Comentário de Santo Agostinho ao Salmo 33

SERMÃO I

1 O texto deste salmo nada parece ter de obscuro, que exija explicação. O título porém chama nossa atenção e reclama que se procure, batendo à porta. Mas como aqui se acha escrito ser feliz o homem que espera no Senhor, confiemos todos que ele há de abrir a quem bater à porta (cf Mt 7,7). Não nos convidaria a bater, se não quisesse abrir. Se uma vez aconteceu que alguém, disposto a deixar a porta fechada, aborrecido com as batidas, levantou-se e abriu contra a sua vontade, para não ter de aguentar a insistência de quem batia, quanto mais havemos de confiar no atendimento rápido daquele que disse: “Batei, e abrir-se-vos-á” (cf Lc 11,8). Bato e agora, com intensidade, de coração, à porta do Senhor, nosso Deus, para que se digne revelar-nos este mistério, bata comigo também V. Caridade, com a intenção de ouvir, e de rezar por nós com humildade. Devo confessar. É oculto e grande mistério.

2 1O salmo se intitula: “Salmo de Davi, quando alterou a expressão do rosto diante de Abimelec, despediu-se e partiu”. Pesquisamos nas Escrituras, entre os fatos narrados sobre Davi, quando isto aconteceu, segundo o que encontramos no título do salmo: “Quando Davi fugia de seu filho Absalão” (Sl 3,1). Lemos o livro dos Reis e encontramos quando Davi fugia da presença de seu filho Absalão. É bem verdade que isto sucedeu, e os fatos estão registrados. Embora seja este o título do salmo, de forma misteriosa, provém de um fato real. Assim acredito que também o que aqui se acha: “Quando alterou a expressão do rosto diante de Abimelec, depediu-se e, partiu”, está consignado no livro dos Reis, onde ficaram registrados para nós todos os feitos de Davi; mas não encontramos isto, todavia achamos donde parece ter sido tirado. Pois, está escrito que ao fugir Davi de seu perseguidor, Saul, refugiou-se junto de Aquis, rei de Gat, isto é, um rei de um povo vizinho do reino dos judeus; lá se escondeu, escapando da perseguição de Saul. Era recente a sua glória, que acarretou-lhe inveja da façanha de ter matado Golias, e de ter reconquistado num combate singular a glória e a segurança para o reino, o rei e o povo. Saul, porém, que se desorientara com a provocação de Golias, uma vez prostrado esse último, tornou-se inimigo daquele que abatera o inimigo e invejou a glória de Davi; principalmente porque o povo entusiasmado e o coro formado de mulheres cantou para a glória de Davi que Saul matara milhares, mas Davi, miríades. Por isto Saul se perturbou, vendo que o jovem, por um só combate, começara a ter glória maior que a sua; foi tomado de inveja e o perseguiu, conforme constuma proceder a peste do ciúme e o orgulho mundano. Então Davi, como disse, refugiou-se junto do rei de Gat, chamado Aquis. Este foi advertido de que o refugiado começara a crescer em glória entre o povo judeu, e foilhe dito: “Não é este Davi, ao qual as mulheres israelitas cantavam em coro: Saul matou milhares, mas Davi, miríades?” Se Saul pusera-se a invejá-lo por causa desta glória, não haveria Davi de temer que o rei, junto do qual se refugiara, se pusesse a oprimir aquele que poderia de vizinho se transformar em inimigo, se ele o mantivesse são e salvo? Como está escrito, “Davi ficou com muito medo de Aquis, alterou a expressão do rosto diante deles, afetava loucura, tamborilava nos batentes da porta da cidade, era levado em suas mãos, caía junto às portas, e deixava a saliva escorrer pela barba”. Viu-o o rei, junto do qual se abrigara, e disse aos seus: “Por que trouxestes este louco a minha presença? Vai ele entrar na minha casa” (1Sm 21,12.13-14.15)? E assim o despediu, expulsando-o. Davi saiu dali incólume, devido a esta simulação de loucura. Por causa desta loucura simulada, parece referir-se a esta mesma história o que aqui se acha inscrito: “Salmo de Davi, quando alterou a expressão do rosto diante de Abimelec, despediu-se e partiu”. Mas, aquele rei chamava-se Aquis e não Abimelec. Somente o nome parece não lhe convir, porque os fatos quase literalmente são designados no salmo como descritos no livro dos Reis. Esta circunstância mais nos estimula a investigar por que mistério o nome foi trocado. Pois, nem a ação foi praticada sem motivo, além de ser real, nem foi registrada sem causa, e ainda com troca de nomes.

3 Vedes, certamente, irmãos, a profundidade dos mistérios. Se não foi misteriosamente que Golias foi morto por um jovem, também não é desprovido de mistério o fato de ter Davi alterado sua fisionomia e afetado loucura, tamborilando e caindo junto às portas da cidade e à porta da casa, e deixando a saliva escorrer por sua barba. Como é possível que isto não tivesse significado? O Apóstolo claramente o diz: “Estas coisas lhe aconteceram para servir de exemplo e foram escritas para a nossa instrução, para nós que fomos atingidos pelo fim dos tempos”. Devemos julgar que nada significa o que pouco antes narrei acerca de Davi, conforme o livro dos Reis, se nada significa o maná, do qual afirma o Apóstolo: “Todos comeram o mesmo alimento espiritual”; se nada siginifica o mar dividido e o povo conduzido através dele, para escapar da perseguição do faraó, quando o Apóstolo afirma: “Não quero que ignoreis, irmãos, que nossos pais estiveram todos sob a nuvem, e na nuvem e no mar, todos foram batizados em Moisés”; se nada significa a água que brotou da pedra, tendo esta sido batida, quando diz o Apóstolo: “Essa rocha era Cristo” (1Cor 10,11.3.1-2.4); se, portanto, estas coisas nada significam, embora tenham sido realizadas; se, enfim, nada significam os dois filhos de Abraão, nascidos como nascem os filhos dos homens, e no entanto, o Apóstolo denomina-os dois Testamentos, o antigo e o novo, dizendo: “são os dois testamentos, em alegoria” (cf Gl 4,24); se nada significa o que vedes ter sido realizado por autoridade apostólica, como sinal das coisas futuras. Portanto, tem algum sentido a mudança de nome e o que foi dito: “diante de Abimelec”.

4 Dai-me atenção. Com o que disse até agora, apenas batemos à porta. Ela ainda não se abriu. Batemos, ao dizer tudo isso; batestes também vós, enquanto ouvíeis. Vamos bater ainda, pedindo a Deus que nos abra. Temos a interpretação dos nomes hebraicos. Não faltaram homens doutos, que nos traduzissem os nomes do hebraico para o grego e deste para o latim. Consultando esta lista de nomes, encontramos a interpretação de Abimelec: Reino de meu pai; e de Aquis: Como é. Considerando estes nomes a porta começa a abrir-se para os que batem. Se perguntas: Qual o siginificado de Aquis. Responde-se: Como é. Como é tratase de palavra de quem admira sem entender. Abimelec: Reino de meu pai; Davi: de mão forte. Davi é figura de Cristo, como Golias é figura do diabo. Davi prostrou Golias e Cristo matou o diabo. O que quer dizer: Cristo matou o diabo? A humildade matou a soberba. Se me refiro a Cristo, meus irmãos, é a maior recomendação da humildade. Abriu-nos ele o caminho pela humildade; porque pela soberba nos afastáramos de Deus. Não podíamos voltar a ele senão pela humildade, nem tínhamos modelo a nos propor. Os homens mortais estavam inchados de soberba. E se existiam humildes de espírito, como os profetas e os patriarcas, o gênero humano, em geral, desdenhava imitá-los. No intuito de que o homem não desdenhasse imitar os humildes, Deus se fez humilde, para que, ao menos assim, a soberba do gênero humano não desdenhasse seguir as pegadas de Deus.

5 Os sacrifícios judaicos, como sabeis, segundo a ordem de Aarão, consistiam antes em vítimas de animais; e isto em figura. Ainda não existia o sacrifício do corpo e do sangue do Senhor, que os fiéis conhecem, e conforme se lê no evangelho, é um sacrifício agora difundido em toda a terra. Ponde, portanto, diante dos olhos, os dois sacrifícios; um, segundo a ordem de Aarão, e outro segundo a ordem de Melquisedec. Pois, está escrito: “O Senhor jurou e não se arrependerá. Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedec” (Sl 109,4). A quem se referem as palavras: “Tu és sacerdote eternamente segundo a ordem de Melquisedec?” A nosso Senhor Jesus Cristo. Quem era Melquisedec? Rei de Salém. Salém era uma cidade, que depois, conforme os doutos, tomou o nome de Jerusalém. Antes, portanto, que ali reinassem os judeus, morava ali um sacerdote, chamado Melquisedec, que o Gênesis conta ter sido sacerdote do Deus altíssimo. Ele foi ao encontro de Abraão, quando este libertou-o das mãos dos perseguidores, prostrou aqueles que o haviam aprisionado, e libertou seu irmão. Depois desta libertação, Melquisedec veio ao seu encontro. Tão grande era Melquisedec que abençoou Abraão. Ofereceu pão e vinho, e abençoou Abraão; este pagoulhe dízimos. Vede qual a oferta e quem foi abençoado. Mais tarde, foi dito: “Tu és sacerdote eternamente segundo a ordem de Melquisedec”. Davi, inspirado, disse isto muito tempo depois a Abraão; Melquisedec, porém, foi contemporâneo de Abraão. Qual é esse outro, de quem diz: “Tu és sacerdote eternamente segundo a ordem de Melquisedec”, senão aquele cujo sacrifício conheceis?

6 Foi abolido, portanto, o sacrifício de Aarão, e começou a existir o sacrifício segundo a ordem de Melquisedec. Portanto, alguém que não conheço “alterou a expressão do rosto”. Quem é ele? Não seja um desconhecido, pois, é bem conhecido nosso Senhor Jesus Cristo. Ele quis que viesse nossa salvação por meio de seu corpo e de seu sangue. E de onde vem que nos entregou seu corpo e seu sangue? De sua humildade. Se não fosse humilde, não seria comido, nem bebido. Considera sua grandeza: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). Eis o alimento eterno; mas dele comem os anjos, comem as virtudes supernas, comem os espíritos celestes, comem e se nutrem, e íntegro permanece o Verbo que os sacia e alegra. Que homem tem acesso a este alimento? Onde está o coração idôneo para tal manjar? Era preciso que naquela mesa o alimento se transformasse em leite para servir aos pequeninos. Como, porém, a comida se torna leite? Como a comida se converte em leite, a não ser que passe pelo corpo materno? Pois é a mãe que faz tal coisa. A criança se nutre do que come a mãe. Como a criança não é capaz de comer pão, a mãe transforma o pão em sua carne, e através da humildade dos seios e da sucção do leite, a criança se nutre de pão. Como, então, a sabedoria de Deus nos alimentou do próprio pão? “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Vede, pois, a humildade, uma vez que o homem comeu o pão dos anjos, conforme está escrito: “Deu-lhes o pão do céu. O homem comeu o pão dos anjos”, isto é, nutriu-se o homem daquele Verbo eterno, igual ao Pai, e que alimenta os anjos. “Sendo ele de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus”. Os anjos dele se saciam, mas ele “aniquilou-se a si mesmo”, e para que o homem comesse o pão dos anjos, ele assumiu “a condição de escravo, assemelhando-se aos homens. Humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz” (Fl 2,6-8). Assim da cruz nos foi entregue o novo sacrifício, a carne e o sangue do Senhor. Pois, ele “alterou a expressão do rosto diante de Abimelec”, isto é, no reino do pai. Reino do pai era o reino judaico. Como era reino do pai? Reino de Davi, reino de Abraão. Pois, reino de Deus Pai é antes a Igreja do que o povo judaico; mas segundo a carne, reino do pai era o povo de Israel. “E o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai” (Lc 1,32), conforme diz o evangelho. Pode-se demonstrar que Davi é pai do Senhor, segundo a carne; segundo a divindade, porém, Cristo não é filho, mas Senhor de Davi. Os judeus, de fato, conhecem a Cristo segundo a carne, mas não o reconhecem segundo a divindade. Por isso Cristo lhes fez a pergunta: “De quem o Cristo é filho? E eles lhe responderam: De Davi. Como então, prosseguiu Jesus, falando sob inspiração do Espírito, Davi chama-o Senhor, dizendo: O Senhor disse a meu Senhor: Senta-te a minha direita, até que eu ponha teus inimigos por escabelo de teus pés? Se, pois, Davi o chama Senhor, como é ele seu filho? Ninguém pôde responder-lhe” (Mt 22,42-46), porque não reconheceram no Cristo Senhor senão o que se via com os olhos, mas não o que se entende com o coração. Se tivessem olhos interiores como os tinham exteriores, com os de fora veriam que era filho de Davi; pelo que entendessem interiormente, compreenderiam que é Senhor de Davi.

7 Por conseguinte, “alterou a expressão do rosto diante de Abimelec”. O que quer dizer: “diante de Abimelec?” No reino do pai. O que significa: no reino do pai? Diante dos judeus. “E despediu-se e partiu”. De quem se despediu? Do próprio povo judeu, e ele partiu. Se procuras agora o Cristo entre os judeus, não o encontras. Por que se despediu e partiu? Porque “alterou a expressão do rosto”. Apegados ao sacrifício segundo a ordem de Aarão, não mantiveram o sacrifício segundo a ordem de Melquisedec, e perderam a Cristo. Começaram a tê-lo os gentios, aos quais ele não enviara seus arautos, enquanto os mandara aos judeus: o próprio Davi, Abraão, Isaac e Jacó, Isaías, Jeremias e os demais profetas. Poucos os reconheceram, poucos efetivamente em comparação dos que se perderam, porque o povo era numeroso. Lemos que eram aos milhares. Está escrito: “O resto é que será salvo” (Rm 9,27). Mas, se agora procurares cristãos, circuncisos, não encontrarás. Então, nos primórdios da fé, eram da circuncisão muitos milhares de cristãos. Procuras agora, e não achas. Com razão, não achas. Pois, “alterou a expressão do rosto diante de Abimelec, despediu-se e partiu”. Diante de Aquis alterou a expressão do rosto, despediu-se e partiu. Por isto, os nomes foram mudados, incitando-nos a troca dos nomes a indagar o significado do mistério. Não pensemos que os salmos narram ou comemoram apenas os feitos que se encontram nos livros dos Reis, sem procurar as figuras das coisas futuras, e entendendo-as apenas como passadas. O que quer dizer a troca de nomes? Que alguma coisa aí se esconde. Bate à porta. Não te prendas à letra, pois a letra mata. Aspira pelo espírito, que vivifica. O sentido espiritual salva o fiel.

8 Dai atenção, irmãos, ao modo de Davi deixar o rei Aquis. Disse que Aquis significa: Como é. Procurai recordar-vos do evangelho. Nosso Senhor Jesus Cristo falava a respeito de seu corpo: “Quem não comer a minha carne e não beber o meu sangue, não terá a vida em si. Pois a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue, verdadeira bebida” (cf Jo 6,53.55). Os discípulos, que o seguiam, assustaram-se e ficaram horrorizados com esta palavra. Não tendo entendido, pensavam que nosso Senhor Jesus Cristo falava uma coisa dura: que deveriam comer a sua carne que eles viam, e beber o seu sangue. E não puderam suportá-lo, dizendo de certo modo: Como é? Erro, por conseguinte, ignorância e estultície, sob a figura do rei Aquis. A expressão: Como é, mostra que não houve compreensão e onde não há comprensão, acham-se as trevas da ignorância. Estavam, portanto, no reino da ignorância, do rei Aquis, isto é, eram súditos do reino da ignorância. Por isso, dizia o Senhor: “Quem não comer a minha carne e não beber o meu sangue”. Ele alterara a expressão de seu rosto e parecia-lhes furor e loucura que ele quisesse dar aos homens sua carne para comer, e seu sangue para beber. Também Davi pareceu louco, quando disse o próprio Aquis: Por que trouxeste este louco a minha presença? Não parece uma loucura dizer: Comei a minha carne, e bebei o meu sangue? Parecia louco quando dizia: “Quem não comer a minha carne e não beber o meu sangue, não terá a vida em si”. Davi também pareceu louco ao rei Aquis, isto é, aos estultos e ignorantes. Por isso, despediu-se e partiu; de seu coração fugiu o entendimento e assim não puderam compreendê-lo. E o que disseram eles? Mais ou menos isto: Como é? O significado de Aquis. Disseram, pois, os discípulos: “Como este homem pode dar-nos a sua carne a comer”? (Jo 6,52) Julgavam que o Senhor estava louco, sem saber o que dizia, e ter perdido o juízo. Ele, porém, que sabia o que dizia, naquela alteração de sua fisionomia, como tomado de furor e loucura, anunciava os mistérios, e simulava ter perdido o juízo, e tamborilava nas portas da cidade.

9 Procuremos descobrir o que significa dizer que ele afetava loucura e tamborilava nas portas da cidade. Não é sem motivo que está escrito: “caía junto às portas”. Tem sentido a observação: “e deixava a saliva escorrer pela barba”; não foi dito inutilmente. Este longo discurso não deve ser oneroso se nos recompensar com um claro entendimento. Sabeis, irmãos, que para os próprios judeus, diante dos quais ele alterou a expressão do rosto, deixou- os e foi-se embora, hoje é dia de lazer. Se eles que perderam a Cristo, que os deixou e se foi, têm um feriado inútil, tenhamos nós um dia festivo frutuoso, para entendermos a Cristo que os deixou e veio até nós. Tudo isso não se realizou em vão, até mesmo a loucura que Davi simulava, quando se diz que ele “tamborilava nos batentes da porta da cidade, era levado em suas mãos, caía junto às portas, e deixava a saliva escorrer pela barba”. Ele “afetava” loucura. O que quer dizer: “afetava”? Tinha afeto. Que é ter afeto? Ele se compadeceu de nossas fraquezas; por isso quis assumir a carne, com a qual podia sofrer a morte. Compadeceu-se de nós e por isso diz-se que teve afeto. O Apóstolo repreende aqueles que são duros e sem afeto. Repreeendendo a alguns, disse: “Sem afeto, sem misericórdia” (Rm 1,31). Onde há afeto, aí existe também a misericórdia. Onde está a misericórdia? Ele teve compaixão de nós, lá do alto, se não quisesse se aniquilar, mantendo-se na condição em que é igual ao Pai eterno, permaneceríamos para sempre mortos; mas, para nos livrar da morte eterna, à qual nos levara o pecado de orgulho, humilhou-se, feito obediente até a morte, e morte de cruz. Teve-nos, pois, afeto, que chegou até a morte de cruz. Um crucificado é estendido no lenho; e para se fazer um tambor, a carne, isto é, o couro é esticado sobre a madeira; por isto foi dito que Davi “tamborilava”, isto é, era estendido no lenho, crucificado. “Afetava”, isto é, tinha afeto para conosco, entregando a vida por suas ovelhas. “Tamborilava”. Como? “Às portas da cidade”. Porta é abertura à fé em Deus. Fecháramos as portas a Cristo e abríramos para o diabo; tínhamos o coração trancando para a vida eterna, e não podíamos ver o Verbo, que os anjos contemplam. Então, o Senhor, nosso Deus, porque nosso coração estava fechado para a vida eterna, com a cruz ia abrindo os corações dos mortais, isto é, tamborilava às portas da cidade.

10 “E era levado em suas mãos”. Como é possível tal coisa? Quem pode ser carregado por suas mãos? Alguém pode ser carregado pelas mãos de outrem, mas ninguém se carrega com as próprias mãos. Não descobrimos como isto se realiza no próprio Davi, segundo a letra; mas em Cristo, sabemos. Cristo era levado em suas próprias mãos, quando, ao entregar seu próprio corpo, disse: “Isto é o meu corpo” (Mt 26,26). Aquele corpo era sustentado em suas mãos. Aí está a humildade de nosso Senhor Jesus Cristo, que muito se recomenda aos homens. A ela somos estimulados, irmãos, para vivermos. Imitemos sua humildade, para ferirmos a Golias, e agarrando-nos a Cristo, vencermos o orgulho. “Caía junto às portas”. Qual o sentido da palavra: Caía? Diminuía-se pela humildade. O que significa: “junto às portas?” Ao começo da fé, que nos salva. Todos começam pela fé, conforme se exprime o Cântico dos cânticos: “Vens e atravessas, partindo da fé” (Ct 4,8, seg LXX). Chegaremos a ver face a face, segundo está escrito: “Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas o que nós seremos ainda não se manifestou. Sabemos que por ocasião desta manifestação seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é” (1Jo 3,2). Quando “veremos”? Quando passarem as realidades presentes. Ouve ainda o que diz o apóstolo Paulo: “Agora vemos em espelho e de maneira confusa, mas depois, veremos face a face” (1Cor 13,12). Antes, porém, de vermos o Verbo, face a face, como veem os anjos, ainda temos de estar às portas da cidade, junto das quais o Senhor se prostrou, humilhando-se até a morte.

11 Qual o sentido da frase: “a saliva escorria por sua barba”? Foi assim que “alterou a expressão de seu rosto diante de Abimelec, ou Aquis, despediu-se e partiu”. Deixou aqueles que não o entenderam. Foi para onde? Para os gentios. Nós, portanto, entendamos o que eles não conseguiram entender. A saliva escorria pela barba de Davi. O que representa a “saliva”? Representa palavras infantis. Os bebês deixam a saliva escorrer, babando. Não pareciam palavras infantis as seguintes: Comei a minha carne, e bebei o meu sangue? Mas este balbuciar escondia seu poder. Este é figurado pela barba. A saliva que escorre pela barba o que figura senão o balbuciar que vela seu poder? A meu ver, V. Santidade entende o título deste salmo. Se tentássemos explicar agora o salmo, recearíamos que fugisse de vossa memória o que ouvistes. Expusemos o sentido do título do salmo, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Visto ser amanhã domingo, e temos o dever de vos pregar um sermão, adiemos o texto do salmo para amanhã, pois assim podeis ouvir com mais gosto.

SERMÃO II

1 Não tenho dúvidas de que aqueles que ontem estavam presentes, se lembram de nossa promessa, chegou o momento de saldar nossa dívida, em nome do Senhor. Foi ele quem nos inspirou esta promessa, e nos dará com que pagá-la, apesar de continuarmos sempre devedores de caridade. Esta sempre se paga, e sempre se fica devendo, conforme declara o Apóstolo: “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, a não ser o amor recíproco” (Rm 13,8). Ontem explicamos o título deste salmo. Como esta explanação nos tomou muito tempo, adiamos o comentário do próprio texto. Ouçamos agora o que o Espírito Santo, pela boca do santo profeta, dirá deste salmo, de acordo com o título ontem explicado. Os que estiveram ausentes, de certo modo também nos pedem esta exposição; mas a fim de que por novas delongas não prejudiquemos os nossos credores, entendam os ausentes de ontem, hoje presentes, à medida do possível, o que vou resumir. Se, porém, alguma coisa os intriga e gostariam de perguntar mais a fundo, prestar-lhes-emos ouvidos atentos, em nome de Cristo, em outra ocasião, para não tomarem agora o tempo disponível.

2 1Dissemos que se acha escrito no livro dos Reis que Davi, ao fugir de Saul, procurou esconder-se junto de certo rei de Gat, chamado Aquis. Mas, como a glória que obteve foi ali relembrada, temendo que o rei que o abrigara planejasse alguma coisa contra ele, por inveja, fingiu loucura, e como se estivesse doido, “alterou a expressão do rosto”, e conforme lemos, “afetava” loucura, “tamborilava nos batentes da porta da cidade, era levado em suas mãos, e caía junto às portas. E disse o rei Aquis: Será que tenho falta de loucos, para que me trouxésseis mais este?” (1Sm 21,10-14). E assim Davi se despediu, cumprindo-se o que aqui se acha escrito: “Alterou a expressão do rosto, despediu-se e partiu”. Ele deixou o rei Aquis; aqui, de fato, se diz que “alterou a expressão do rosto de Abimelec, e despediu-se e partiu”. Dissemos que houve troca de nomes para mostrar que era figurado; se o mesmo nome fosse repetido no título do salmo, não pareceria uma profecia em mistério, e sim que se tratava de narrativa de fatos. Ambos os nomes contêm grande mistério. Pois, a interpretação de Aquis é: Como é? Abimelec significa: reino de meu pai. As palavras: Como é? demonstram ignorância, de sorte que se entende como palavra de alguém que desconhece e se admira. Abimelec representa o reino dos judeus. De Cristo se pode dizer: reino de meu pai, porque seu pai carnal foi Davi; e o reino de Davi era o do povo judaico. Por isso, no reino de seu pai, “alterou a expressão do rosto, despediu-se e partiu”, porque nele havia o sacrifício segundo a ordem de Aarão. Posteriormente Cristo instituiu o sacrifício de seu corpo e de seu sangue, segundo a ordem de Melquisedec. Mudou, pois, de fisionomia no sacerdócio, e deixando o povo judaico, partiu para junto dos gentios. O que significa: “afetava”? Estava cheio de afeto. Onde se encontra maior plenitude de afeto do que na misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, que vendo nossa fraqueza, e a fim de nos livrar da morte eterna, aceitou a morte temporal, acompanhada de tantas injúrias e ofensas? “E tamborilava”, porque o tambor consta de um couro esticado, preso num pedaço de madeira; e Davi tamborilava para figurar que Cristo devia ser crucificado. “Tamborilava junto às portas da cidade”. Quais as portas da cidade, senão nosso coração fechado para Cristo, que com o tambor da cruz abriu os corações dos mortais? “E era levado em suas mãos”. De que modo “era levado em suas mãos”? Porque ao entregar seu corpo e seu sangue, tomou nas mãos aquilo que os fiéis conhecem. Ele se carregava, de certo modo, ao dizer: “Isto é o meu corpo. E caía junto às portas”, isto é, humilhou-se. Isto é descer até os elementos de nossa fé. As portas são os inícios da fé, de onde começa a Igreja, para chegar à visão. Crendo o que não vê, merece gozar, quando começar a ver face a face. Aí está o conteúdo do título do salmo. Ouvimos um resumo. Vamos escutar agora as próprias palavras daquele que afetava loucura e tamborilava às portas da cidade.

3 2“Bendirei o Senhor em todo o tempo; seu louvor estará sempre em minha boca”. Fala Cristo. Fale igualmente o cristão, porque sendo cristão está no corpo de Cristo. Cristo se fez homem para ser possível ao cristão fazer-se anjo e dizer: “Bendirei o Senhor”. Quando “bendirei o Senhor”? Quando te concede um benefício? Quando abundam os bens materiais? Na fartura de trigo, óleo, vinho, ouro, prata, escravos, animais, quando a saúde mortal persiste, invulnerada e íntegra, quando tudo o que nasce cresce, nada passa por morte prematura, a felicidade transborda na casa, cercada de toda espécie de bens, então bendizes o Senhor? Não. “Em todo o tempo”. Por conseguinte, mesmo se, conforme a época e os castigos enviados por Deus, Senhor nosso, tudo isso se transtorna, é tirado, os nascimentos são mais raros e morre o que nasceu. Pois, estas coisas também acontecem, e originam penúria, pobreza, labuta, dor e provação. Mas tu que cantaste: “Bendirei o Senhor em todo o tempo, seu louvor estará sempre em minha boca”, bendize quando Deus as concede, bendize quando as retira. Porque ele dá, ele tira; mas não se retira daquele que bendiz.

4 Quem é que bendiz o Senhor em todo o tempo, senão o humilde de coração? Nosso Senhor ensinou esta humildade por meio de seu próprio corpo e sangue. Ao entregar seu corpo e seu sangue, recomenda sua humildade, conforme narra a história, segundo a loucura simulada de Davi, a que não nos referimos: “E deixava a saliva escorrer pela barba”. Ao fazermos uma leitura do Apóstolo, ouvistes referência a saliva, e esta escorria pela barba. Mas, dirá alguém: De que saliva ouvimos falar? Não acabamos de ler o trecho do Apóstolo: “Os judeus pedem sinais, e os gregos andam em busca de sabedoria”? Foi lido há pouco: “Nós, porém, anunciamos a Cristo crucificado (então ele tamborilava), que, para os judeus, é escândalo, para os gentios é loucura, mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, é Cristo poder de Deus e sabedoria de Deus. Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens, o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1,22-26). Saliva é figura de loucura, saliva significa fraqueza. Mas se o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens, não te escandalizes com a saliva, mas observa que ela escorre pela barba. Como a saliva mostra a fraqueza, a barba é sinal de força. A fraqueza do corpo de Cristo encobriu sua força, e o que exteriormente era fraco, mostrava-se como saliva. A virtude divina escondia-se no interior, figurada pela barba. Por conseguinte, é a humildade que nos é recomendada. Sê humilde, se queres bendizer o Senhor em todo o tempo e seu louvor estar sempre em tua boca. Jó não bendisse o Senhor somente na afluência de bens. Lemos que era rico e feliz, tendo rebanhos, escravos, casa, feliz com os filhos e todos os bens. Tudo lhe foi tirado simultaneamente, e ele realizou o que está escrito nesse salmo, dizendo: “O Senhor deu, o Senhor tirou; como agradou ao Senhor assim se fez; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1,21). Eis, como exemplo, alguém que bendiz o Senhor em todo o tempo.

5 3Por que alguém pode bendizer o Senhor em todo o tempo? Porque é humilde. O que é ser humilde? Não querer louvor para si mesmo. Querer ser louvado em si mesmo, é ser soberbo. Quem não é soberbo, é humilde. Não queres ser soberbo? Para poderes ser humilde, repete a palavra: “Minha alma se gloriará no Senhor. Ouçam os mansos e se alegrem”. Por conseguinte, os que não querem se gloriar no Senhor, não são mansos, mas cruéis, ásperos, orgulhosos, soberbos. O Senhor quer ter um jumento manso. Sê jumento do Senhor, isto é, sê manso. Ele monta em ti, toma as rédeas; não temas tropeçar, ou cair num precipício. Por ti mesmo és fraco, mas olha bem quem te freia. És um potro, mas carregas a Cristo. Pois, ele entrou na cidade de Jerusalém, montando num jumentinho, e era um jumento manso. Era o jumento que era louvado? Era o jumento que se dizia: “Hosana ao filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor” (Mt 21,9)? O jumentinho carregava, mas aquele que era carregado, era louvado pelos que o precediam e seguiam. Talvez dissesse o jumento: “Minha alma se gloriará no Senhor. Ouçam os mansos e se alegrem”. Nunca, meus irmãos, aquele jumento falou assim; mas fale aquele povo que há de imitar aquele jumento, se quiser carregar seu Senhor. É possível que o povo não goste de ser comparado ao jumentinho, montado pelo Senhor. E alguns, soberbos e orgulhosos, podem me dizer: Ele nos chamou de asnos. Seja um asno do Senhor quem falar assim; não seja cavalo nem mulo, que não têm inteligência. Conheceis o salmo que diz: “Não sejais como o cavalo e o mulo, sem inteligência” (Sl 31,9). O cavalo e o mulo de vez em quando levantam a cabeça e ferozmente sacodem de cima de si o cavaleiro. São domados com freio e cabresto, com o chicote, até que se submetam e carreguem seu dono. Tu, porém, antes que o freio machuque tua boca, sê manso e carrega teu Senhor. Não queiras ser louvado, por causa de ti mesmo, mas louve-te o que te monta. Dize: “Minha alma se gloriará no Senhor. Ouçam os mansos e se alegrem”. Quando ouvem os que não são mansos, não se alegram; ao contrário se irritam. São estes que dizem que os chamamos de asnos. Os mansos se dignem ouvir e ser aquilo que ouvem.

6 4Segue-se: “Celebrai comigo as grandezas do Senhor”. Quem é este que nos convida a engrandecer com ele ao Senhor? Irmãos. Todos os que pertencem ao corpo de Cristo devem aplicar-se em glorificar com ele ao Senhor. É certo que ama o Senhor, seja ele quem for. E como o ama? Sem invejar a quem o acompanha neste amor. Quem ama carnalmente, ama forçosamente com ciúme pestífero. Se considera grande coisa ter visto u’a mulher nua, que com amor pestífero cobiçou, acaso quer que outro também a veja? Necessariamente há de se ferir com zelo e ciúme, se outro também a vir. É assim que se conserva a castidade; se ele vir a mulher legítima, e outro não, ou nem ele mesmo. A sabedoria de Deus é diferente. Vê-la-emos face a face, e todos a veremos, e ninguém ficará enciumado. A todos ela se revela, íntegra e casta. Eles se transformam nela, e ela mesma não se muda nelas. Ela é a verdade. É Deus. Alguma vez ouvistes dizer, irmãos, que possa nosso Deus sofrer mudança? A verdade é supereminente, é o Verbo de Deus, é a Sabedoria de Deus, pela qual tudo foi feito. Tem quem a ame. E este diz: “Celebrai comigo as grandezas do Senhor”. Não quero celebrar sozinho o Senhor, não quero amar sozinho, não quero ser o único a abraçá-lo. Se o abraço, tem outro onde pôr a mão. A Sabedoria é de tal amplidão que todas as almas podem abraçá-la e dela fruir. Que direi, irmãos? Que se envergonhem os que amam a Deus, invejando os outros? Os homens perdidos que apreciam a auriga, e gostando dela ou do caçador no circo, quer que todo o povo também aprecie como ele. Estimula-o, dizendo: Torcei comigo por aquele pantomimo, por esta ou aquela torpeza. Ele grita, no meio do povo, para que apreciem com ele o que é torpe; e o cristão não grita na igreja para que com ele se ame a verdade de Deus! Excitai em vós o amor, irmãos, e clamai uns aos outros: “Celebrai comigo as grandezas do Senhor”. Tende esse fervor. Por que essas leituras e explicações? Se amais a Deus, inflamai no amor de Deus os que vos são unidos, e todos que moram em vossa casa. Se amais o corpo de Cristo, isto é, a unidade da Igreja, arrastai-os a este gosto, e dizei: “Celebrai comigo as grandezas do Senhor”.

7 4“E exaltemos unânimes o seu nome”. O que quer dizer: “Exaltemos unânimes o seu nome”? Isto é, juntos. Pois, em muitos códices acha-se: “Celebrai comigo as grandezas do Senhor, e unidos exaltemos o seu nome”. Unidos e unânimes têm aqui idêntico sentido. Portanto, arrastai quantos puderdes, exortando, levando, rogando, disputando, argumentando, mansamente, suavemente. Atraí ao amor. Se celebram as grandezas do Senhor, façam-no em uníssono. Também o partido de Donato pensa que engrandece o Senhor. Em que a terra inteira os ofendeu? Digamos-lhes: irmãos: “Celebrai comigo as grandezas do Senhor, e exaltemos unânimes o seu nome”. Por que quereis celebrar as grandezas do Senhor, mantendo a divisão? Ele é um só; por que quereis criar dois povos para Deus? Por que procurais dividir o corpo de Cristo? Certamente ele pendia da cruz. Tamborilava. Pendendo da cruz, entregou o espírito a Deus. Vieram os que o crucificaram e vendo que já morrera, não lhe quebraram as pernas, mas quebraram as dos ladrões, que ainda viviam na cruz (cf Jo 19,32.33), para apressar a morte por meio da dor e livrá-los do suplício, como se costumava fazer com os crucificados. Aproximou-se dele o perseguidor, e verificou que o Senhor havia expirado em paz. Ele havia dito: “Tenho poder de entregar a minha alma” (cf Jo 10,18). Em prol de quem entregou a sua alma? Por todo o seu povo, por seu corpo inteiro. Veio, portanto, o perseguidor, e não quebrou as pernas de Cristo. Veio Donato e rompeu a Igreja de Cristo. O corpo de Cristo manteve-se íntegro na cruz, entre as mãos dos perseguidores, e entre as mãos de cristãos não ficou mais íntegro o corpo da Igreja. Clamemos, portanto, irmãos, gemamos quando pudermos, dizendo: “Celebrai comigo as grandezas do Senhor e exaltemos unânimes o seu nome”. Clama-lhes a Igreja. A voz é da Igreja, clamando por aqueles que se separaram. Por que romperam com ela? Por orgulho. Cristo, porém, ensina a humildade, entregando seu corpo e seu sangue. Foi o que expliquei a V. Santidade: disto se trata no texto deste salmo e se celebra. Nele se recomenda o corpo e o sangue de Cristo, recomendando a humildade que Cristo se dignou aceitar por nós.

8 5“Procurei o Senhor e ele me ouviu”. Onde ouviu o Senhor? Interiormente. Onde dá? Interiormente. Ali oras, ali és ouvido, ali te tornas feliz. Rezaste, foste ouvido, ficaste feliz; e quem está perto de ti, não o percebe. Tudo se fez ocultamente, conforme diz o Senhor no evangelho: “Entra no teu quarto e, fechando a porta, ora ao teu Pai ocultamente; e o teu Pai que vê o que está oculto, te recompensará” (Mt 6,6). Entras em teu quarto, entras em teu coração. Felizes os que sentem alegria quando entram em seu coração e nada de mal ali encontram. Preste atenção, V. Santidade, como não querem entrar em casa os que têm mulheres más, como saem para o foro e se alegram. Vem a hora de voltar para casa, e se contristam. Entram para encontrar o tédio, murmurações, amarguras, desolação, porque não é bem ordenada a casa em que marido e mulher não estão em paz entre si; e é melhor para ele andar pela estrada. Se, pois, são infelizes os que, ao voltar para casa, receiam se aborrecer por causa de brigas entre os seus, quanto mais infelizes são os que não querem entrar em sua própria consciência, para não se abaterem, nos combates aos pecados! Purifica teu coração para poderes voltar a ele de boa mente; “bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8). Retira dali as imundícies dos maus desejos, limpa a mácula da avareza, tira a mancha das superstições, arranca os sacrilégios, e maus pensamentos; afasta os ódios, já não digo contra um amigo, mas até contra um inimigo. Tira tudo isso. Entra em teu coração, e lá terás alegria. Ao começares a te alegrar ali, a própria pureza de teu coração te deleitará e fará rezar. Assemelha-se ao fato de ires a um lugar, onde há silêncio, tranquilidade e talvez, um recinto bem limpo. Vamos rezar aqui, dizes. Apraz-te a beleza do lugar, e acreditas que lá Deus te ouvirá. Se, portanto, deleita a limpeza de um lugar visível, porque não te incomoda a impureza de teu coração? Entra, limpa tudo, levanta os olhos para Deus, e logo ele te ouvirá. Clama estas palavras: “Procurei o Senhor e ele me ouviu; e livrou-me de todas as minhas tribulações”. Por que motivo? Porque ao seres iluminado, quando começares aí a ter uma boa consciência, restam as tribulações, porque sempre resta alguma fraqueza, “até que a morte seja absorvida pela vitória, e este ser mortal tiver revestido a imortalidade” (cf 1Cor 15,54). Forçoso é seres flagelado neste mundo; é necessário sofreres tentações e sugestões. Deus purificará tudo, livrar-te-á de toda tribulação. Procura-o.

9 “Procurei o Senhor e ele me ouviu”. Não são ouvidos, portanto, os que não buscam a Deus. Atenção, V. Santidade. Não disse: Pedi ouro ao Senhor e ele me ouviu; pedi longa vida ao Senhor e ele me ouviu; pedi ao Senhor isto ou aquilo, ouviu-me. Uma coisa é rogar alguma coisa ao Senhor, e outra procurar o próprio Senhor. “Procurei o Senhor e ele me ouviu”. Tu, porém, ao orares, se dizes: Mata aquele inimigo meu, não procuras o Senhor, mas de certo modo te fazes juiz de teu inimigo, e fazes de teu Deus, um verdugo. 1Como sabes se aquele cuja morte desejas não é melhor do que tu? Talvez por isso mesmo: ele não deseja a tua morte. Não busques, portanto, coisa alguma fora do Senhor, mas procura o próprio Senhor, e ele te ouvirá, e enquanto ainda falares, dirá: “Aqui estou” (cf Is 65,24). O que significa: “Aqui estou”? Estou presente. O que queres, o que desejas de mim? Seja o que for que te der, vale menos do que eu; possui a mim mesmo, goza de minha presença. Abraça-me. Ainda não podes fazê-lo totalmente. Toca-me pela fé, e unir-te-ás a mim (dize-te Deus), e tirarei teus fardos, para aderires inteiramente a mim, quando o que é mortal em ti, eu o converter em imortal, a fim de seres igual a meus anjos (cf Mt 22,30), e sempre contemplares a minha face, e te alegrares, sem que ninguém te arrebate o teu gáudio (cf Jo 16,22), porque procuraste o Senhor, ele te ouviu e livrou-te de todas as tuas tribulações.

10 6Dissemos acima (cf acima, n. 6), quem é que exorta, quem ama e não quer abraçar sozinho o objeto de seu amor, e diz: “Acercai-vos dele e sereis iluminados”. Refere-se, pois, ao que ele mesmo experimentou. O que diz alguém que é espiritual, pertencente ao corpo de Cristo, ou o próprio nosso Senhor Jesus Cristo segundo a carne, a Cabeça a exortar os demais membros? “Acercai-vos dele e sereis iluminados”. Ou antes, um cristão espiritual nos convida a nos aproximarmos de nosso Senhor Jesus Cristo. Mas acerquemo-nos dele, e seremos iluminados. Não façamos como os judeus, que dele se aproximaram para ficarem obcecados. Aproximaram-se para crucificá-lo. Nós, porém, acerquemo-nos para recebermos seu corpo e seu sangue. Eles, perto do crucificado, ficaram nas trevas; nós, comendo e bebendo o crucificado, somos iluminados. “Acercai-vos dele e sereis iluminados”. Trata-se dos gentios. Cristo estava crucificado no meio dos judeus e os gentios estavam ausentes. Aproximaram-se os que estavam nas trevas, e cegos recuperaram a visão. Como se acercaram os gentios? Seguindo pela fé, anelando de coração, correndo por meio da caridade. Teus pés são a tua caridade. Deves ter dois pés, não ser coxo. Quais são os dois pés? Os dois preceitos do amor, o de Deus e o do próximo. Corre, utilizando estes pés, para junto de Deus, aproxima-te dele. Ele te incitou a correr, e de tal modo espargiu a sua luz que podes segui-lo de maneira magnífica e divina. “E vosso rosto não se cobrirá de confusão. Acercai-vos dele e sereis iluminados e vosso rosto não se cobrirá de confusão”. Cobre-se de confusão apenas o rosto do soberbo. Por quê? Porque prefere ser orgulhoso, e envergonha-se de sofrer injúria, ignomínia, queda segundo o modo de pensar mundano, ou alguma aflição. Mas não temas. Acerca-te dele e não te envergonharás. Seja o que for que sofreres do inimigo, para os homens ele será superior a ti; mas junto de Deus és superior a ele. Eu o apanhei, prendi, matei. Como se julgam superiores os que falam assim! Como os judeus se consideravam superiores quando esbofeteavam o Senhor, quando lhe cuspiam no rosto e feriam-lhe a cabeça com uma cana, quando o coroavam de espinhos, quando o revestiam de túnica ignominiosa! Como se sentiam superiores! E ele parecia inferior, porque caía junto às portas da cidade; mas ele não se cobria de confusão. Pois, era a luz verdadeira, que ilumina todo o homem, que vem ao mundo (cf Jo 1,9). A luz não pode ser confundida; assim também não deixa ser confundido aquele que é iluminado. “Acercai-vos dele e sereis iluminados e vosso rosto não se cobrirá de confusão”.

11 7.8Pode objetar alguém: Como dele me aproximarei? Onerado de tantos males, tantos pecados, a consciência me acusa de numerosos crimes. Como ousarei aproximar-me de Deus? Como? Humilhando-te pela penitência. Mas, respondes, tenho vergonha de fazer penitência. Acerca-te, pois, dele e serás iluminado, e teu rosto não se cobrirá de vergonha. Se o medo da vergonha te impede de fazer penitência, será ela, todavia, que te dará acesso a Deus. Não vês que o castigo já aparece em teu rosto, que ele se cora por não ter-se aproximado de Deus? E não se aproximou por não querer penitenciar-se? Atesta o profeta: “Este pobre clamou e o “Senhor o escutou”. Ensina-te como serás atendido. Não és atendido porque és rico. Talvez clamavas e não eras ouvido. Ouve a razão disto: “Este pobre clamou e o Senhor o escutou”. O pobre clama, o Senhor escuta. E como me tornarei pobre para clamar? Mesmo que possuas alguns bens, não presumas de tuas forças. Entende que és indigente, compreende que és pobre enquanto não tiveres aquele que te enriquece. Como, porém, o Senhor o atendeu? Responde o salmista: “E o livrou de todas as angústias”. E como os salvou de todas as tribulações? “O anjo do Senhor acampará ao redor dos que o temem e os livrará”. Assim está escrito, irmãos, e não como trazem alguns códices defeituosos: O Senhor enviou um anjo para estar ao redor dos que o temem e os livrará, mas: “O anjo do Senhor acampará ao redor dos que o temem e os livrará”. Quem é este anjo do Senhor, que acampará ao redor dos que o temem e os salvará? O próprio nosso Senhor Jesus Cristo profeticamente é denominado anjo do grande conselho, enviado do grande conselho. Assim o chamaram os profetas (cf Is 9,6, seg. LXX). O próprio anjo do grande conselho, portanto, isto é, o enviado, acampará ao redor dos que temem o Senhor e os livrará. Não receies ficar oculto para ele; em qualquer lugar onde temeres o Senhor, descobre-te aquele anjo que acampará ao redor, e te livrará.

12 9Agora vai tratar expressamente do próprio sacramento, no qual ele se sustentava em suas próprias mãos. “Provai e vede como é suave o Senhor”. Não se manifesta agora o salmo, mostrando-te aquela aparente loucura e insânia constante, sadia loucura e sóbria embriaguez daquele Davi, que em figura apontava para outro, que ignoro, quando lhe foi dito, na pessoa do Rei Aquis: Como é? E então, não dizia o Senhor: “Quem não comer a minha carne e não beber o meu sangue, não terá a vida em si” (cf Jo 6,53-54)? E o que perguntaram aqueles súditos de Aquis, isto é, o erro e a ignorância? “Como este homem pode dar-nos a sua carne a comer?” (Jo 6,52). Se ignoras, experimenta, e vê como o Senhor é suave; se, porém, não entendes, és o rei Aquis. Davi há de alterar a expressão do rosto, afastar-se-á de ti, abandonar-te-á, e irá embora.

13 “Feliz o homem que nele espera”. Que necessidade há de expô-lo longamente? Quem não espera no Senhor, é infeliz. Quem é que não espera Senhor? Quem espera em si mesmo. Algumas vezes, meus irmãos, o que é pior, observai, os homens não esperam em si, mas em outros. Pela saúde de Caio Seio, nada me poderás fazer. E talvez fale de um morto. Fala aqui, nesta cidade: Pela saúde de fulano, e este talvez tenha morrido em outro lugar. E com que facilidade os homens o dizem; mas não falam: Confio em Deus, que não te permitirá fazer-me mal. Não dizem: Confio em meu Deus. Mesmo que te permita fazer alguma coisa ao que é meu, não te deixará prejudicar a minha alma. Mas, quando eles dizem: Pela saúde de Fulano, nem eles estão procurando a saúde, mas oneram aqueles dos quais esperam obter a saúde.

14 10-11“Temei o Senhor, todos vós seus santos, porque nada falta aos que o temem”. Muitos não querem temer o Senhor, para não padecerem fome. Se alguém lhes diz: Não deveis cometer fraude. Respondem: E de onde vou tirar minha subsistência? Não se mantém o ofício sem impostura, nem há negócio sem fraude. Mas, Deus castiga a fraude. Teme a Deus. Se eu temer a Deus, não tenho com que me manter. “Temei o Senhor, todos vós, seus santos, porque nada falta aos que o temem”. Ele promete fartura ao medroso e hesitante de que se temer o Senhor, lhe falte o supérfluo. Deus te sustentava enquanto o desprezavas, e há de te abandonar quando o temes? Presta bem atenção, e não digas: Aquele homem é rico e eu sou pobre. Eu temo o Senhor, e ele não teme; mas quanto adquiriu, enquanto eu, como o temor, acho-me sem nada! Vede a continuação do salmo: “Os ricos passaram necessidade e fome, mas aos que buscam o Senhor nada lhes falta”. Se tomares à letra, parece que o salmista te enganas. Verifica que muitos ricos são iníquos e morrem no meio de suas riquezas, e não ficaram pobres durante a vida. Vês que eles envelhecem, chegam ao fim da vida em grande afluência de bens, têm um enterro pomposo, são sepultados em rico túmulo, tendo expirado em um leito de marfim, cercado de sua família. E dizes interiormente: Sei quanto mal fez este homem. Envelheceu, morreu em seu leito, os seus levam seu cadáver, e é celebrado com funerais tão suntuosos. Sei o que ele fez. A Escritura me enganou; erradas são as palavras que ouço e canto: “Os ricos passaram necessidade e fome”. Quando ele foi pobre? Quando teve fome? “Aos que buscam o Senhor nada lhes falta”. Todos os dias vou à basílica, todos os dias faço genuflexões, todos os dias procuro o Senhor, e nada possuo. Este não procurou o Senhor e morreu no meio de tantos bens! O laço do escândalo sufoca quem pensa deste modo. Procura na terra alimento mortal e não busca a verdadeira recompensa nos céus. Mete a cabeça no laço do diabo, que lhe aperta a garganta. O diabo o agarra para fazer o mal, e imitar aquele rico que ele vê morrer em tal fartura.

15 Não entendas deste modo. Então, como devo entender? Trata-se de bens espirituais. Mas, onde estão eles? Não se veem com os olhos, e sim com o coração. Não vejo tais bens. Quem ama, vê. Não vejo a justiça. Ela não consiste em ouro, nem em prata. Se fosse ouro, verias. Como é do âmbito da fé, não vês. E se não vês a fé, por que razão amas o servo fiel? Interroga-te a ti mesmo. Qual o escravo que amas? Talvez tenhas um escravo formoso, alto, elegante, mas ladrão, mau, fraudulento. E talvez possuas outro pequeno, disforme de rosto, escuro, mas fiel, econômico, sóbrio. Atenção. Pergunto: Qual dos dois preferes? Se perguntares aos olhos carnais, vence o belo injusto; se consultas os olhos do coração, vence o disforme fiel. Vê, portanto, o que queres que outro te ofereça, a saber, a fidelidade; oferece-lhe também tu. Por que te alegras com aquele que te oferece fidelidade, e o louvas por causa de bens visíveis apenas aos olhos do coração? Repleto de bens espirituais, serás pobre? Foi rico aquele que tinha um leito de marfim; e tu és pobre, cujo cubículo do coração está cheio de gemas das virtudes, da justiça, da verdade, da caridade, da fé, da paciência, da tolerância! Apresenta as riquezas que tens, e compara-as às dos ricos. Mas, replicas, ele encontra no mercado mulas valiosas e compra-as. Se encontrasses fé à venda, quanto darias por ela? E Deus te deu de graça e ainda assim és ingrato? Aqueles ricos são necessitados, passam penúria; e o que é pior, não têm pão. Não penses que precisam de ouro e de prata, embora também disso careçam. Por mais que tenha alguém, com que se saciou? Deste modo, morreu pobre, porque queria adquirir muito mais do que possuía. Falta-lhes também o pão. Por que lhes falta também o pão? Se não sabes de que pão se trata, diz o Senhor: “Eu sou o pão vivo, que desceu do céu” (Jo 6,41), e: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mt 5,6). “Aos que buscam o Senhor, nada lhes falta”, bem algum. Já dissemos qual é este bem.

16 12“Vinde, filhos, ouvi-me. Eu vos ensinarei o temor do Senhor”. Pensais que sou eu que estou chamando, irmãos: pensai que é Davi, imaginai que é o Apóstolo; ou antes, julgai que é o próprio nosso Senhor Jesus Cristo que diz: “Vinde, filhos, ouvi-me”. Ouçamo-lo todos juntos; ouvi-o através de nossa palavra. Ele quer nos ensinar, ele que é humilde, tamborilando, afetando, ele quer nos ensinar. E o que diz? “Vinde, filhos, ouvi-me. Eu vos ensinarei o temor do Senhor”. Ensine-nos, pois, abramos os ouvidos, abramos o coração. Não abramos apenas os ouvidos carnais, fechando os do coração; mas conforme o Senhor disse no evangelho: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mt 11,15). Quem não quer ouvir a Cristo, que fala pelo profeta? 1 Quaestionarius, isto é, verdugo. Cf. Juven. Satyr. 6 Schol.: O salário dos Quaestionarii ou carrascos”. Acta S. Marcianae, 3: …Atingida pelas bofetadas do carrasco”.

17 13“Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias felizes?” Cada um de vós não responderá: Eu? Ou há algum de vós que não ama a vida, isto é, não quer a vida, e não deseja ver dias felizes? Não murmurais cada dia, dizendo: Até quando vamos suportar esses males? Cada dia tudo fica pior; nossos pais tiveram dias mais alegres, dias melhores. Oh! Se interrogares teus pais, de igual modo hão de murmurar acerca de sua época! Nossos pais foram felizes; nós somos infelizes, vivemos num tempo mau. Tínhamos tal governante; pensávamos que teríamos algum alívio quando ele morresse; vieram tempos piores. Ó Deus, concede-nos dias felizes! “Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias felizes?” Não procure aqui na terra, dias felizes. É bom o que ele deseja, mas não procura este bem onde ele se encontra. Acontece o mesmo que sucederia se procurasses um justo numa terra onde ele não habita, e ser-te-ia dito: Procuras um bom homem, um grande varão. Procura-o, mas não aqui. É inútil procurá-lo aqui; nunca o encontrarás. Buscas ter dias felizes. Procuremos juntos, mas não aqui. Contudo, nossos pais os tiveram. Enganai-vos! Todos aqui passaram por trabalhos. Lede as Escrituras. Deus quis que fossem escritas para nossa consolação. Na época de Elias houve fome e nossos pais a sofreram. Vendia-se a cabeça de um jumento morto a peso de ouro. Eles matavam seus jumentos e os comiam. Duas mulheres combinaram entre si matarem os filhos e os comerem. Uma delas matou o filho e ambas o comeram; a outra não queria depois matar o seu, mas exigia aquela que matara primeiro o seu. Tal rixa foi levada ao juízo do rei. Elas compareceram perante o rei, discutindo sobre a morte dos filhos. Livre-nos Deus do que lemos acerca de tais alimentos. Os dias do século são sempre maus, os de Deus, sempre bons. Abraão teve dias bons, mas no íntimo do coração. Teve maus dias quando por causa da fome mudou de região e procurava alimento. Deste modo, todos procuraram. Teve Paulo dias bons, quando dizia: “Fome e sede, frio e desnudamento” (2Cor 11,27)? Mas não se aborreçam os servos; o próprio Senhor não teve dias felizes neste mundo: ultrajes, injúrias, cruz e muitos males.

18 14Não murmure o cristão. Veja as pegadas que há de seguir. Mas, se quer ter dias felizes, ouça o Senhor a ensinar e chamar: “Vinde, filhos, ouvi-me. Eu vos ensinarei o temor do Senhor”. Qual o teu desejo? Vida e dias felizes. Ouve, e pratica: “Preserva tua língua do mal”. Age desta maneira. Não quero, diz o infeliz. Não quero preservar a minha língua do mal, mas quero a vida, e dias felizes. Se te dissesse teu operário: Vou estragar esta vinha, e exijo de ti o pagamento. Trouxeste-me à vinha para limpá-la e podá-la. Vou cortar todas as árvores úteis, arrancar os próprios troncos das videiras, para não teres o que colher. Depois disto, deves pagar o meu serviço. Não o chamarias de louco? Não o mandarias embora, antes que pusesse a mão à foice? Tais são os homens que querem praticar o mal, jurar falso, blasfemar contra Deus, murmurar, defraudar, embriagar-se, entrar em litígios, cometer adultério, usar amuletos, sortilégios, e no entanto, ter dias felizes. Seja-lhes dito: não podes, praticando o mal, querer boa paga. Se és injusto, também Deus o será? Que farei então? O que queres? Quero a vida, e dias felizes. “Preserva tua língua do mal e os teus lábios das palavras enganosas”, isto é, nem fraude, nem mentira.

19 15Mas, o que quer dizer: “Aparta-te do mal?” Não basta não prejudicar, não matar, não roubar, não cometer adultério, não ser fraudulento, não levantar falso testemunho. “Aparta-te do mal”. Tendo-te apartado, dizes: Estou seguro, cumpri tudo, terei a vida, e dias felizes. Não apenas: “Aparta-te do mal”, mas ainda: “faze o bem”. É pouco não despojar; veste o nu. Se não despojaste, tu te apartaste do mal; mas só farás o bem se receberes o peregrino em tua casa. Aparta-te, pois do mal, para fazeres o bem. “Procura a paz e segue-a”. Não te disse: Terás a paz aqui na terra; procura-a e segue-a. Aonde hei de segui-la? Onde ela te precedeu. Pois, o Senhor é nossa paz. Ele ressuscitou e subiu ao céu. “Procura a paz e segue-a”, porque também para ti, ao ressuscitares o que é mortal se transformará, e abraçarás a paz. Ninguém lá te será molesto. Existe perfeita paz onde não há fome. Pois, aqui o pão te dá paz; abstém-te de pão e verás que guerra haverá em tuas vísceras. Como gemem aqui os próprios justos, irmãos! Ficareis cientes de que na terra buscamos a paz, mas só a conseguiremos no fim. Tenhamo-la, contudo, em parte aqui, para merecermos possuí-la totalmente ali. Por que: em parte? Sejamos concordes aqui, amemos o próximo como a nós mesmos. Ama o irmão como a ti mesmo, tem paz com ele. Mas não é possível que não existam algumas rixas, como houve entre irmãos, entre santos, entre Barnabé e Paulo. Todavia, que não matem a concórdia, não extingam a caridade. Pois, até contra ti mesmo, resistes por vezes, e no entanto não te odiaste a ti mesmo. Todo aquele que se arrepende de alguma coisa, disputa consigo mesmo. Pecou, arrependeu-se, irrita-se contra si mesmo por ter agido assim, cometido aquela falta. Disputa contra si mesmo, mas tal luta tende à concórdia. Vede como discute consigo mesmo certo justo, dizendo: “Por que estás triste, ó minha alma, e por que me perturbas? Espera no Senhor, porque ainda hei de confessá-lo” (Sl 42,5). Uma vez que diz a sua alma: “Porque me perturbas?” Certamente o perturbava. Talvez queria ele sofrer por Cristo, e sua alma se constritava. Ciente disso, dizia: “Por que estás triste, ó minha alma, e por que me perturbas”, não tendo ainda paz consigo; mas pelo espírito aderia a Cristo, para que sua alma o seguisse, e não o perturbasse. Portanto, procurai a paz, irmãos. Diz o Senhor: “Eu vos disse tais coisas para terdes paz em mim” (Jo 16,33). Não vos prometo a paz nesta terra. Nesta vida não há paz verdadeira, nem tranquilidade. Temos a promessa da alegria da imortalidade, e a companhia dos anjos. Mas se alguém não a procura aqui, não a terá quando ela vier.

20 16“Os olhos do Senhor estão inclinados para os justos”. Não temas. Trabalha. Os olhos do Senhor estão inclinados para ti. “E os ouvidos, atentos as suas preces”. O que queres mais? Se numa grande casa o pai de família não ouvisse a murmuração de um servo, ele se queixaria: Quanto sofremos aqui, e ninguém me ouve! Acaso podes dizer isto acerca de Deus: Quanto sofro, e ninguém me ouve? Se me ouvisse, dirás talvez me tiraria desta tribulação; clamo, e continuo atribulado. Fica firme apenas em seus caminhos, e te ouvirá em tuas aflições. Mas ele é médico, e ainda tens algo de putrefacto, não sei bem o quê. Gritas. Mas ele continua cortando. E não tira a mão enquanto não cortar quanto lhe parecer necessário. Seria cruel o médico que ouvisse o doente, e poupasse o ferimento e a podridão. Como as mães esfregam os filhos durante o banho, para o bem de sua saúde? Os pequeninos não gritam entre suas mãos? São elas cruéis porque não poupam, não atendem às lágrimas? Ou são cheias de amor? E no entanto as crianças gritam e não são poupadas. Assim também Deus é cheio de caridade; parece não ouvir; para curar e poupar eternamente.

21 17“Os olhos do Senhor estão inclinados para os justos e os ouvidos, atentos a suas preces”. Talvez digam os maus: Por conseguinte, posso com tranquilidade fazer o mal, porque os olhos do Senhor não estão inclinados para mim. Deus está atento aos justos, não me vê, e posso fazer tranquilo o que faço. O Espírito Santo, vendo os pensamentos dos homens logo acrescenta: “Os olhos do Senhor estão inclinados para os justos e os ouvidos, atentos as suas preces. Mas a face do Senhor volta-se contra os malfeitores, para apagar da terra a lembrança deles”.

22 18“Os justos clamaram, e o Senhor os ouviu e os livrou de todas as suas aflições”. Justos eram os três jovens; da fornalha clamaram pelo Senhor, e no meio de seus louvores, o fogo perdeu o calor. A chama não pôde aproximar-se e queimar os jovens inocentes e justos que louvavam o Senhor, que os livrou da chama. Dirá alguém: Estes, sim, são justos que foram ouvidos, segundo a palavra: “Os justos clamaram e o Senhor os ouviu e os livrou de todas as suas aflições”. Eu clamei, e não me livrou. Ou não sou justo, ou não faço o que me ordena, ou talvez não me vê. Não temas. Apenas faze o que ele ordena. E se não te livrar corporalmente, livrará espiritualmente. Aquele que retirou da fornalha os três jovens, acaso tirou da chama os Macabeus (cf 2Mc 6,3)? Os primeiros não cantavam hinos no meio do fogo, enquanto os segundos expiravam no meio do fogo? O Deus dos três jovens não é o mesmo Deus dos Macabeus? A uns livrou, a outros não. Ou antes, livrou a ambos; mas livrou os três jovens, confundindo os homens carnais; aos Macabeus não livrou do mesmo modo, para punir depois os perseguidores com penas maiores, enquanto pensavam que oprimiam os mártires de Deus. Libertou a Pedro, quando um anjo foi para junto dele na prisão e lhe disse: “Levanta-te, e sai”. E logo as cadeias se romperam, e ele seguiu o anjo que o libertava (cf At 12,7). Acaso Pedro perdera a justiça, quando não foi libertado da cruz? Então Deus não o libertou? Libertou também nesta ocasião. Teria vivido tanto para se tornar injusto? Talvez tenha sido melhor ouvido então do que anteriormente, porque verdadeiramente o livrou de todas as tribulações. Pois, foi libertado antes, mas quantos males sofreu depois! Da segunda vez, enviou-o para onde nada mais de mal poderia padecer.

23 19.20“O Senhor está perto dos corações contritos e salva os espíritos abatidos”. Deus é altíssimo, seja humilde o cristão. Se quiser que o Deus altíssimo se avizinhe dele, seja humilde. Grandes mistérios, irmãos. Deus está acima de todas as coisas. Tu te elevas e não o tocas; humilhas-te e ele desce até onde estás. “Numerosas são as tribulações dos justos”. Teria dito: Sejam justos os cristãos, ouçam minha palavra, para não sofrerem tribulação alguma? Ele não promete tal coisa, mas diz: “Numerosas são as tribulações dos justos”. Até mais. Se são injustos, têm poucas tribulações; se são justos, passam por muitas. Mas depois de poucas aflições, ou nenhumas, os injustos sofrem tribulação eterna, da qual nunca se livrarão. Os justos, porém, depois de muitas aflições, chegam à paz eterna, onde jamais sofrerão mal algum. “Numerosas são as tribulações dos justos. De todas elas o Senhor os libertará”.

24 21“Guarda todos os seus ossos, nenhum deles será quebrado”. Também isto, irmãos, entendamos carnalmente. Ossos são o arcabouço dos fiéis. Como em nossa carne os ossos dão firmeza, assim no coração cristão a fé dá a fortaleza. A paciência, portanto, proveniente da fé, são os ossos, no sentido interior. São ossos que não se quebram. “Guarda todos os seus ossos, nenhum deles será quebrado”. Se fosse dito de nosso Senhor Jesus Cristo: O Senhor guarda todos os ossos de seu Filho, nenhum deles será quebrado. Conforme foi prefigurado em outra passagem, quando foi dito que se devia imolar o cordeiro, sem quebrar osso algum (Ex 12,46), isso foi realizado no Senhor, porque quando pendia da cruz, expirou antes que os soldados chegassem, e como encontraram-no já exânime, não quiseram quebrar-lhe as pernas, para se cumprirem as Escrituras. Mas ele o prometeu também aos cristãos. “Guarda todos os seus ossos, nenhum deles será quebrado”. Se virmos, irmãos, alguém de vida santa sofrer tribulações, e talvez operado por um médico, ou maltratado por um perseguidor, de sorte que seus ossos sejam quebrados, não digamos: Este não é justo, porque o Senhor prometeu a seus justos: “O Senhor guarda todos os seus ossos, nenhum deles será quebrado”. Queres ver que há uma referência aí a outra espécie de ossos, por nós denominada fundamento da fé, isto é, a paciência e tolerância em todas as tribulações? Estes são os ossos que não se quebram. Ouvi, e observai na própria paixão do Senhor o que digo. O Senhor estava crucificado no meio de dois ladrões: um insultou, o outro acreditou; um foi condenado, e o outro justificado; um sofreu castigo aqui e no futuro ainda suportaria, ao outro, porém disse o Senhor: “Em verdade, eu te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43). No entanto, os soldados que vieram não quebraram os ossos do Senhor, e quebraram os dos ladrões. Foram quebrados os ossos do ladrão que blasfemou e do ladrão que acreditou. Como fica então o que foi dito: O Senhor “guarda todos os seus ossos, nenhum deles será quebrado”? Não podia guardar todos os ossos daquele ao qual disse: “Hoje estarás comigo no Paraíso”? O Senhor te responderá: Guardei de modo especial, pois o fundamento de sua fé não pôde ser quebrado por aqueles golpes que lhe quebraram as pernas.

25 22“A morte dos pecadores é medonha”. Prestai atenção, irmãos, por causa daquilo que dizíamos. Na verdade o Senhor é grande, grande sua misericórdia; de fato, deu-nos seu corpo que tanto padeceu, e a beber seu sangue. Como considera os que pensam o mal e dizem: Aquele homem morreu mal, foi comido pelas feras; não era justo e por isso pereceu; se fosse justo não pereceria? Então é justo aquele que morre em sua casa e em seu leito? Mas é justamente isto, dizes, que admiro. Conheço seus pecados e seus crimes, e contudo, morreu bem, em sua casa, em seus domínios, sem os incômodos de estar no estrangeiro, nenhum incômodo mesmo em idade madura. Ouve… “A morte dos pecadores é medonha”. Interiormente é péssima a morte que te parece boa. Vês exteriormente, deitado no leito; acaso vês interiormente, arrebatado para a geena? Ouvi, irmãos, e examinai o evangelho. A morte do pecador é péssima. Não havia dois homens neste mundo, um rico, vestido de linho e púrpura, que cada dia se banqueteava com requinte, e outro, pobre, que jazia à sua porta, coberto de úlceras, desejando saciar-se do que caía da mesa do rico, e até os cães vinham lamber-lhe as úlceras? Aconteceu que o pobre morreu (era justo aquele pobre), e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Quem viu seu corpo jazendo à porta do rico, sem ter quem o sepultasse, quanta coisa não diria? Que assim morra meu inimigo, meu perseguidor; assim eu o veja. Seu corpo é execrável, suas feridas nauseabundas; e no entanto, ele descansa no seio de Abraão. Devemos crê-lo, se somos cristãos. Não finja ser cristão quem não acredita, irmãos. A fé nos leva a isto. A realidade é como o Senhor a descreveu. Acaso é verdade o que diz o astrólogo, e mentira o que Cristo diz? Que espécie de morte teve aquele rico? Que morte, no meio de púrpura e linho fino, suntuosa, cheia de pompas? Como foram as exéquias? Com quantos aromas foi sepultado aquele cadáver? E todavia, estando entre os tormentos nos infernos, desejou que o pobre desprezado molhasse a ponta do dedo para lhe refrescar a língua, e não o conseguiu (cf Lc 16,19-25). Aprendei, portanto, o que significa: “A morte do pecador é medonha”, e não interrogueis os leitos revestidos de preciosas alfaias, o corpo recoberto de ricas vestes, a pompa das lamentações, a família em prantos, a multidão que precede e acompanha o cadáver, os sepulcros de ouro e mármore. Pois, se interrogardes essas coisas, responderão mentiras, dirão que é ótima a morte dos que cometeram muitos e graves pecados e até crimes, pois assim são chorados, assim são arranjados, revestidos, carregados e sepultados. Mas interrrogai o evangelho, e mostrará à vossa fé a alma do rico ardendo, no meio de penas, sem que a vaidade dos vivos tenha podido ajudar em coisa alguma, com as honras e obséquios prestados ao corpo do morto.

26 22.23Mas como muitas são as espécies de pecadores, e é difícil não ser pecador, ou talvez impossível nesta vida, logo o salmista acrescentou quais os pecadores que têm péssima morte. “E os que odeiam o justo perecerão”. Qual justo, senão aquele que justifica o ímpio? Qual justo, a não ser nosso Senhor Jesus Cristo, que é também a propiciação pelos nossos pecados? Aqueles que o odeiam têm morte péssima, porque morrerão em seus pecados e por ele não se reconciliam com nosso Deus. “O Senhor resgata a alma de seus servos”. Conforme é a alma, a morte é péssima ou ótima; e não de acordo com as injúrias ou honras por que passam os corpos e que os homens veem. “Não serão punidos os que nele esperam”. A justiça do homem se mede do seguinte modo: por mais que progrida a vida mortal, uma vez que não pode se passar sem pecado, ao menos não falhe a confiança depositadas naquele no qual se acha a remissão dos delitos. Amém.

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

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