Comentário de Santo Agostinho ao Salmo 35

SERMÃO AO POVO

1 2Peço a V. Caridade um pouco de atenção ao texto e aos mistérios deste salmo, e percorramo-lo, porque em muitos lugares ele é claro. Quando a obscuridade do trecho obrigarnos a nos deter, deveis suportá-lo, para obter o fruto desejado: aprender. “Disse o injusto a si mesmo que pecaria. Não há temor de Deus diante de seus olhos”. Não é um homem sozinho que fala, mas toda a espécie de homens iníquos, que lutam contra si mesmos, não entendem a fim de viverem bem, e isto, não porque não podem, mas porque querem. Uma coisa é quando alguém se esforça por entender algo, e não o consegue devido à fraqueza da carne, conforme se encontra em certa passagem da Escritura: “Um corpo corruptível pesa sobre a alma, e – tenda de argila – oprime a mente pensativa” (Sb 9,15); outra questão é se o coração humano age de modo pernicioso contra si mesmo, de sorte a não entender o que pode entender, se tiver boa vontade. Não porque seja difícil, mas porque a vontade é contrária. Acontece isto quando os homens amam os seus pecados, e odeiam os preceitos de Deus. A palavra de Deus é teu adversário, se és amigo de tua iniquidade: se, porém, és adversário de tua iniquidade, a palavra de Deus te mostra amizade e opõe-se a tua iniquidade. Se, portanto, odeias a tua iniquidade, ficas unido à palavra de Deus; e serão dois contra ela para eliminá-la, tu e a palavra de Deus. Por tuas próprias forças nada podes; vem em auxílio aquele que te enviou sua palavra, e a iniquidade é vencida. Se a odiaste tu também, Deus perdoou, e estás livre; se, porém, a amas, contraria-te o que ouvires dizer contra ela. Suponhamos alguém que procure saber como o Filho é igual ao Pai; crê, procura entender, mas ainda não pode. É questão importante, e ele deseja capacidade maior de entender. É o princípio da fé, que guarda a alma até que se fortifique. Ela se nutre de leite para chegar ao hábito e à força de tomar alimento mais sólido; a fim de poder entender que: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). Antes de chegar a tanto, a fé a sustenta; esforça-se por entender, para chegar até onde Deus lhe conceder. Será também necessário esforço para entender o seguinte: “Não faças a ninguém o que não queres que te façam” (Tb 4,15)? Quer dizer, não faças o mal se não queres sofrer por causa de uma iniquidade; se não queres sofrer em consequência de um dolo e de insídias, não armes ciladas a outrem? Não querer entender isto é atribuível à tua vontade. Por isso, “disse o injusto a si mesmo que pecaria”, propôs-se pecar.

2 Mas, acaso, quem se propõe pecar, di-lo publicamente, e não a si mesmo? Por que a si mesmo? Porque lá outro não vê. Mas, se outro homem não vê dentro do coração onde ele diz a si mesmo que há de pecar, Deus não vê? Deus vê. Mas, como prossegue o salmista? “Não há temor de Deus diante de seus olhos”. Tem diante dos olhos o temor de outros homens. Pois não ousa publicamente confessar o mal, para que não seja censurado, ou condenado pelos homens. Afasta-se das vistas humanas. Para onde? Para si mesmo! Vai ao seu interior, e ninguém o vê. Ali planeja dolos e insídias e pecados. Ninguém vê. Poderia não planejar ali consigo mesmo, se pensasse que Deus o vê, mas como não há temor de Deus diante de seus olhos, quando se retira do olhar dos homens em seu coração, a quem há de temer ali? Acaso Deus ali não está presente? Mas não há temor de Deus diante de seus olhos.

3 3Por conseguinte, trama fraudes; continua o salmo. (Talvez não saiba ele que Deus vê o coração? Evidencia-se o que eu começara a dizer: Não sabe, porque não quer; agiu contra si mesmo, não querendo entender): “Porque ele agiu dolosamente em sua presença”. De quem? Daquele cujo temor não existe diante dos olhos de quem agiu dolosamente. “Para que sua iniquidade não seja descoberta e detestada”. Agiu de modo a não ser descoberta uma inquidade. Existem homens que parecem esforçar-se na procura da iniquidade, mas têm medo de encontrá-la; porque se a encontrarem, alguém pode dizer-lhes: Renuncia a ela: fizeste isto sem saber, praticaste a iniquidade na ignorância, por isso Deus perdoa. Agora a conheces; abandona-a para ser facilmente perdoada tua ignorância, e poderes dizer a Deus livremente: “Não te lembres dos pecados de minha juventude e de minha ignorância” (Sl 24,7). Procura o mal, mas teme encontrá-lo; é dolo. Quando é que o homem pode dizer: Não sabia que era pecado? Quando, ao ver que é pecado, desistir de fazê-lo, porque o praticava por ignorância. Em verdade, quis conhecer a iniquidade, para encontrá-la e odiá-la. Agora muitos agem dolosamente, quando querem encontrar a iniquidade, isto é, não agem sinceramente para encontrar e evitar. Mas quando na própria procura há dolo, ao encontrar torna-se defesa da iniquidade. Tendo encontrado a iniquidade, já lhe é manifesto que se trata de mal. Dize-lhe: Não faças isto. E aquele que agia dolosamente para encontrar, que já encontrou e não evitou, o que diz? Quantos agem assim? Quem é que não faz isto? Deus há de condenar todos esses? Ou responde: Se Deus não quisesse isto, os homens que cometem esses pecados continuariam a viver? Vês que agias dolosamente para descobrir a tua iniquidade? Pois, se tivesses agido sinceramente e não dolosamente, já a terias descoberto e detestado. Agora descobriste e defendes: portanto, agias dolosamente quando procuravas.

4 4“As palavras de sua boca são más e enganosas. Não quis entender para agir bem”. Vedes que se trata da vontade. Há homens que querem entender, e não podem; existem outros que não querem entender, e por isso não entendem. “Não quis entender para agir bem”.

5 5“No leito tramou o crime”. Por que disse: “no leito? Disse o injusto a si mesmo que pecaria”. Acima acha-se: “a si mesmo”, e aqui: “no leito”. Leito é nosso coração; ali sofremos o tumulto de uma consciência pesada, ali repousamos quando a consciência está tranquila. Quem gosta do leito de seu coração, faça algum bem ali. Este é o leito no qual nosso Senhor Jesus Cristo nos ordena rezar: “Entra no teu quarto, e fecha a porta” (Mt 6,6). O que significa: “fecha a porta”? Não esperes de Deus coisas exteriores, mas interiores, “e o teu Pai, que vê o que está oculto, te recompensará”. Quem é que não fecha a porta? Quem suplica a Deus os bens deste mundo como coisa importante, concentrando nisto seus pedidos. Tua porta se abriu, e a turba vê quando oras. O que quer dizer: fechar a porta? Pedir a Deus o que só Deus sabe como há de te conceder. Qual o bem que te faz fechar a porta e rezar? O que o olho não viu, nem o ouvido ouviu, e o coração do homem não percebeu (cf 1Cor 2,9). E talvez não tenha surgido em teu leito, isto é, em teu coração. Mas Deus sabe o que há de te dar. Mas, quando? Quando o Senhor se revelar, quando aparecer o juiz. O que há de mais claro do que a palavra que há de proferir para os que estão à direita? “Vinde, benditos de meu Pai, recebei por herança o Reino preparado para vós desde a criação do mundo” (Mt 25,34). Ouvirão estas palavras os da esquerda, e gemerão com remorsos inúteis, porque enquanto viviam não quisseram praticar uma penitência frutuosa. Como gemerão? Por não ser mais possível a correção. Mas, eles também ouvirão uma palavra: “Ide para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos” (Mt 25,41). Sentença péssima. Os justos se alegrarão ao ouvirem a boa palavra, conforme está escrito: “A lembrança do justo será eterna; não temerá ouvir palavra má” (Sl 111,7). Qual palavra má? A que os maus ouvirão: “Ide para o fogo eterno”. Deus, portanto, pode fazer mais do que pedimos ou entendemos (cf. Ef 3,20); atende a nosso gemido oculto, para nos tornarmos agradáveis a sua presença, e não falarmos com jactância de nossa justiça perante os homens. Quem procura agradar aos homens, sem visar a que os que o veem louvem a Deus, mas com a intenção de ser louvado ele mesmo, não fecha a porta, defendendo-se do barulho. Abre-se a porta àquele ruído, e não se ouve a Deus como ele quer ser ouvido. Trabalhemos, pois, para purificar o nosso coração, para que ali possamos nos sentir bem. V. Caridade está ciente de como muitos sofrem tanto publicamente, no foro, nos pleitos, nas contendas, nas dificuldades dos negócios; sabe como o homem, fatigado com os negócios de fora, corre para casa para descansar, e se empenha em acabar depressa com as ocupações exteriores para repousar em casa. Cada qual tem sua casa e lá repousa. Se, ao invés, lá também sofre incomodidades, onde poderá descansar? E então? É bom que ao menos em casa esteja tranquilo. Se, porém, fora tem inimigos, e dentro talvez uma esposa má, vai para a rua. Quando quer descansar das dificuldades externas, entra em casa. Se aí não encontra tranquilidade, nem fora, onde haverá repouso? Ao menos no recinto do coração. Possas entrar no íntimo de tua consciência. Se lá encontras talvez a esposa, que não te amargura a vida, a sabedoria de Deus, une-te a ela, descança no teu íntimo; não te expulse dali a fumaça de uma consiência onerada. Aquele homem, ao invés, que entrava para planejar fraudes, conforme diz a Escritura, lá onde os homens não veem, tramava tais feitos que nem em seu próprio coração podia descansar. “No leito tramou o crime”.

6 “Deteve-se em todos os maus caminhos”. Que sentido tem a expressão: “deteve-se”? Perseverou no pecado. Daí se dizer acerca de um homem piedoso e bom: “Não se deteve no caminho dos pecadores” (Sl 1,1). Este não se deteve, mas aquele parou. “Não detestou o mal”. Ali encontra-se o fim e o fruto; se ele não pode deixar de sentir a malícia, ao menos a odeie. Se a odiares, quase não há de te sugerir alguma ação má. O pecado habita, de fato, no corpo mortal; mas o que diz o Apóstolo? “O pecado não impere mais em vosso corpo mortal, sujeitando-vos às suas paixões” (Rm 6,12). Quando começará a não existir mais? Quando “o que é corruptível revestir a incorruptibilidade, e o que é mortal revestir a imortalidade” (cf 1Cor 15,53). Até que isto se realize, haverá o deleite de iniquidade no corpo; maior, porém, é o deleite aprazível da palavra da sabedoria, do preceito de Deus. Vence o pecado e o seu atrativo. Hás de odiar o pecado e a iniquidade para te unires a Deus, que te ajudará a odiá-lo. Unido pela mente à lei de Deus, pela mente serves à lei de Deus. E se devido à carne serves à lei do pecado (cf Rm 7,25), existirem em ti alguns deleitos carnais, estes não existirão mais quando terminar a luta. Uma coisa é não lutar, e estar na paz verdadeira e eterna, outra lutar e vencer, outra ainda lutar e ser vencido, outra sem lutar, mas ser arrastado. Existem efetivamente homens que não lutam, como aquele a que se refere o salmo. Pois, diz: “Não detestou o mal”; como lutará contra quem não o odeia? Este é arrastado pela malícia, sem luta. Há, porém, os que começam a combater; mas como presumem das próprias forças, Deus, querendo mostrar-lhes que é ele quem vence, se o homem se submete a Deus, apesar de lutar são vencidos; quase alcançam a justiça, tornam-se soberbos, e escorregam. Combatem eles, mas são vencidos. Quem é, porém, o que luta e não é vencido? É aquele que diz: “Percebo outra lei em meus membros, que peleja contra a lei da minha razão” (Rm 7,23-25). Vê o lutador. Mas como ele não presume de suas forças, será vencedor. Como continua? “Infeliz de mim! Quem me libertará desde corpo de morte? A graça de Deus, por Jesus Cristo nosso Senhor”. Conta com aquele que mandou-o lutar, e vence o inimigo, auxiliado por aquele que manda. Ao contrário, o outro “não detestou o mal”.

7 6“Aos céus, Senhor, atinge a tua misericórdia e a tua fidelidade, às nuvens”. Não sei o que chama de sua misericórdia no céu, porquanto existe também na terra a misericórdia do Senhor. Está escrito: “Da misericórdia do Senhor está cheia a terra” (Sl 32,5). De que misericórdia fala, então, aqui: “Senhor, aos céus atinge a tua misericórdia”? Os dons de Deus são parcialmente temporais e terrenos, parcialmente eternos e celestes. Quem adora a Deus por causa disso, a fim de receber estes bens terrenos e temporais, que são accessíveis a todos, é ainda semelhante a um animal; utiliza a misericórdia de Deus, mas não aquela reservada, concedida apenas aos justos, santos, bons. Quais os dons abundantes para todos? “Vosso Pai faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons, e cair a chuva sobre justos e injustos” (cf Mt 5,45). A quem não chega esta misericórdia de Deus, em primeiro lugar para existir, para ser distinto dos animais, a fim de ser um animal racional que possa conhecer a Deus, em seguida usufruir desta luz, deste ar, da chuva, dos frutos, da diversidade das estações, dos alívios terrenos, da saúde corporal, da afeição dos amigos, da incolumidade de sua casa? Todos esses são bens, são dons de Deus. Não julgueis, irmãos, que possa dá-los alguém, a não ser Deus só. Quem, portanto, não os espera senão do Senhor, é bem diferente daqueles que os procuram junto dos demônios, dos agoureiros, dos astrólogos. São infelizes duplamente: porque só ambicionam bens terrenos e porque não os pedem ao doador de todos os bens. Os que anelam por estes bens, e querem ser felizes com eles, pedindo a Deus somente estes, são melhores do que os outros, porque os pedem a Deus; mas ainda estão em perigo. Dirá alguém: Em que periclitam? Às vezes, de fato, consideram os eventos humanos, e veem que os ímpios e iníquios têm em abundância todos esses bens terrenos, objeto de seus desejos, e acham que perderam o tempo em adorar a Deus, pois têm aquilo que os maus também possuem, enquanto não adoram a Deus como eles; ou, por vezes os adoradores não têm, e alcançam-no os que blasfemam; portanto, estão ainda em perigo.

8 O salmista em verdade entendeu que misericórdia há de suplicar a Deus. “Aos céus, Senhor, atinge a tua misericórdia e a tua fidelidade, às nuvens”, isto é, a misericórdia que concedes a teus santos é celeste, não terrena; eterna, não temporal. E como pudeste anunciá-la aos homens? Porque a “tua fidelidade, às nuvens atinge”. Quem poderia conhecer a celeste misericórdia de Deus, se Deus não a anunciasse aos homens? Como a anunciou? Enviando a sua fidelidade até às nuvens. Quais são as nuvens? Os pregadores da palavra de Deus. Daí encontrar-se em certa passagem que Deus se irou contra determinada vinha. Calculo que V. Caridade entendeu, ouviu o profeta Isaías dizer a respeito de certa vinha: “Esperava que ela produzisse uvas, mas só produziu espinhos”. E concluiu da seguinte maneira, para que ninguém pensasse que ele se referia a uma vinha visível: “A vinha do Senhor dos exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a sua plantação preciosa”. Por conseguinte censurava a vinha, que ele esperava produzisse uvas, mas deu somente espinhos. O que disse? “Quanto às nuvens, ordenar-lhes-ei que não derramem a sua chuva sobre ela” (Is 5,4.7.6). Foi irado que Deus assim se exprimiu: “Quanto às nuvens, ordenar-lhes-ei que não derramem a sua chuva sobre ela”. De fato, assim se fez. Os apóstolos foram enviados como pregadores. Encontramos nos Atos dos Apóstolos que o apóstolo Paulo queria pregar aos judeus, e não encontrou uvas e sim espinhos: começaram a retribuir o bem com o mal e a perseguir. Realizou-se de certo modo a palavra: “Quanto às nuvens, ordenar-lhes-ei que não derramem a sua chuva sobre ela. Era a vós que fôramos enviados, mas como rejeitais a palavra de Deus, nós nos voltamos para os gentios” (cf At 13,46). Cumpriu-se, portanto, a palavra: “Quanto às nuvens, ordenar-lhes-ei que não derramem a sua chuva sobre ela”. A fidelidade atingiu as nuvens; por isso pôde ser anunciada a misericórdia de Deus no céu e não na terra. De fato, irmãos, nuvens são os pregadores da palavra da verdade. Quando Deus ameaça através dos pregadores, troveja pelas nuvens. Quando Deus faz milagres através dos pregadores, relampeja pelas nuvens, aterroriza por meio das nuvens, e irriga pela chuva. Os pregadores, por conseguinte, que anunciam o evangelho de Deus, são as nuvens de Deus. Esperemos, pois a misericórdia, mas aquela que está no céu.

9 7“A tua justiça é como as montanhas de Deus; os teus juízos como o abismo profundo”. Quais são as montanhas de Deus? As nuvens identificam-se com as montanhas de Deus: grandes pregadores, montanhas de Deus. Ao nascer, o sol primeiro reveste de luz as montanhas, e de lá a luz desce as partes mais baixas da terra; assim nosso Senhor Jesus Cristo, em sua vinda, primeiro irradiou luz sobre as alturas dos apóstolos, antes iluminou os montes, e de lá a luz desceu aos vales da terra. Por isto diz certo trecho de um salmo: “Ergui os olhos para os montes, para ver de onde me viria o auxílio” (Sl 120,12). Mas, não penses que os próprios montes te darão auxílio; eles recebem para dar; não dão do que é seu. Se permaneceres nos montes, não será firme tua esperança; mas deposita tua esperança e confiança naquele que ilumina as montanhas. Tua ajuda virá dos montes, porque as Escrituras te foram ministradas pelos montes, pelos grandes pregadores da verdade; mas não deposites neles tua esperança. Ouve o que diz o salmo, em seguida: “Ergui os meus olhos para os montes, para ver de onde me viria o auxílio”. E então? Os montes te ajudam? Não! Ouve como continua: “O meu auxílio vem do Senhor, que fez o céu e a terra”. O auxílio parte dos montes, mas não procede deles mesmos. Mas, de quem? “Do Senhor, que fez o céu e a terra”. Existiam outras montanhas; se alguém dirigisse o navio, orientado por elas, naufragaria. Pois, emergiram uns chefes de hereges, e eram montes. Ario era um monte, Donato era um monte, Maximiano1 agora quase se tornou um monte. Muitos, fixando os olhos nesses montes e dirigindo-se para a terra, querendo fugir das ondas, foram lançados contra os rochedos, e naufragaram em terra. Não seduziam tais montes àquele que disse: “No Senhor eu confio. Porque dizeis a minha alma: Foge para os montes como o pássaro” (Sl 10,2)? Não quero pôr minha esperança em Ario, nem em Donato. “O meu auxílio vem do Senhor, que fez o céu e a terra”. Aprendei quanto deveis presumir de Deus, e quanto atribuir aos homens; porque é maldito todo aquele que põe a sua esperança em um homem (cf Jr 17,5). O santo apóstolo Paulo, com modéstia e humildade, zelando bem pela Igreja, mas para o esposo, não para si, e tendo horror daqueles que quiseram dizer: “Eu sou de Paulo, eu sou de Apolo” (1Cor 3,4), tomou antes o seu lugar, humilhando-se e desprezando-se, para glorificar a Cristo: “Paulo terá sido crucificado em vosso favor? Ou fostes batizados em nome de Paulo” (1Cor 1,13)? Repele de si, mas para enviar a Cristo. Não quer que a esposa ame em lugar do esposo nem mesmo ao amigo do esposo. Amigos do esposo são os apóstolos. Igualmente aquele humilde João, que era tido como sendo Cristo, tinha zelo por este esposo. Daí declarar: “Eu não sou o Cristo, mas aquele que vem depois de mim, do qual não sou digno de desatar a correia da sandália, é maior do que eu” (Jo 20,27). Verdadeiramente, quem se humilha tanto, mostra que não é o esposo, e sim o amigo do esposo. Em consequência, diz: “Quem tem a esposa é o esposo: mas o amigo do esposo, que está presente e o ouve, é tomado de alegria à voz do esposo” (Jo 3,29). E se o amigo do esposo é um monte, ele não tem contudo a luz por si mesmo; mas ouve, e alegra-se à voz do esposo. Diz: “De sua plenitude todos nós recebemos” (Jo 1,16). De qual plenitude? Da plenitude daquele que “era a luz verdadeira que ilumina todo homem que veio ao mundo” (ib 1,9). Para ele o Apóstolo zelava pela Igreja, dizendo: “Considerem-nos os homens como servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus” (1Cor 4,1), quer dizer: “Ergui os olhos para os montes, para ver de onde me viria o auxílio. Considerem-nos os homens como servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus”. Mas para que novamente a tua esperança não se firme nos montes e sim em Deus, ouve: “Eu plantei; Apolo regou; mas era Deus quem fazia crescer”; e: “Aquele que planta, nada é; aquele que rega, nada é” (1Cor 3,6.7). Já disseste, portanto: “Ergui os meus olhos para os montes; de onde me viria o auxílio?” mas como “aquele que planta, nada é, aquele que rega, nada é”, dize: “O meu auxílio vem do Senhor, que fez o céu e a terra”; e: “A tua justiça é como as montanhas de Deus”, a saber, os montes estão cheios de tua justiça.

10 “Os teus juízos, como o abismo profundo”. Chama de abismo as profundezas dos pecados. Lá chega quem despreza a Deus, conforme se encontra em determinada passagem: “Deus os entregou, segundo o desejo dos seus corações, à impureza”. V. Caridade preste atenção. É questão importante, grande questão. O que significa: “Deus os entregou, segundo o desejo dos seus corações, à impureza”? Será porque Deus os entregou aos desejos dos seus corações, à impureza, que praticam tanto mal? Suponhamos que alguém proponha a pergunta: Se é Deus quem os leva a fazerem o que não convém, eles mesmos o que fizeram? É realidade oculta que ouviste contar: “Deus os entregou, segundo o desejo dos seus corações”. Havia, portanto, a concupiscência, que eles não quiseram vencer; foram entregues ao juízo de Deus. Mas, para merecerem ser entregues, vê o que o Apóstolo declara deles mais acima: “Tendo conhecido a Deus, não o honraram como Deus, nem lhe renderam graças; pelo contrário, eles se perderam em vãos arrazoados e seu coração insensato ficou nas trevas”. De onde se originou isto? Da soberba. “Jactando-se de possuir a sabedoria, tornaram-se tolos” (Rm 1,21.22.24). Daí já se conclui: “Deus os entregou, segundo o desejo de seus corações”. Eram soberbos, ingratos. Mereceram ser entregues às concupiscências de seus corações, e caíram no abismo profundo, de sorte que não só pecaram, mas também agiam como tolos, para não entenderem a própria iniquidade, e não a detestarem. A profundeza da malícia consiste em não querer descobrir e detestar. Vê como alguém cai nessas profundezas: “Os juízos de Deus são como o abismo profundo”. A justiça de Deus é como as suas montanhas, que se tornam grandes por sua graça; assim também por seus juízos caem no abismo, os que submergem nas profundezas do mal. Por esta justiça, aprazam-te os montes, por ela fujas do abismo, e te convertas a procurar o que se diz: “O meu auxílio vem do Senhor”. Mas, por que razão? Porque “ergui os meus olhos para os montes”. Qual o sentido disso? Direi em vernáculo: Na Igreja de Cristo encontras o abismo, encontras também os montes: descobres aí menos bons, porque os montes são poucos, e o abismo é dilatado, isto é, são muitos os que vivem mal, sob a ira de Deus. Agiram de tal modo que mereceram ser entregues aos desejos de seu coração: defendem seus pecados, e não os confessam, mas dizem: Por quê? O que fiz? Também ele cometeu aquele pecado; outro fez aquilo. Querem até defender o que a palavra divina condena; eis um abismo. Por isso, diz certa passagem da Escritura (um abismo): “O pecador quando atinge o profundo dos males, despreza” (cf Pr 18,3). Eis que “os teus juízos são como o abismo profundo”. Mas, ainda não és monte, e nem és abismo; foge do abismo, dá atenção aos montes, mas não pares neles. Pois, o teu auxílio vem do Senhor, que fez o céu e a terra.

11 7.8“Salvaste os homens e os animais, Senhor. Como se multiplicou a tua misericórdia, ó Deus”. Tendo dito o salmista: A tua misericórdia está no céu, para que se saiba que também está na terra, acrescentou: “Salvaste os homens e os animais, Senhor. Como se multiplicou a tua misericórdia, ó Deus”. Grande é a tua misericórdia, múltipla a tua misericórdia, ó Deus: e tu a concedes aos homens e aos animais. De quem procede a salvação dos homens? De Deus. Acaso não existe salvação para os animais, vinda de Deus? Aquele que fez os homens, fez também os animais; quem fez a ambos, a ambos salva; mas a salvação dos animais é temporal. Existem alguns que pedem a Deus o que ele deu aos animais, como se fosse um grande bem. “Como se multiplicou a tua misericórdia, ó Deus”, dando não somente aos homens, mas até aos animais o que é concedido aos homens, a saber, esta salvação corporal e temporal.

12 Então, os homens não têm reservado junto de Deus algo que os animais não merecem, e aonde os animais não chegam? Têm, sem dúvida. E onde está o que eles têm? “Os filhos dos homens se abrigam à sombra de tuas asas”. V. Caridade preste atenção a esta sentença tão suave: “Salvaste os homens e os animais”. O salmo traz: “os homens e os animais”, mas acrescenta: “os filhos dos homens”, como se uma coisa sejam os homens e outra os filhos dos homens. Por vezes, nas Escrituras os filhos dos homens representam em geral os homens; outras vezes, propriamente se chamam filhos dos homens, em sentido restrito, de sorte que não se refere a todos os homens; principalmente quando há distinção. Não foi sem motivo que lá se acha: “Salvaste os homens e os animais, Senhor”, e aqui excetua, separa os filhos dos homens. Separa de quem? Não só dos animais, mas também dos homens, que pedem a Deus a mesma salvação que é dada aos animais, e a desejam como um grande bem. E quais são os filhos dos homens? Os que esperam à sombra de suas asas. Aqueles homens, como os animais, se satisfazem com a realidade, mas os filhos dos homens se alegram na esperança. Aqueles buscam, como os animais, os bens presentes, estes esperam os bens futuros, na companhia dos anjos. Por que motivo, então, fazendo uma distinção, aqueles se chamam homens e estes se denominam filhos dos homens? Igualmente em outro lugar da Escritura se acha: “Que é o homem para dele te lembrares? Ou o filho do homem para o visitares?” (Sl 8,5). Que é o homem para dele te lembrares? Lembras-te dele, como se fosse um ausente; visitas o filho do homem, que está presente. O que significa: Lembras-te do homem? “Salvaste os homens e os animais, Senhor”, porque também aos próprios maus dás a salvação, a eles que não desejam o reino dos céus. O senhor os protege, e não os abandona segundo o seu modo de ser; como a seus animais, não os abandona; no entanto, lembra-se como se eles estivessem ausentes. Ao contrário, aquele que ele visita, é filho do homem: e lhe é dito: “Os filhos dos homens se abrigam à sombra de tuas asas”. E se quereis fazer uma distinção entre essas duas espécies de homens, referi-as primeiro aos dois homens: Adão e Cristo. Ouve como o Apóstolo se exprime: “Pois, assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida” (1Cor 15,22). Nascemos de Adão para morrermos; ressurgimos por Cristo, para vivermos eternamente. Quando trazemos a imagem do homem terreno, somos homens; quando trazemos a imagem do homem celeste, somos filhos dos homens, porque Cristo foi chamado Filho do homem (cf Mt 8,20, etc.). Por conseguinte, Adão era homem, mas não era filho do homem: por isso, pertencem a Adão os desejosos de bens materiais, e da salvação temporal. Exortamo-los a se tornarem filhos dos homens; que se abriguem à sombra das asas de Deus, e desejem a sua misericórdia, que atinge o céu, e é representada pelas nuvens. Mas, se ainda não o podem, por enquanto ao menos não procurem obter bens temporais senão de Deus, e assim no Antigo Testamento sirvam de modo a chegar ao Novo.

13 Pois também o povo judaico aspirava aos bens terrenos, ao reino de Jerusalém, à sujeição de seus inimigos, à abundância dos frutos, à própria saúde e à de seus filhos. Tais bens é que desejavam e tais recebiam, mantendo-se sob a Lei. De Deus esperavam os bens que ele dá igualmente aos animais, porque ainda não viera para eles o Filho do homem, para que fossem filhos dos homens; já possuíam, contudo, as nuvens a prenunciarem o Filho do homem. Os profetas vieram a eles, anunciaram o Cristo; havia alguns que entendiam, e tinham a esperança dos bens futuros, a fim de receberem a misericórdia, que há no céu. Existiam ali também alguns que só ambicionavam a felicidade terrena e temporal. Resvalavam-lhes os pés, e eles fabricavam ídolos e os adoravam. Quando o Senhor os admoestava, e os castigava naquilo que os deleitava, retirando-o, sofriam fome, guerras, peste, doenças; mas voltaram-se para os ídolos. Os bens que deviam esperar de Deus, como importantes, procuravam obter dos ídolos e abandonavam a Deus. Percebiam que os bens ambicionados eram concedidos fartamente aos ímpios e malvados, e pensavam que era inútil adorar a Deus, porque ele não dava recompensa terrena. Ó homem! és operário de Deus; posteriormente será a ocasião de receber a recompensa; por que já queres exigir o pagamento antes de trabalhar? Se vier um operário a tua casa, pagas antes que termine o trabalho? Tu o considerarás perverso se disser: Primeiro quero o pagamento e depois trabalho. Ficarás irritado. Por que te irritarás? Porque não acreditou em um homem falaz. Como Deus não há de se irar, se não confias na própria verdade? Há de dar o que prometeu; ele não engana, porque foi a verdade quem prometeu. Mas receias que não tenha o que dar? Ele é onipotente. Não temas que não exista mais quem dê; ele é imortal. Não tenhas medo de um sucessor; ele é perpétuo. Fica tranquilo. Se queres que teu operário confie em ti durante um dia inteiro, acredita também tu em Deus por toda a vida, porque tua vida é um momento para Deus. E o que serás? “Os filhos dos homens se abrigam à sombra de tuas asas”.

14 9“Inebriar-se-ão na abundância de tua casa”. Não sei bem que coisa grandiosa nos promete. Ele quer dizer, e não diz. Não pode, ou nós é que não somos capazes de entender? Ouso dizer, meus irmãos, mesmo a respeito das línguas e corações dos santos, pelos quais a verdade nos foi anunciada, não se poder formular, nem cogitar o que eles anunciavam. É grandioso e inefável. Também eles viram parcialmente, em figura, como diz o Apóstolo: “Agora vemos em espelho e de maneira confusa, mas, depois, veremos face a face” (1Cor 13,12). Assim se exprimiam os que viam em figura. Como seremos nós, quando virmos face a face o que eles concebiam no coração, mas não podiam formular de maneira que os homens pudessem entender? Que necessidade havia de dizer: “Inebriar-se-ão na abundância de tua casa”? Procurou uma expressão do que tinha a dizer entre as coisas humanas, e como observou homens excedendo-se em embriaguez, tomando vinho imoderadamente, e perdendo a razão, encontrou como falar. A mente humana, enchendo-se daquela inefável alegria, perdese de certo modo e faz-se divina, inebriando-se na abundância da casa de Deus. Daí declarar outro salmo: “Teu cálice inebriante, como é excelente!” (Sl 22,5). Com este cálice inebriaramse os mártires; indo para o suplício, não reconheciam os seus. Que embriaguez maior do que não reconhecer a mulher em pranto, os filhos, os pais? Não os reconheciam, pareciam não têlos diante dos olhos. Não vos admireis; estavam ébrios. De que se embriagaram? Vede: tomaram de um cálice que os embriagou. Daí o salmista também dar graças a Deus, dizendo: “Com que retribuirei ao Senhor por tudo que ele me retribuiu? Tomarei o cálice da salvação, e invocarei o nome do Senhor” (Sl 115,12.13). Sejamos, pois, irmãos, filhos dos homens, e esperemos à sombra das asas de Deus, e inebriemo-nos na abundância de sua casa. Exprimime conforme me foi possível, e vejo quanto posso; mas não posso dizer como vejo. “Inebriarse-ão na abundância de tua casa”. Chama-se torrente o fluxo de água que corre impetuosamente. Será o ímpeto da misericórdia de Deus, para irrigar e inebriar os que agora põem sua esperança à sombra de suas asas. Qual será o deleite? Como de uma torrente a inebriar os sedentos. Quem agora tem sede, espere; quem está sedento, tenha esperança, e será inebriado quando estiver de posse da realidade; antes que esta venha, sinta sede na esperança. “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mt 5,6).

1 Diácono do partido de Donato, que contra Primiano, foi feito bispo de Cartago, e se tornou o chefe dos maximianistas. Cf Com. ao Sl. 32, sermão 2, n. 19.

15 10Qual a fonte que te irrigará? Donde flui tamanha torrente de delícias? “Pois em ti está a fonte da vida”. Quem é a fonte da vida, senão o Cristo? Veio na carne em teu favor, para aliviar tua boca sedenta. Desalterou aquele que esperava quem deu de beber ao sedento. “Pois em ti está a fonte da vida, e na tua luz contemplamos a luz”. Aqui fonte é uma coisa e luz, outra; lá é diferente. Fonte e luz são idênticas. Chama-as como quiseres, porque não é aquilo que chamas. Como não consegues encontrar um nome adequado, não te contentas com um só. Se disseres que é somente luz, terás a resposta: Inutilmente me foi dito que tenha fome e sede; quem é que come a luz? Efetivamente foi-me dito com razão: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8). Se é luz, preparo meus olhos. Prepara também tua boca, porque aquela luz é também fonte. Fonte, por saciar os sedentos, luz, por iluminar os cegos. Aqui, na terra, às vezes a luz está num lugar e noutro a fonte. Por vezes, jorram fontes mesmo nas trevas; e por vezes no deserto suportas o calor do sol e não encontras uma fonte. Aqui, portanto, as duas coisas podem estar separadas. Lá não te cansarás, porque há uma fonte; não estarás nas trevas, porque há luz.

16 11“Estende a tua misericórdia aos que te conhecem e a tua justiça aos retos de coração”. Repetimos frequentemente que são retos de coração os que seguem nesta vida a vontade de Deus. É vontade de Deus que às vezes estejas com saúde, e outras vezes que fiques doente; se é agradável a vontade de Deus quando estás com saúde, quando adoeces, é amarga. Não és então reto de coração. Por quê? Por não quereres submeter tua vontade à vontade de Deus, mas quereres curvá-la à tua. Ela é reta, mas tu és curvo; tua vontade há de ser emendada de acordo com a vontade de Deus, e não esta se curvar diante da tua; e terás um coração reto. Se tudo corre bem neste século, seja bendito Deus que consola. Se há dificuldades, seja bendito que emenda e experimenta; e terás o coração reto, dizendo: “Bendirei o Senhor em todo o tempo; seu louvor estará sempre em minha boca” (Sl 33,2).

17 12“Não me pisoteie a soberba”. Certamente já disse: Os filhos dos homens se abrigam à sombra de tuas asas. Inebriar-se-ão na abundância de tua casa. Ao começar alguém a ser irrigado com superabundância por esta fonte, cuide de não se ensoberbecer. Ela não faltara a Adão, o primeiro homem; mas a soberba o pisoteou, a mão do pecador o sacudiu, isto é, a mão soberba do diabo. Como o seu sedutor disse: “Colocarei o meu trono no aquilão” (Is 14,13), perssuadiu-o com as seguintes palavras: “Provai e sereis como deuses” (Gn 3,5). Caímos, portanto, pela soberba e chegamos a este estado mortal. Como a soberba nos feriu, a humildade nos cura. Veio o Deus humilde para curar o homem de tão grande ferida da soberba. Veio, porque o Verbo se fez carne e habitou entre nós (cf. Jo 1,14). Foi preso pelos judeus, foi insultado. Ouvistes na leitura do evangelho o que eles disseram e a quem o disseram: “Tens um demônio” (Jo 8,48). Ele não respondeu: Vós é que tendes um demônio, porque estais com vossos pecados, e o diabo tomou posse de vossos corações. Não o disse, mas se o dissesse, diria a verdade: mas não era tempo de dizê-lo, para que não parecesse estar a retribuir a injúria e não a pregar a verdade. Fez que não ouviu, deixou passar. Era médico e viera para curar o frenético. Como o médico não dá importância ao que ouve de um frenético, e sim como tratá-lo e curá-lo, e mesmo que receber uma bofetada, ele o cura, abre novas feridas, cura a febre inveterada, assim também o Senhor veio para o doente, para o frenético. Desprezou tudo o que ouviu, tudo o que sofreu, ensinando-nos com isso a humildade, para que instruídos pela humildade, fôssemos curados da soberba. Desta o salmista pede ser libertado: “Não me pisoteie a soberba, nem as mãos dos pecadores me sacudam”. Se a soberba pisotear, as mãos do pecador sacudirão. Quais são as mãos do pecador? É a obra do que sugere o mal. Tu te tornaste soberbo? Logo te arruinará aquele que sugere o mal. Firma-te humildemente em Deus, e não cuides muito do que te pode ser dito. Por esta razão é que se pede em outro salmo: “Purifica-me, Senhor, de meus pecados ocultos, e dos alheios, poupa teu servo” (Sl 18,13.14). O que significa: “de meus pecados ocultos? Não me pisoteie a soberba”? E o que quer dizer: “E dos alheios, poupa teu servo? Nem as mãos dos pecadores me sacudam”? Mantém o que és interiormente, e não temerás externamente.

18 13Por que, então, temes tanto? Seria como se alguém dissesse: “Lá tombaram os obreiros da iniquidade”, naquele abismo, do qual se disse: “Os teus juízos são como o abismo profundo”, chegando naquelas profundezas, onde os pecadores que desprezaram, caíram. “Caíram”, aonde caíram em primeiro lugar? Sob os pés da soberba. Ouvi quais são os pés da soberba: “Tendo conhecido a Deus, não o honraram como Deus”. Por isso, pisotearam-no os pés da soberba; de lá caíram nas profundezas: “Deus os entregou, segundo o desejo de seus corações, à impureza” (Rm 1,21.24). Teve medo da raiz do pecado, do pecado capital, aquele que disse: “Não me pisoteiem os pés da soberba”. Por que se refere a pés? Porque abandonou a Deus orgulhando-se, e afastou-se; chama de pé seu próprio afeto. “Não me pisoteie a soberba, nem as mãos dos pecadores me sacudam”, isto é, as obras do pecador não me apartem de ti, por querer imitá-las. Por que fala contra a soberba: “Tombaram os obreiros da iniquidade”? Uma vez que agora são iníquos, caíram na soberba. Por este motivo, o Senhor acautela a Igreja, dizendo: “Ela observará tua cabeça”, e tu “o seu calcanhar” (cf Gn 3,15). A serpente observa se a soberba te pisoteia, se escorregas, para te derrubar; tu, porém, observa sua cabeça. O começo de todo pecado é a soberba (cf Eclo 10,15). “Tombaram os obreiros da iniquidade. Foram expulsos e não puderam manter-se de pé”. Primeiro, aquele que não permaneceu na verdade, em seguida, por meio dele, os que Deus expulsou do paraíso. Por isso aquele humilde que não se julga digno de desatar as correias das sandálias, não é expulso, mas está de pé e o ouve, e alegra-se à voz do esposo (cf Jo 1,27;3,29), e não por causa de sua própria voz, de sorte que não o pisoteie a soberba, seja expulso e não possa manter-se de pé.

19 Se nosso labor causou aborrecimento a alguns de vós, já terminamos o salmo, passou o tédio, e alegramo-nos porque o salmo inteiro foi explicado. No meio do salmo já receava tornar-me oneroso, e pensara em parar; mas ponderei que nossa explicação seria cortada, e não seria igual retomar do meio ou percorrê-lo todo de uma vez; e preferi onerar-vos a deixar um resto, sem terminar. Para amanhã, ainda ficamos devendo um sermão; rezai por nós para que possamos fazê-lo, e trazei para cá bocas famintas e corações devotos.

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

Um comentário em “Comentário de Santo Agostinho ao Salmo 35”

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