, ela nos vê. Às vezes, como acontece nesta vida, nossos pés resvalam e caem em algum pecado; logo aparecem as línguas malignas dos inimigos. Então ficamos cientes, mesmo quando calavam os que procuravam. Falam então asperamente, sem compaixão, alegrando-se de ter encontrado atos de que deviam se condoer. “Pois disse: Não zombem de mim meus inimigos”. Disse isto. Talvez para minha emenda permitiste que falassem com arrogância a meu respeito, “quando os meus pés resvalaram”, isto é, orgulharam-se, disseram muito mal, quando eu estava abalado. Deviam ter-se compadecido dos fracos e não se alegrar, conforme se exprime o Apóstolo: “Irmãos, caso alguém seja apanhado em falta, vós, os espirituais, corrigi esse tal com espírito de mansidão”. E completa: “cuidando de ti mesmo, para que também tu não sejas tentado” (Gl 6,1). Não eram do número destes aqueles dos quais se disse: “Arrogantes, falaram contra mim, quando os meus pés resvalaram”, mas eram tais como foram descritos em outra passagem: “Meus opressores exultarão se eu ficar abalado” (Sl 12,5).

23 8“Estou preparado para os castigos”. Absolutamente magnífico! Como se dissesse: Nasci para suportar castigos. Só podia nascer de Adão, que merecia castigo. Mas, algumas vezes os pecadores nesta vida são pouco ou nada castigados, porque sua meta já não dá esperanças. Ao invés, aqueles para os quais está preparada a vida eterna, forçoso é que aqui sejam castigados, porque é verdadeira a sentença: “Meu filho, não desprezes a disciplina do Senhor, nem te canses com a sua exortação; porque o Senhor repreende os que ele ama, como um pai castiga o filho preferido” (Pr 3,11.12). Portanto, não me insultem os inimigos, não falem, com arrogância; e se meu Pai me castiga, “estou preparado para os castigos”, porque me está reservada a herança. Se não queres o castigo, não te é dada a herança. É necessário castigar os filhos. Todo filho é castigado, a tal ponto que Deus não poupou aquele que não cometeu pecado (cf Rm 8,32; 1Pd 2,22). “Estou preparado para os castigos”.

24 18-19“E minha dor é contínua”. Qual? Talvez a do castigo. E é verdade, meus irmãos, dir-vosei a verdade, os homens lastimam os castigos, mas não lastimam o motivo deles. O salmista não agia deste modo. Ouvi, meus irmãos. Qualquer que sofra prejuízo, sente-se inclinado a dizer: Sofro sem merecer, em vez de ponderar por que razão sofreu. Lastima o prejuízo pecuniário, mas não o da justiça. Se pecaste, fica pesaroso por teu tesouro interior; nada tens em casa, mas provavelmente estás mais despojado no coração. Se o coração está cheio daquele que é o seu bem, o teu Deus, por que não dizes: “O Senhor o deu, o Senhor o tirou; como foi do agrado do Senhor assim se fez; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1,21)? Qual era sua dor? Por causa do flagelo que o castigava? De forma nenhuma. Disse ele: “E minha dor é contínua”. E como se perguntássemos: Que dor? De onde vem? Porque, diz ele, “confesso minha iniquidade e o meu pecado me angustia”. Eis a proveniência da dor. Não se origina do flagelo. Procede da ferida, não do tratamento. Pois, o flagelo é o medicamento contra os pecados. Ouvi, irmãos: Somos cristãos. No entanto, frequentemente se um filho morre, o pai o chora; se peca, não chora. Seria de chorar, de lamentar, vê-lo pecar. Então, devia moderá-lo, então devia ensinar-lhe a norma de viver bem, impor-lhe uma disciplina. Ou, se o pai fez tudo isso e ele não ouviu, era lastimável. Ele estava em pior estado, ao viver como morto, na luxúria, do que se morresse, pondo termo à luxúria. Quando ele assim agia em tua casa, não somente estava morto, mas ainda estava fétido. Isso é que é lastimável; no primeiro caso tratava-se de suportar, de aguentar, mas aqui é lastimável. Seria de chorar, porém, como ouvistes que o salmista se lastimava: “Confesso minha iniquidade e o meu pecado me angustia”. Não te sintas seguro, quando houveres confessado teu pecado; mas sempre estás pronto a confessar e a cometer pecados. Confessa tua iniquidade, mas preocupa-te com teu pecado. O que significa: preocupa-te com teu pecado? Cuida de tua ferida. Se disseres: Cuido de minha ferida, o que se entende, senão: Empenho-me em curá-la? Preocupar-se com o próprio pecado quer dizer sempre se esforçar, se empenhar, sempre agir diligentemente, com aplicação para curar o pecado. Está bem. Choras teu pecado, todos os dias, mas talvez corram as lágrimas, e as mãos fiquem ociosas. Deem-se esmolas, para a remissão dos pecados. Alegre-se o necessitado com tua dádiva e tu te alegres com o dom de Deus. Ele necessita, mas também tu estás necessitado; ele precisa de ti, e tu precisas de Deus. Tu desprezas o necessitado de ti, e Deus não te despreza, quando precisando dele? Portanto, socorre ao pobre indigente, a fim de que Deus encha o teu íntimo. “O meu pecado me angustia”, isto é, farei tudo o que devo fazer para apagar e curar o meu pecado. “O meu pecado me angustia”.

25 20“Entretanto, os meus inimigos vivem”. Estão bem, gozam de felicidade no mundo, enquanto eu labuto, e arranca-me rugidos o gemido de meu coração. Como vivem os inimigos daquele que já disse a respeito de seus inimigos que eles proferem coisas vãs? Ouve também o que se acha em outro salmo: “Cujos filhos são como plantas novas”. Um pouco mais acima havia dito: “Cuja boca falou o que é vão. As filhas deles estão cobertas de ornatos à semelhança de um templo. Seus celeiros estão atulhados, a transbordarem de toda espécie de frutos. Seus bois são gordos. Suas ovelhas são fecundas e multiplicam-se nas pastagens. Não há brecha nas sebes. Não há clamor em suas praças” (Sl 143,12-15). Meus inimigos, portanto, têm vida próspera; isto é que é vida, a esta vida eles louvam, amam, e a levam, para sua perdição. Como continua o salmo? “Eles denominam feliz o povo que goza destes bens”. E tu, cujo pecado angustia, o que dizes? “Feliz é o povo que tem o Senhor por seu Deus (ib 15). Entretanto, os meus inimigos vivem e são mais fortes do que eu e são muitos os que me odeiam iniquamente”. Qual o significado de: “Os que me odeiam iniquamente”? Eles odiaram a alguém que lhes desejava o bem. Não seriam bons se pagassem o mal com o mal; se não retribuíssem o bem, seriam ingratos; estes, porém, que odiaram injustamente pagam o bem com o mal. Tais foram os judeus. Cristo veio para eles, trazendo bens, e eles lhe restribuíram o bem com o mal. Acautelai-vos a respeito deste mal, irmãos; logo se insinua. Se dissemos: Tais eram os judeus, não pense cada um de vós que constitui uma exceção. Suponhamos que um irmão te corrija, querendo o teu bem; tu o odeias, e te tornas um destes. Vede como logo acontece, como é fácil; e evitai tão grande mal, tão ágil pecado.

26 21“Falavam mal de mim os que retribuem o bem com o mal, porque persegui a justiça”. Por conseguinte, o mal em paga do bem. O que significa: “porque persegui a justiça”? Não a abandonei; para que não entendas a palavra perseguição sempre em mau sentido, o salmista disse: “persegui”, segui perfeitamente: “Porque persegui a justiça”. Ouve nossa Cabeça a gemer na paixão: “E rejeitaram-me a mim, o bem amado, qual um morto abominável”. Era pouco estar morto? Por que ainda abominável? Porque crucificado. De fato, a morte de cruz era para os judeus a maior abominação, porque não entendiam a profecia: “Pois o que for suspenso é um maldito” (Dt 21,23). Não foi o crucificado que introduziu a morte no mundo, mas a encontrou difundida aqui, pela maldição do primeiro homem; mas ele aceitou a nossa mesma morte, proveniente do pecado, e a suspendeu no madeiro. Por isso, a fim de que alguns não pensassem, como opinam alguns hereges1 , que nosso Senhor Jesus Cristo teve uma carne falsa, e não solveu na cruz o débito de uma morte verdadeira, o profeta dá atenção ao fato, e diz: “Pois o que for suspenso é um maldito” (Dt 21,23). Mostrou, portanto, que o Filho de Deus morreu verdadeiramente, conforme à carne mortal, a fim de não julgares que não morrera verdadeiramente, se não fosse maldito. Aquela morte não era falsa, mas provinha da propagação do gênero humano, maldito na origem, segundo dissera Deus: “Morrerás” (cf Gn 2,17). Absolutamente. Como a ele chegou a verdadeira morte, para que chegássemos à verdadeira vida, também caiu sobre ele a maldição da morte para que alcançássemos a bênção da vida. “E rejeitaram-me a mim, o bem amado, qual um morto abominável.”

27 22“Não me abandones, Senhor meu Deus, não te retires de mim”. Digamos nele, digamo por ele; ele intercede por nós (cf Rm 8,34). E rezemos: “Não me abandones, Senhor meu Deus”. E no entanto ele dissera: “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?” (Mt 27,46 e Sl 21,2). Aqui, profere: “Meu Deus, não te retires de mim”. Se Deus não se retira do corpo, há de se retirar da Cabeça? De quem era essa voz, senão do primeiro homem? Cristo, para mostrar que possuía verdadeira carne, oriunda daquele, diz: “Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?” Deus não o abandonou. O Deus único, Pai, Filho, e Espírito Santo, não te abandona, a ti, que nele crês; haveria de abandonar a Cristo? Mas ele tomara o lugar do primeiro homem. Sabemos, segundo o dito do Apóstolo, que “nosso velho homem foi crucificado com ele” (Rm 6,6). Estaríamos no estado antigo, se ele não tivesse sido crucificado, no estado de nossa fraqueza. Veio para que fôssemos renovados, nele. Renovamo-nos, desejando-o e imitando sua paixão. Era a voz de nossa fraqueza, nossa voz, que fazia a pergunta: “Por que me desamparaste?” Daí vem a palavra daquele salmo: “As vozes de meus delitos” (Sl 21,2), como se dissesse: Assumi estas palavras, em lugar dos pecadores. “Não te retires de mim”.

28 23“Vem em meu socorro, Senhor Deus de minha salvação”. Esta, irmãos, é a salvação procurada pelos profetas, conforme diz o Apóstolo Pedro, mas não a receberam os que a procuravam (cf 1Pd 10,12); mas inquiriram e a anunciaram. Viemos nós e encontramos o que eles procuraram, porém, ainda não o recebemos; nascerão outros depois de nós, e encontrarão o que nem eles haverão de receber e passarão, para que todos nós juntos, no fim do dia, recebamos o denário (cf Mt 20,9) da salvação, com os patriarcas, os profetas e os apóstolos. Efetivamente, sabeis que os mercenários ou operários, contratados em diferentes épocas para a vinha, receberam, no entanto, igual recompensa. Tanto os profetas, portanto, como os apóstolos e mártires, e também nós, e os que virão depois de nós até o fim dos séculos, no fim haveremos de receber a salvação eterna. Contemplando a glória de Deus, e vendo sua face, havemos de louvá-lo eternamente, sem desfalecer, sem qualquer pena da iniquidade, nem perversidade do pecado. Louvaremos a Deus, não mais suspirando, mas aderindo a ele; até o fim suspirávamos por ele, nos alegrávamos por sua causa, na esperança. Estaremos naquela cidade, onde nosso bem é Deus, nossa luz é Deus, nosso pão é Deus, nossa vida é Deus. Encontraremos nele todo o nosso bem, em vista do qual labutamos em nossa peregrinação. Nele estará o repouso, cuja recordação forçosamente agora nos causa dor. Recordamo-nos daquele sábado, acerca do qual tanto falamos, e tanto devemos falar. E ao falarmos, nunca devemos calar, não pela boca, mas pelo coração, porque nossa boca há de calar de sorte que possamos clamar de todo o coração.

1 Os maniqueus.

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

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