Comentário de Santo Agostinho ao Salmo 30

I. COMENTÁRIO

1 1“Para o fim. Salmo a Davi. Do êxtase”. Para o fim. Salmo a Davi, ao mediador de mão forte, no meio das perseguições. A palavra êxtase, acrescentada ao título, significa rapto da mente, devido ao medo ou a alguma revelação. Neste salmo, contudo, aparece mais o pavor do povo de Deus, perturbado pela perseguição de todas as gentes, e pela diminuição da fé em todo o orbe. Primeiro fala o próprio mediador; em seguida, o povo redimido por seu sangue dá graças; finalmente, agitado, fala longamente, em êxtase. O próprio profeta intervém por duas vezes: quase no fim, e no próprio final.

2 2“Em ti esperei, Senhor, não seja confundido eternamente”. Em ti, Senhor, esperei, jamais serei confundido. Assim acontece quando for insultado, como se fosse um homem semelhante aos outros. “Livra-me em tua justiça e salva-me”. Em tua justiça livra-me da fossa mortal, e tirame do número daqueles que nela caem.

3 3“Inclina para mim teu ouvido”. Estás perto de mim. Ouve-me, pois sou humilde. “Apressa-te em meu socorro”. Não difiras até o fim do mundo separar-me dos pecadores, como acontece a todos os que creem em mim. “Sê para mim um Deus protetor”. Protege-me, ó Deus. “E uma casa de refúgio para me salvares”. Uma casa, onde refugiado possa me salvar.

4 4“Porque és a minha força e o meu abrigo”. Minha fortaleza para suportar os meus perseguidores e meu abrigo para escapar deles, és tu. “Para honra de teu nome hás de me conduzir e sustentar”. Em tudo seguirei a tua vontade a fim de que por meu intermédio te manifestes a todos os povos. Pouco a pouco, congregando em mim os santos, completarás meu corpo e a minha estatura perfeita.

5 5“Tirar-me-ás deste laço que estava dissimulado diante de mim”. Livras-me das insídias que me armaram ocultamente. “Porque és o meu refúgio”.

6 6“Em tuas mãos encomendo o meu espírito”. Entrego a teu poder o meu espírito, que em breve recuperarei. “Tu me resgataste, Senhor, Deus verdadeiro”. Diga também o povo remido pela paixão de seu Senhor, e alegre pela glorificação de sua Cabeça: “Tu me resgataste, Senhor, Deus verdadeiro”.

7 7“Detestas os que inutilmente cultuam a vaidade”. Detestas os que cultuam a falsa felicidade do século. “Eu, porém, esperei no Senhor”.

8 8“Em tua misericórida quero exultar e alegrar-me”; ela não me engana. “Porque viste a minha humilhação”. Por meio desta me submeteste à vaidade na esperança. “E salvaste a minha alma das angústias”; salvaste minha alma do temor que me premia, para te servir na liberdade e caridade.

9 9“Não me entregaste às mãos do inimigo”. Não me prendeste, de sorte que não tivesse possibilidade de respirar com liberdade, e fosse entregue para sempre ao poder do diabo, que seduzia pelas ambições desta vida e aterrorizava com a morte. “Firmaste os meus pés num caminho espaçoso”. Ciente da ressurreição de meu Senhor e da promessa de minha própria ressurreição, minha caridade se dilata, livre das angústias do temor, e permanecendo nas auras da liberdade.

10 10“Tem compaixão de mim, Senhor, que estou atribulado”. Mas, que inesperada crueldade de perseguidores é esta, que me incute enorme pavor? “Tem compaixão de mim, Senhor”. Já não é a morte que me atemoriza, mas os padecimentos e tormentos. “Estão conturbados pela ira os meus olhos”. Fixara meus olhos em ti, para não me abandonares; tu te iraste e os perturbaste. “A minha alma e as minhas entranhas”. A mesma ira turvou minha alma, com a lembrança do que por mim sofreu o meu Deus e de suas promessas.

11 11“Porque a minha vida se consome na dor”, pois minha vida está em confessar-te, mas desfaleci de dor, porque disse o inimigo: Sejam torturados até renegarem. “E os meus anos em gemidos”. Não vem a morte terminar com os anos que passo neste século, decorridos em gemidos, mas que continuam. “Meu vigor esmoreceu devido à indigência”. Falta-me a saúde corporal e não me são poupados os tormentos. A dissolução do corpo era necessária e a morte não me sobrevém. Nesta miséria, debilitou-se minha confiança. “E os meus ossos se abalaram”. Minha firmeza foi abalada.

12 12“Tornei-me objeto de opróbrio para todos os meus inimigos”. Meus inimigos são todos os iníquos; e no entanto, devido a seus crimes, serão torturados até que confessem. Então, venço o opróbrio deles. À sua confissão não se seguirá a morte, mas virão os tormentos. “Principalmente para os meus vizinhos”. Isto pareceu excessivo aos que começavam a te conhecer e possuir a fé que eu possuo. “E terror para os meus amigos”. Incuti temor aos meus próprios amigos pelo exemplo de minha horrível tribulação. “Os que me percebiam, fugiam para longe de mim”. Não entendiam minha esperança interior e invisível; fugiram de mim, optando pelas coisas exteriores e visíveis.

13 13“Fui entregue ao esquecimento, riscado dos corações como um morto”. Eles se esqueceram de mim; estou morto para seu coração. “Sou um vaso partido”. Parecia-me ser eu imprestável para o uso do Senhor, pois vivendo no século, não lucrava a ninguém. Todos receavam associar-se a mim.

14 14“Porque ouvi os ultrajes de muitos, ao redor”. Ouvi muitos a ultrajar-me na peregrinação desta terra, seguindo o decurso do tempo e recusando voltar comigo para a pátria eterna. “Conspirando contra mim, tramaram tirar-me a vida”. Excogitaram o plano de não me deixarem morrer, para obterem que concordasse com eles a minha alma. Do contrário, ela escaparia facilmente pela morte de seu poder.

15 15“Mas, eu em ti esperei, Senhor; disse: Tu és o meu Deus”. Não mudaste. Salvas, embora corrijas.

16 16“Em tuas mãos está a minha sorte”. Em teu poder, a minha sorte. Não encontro mérito algum de minha parte para uma escolha especial em vista da salvação, no meio da universal impiedade do gênero humano. Se, no entanto, existe diante de ti uma disposição justa e oculta para a minha eleição, a mim, porém, que a ignoro, coube por sorte a túnica de meu Senhor (Jo 19,24). “Livra-me das mãos de meus inimigos e perseguidores”.

17 17“Irradia a luz de tua face sobre teu servo”. Manifesta aos homens, descrentes de que a ti pertenço, como tua face se volta benevolente para mim e que eu te sirvo. “Salva-me por tua misericórdia”.

18 18“Senhor, não seja confundido, porque te invoquei”. Senhor, não me cubra de confusão perante os que me atacam, porque te invoquei. “Envergonhem-se os ímpios e sejam precipitados no inferno”. Corem-se antes os que invocam ídolos de pedra, e sejam partícipes das sombras.

19 19“Emudeçam os lábios mentirosos”. Revelando aos povos os teus mistérios em mim, torna mudos de espanto os lábios dos que inventam falsidades a meu respeito. “Dos que proferem a iniquidade contra o justo, cheios de soberba e de desdém”, dos que falam iniquamente contra Cristo, orgulhando-se e desprezando-o, como a um homem crucificado.

20 20-21“Como é grande, Senhor, a abundância de tua doçura”. Exclama aqui o profeta, divisando tais coisas e admirado da variedade com que se mostra abundante a tua doçura, Senhor. “Reservada para os que a ti temem”. É grande o teu amor até mesmo para aqueles a quem corriges. Mas, a fim de não agirem com maior negligência, devido a uma segurança desordenada, ocultas-lhes a doçura de teu amor, por lhes ser útil que temam a ti. “É perfeita para os que em ti esperam”. Mas, tornaste perfeita esta doçura para os que esperam em ti; não a subtrais dos que esperam com perseverança, até o fim. “Na presença dos filhos dos homens”. Não está oculta aos filhos dos homens, que não vivem mais segundo Adão, e sim conforme o filho do homem. “Abriga-os no esconderijo de sua face”. Guardas nesta habitação perpétua, no esconderijo de teu conhecimento, aqueles que em ti esperam. “Da perturbação dos homens”, de tal modo que não sofram mais perturbação humana.

21 “Protegê-los-ás em tua tenda das línguas maldizentes”. Por enquanto, as línguas maldizentes gritam: Quem o sabe? Ou quem veio de lá? Então, tu os proteges, abrigando-os na tenda da fé naquilo que o Senhor por nós fez e sofreu no tempo.

22 22“Bendito o Senhor que usou de admirável misericórdia na cidade circunvizinha”. Bendito o Senhor, que depois da correção de agudas perseguições, usou de admirável misericórdia para com a terra inteira, no âmbito da sociedade humana.

23 23“Eu disse no arroubo de meu espírito”. Daí vem que aquele povo repete: Eu disse, apavorado, quando os povos horrivelmente se encarniçavam contra mim. “Fui rejeitado do alcance de teus olhos”. Se me olhasses, não me deixarias sofrer assim. “Por isso escutaste, Senhor, a minha voz suplicante, que por ti clamava”. Mitigando, pois, a correção e mostrando que estou sob teus cuidados, ouviste, Senhor, a minha voz suplicante, quando devido à tribulação, eu me entregava instantemente à oração.

24 24“Amai ao Senhor, seus santos todos”. O profeta, vendo estas coisas, de novo exorta: “Amai ao Senhor, seus santos todos, porque o Senhor quer a verdade”. Se o justo com dificuldade consegue salvar-se, em que situação ficará o ímpio e pecador (cf 1Pd 4,18)? “E retribuirá aos que agem com excessivo orgulho”. E retribuirá aos que apesar de vencidos não se converterem, por causa de sua excessiva soberba.

25 25“Agi varonilmente, e se conforte o vosso coração”. Praticai o bem sem desfalecimento, para colherdes no tempo oportuno. “Todos vós que esperais no Senhor”, isto é, que o temeis e adorais com retidão. Esperai no Senhor.

II. SERMÃO I

1 1Perscrutemos, quanto nos é possível, os segredos dos salmo que acabamos de cantar, e em seguida, apresentemos a vossos ouvidos e a vossas mentes o sermão elaborado sobre o assunto. Intitula-se: “Para o fim. Salmo a Davi. Do êxtase”. Sabemos que sentido tem: “Para o fim”, se conhecemos a Cristo; pois diz o Apóstolo: “O fim da lei é Cristo para a justificação de todo o que crê” (Rm 10,4). Enfim, mas não enquanto termo, mas como acabamento. Fim de dois sentidos: ou o de deixar de ser o que existia, ou de aperfeiçoar-se o que estava só começado. Por conseguinte: “Para o fim”, para Cristo.

2 “Salmo de Davi. Do êxtase”. A palavra “êxtase”, do grego, na medida que é traduzível para o latim, pode ser vertida por: arroubo. O arroubo do espírito propriamente costuma chamar-se êxtase. Existem arroubos de duas espécies: ou de pavor, ou de intenso impulso para as coisas do alto, de sorte que fogem da memória as coisas inferiores. Tiveram êxtase os santos, aos quais foram revelados os segredos de Deus, que superam as realidades deste mundo. Falando deste arroubo do espírito, isto é, do êxtase, Paulo alude a si mesmo, com as palavras: “Se nos deixamos arrebatar como para fora do bom senso, foi por causa de Deus; se somos sensatos, é por causa de vós. Pois a caridade de Cristo nos compele” (2Cor 5,13). Quer dizer, se quissésemos fazer e contemplar apenas aquelas coisas que vemos em êxtase, não ficaríamos convosco, mas estaríamos no alto, e vos menosprezaríamos de certo modo. E quando podereis seguir-nos, com passo hesitante, até aquelas realidades superiores e íntimas, senão quando novamente, impelidos pela caridade de Cristo (“Ele tinha a condição divina, e não considerou o ser igual a Deus como algo a que se apegar ciosamente. Mas esvaziou-se a si mesmo, e assumiu a condição de servo”) (Fl 2,6) nos considerarmos servos, não sendo ingratos àquele do qual recebemos os bens mais sublimes, e por causa dos fracos não desprezarmos os bens inferiores, adaptando-nos àqueles que não podem conosco ver as realidades sublimes? Por isso, diz o Apóstolo: “Se nos deixamos arrebatar como para fora do bom senso, foi por causa de Deus”. Pois, Deus vê o que nós vemos em êxtase; somente ele revela seus segredos. Efetivamente, afirma o Apóstolo, declarando que foi arrebatado e elevado ao terceiro céu e ouviu palavras inefáveis, que não é lícito ao homem pronunciar. Tão forte foi aquele arroubo que ele disse: “Se em seu corpo, não sei; se fora do corpo, não sei; Deus o sabe” (2Cor 12,2). Por conseguinte, se é a este arroubo do espírito, isto é, a este êxtase, que se refere o título do salmo, devemos esperar que há de pronunciar palavras importantes e elevadas o salmista, isto é, o profeta, ou antes, por meio do profeta, o Espírito Santo.

3 Se, porém, por êxtase se há de entender pavor, este sentido da palavra é também condizente com o contexto do salmo. Evidentemente, vai falar da paixão, que é pavorosa. Mas, quem é que sente pavor? Será o Cristo, porque traz o salmo: “Para o fim” e tal expressão representa a Cristo? Ou seremos nós? Podemos corretamente pensar que o pavor é de Cristo, na iminência da paixão, se viera ao mundo por causa dela? Aproximando-se o momento da morte, finalidade de sua vinda, acaso podia apavorar-se? Se fosse homem apenas, e não Deus, teria mais alegria com a perspectiva da ressurreição do que temor diante da morte? Mas, como se dignou assumir a condição de servo, e nesta condição revestir-se de nossa natureza, e assim como não menosprezou acolher-nos em si, também não desdenhou transfigurar-nos em si e empregar nossas palavras para que também nós proferíssemos as suas. Admirável comércio, permuta divina, troca operada neste mundo pelo celeste negociante: veio receber injúrias e conceder honras, veio sofrer dores e dar a salvação, veio sofrer a morte e transmitir a vida. Estando para morrer segundo a natureza que recebera de nós, apavorava-se, não em si mesmo, mas em nós. E se disse estar sua alma triste até a morte (Mt 26,38) realmente nós todos estávamos com ele. Pois, sem ele nada somos; nele, contudo, também somos o Cristo. Por quê? Porque Cristo total é Cabeça e corpo. Cabeça é ele, o salvador do corpo, que já subiu ao céu; corpo é a Igreja, a labutar ainda na terra (Ef 5,23). Se este corpo não aderisse pela conexão da caridade a sua Cabeça, tornando-se Cabeça e corpo um só todo, ele não se dirigiria do céu a certo perseguidor, corrigindo-o: “Saulo, Saulo, por que me persegues” (At 9,4)? Já no céu sentado, ninguém o tocava; como poderia Saulo, na terra, enfurecido contra os cristãos, injuriá-lo? Não disse: Por que persegues a meus santos, a meus servos? Mas: “Por que me persegues”, isto é, a meus membros? A Cabeça clamava em favor dos membros e os representava. Igualmente a língua fala em lugar dos pés. Quando, por exemplo, no meio de multidão o pé é pisado e fica doído, a língua exclama: Tu me pisas. Não diz: Pisas o meu pé, mas diz que ela mesma é pisada, apesar de não ser atingida, sentindo-se ligada ao pé machucado. Portanto, aqui também, sem inconveniente, entende-se a palavra êxtase como relativa a pavor. Irmãos. O que direi? Se os que estavam diante do martírio não sentissem absolutamente pavor, acaso se teria dito ao próprio Pedro, conforme ouvimos no dia natalício (do martírio) dos Apóstolos, como predição do Senhor sobre sua futura paixão: “Quando eras jovem, tu te cingias e andavas por onde querias; quando fores velho outro te cingirá e te conduzirá aonde não queres”? Acrescenta João: “disse isto para indicar que espécie de morte teria” (Jo 21,18.19). Se, pois, o apóstolo Pedro, apesar de tão grande perfeição, por onde não queria chegou ao que queria (morreu a contragosto, embora almejasse ser coroado) não é de admirar que mesmo os justos e os santos sintam pavor diante dos padecimentos. O medo provém da fraqueza humana, a esperança apoia-se na promessa divina. O medo procede de ti, a esperança é em ti um dom de Deus. Melhor hás de te reconhecer em teu pavor, para glorificares em tua libertação que te criou. Atemorize-se a fraqueza humana, mas apesar do pavor, a misericórdia divina não falha. Enfim, com temor começa o salmista: “Em ti esperei, Senhor, não seja confundido eternamente”. Vêdes que se atemoriza e espera. Vêdes que não é um temor desesperado. Mesmo se existe perturbação no coração humano, o consolo divino não falta.

4 Aqui, portanto, fala Cristo através do profeta. Ouso afirmar: É Cristo quem fala. O salmista há de proferir certas palavras neste salmo que aparentam ser inadequadas a Cristo, àquela sublimidade de nossa Cabeça, principalmente ao Verbo que no princípio era Deus, junto de Deus. Nem mesmo talvez se ajuste à condição de servo, que ele recebeu da Virgem; e no entanto, fala Cristo, porque nos membros de Cristo está Cristo. Querendo que saibais constituirem cabeça e corpo um só Cristo, ele próprio, ao tratar do sentido do casamento, afirma: “De modo que já não sois dois, mas uma só carne” (Mt 19,5.6). Mas, acaso a afirmação é atinente a qualquer espécie de união conjugal? Ouve o que diz o apóstolo Paulo: “Serão ambos uma só carne. É grande este mistério: refiro-me à relação entre Cristo e a sua Igreja” (Ef 5,31.32). De dois faz-se, portanto, de certo modo, uma só pessoa, constituída de Cabeça e corpo, de esposo e esposa. Igualmente o profeta Isaías recomenda a unidade admirável e excelente desta pessoa; pois também fala Cristo profeticamente o seguinte: “Como a um esposo adornou-se com um diadema, como a uma esposa enfeitou-se com joias” (Is 61,10). Chamou-se a si mesmo de esposo, de esposa. Porque ele é esposo, é esposa, senão porque serão dois numa só carne? Se são dois numa só carne, porque não seriam dois numa só voz? Fale, portanto, Cristo, porque em Cristo fala a Igreja, e na Igreja fala Cristo; o corpo na Cabeça e a Cabeça no corpo. Ouve como o Apóstolo exprime a mesma coisa, com maior clareza: “Com efeito, o corpo é um e, não obstante, tem muitos membros, mas todos os membros do corpo, apesar de serem muitos, formam um só corpo. Assim também acontece com Cristo” (1Cor 12,12). Tratando dos membros de Cristo, isto é, dos fiéis, não disse: assim também os membros de Cristo; mas chamou de Cristo ao todo a que se referiu. O corpo é, por conseguinte, um só e tem muitos membros; e os membros todos, sendo embora muitos, constituem um só corpo. Assim também Cristo: muitos membros, um só corpo. Todos nós, portanto, simultaneamente estamos com Cristo, nossa Cabeça; sem ela nada podemos. Por quê? Porque nós com nossa Cabeça assemelhamo-nos à videira. Sem a Cabeça, que tal não aconteça, parecemo-nos com sarmentos cortados, inúteis para qualquer obra agrícola, destinados apenas para o fogo. Por isso, Cristo também disse no evangelho: “Eu sou a videira e vós os ramos. Meu Pai é o agricultor. Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5.1). Senhor, nada sem ti, contigo tudo. De fato, tudo o que ele faz por nosso intermédio, parece que somos nós que fazemos. Ele pode muito e tudo sem nós; e nós, sem ele, nada.

5 2Adapta-se, portanto, o acima mencionado, a qualquer espécie de êxtase, seja de pavor, ou de arroubo. Digamos no corpo de Cristo, digamos todos como um só (porque todos nós formamos uma unidade), digamos: “Em ti esperei, Senhor, não seja confundido eternamente”. Horroriza-me a confusão que dura eternamente; porquanto existe uma confusão temporal, que é útil, a perturbação da alma que considera seus pecados, consideração de horror, horror de vergonha, vergonha de emenda. Daí dizer também o Apóstolo: “E que fruto colhestes então daquelas coisas de que agora vos envergonhais” (Rm 6,21)? Ele afirma, portanto, que se envergonham os que agora já são fiéis, não dos dons atuais, e sim dos pecados passados. Não receie o cristão tal confusão; aliás, se não a sofrer, sofrerá a eterna. Qual é a confusão eterna? Quando suceder o que foi dito: “Seus delitos os acusarão” (Sb 4,20). E acontecerá que toda a grei perversa, entregue pelas próprias iniquidades, estará à esquerda do trono, como bodes separados das ovelhas, e ouvirá a sentença: “apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos” (Mt 25,41). E perguntarão os condenados: Por que razão? “Porque tive fome e não me destes de comer” (ib 41). Eles desprezavam o Cristo faminto, não lhe dando de comer, o Cristo sedento não lhe dando de beber, nu não o vestindo, peregrino não o recebendo, doente não o visitando; então o desprezavam. Ao começar ele tal enumeração, ficarão confundidos e a confusão será eterna. Temendo-a, o salmista, apavorado, com a mente arrebatada em Deus, roga: “Em ti esperei, Senhor, não seja confundido eternamente”.

6 “Livra-me em tua justiça, e salva-me”, porque se ponderas a minha justiça, hás de condenarme. “Livra-me em tua justiça”. Dando-se a nós, a justiça de Deus faz-se nossa. No entanto, denomina-se justiça de Deus, para que o homem não pense que adquire a justiça por si mesmo. Assim se exprime o apóstolo Paulo: “A quem…crê naquele que justifica o ímpio, é sua fé que é levada em conta de justiça” (Rm 4,5). O que significa: Aquele que justifica o ímpio? É aquele que transforma o ímpio em justo. Os judeus, efetivamente, pensando que poderiam praticar a justiça pelas próprias forças, “esbarraram na pedra de tropeço” (Rm 9,32), na pedra de escândalo, e não reconheceram a graça de Cristo. Receberam, de fato, a lei e se tornaram réus, não se livraram da culpa. Finalmente, o que deles afirma o Apóstolo: “Pois lhes rendo testemunho do que têm zelo de Deus, mas não é um zelo esclarecido” (Rm 10,2). O que quer dizer: “Têm zelo de Deus”, os judeus, mas não é um zelo esclarecido?” Ouve o que quer dizer: zelo não esclarecido: “Desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à justiça de Deus” (ib 10,3). Têm zelo de Deus, mas não esclarecido, porque desconhecem a justiça de Deus e procuram estabelecer a sua própria, como se por si mesmos se tornassem justos; por conseguinte, eles não conheceram a graça de Deus, porque não quiseram salvar-se gratuitamente. Quem é que se salva gratuitamente? Aquele em quem o Salvador não encontrou o que coroar, e sim o que condenar. Não encontrou boas obras meritórias; ao invés, achou-os merecedores de suplícios. Se o Salvador agir estritamente segundo as normas da lei, há de condenar o pecador. Se agisse segundo esta norma, a quem livraria? Encontrou a todos como pecadores; sem pecado, somente aquele que nos encontrou pecadores. É isto o que afirma o Apóstolo: “Todos pecaram e estão privados da glória de Deus” (ib 3,23). Qual o sentido da frase: “estão privados da glória de Deus?” É ele quem há de libertar e não tu. Como não podes te libertar, precisas de um libertador. Por que te gabas? Por que presumes da lei e da justiça? Não vês a luta no teu interior, de ti, contra ti? Não ouves a súplica daquele que luta, confessa, aspira por auxílio na peleja? Não escutas o atleta do Senhor pedir agonóteta (presidente dos jogos) socorro no combate? Deus não é só espectador de tua luta como o agonóteta, ao combateres no anfiteatro. Este pode premiar se venceres, mas não te ajudar se estiveres em perigo. Deus não assiste assim ao combate. Vê, portanto, dá atenção àquele que assevera: “Deleito-me na lei de Deus, segundo o homem interior, mas percebo outra lei em meus membros, que peleja contra a lei da minha razão e que me acorrenta à lei do pecado que existe nos meus membros. Infeliz de mim! Quem me libertará deste corpo de morte? A graça de Deus, por Jesus Cristo nosso Senhor” (Rm 7,22-25). Por que se chama graça? Porque é dada gratuitamente. E por que razão é dada gratuitamente? Teus méritos não foram precedentes; ao invés, os benefícios de Deus é que foram antecedentes. Glória, pois, ao nosso libertador. Com efeito, “todos pecaram e todos estão privados da graça de Deus. Em ti esperei, Senhor, não seja confundido eternamente”, porque espero em alguém que não me confunde. “Livra-me em tua justiça e salva-me”. Em mim não achaste justiça que fosse minha. Livra-me em tua justiça, isto é, livre- me a graça que me justifica, e de ímpio me transforma em piedoso, de iníquo em justo, de cego em vidente, de caído em reerguido, de queixoso em alegre. Ela, não eu próprio, me liberta. “Livra-me em tua justiça” e liberta-me.

7 3“Inclina para mim teu ouvido”. Deus assim agiu, ao enviar-nos o próprio Cristo. Enviou-nos aquele que, com a cabeça inclinada, escrevia no chão com o dedo (Jo 8,6), ao lhe ser apresentada a mulher adúltera para que a punisse. Inclinara-se para o chão, isto é, Deus para o homem, ao qual foi dito: “És pó e em pó te tornarás” (Gn 3,19). Deus não inclina para nós o ouvido como se estivesse em lugar material, ou fosse limitado por determinados membros corporais. A imaginação humana não cria absolutamente tais fantasias. Deus é a verdade. E a verdade não é quadrada, nem redonda, nem comprida. Está presente em toda parte, se os olhos do coração para ela se abrirem. Deus, no entanto, inclina para nós o ouvido, derramando sobre nós a sua misericórdia. Pode haver maior misericórdia do que dar-nos seu Unigênito, não no intuito de viver conosco, mas para morrer por nós? “Inclina para mim teu ouvido”.

8 “Apressa-te em meu socorro”. Foi atendida esta súplica, pois diz o salmista: “Apressa-te”. Foi empregada tal expressão para se entender que consta de um instante toda a duração do tempo que nos parece longo enquanto decorre. Não é longo o que tem fim. Decorreu de Adão até hoje, e passou muito mais tempo do que resta a passar. Se Adão ainda vivesse, e morresse hoje, de que lhe valeria ter subsistido por tanto tempo, ter vivido tanto? Qual a razão desta rapidez? Porque o tempo voa; e o que tarda em tua opinião, aos olhos de Deus é breve. O salmista, em êxtase, entendera esta rapidez. “Apressa-te em meu socorro. Sê para mim um Deus protetor, e uma casa de refúgio para me salvar”. Sê para mim uma casa de refúgio, ó Deus meu protetor, uma casa de refúgio. Por vezes, acho-me em perigo, e quero fugir. Para onde? Para que lugar irei com segurança? Para que monte? Para que gruta? Para que construção bem munida? Em que fortaleza me abrigarei? Com que muralhas me defenderei? A qualquer parte aonde for, vou comigo mesmo. De tudo podes fugir, ó homem, exceto de tua consciência. Entra em casa, repousa em teu leito, entra em teu íntimo. Nada de mais fundo podes achar, aonde fugir de tua consciência, se tens remorsos de teus pecados. Uma vez que disse o salmista: “Apressa-te em meu socorro, em tua justiça livra-me”, perdoando meus pecados e estabelecendo em mim a tua justiça. Ser-me-ás uma casa de refúgio. Em ti, refugiome. Pois, para onde fugirei de ti? Se Deus está irritado contra ti, para onde fugirás? Ouve o que diz o salmista em outra passagem, temendo a ira de Deus: “Aonde irei para longe de teu espírito e aonde fugirei de tua face? Se subir até o céu, lá estás; se descer aos abismos, estás presente” (Sl 138,7.8). Aonde quer que vá, lá te encontrarei. E se te irritares, encontrar-te-ei vindicativo, se te aplacares, como auxiliador. Nada me resta senão fugir para junto de ti e não fugir de ti. Se és um servo qualquer, para escapares de teu senhor, que é um homem, foges para onde ele não está; para escapares de Deus, foge para junto dele. Não há como fugir de Deus. Todos os lugares estão patentes e descobertos aos olhos do Onipotente. Sê, portanto, para mim uma casa de refúgio. Pois, se não tiver sido libertado, como fugirei? Cura-me e me refugiarei junto de ti. Se não me curas, não posso andar; como então fugir? Para onde iria, para onde fugiria, se não pudesse andar, estando meio-morto no caminho, coberto de feridas infligidas pelos ladrões? O sacerdote passou e foi adiante, passou o levita e foi adiante, passou o samaritano e se compadeceu (Lc 10,30), quer dizer, o prórpio Senhor, que se compadeceu do gênero humano. Samaritano significa guardião. E quem nos guarda, se ele nos abandona? De fato, quando os judeus o injuriavam nestes termos: “Não dizemos, com razão, que és samaritano e tens um demônio” (Jo 8,48)? Rejeitou uma acusação e aceitou a outra. Disse: “Eu não tenho demônio”, mas não declarou: Não sou samaritano. Assim deu a entender que era nosso guardião. Compadecido, aproximou-se, curou, levou à hospedaria, exerceu a misericórdia para com ele. E então, este homem já pode andar; pode também fugir. Para onde, se não para junto de Deus, onde fez para si uma casa de refúgio?

9 4“Porque és a minha força e o meu abrigo. Para honra de teu nome hás de me conduzir e me sustentar”. Não devido a meus méritos, mas “para honra de teu nome”, a fim de seres glorificado, e não porque eu seja digno. “Hás de me conduzir”. Não me desvie, longe de ti. “E sustentar”. Esteja em condições de comer o manjar que alimenta os anjos. Aqui nos nutriu com leite aquele que nos prometeu o celeste alimento e usou de misericórdia eterna. A mãe que amamenta ingere a comida que a criança não é capaz de tomar e a converte em leite. A criança toma o que devia receber à mesa, mas assimilado pelo corpo da mãe, sob a forma conveniente a um pequenino. Assim Deus, para converter sua sabedoria em leite para nós, veio até nós revestido de carne. Por isso fala o corpo de Cristo: “Hás de me sustentar”.

10 5“Tirar-me-ás deste laço que estava dissimulado diante de mim”. Já alude à paixão. “Tirarme-ás deste laço que estava dissimulado diante de mim”. Não se trata apenas da paixão de nosso Senhor Jesus Cristo. O diabo estende seus laços até o fim. E ai daquele que cai neste laço. Cai, efetivamente, todo aquele que não espera em Deus, e não diz: “Em ti esperei, Senhor, não seja confundido eternamente. Livra-me em tua justiça, e salva-me”. Estão armados, preparados os laços do inimigo. Seus laços são o erro e o terror; erro que seduz, terror que esmaga e arrebata. Tu, porém fecha a porta da cobiça contra o erro; cerra a porta do temor contra o terror e escaparás do laço. Teu próprio Imperador oferece em si exemplo desta luta, por ti tendo-se dignado até a ser tentado. Primeiro foi tentado relativamente ao prazer. O diabo o tentou, forçando a porta dos desejos, ao dizer: “Manda que estas pedras se transformem em pão. Todos estes reinos te darei, se prostrado me adorares. Atira-te para baixo, porque está escrito: Ele dará ordem a seus anjos a teu respeito, e eles te tomarão nas mãos para que não tropeces em alguma pedra” (Mt 4,4.9.6). Todos esses atrativos são tentação para a cobiça. Mas, o diabo encontrou trancada a porta da cobiça naquele que era tentado por nossa causa. Experimentou então forçar a do temor e preparou a paixão. Finalmente, declara o evangelista: “E consumada para ele toda a tentação, o diabo o deixou até o tempo oportuno” (Lc 4,13). O que siginifica: “Até o tempo oportuno?” Haveria de voltar e forçar a porta do medo, tendo encontrado trancada a da cobiça. Todo o corpo de Cristo, por conseguinte, é tentado até o fim. Irmãos. Quando foi decretado não sei que mal contra os cristãos, foi simultaneamente atacado este corpo, todo ele. Daí dizer o salmo: “Como um montão de areia fui empurrado para cair, mas o Senhor me susteve” (Sl 117,13). Mas, uma vez terminada aquela perseguição infligida a todo o corpo para que caísse, começou a prova por partes. É tentado o corpo de Cristo. Enquanto uma igreja acha-se livre de perseguição, outra sofre. Não sofre o furor do imperador, mas suporta o da plebe maligna. Quantas devastações realizadas pela plebe! Quantos males infligidos às igrejas pelos maus cristãos, destes que foram apanhados na redezinha, em tal quantidade que as barcas quase afundaram (Lc 5,7), na pesca miraculosa, antes da paixão? Não faltam, pois, as angústias da tentação. Quem assim se exprime, promete a paz a si mesmo, e quem a si mesmo promete a paz, é invadido quando se crê seguro. Diga, portanto, o corpo inteiro de Cristo: “Tirar-me-ás deste laço, que estava dissimulado diante de mim”. Escapou do laço também nossa Cabeça, do laço escondido por aqueles que foram mencionados no evangelho e que haviam de dizer: “Este é o herdeiro, vamos! matemo-lo e apoderemo-nos da herança”. Eles responderam, ao serem interrogados, sentenciando contra si próprios: “O que fará o pai de família àqueles maus vinhateiros? Certamente os destruirá de maneira horrível e arrendará a vinha a outros agricultores. Como? Não lestes o dito: A pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se a pedra angular?” (cf Mt 21,38-42). “Rejeitaram os construtores”, equivale a: “lançaram-no fora da vinha e o mataram”. Portanto, também ela foi libertada. Nossa Cabeça está no céu: é livre. Unamo-nos a ele pelo amor, para melhor depois a ela aderirmos pela imortalidade e digamos todos: “Tirar-me-ás deste laço, que estava dissimulado diante de mim, porque és o meu refúgio”.

11 6Ouçamos a voz que o Senhor emitiu na cruz: “Em tuas mãos encomendo o meu espírito”. Uma vez que reconhecemos suas palavras no evangelho, provenientes deste salmo, não havemos de duvidar de que ele aqui falou. Encontra-se no evangelho; ele disse: “Em tuas mãos encomendo o meu espírito (Lc 23,46), e inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19,30). Não foi sem razão que fez suas as palavras deste salmo; quis te prevenir de que ele falou neste salmo. Procura-o aqui; reflete como quis ser procurado em outro salmo, intitulado: “Pelo socorro matutino. Traspassaram-me as mãos e os pés. Contaram todos os meus ossos. Estiveram a olhar-me e me examinaram. Dividiram entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica lançaram sortes” (Sl 21,17.19). Querendo te advertir de que nele isto se realizou, proferiu como palavra sua o início deste salmo: “Deus, meu Deus, por que me desamparaste” (ib 2)? E, no entanto, estava representando a voz do corpo, pois o Pai jamais abandonou seu Filho Único. “Tu me resgataste, Senhor, Deus verdadeiro”, fazendo o que prometeste, não enganando em tua promessa, ó Deus verdadeiro.

12 7“Detestas os que seguem inutilmente a vaidade”. Quem é que segue a vaidade? Aquele que morre, pelo receio de morrer. Mente pelo medo de morrer, e morre antes de morrer, quem mentia para viver. Queres mentir para não morrer; mentes e morres. Enquanto evitas uma só morte que podes diferir, mas não eliminar, incorres em duas: a primeira da alma, a segunda do corpo. Donde se origina isto, a não ser de seguires a vaidade? Apraz-te o dia passageiro; agrada-te o tempo que voa, que nada segura e ainda por cima te retém. “Detestas os que seguem inutilmente a vaidade. Eu, porém, esperei no Senhor”. Pões a esperança no dinheiro? Segues a vaidade. Depositas a esperança nas honras e na sublimidade de um poder humano? Segues a vaidade. Confias em um amigo poderoso? Segues a vaidade. Enquanto esperas em todas estas coisas, ou morres ou as deixas, ou durante a vida tudo se perde e desvanece a tua esperança. Relembrando tal vaidade, diz Isaías: “Toda carne é feno, e toda a sua glória como a flor do feno. Seca o feno e murcha a flor, mas a palavra do Senhor subsiste para sempre” (Is 40,68). Eu, porém, não esperei como os que confiam na vaidade e a seguem, mas esperei no Senhor, em quem não existe vaidade.

13 8“Em tua misericórdia quero exultar e alegrar-me”, não em minha justiça. “Porque viste a minha humilhação, e salvaste minha alma das angústias. Não me entregaste às mãos do inimigo”. Quais as angústias, de que desejamos livrar nossa alma? Quem as pode enumerar? Quem as destacará com exatidão? Quem mostrará devidamente como evitá-las e delas fugir? Em primeiro lugar, dura necessidade do gênero humano é ignorar o que se passa no coração de outrem, pensar mal, às vezes, de um amigo fiel, e por vezes bem, de um infiel. Oh dura necessidade! Como desvendar os corações? Que olhos empregarás? Ó condição mortal fraca e lastimável? O que fazer para veres hoje o coração de teu irmão? Não há recurso. Pior ainda. Nem sabes o que será amanhã o teu coração. E o que dizer da obrigatoriedade da mortalidade? Forçoso é morrer, e ninguém o quer. Ninguém quer o que, no entanto, é necessário. Ninguém quer o que acontecerá, queira ou não queira. Dura necessidade: não querer o inevitável! Se fosse possível, certamente não queríamos morrer; gostaríamos de nos tornar como os anjos, por certa modificação, sem morrer, conforme diz o Apóstolo: “Teremos no céu um edifício, obra de Deus, morada eterna, não feita por mãos humanas. Tanto assim que gememos pelo desejo ardente de revestir por cima de nossa morada terrestre a nossa habitação celeste — que será possível se formos encontrados vestidos, e não nus. Pois nós, que estamos nesta tenda, gememos acabrunhados, porque não queremos ser despojados da nossa veste, mas revestir a outra por cima desta, a fim de que o que é mortal seja absorvido pela vida” (2Cor 5,1-4). Queremos chegar ao reino de Deus, mas não através da morte; contudo, a necessidade te fala: É por ela que irás. Hesitas, ó homem, ir através dela, enquanto Deus por meio dela se aproximou de ti? Quais também são as angústias necessárias para vencer as ambições arraigadas e os maus costumes inveterados? Vencer um hábito, é duro combate, como sabes. Vês que ages mal, de modo detestável, infeliz; e, no entanto, assim fazes. Ontem o fizeste e farás ainda hoje. Se tanto te desagrada quando o descrevo, como não te desagradará ao pensares nisto? Apesar de tudo, tu o farás. De onde és arrastado? Quem te puxa? Será aquela lei em teus membros que repugna à lei de teu espírito? Exclama então: “Infeliz de mim! Quem me libertará deste corpo de morte? A graça de Deus, por Jesus Cristo nosso Senhor” (Rm 7,23), e em ti se cumprirá o que acabamos de dizer! “Eu, porém, esperei no Senhor. Em tua misericórdia quero exultar e alegrar-me, porque viste a minha humilhação e salvaste minha alma das angústias”. Por que razão a tua alma foi salva de suas aflições, senão porque foi levada em conta a tua humildade? Se não te humilhasses primeiro, não te ouviria aquele que te salva das aflições. Humilhou-se quem disse: “Infeliz de mim! Quem me livrará deste corpo de morte” (Rm 7,23)? Não se humilharam os que, “desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à justiça de Deus” (ib 10,3).

14 9“Não me entregaste às mãos do inimigo”, que não se identifica com teu vizinho, nem teu sócio, nem aquele com quem militaste e o lesaste, ou talvez a quem injuriaste em tua própria cidade. Por estes, devemos rezar. É outro o inimigo que temos, o diabo, a serpente antiga. Todos nós mortais, se morremos bem, livramo-nos de suas mãos. Todos, ao contrário, que morrem mal, no meio de suas iniquidades, ficam presos em suas mãos, para serem com ele condenados no fim. Livre-nos, pois, o Senhor nosso Deus, das mãos de nosso inimigo. Ele quer apanhar-nos por meio da cobiça. Nossos desejos, se são fortes e os servimos, chamamse necessidades. Se Deus livra nossa alma de nossas necessidades, o que haverá em nós que o inimigo agarre para nos prender em suas mãos?

15 “Firmaste os meus pés num caminho espaçoso”. Certamente, o caminho é estreito. Estreito para quem labuta, espaçoso para quem ama. O caminho estreito torna-se largo. “Firmaste os meus pés num caminho espaçoso”, a fim de que meus pés não se sintam apertados, não pisem mal e tropecem, jogando-me no chão. Qual o significado da frase: “Firmaste os meus pés num caminho espaçoso”? Com efeito, tornaste fácil para mim a observância da justiça, que antes achava difícil. Tal o sentido das palavras: “Firmaste os meus pés num caminho espaçoso”.

16 10.11“Tem compaixão de mim, Senhor, que estou atribulado. Estão conturbados pela ira os meus olhos, a minha alma e as minhas entranhas”. Estas palavras bastem para vossa caridade. Com o auxílio de Deus, espero cumprir minha promessa e pagar minha dívida, terminando a explicação do salmo. Depois, poderemos partir 1 .

1 Daí se depreende que este e os dois seguintes tratados sobre o salmo XXX foram pronunciados em lugar diferente da igreja de Hipona.

SERMÃO II

1 Nossa atenção se prenda agora ao restante do salmo. Reconheçamo-nos a nós mesmos nas palavras do profeta. Pois, se nos examinarmos no tempo da tribulação, alegrar-nos-emos por ocasião da recompensa. Expliquei a V. Caridade, quando explanava a primeira parte do salmo, que era Cristo quem falava. Não omiti que se deve tomar na acepção de Cristo total, Cabeça e corpo. Provei-o igualmente, com testemunhos da Escritura, a meu ver, bastante adequados e eloquentes, de sorte que não há possibilidade de dúvida de que Cristo é Cabeça e corpo, esposo e esposa, Filho de Deus e Igreja, Filho de Deus feito filho do homem por nossa causa, para se tornarem filhos de Deus os que são filhos dos homens. Assim, seriam dois numa só carne, segundo o grande sacramento. E os profetas reconhecem que formam os dois uma só voz. Mais acima o mesmo Cristo se congratulava com as palavras: “Viste a minha humilhação e salvaste minha alma das angústias. Não me entregaste às mãos do inimigo. Firmaste os meus pés num caminho espaçoso”. Congratula-se o homem libertado da tribulação, os membros de Cristo, livres da aflição e das insídias. E diz ainda: “Tem compaixão de mim, Senhor, que estou atribulado”. Na tribulação, sem dúvida, há angústia. Como, então, se diz: “Firmaste os meus pés em lugar espaçoso?” Se ainda está em tribulação, como se acham os seus pés em lugar espaçoso? Talvez seja mesmo uma só voz, porque é um só corpo. Mas, alguns membros sentem-se ao largo, enquanto outros estão apertados, isto é, uns sentem a facilidade da justiça, outros pelejam na tribulação? Se um membro não sofresse de modo diferente de outro, não teria dito o Apóstolo: “Se um membro sofre, todos os membros compartilham o seu sofrimento; se um membro é honrado, todos os membros compartilham a sua alegria” (1Cor 12,26). Algumas igrejas, por exemplo, gozam de paz e outras estão atribuladas; as que gozam de paz têm os pés em lugar espaçoso; as que estão em tribulação sofrem angústias; mas àquelas contrista a tribulação destas, e a estas consola a paz das primeiras. Assim, pois, há um só corpo, sem cisões; somente a dissensão produz a cisão. A caridade, porém, faz a união, a união abraça a unidade, a unidade conserva a caridade, a caridade conduz à glória. Diga, portanto, em vez de alguns membros: “Tem compaixão de mim, Senhor, que estou atribulado. Estão conturbados pela ira os meus olhos, a minha alma e as minhas entranhas”.

2 Perguntamos de onde vem tal tribulação, visto que pouco antes parecia alegrar-se de ter sido libertado, por certa justiça nele infundida largamente, por um dom de Deus. Então seus pés encontraram espaço na amplidão da caridade. De onde, pois, se origina esta tribulação senão talvez da palavra do Senhor: “Pelo crescimento da iniquidade, o amor de muitos esfriou” (Mt 24,12). Nos primórdios, a Igreja estava confiada a pequenino número de santos, que lançaram as redes. A Igreja cresceu, e foram apanhados inúmeros peixes, acerca dos quais fora predito: “Anunciei-os, falei, multiplicaram-se imensamente” (Sl 39,6). Eles também sobrecarregavam a barca e as redes se rompiam, conforme se encontra na narrativa da primeira pesca (Lc 5,6), antes da paixão do Senhor. São essas multidões que reforçam o número dos que enchem as igrejas por ocasião da Páscoa, de sorte que os recintos não comportam tanta gente. Como se não sentirá atribulado o salmista diante de tal multidão, vendo que os mesmos que pouco antes enchiam as igrejas lotam os teatros e anfiteatros? Os mesmos que pouco antes estavam louvando a Deus, estarem no meio da maldade? Blasfemarem contra Deus os que diziam a Deus: Amém? Permaneça, persista, não desfaleça mesmo no meio da grande turba dos iníquos, porque o grão também não desaparece na quantidade de palha, até que, depois de joeirado, seja recolhido ao celeiro. Fique ali, na sociedade dos santos, para nada sofrer do torvelinho de poeira. Persista, portanto. Também o Senhor depois de dizer: “Pelo crescimento da iniquidade, o amor de muitos esfriará”, para que não escorregassem nem titubeassem os nossos pés diante desta prevista superabundância de maldade, acrescentou imediatamente uma palavra de ânimo, que consolasse e corroborasse os fiéis: “Aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 24,13).

3 Considera, pois, a este homem, a meu ver, atribulado. Enquanto estava em tribulação tinha, de certo modo, de se condoer, (a dor é inerente à tribulação), e diz que se encolerizou na aflição; e suplica: “Tem compaixão de mim, Senhor, que estou atribulado. Estão conturbados pela ira os meus olhos”. Se estás aflito, porque te irritas? Ele se irrita por causa dos pecados alheios. Quem não se encoleriza vendo homens que confessam a Deus com a boca e o negam com os costumes? Quem não se ira vendo homens que renunciam ao mundo só por palavras, não por obras? Quem não se irrita vendo irmãos a armarem ciladas a outros irmãos e não guardarem a fidelidade ao ósculo de paz que trocam durante os sacramentos de Deus? E quem pode enumerar tudo o que irrita o corpo de Cristo, o qual vive interiormente do espírito de Cristo e geme como grão no meio de palhas? Quase não aparecem os que assim gemem, os que assim se encolerizam, porque mal se veem os grãos enquanto triturados na eira. Quem não sabe quantas espigas foram metidas ali, pensa que tudo é palha; e desse todo que parecia palha, se extrairá limpa uma grande quantidade de farinha. Em lugar desses que não aparecem e gemem, encoleriza-se aquele que disse em outra passagem: “O zelo de tua casa me devora” (Sl 68,10). Declara também em outro lugar, ao ver muitos a praticarem o mal: “Fiquei abatido por causa dos pecadores que abandonaram a tua lei” (Sl 118,53). E ainda noutro trecho: “Vi os insensatos e me consumia” (ib 158).

4 Mas, cautela! Não seja tão grande a ira que degenere em ódio. A ira ainda não é ódio. Podes encolerizar-te contra teu filho, mas não o odeias. Guardas a herança para aquele que te percebe irado; e te irritas para que ele não perca o que guardaste, vivendo mal, com costumes depravados. A ira, portanto, ainda não é ódio. Ainda não odiamos aqueles contra os quais nos iramos; mas se a ira durar, e não for logo arrancada, cresce e torna-se ódio. A Escritura nos ensina que arranquemos a ira recente, para não se converter em ódio: “Não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Ef 4,26). Às vezes, encontra-se um irmão com ódio e que, no entanto, repreende a outrem que se irrita. Nele existe o ódio, e culpa no outro a ira. Tem uma trave no olho e repreende o argueiro no olho do irmão (Mt 7,31). Mas o argueiro e a palha, se não forem tirados, hão de se transformar em trave. O salmista, portanto, não disse: Meu olho se extinguiu devido à ira, mas “se conturbou”. Pois, se ele se extingue, já é ódio, não é ira. E vede a razão por que ficou extinto, conforme diz João: “O que odeia o seu irmão, está nas trevas” (1Jo 2,11). Antes, pois, de ficar nas trevas, o olho se turvou pela ira; mas cuide-se de que a ira não se converta em ódio, e o olho se extinga. Diz, portanto, o salmista: “Estão conturbados pela ira os meus olhos, a minha alma e as minhas entranhas”, isto é, estou intimamente perturbado. “As entranhas” substituem a expressão: meu íntimo. Algumas vezes, pois, é lícito irar-se contra os iníquos, os perversos, os transgressores da lei, os que vivem mal; mas não é lícito gritar. Quando nos encolerizamos e não podemos gritar, perturbamo-nos intimamente. A perversidade é por vezes tão grande que é incorrigível.

5 11“Porque a minha vida se consome na dor e os meus anos em gemidos. A minha vida se consome na dor”. Diz o Apóstolo: “Agora estamos reanimados, porque estais firmes no Senhor” (1Ts 2,8). Todos os que são perfeitos, devido ao Evangelho e à graça de Deus, não vivem na terra senão por causa dos outros; pois a sua vida neste século já não lhes é necessária. Mas, como seu ministério é necessário aos outros, realiza-se neles o que disse o mesmo Apóstolo: “O meu desejo é partir e ir estar com Cristo; pois isso me é muito melhor; mas permanecer na carne é mais necessário por vossa causa” (Fl 1,23.24). Quando, porém, o homem vê que por seu ministério, seus lavores, sua pregação os homens não melhoram, esmorece devido à indigência. Tal indigência e fome são coisas verdadeiramente dignas de comiseração, uma vez que de certo modo a Igreja se nutre daqueles que lucramos para o Senhor. O que quer dizer: se nutre? Seu corpo assimila. O que comemos é assimilado por nosso corpo. Assim procede a Igreja, por intermédio dos santos. Ela tem fome daqueles que quer lucrar e de certo modo come aqueles que lucrou. Pedro representava a Igreja, quando desceu do céu e lhe foi apresentado um recipiente cheio de todos os animais quadrúpedes, répteis e aves. Estas espécieis significavam todos os povos. O Senhor prefigurava a Igreja que haveria de devorar inteiramente todos os gentios, e convertê-los em seu corpo. E disse a Pedro: “Imola e come” (At 10,13). Ó Igreja (isto é, ó Pedro, pedra sobre a qual edificarei minha Igreja) (Mt 16,18): “Imola e come”. Primeiro mata, e depois come. Mata o que eles são, e faze deles o que tu és. Quando, portanto, o evangelho é pregado, e o pregador verifica que os homens não tiram proveito, como não há de exclamar: “Porque a minha vida se consome na dor e os meus anos em gemidos. Meu vigor esmoreceu devido à indigência e os meus ossos se abalaram”. Esses nossos anos, passados na terra, decorrem entre gemidos. Por que razão? “Porque pelo crescimento da iniquidade, o amor de muitos esfriará” (Mt 24,12). Em meio a gemidos não nítidas palavras. A Igreja, vendo a muitos caminharem para a perdição, abafa seus gemidos, e diz a Deus: “Os meus gemidos não te são ocultos” (Sl 37,10). É expressão de outro salmo, mas condizente com este e equivale a dizer: Embora meu gemido esteja oculto aos homens, de ti não se esconde. “Meu vigor esmoreceu pela indigência, e os meus ossos se abalaram”. A esta indigência referimo-nos acima. Os ossos são os fortes na Igreja, os quais, se não se perturbam com as perseguições dos estranhos, perturbam-se contudo com as iniquidades dos irmãos.

6 12“Tornei-me objeto de opróbrio para todos os meus inimigos, principalmente para os meus vizinhos e terror para os meus amigos”. Para todos os meus inimigos tornei-me um opróbrio. Quais são os inimigos da Igreja? Os pagãos, os judeus? Pior do que todos esses é a vida dos maus cristãos. Queres ver como é pior a vida dos maus cristãos? Deles diz o profeta Ezequiel que se comparam a sarmentos inutéis (Ez 15,2). Suponhamos sejam os pagãos árvores silvestres fora da Igreja, com as quais ainda se pode fazer alguma coisa. Assim, das árvores de lei o carpinteiro retira a madeira conveniente e se ainda for nodosa, curva, cascuda e ele a talhar, lavrar, aplainar pode servir a um artefato útil. Mas, dos sarmentos cortados, o carpinteiro nada pode fazer; só o fogo os espera. Atenção, irmãos. Sempre se prefere o sarmento que fica na videira à árvore silvestre, porque o sarmento dá fruto e aquela árvore é infrutífera; mas se compararmos o sarmento cortado com o lenho silvestre, entende-se que este último é melhor, porque da madeira o carpinteiro pode fazer alguma coisa, enquanto só procura o sarmento quem acende o fogo. Considerando, portanto, a multidão dos que vivem mal na Igreja, ela diz: “Tornei-me objeto de opróbrio para todos os meus inimigos”. Os maus que recebem os meus sacramentos vivem pior do que os daqueles que nunca se aproximaram. Por que não falaremos claramente em vernáculo, ao menos quando explicamos um salmo? E se talvez em outras ocasiões não ousamos falar, ao menos a necessidade de explicar use da liberdade de corrigir. “Tornei-me um objeto de opróbrio para todos os meus inimigos”. Destes declara o apóstolo Pedro: “O seu último estado se torna pior do que o primeiro. Assim, melhor lhes fora não terem conhecido o caminho da justiça do que, após tê-lo conhecido, desviarem-se do santo mandamento que lhes foi confiado”. Quando afirma: “Melhor lhes fora não terem conhecido o caminho da justiça”, acaso não julgou serem melhores os inimigos de fora do que os que vivem mal dentro da Igreja, oprimindo-a e agravando-a? Disse Pedro: “Melhor lhes fora não terem conhecido o caminho da justiça do que, após tê-lo conhecido, desviarem-se do santo mandamento que lhes foi confiado”. Finalmente, vede que comparação horrorosa ele utilizou: “Cumpriu-se neles aquilo do provérbio verdadeiro: O cão voltou ao seu próprio vômito” (2Pd 2,20-22). Estando a Igreja cheia de homens assim, não poderão dizer com verdade uns poucos, ou antes, a opróbrio Igreja pela voz deles: “Tornei-me objeto de opróbrio para todos os meus inimigos, principalmente para meus vizinhos, e causa de terror para meus amigos?” Principalmente para meus vizinhos tornei-me objeto de opróbrio, isto é, para aqueles que já se aproximavam de mim para acreditar. Quer dizer, meus vizinhos desistiram inteiramente por causa da vida má de cristãos péssimos e falsos. Irmãos. Quantos pensais serem os que desejam tornar-se cristãos, mas se escandalizam com os maus costumes dos cristãos? Estes são os vizinhos que já se aproximavam, mas nos consideraram como objeto de opróbrio.

7 12“Tornei-me causa de terror para meus amigos”. Que coisa terrível! Tornei-me objeto de terror para meus amigos. Que há de mais terrível para o homem do que ver muitos que vivem mal, e verificar que estão cheios de obras más aqueles de quem se esperava que agissem bem? Passa-se a recear que sejam iguais a todos os que se julgava serem bons e caem suspeitas sobre quase todos os bons. Que homem aquele! Como pôde cair? Como pôde ser surpreendido em tal torpeza, em tal crime, em tal ação má? Pensas que todos não são assim? Seria este o “terror para meus amigos”, de sorte que até aqueles que nos conhecem, muitas vezes caem em suspeitas. E se não te consola o que és, se és alguma coisa, não acreditas que existe outro igual. Uma certa consciência consola o homem que vive bem, de maneira que ele diz a si mesmo: Tu que receias que todos sejam maus, tu também o és? A consciência responde: Não. Portanto, se não és mau, és o único? Vê se esta soberba não é pior do que aquela maldade? Não digas que és o único. Pois também Elias, certa vez, entediado por causa da multidão dos ímpios disse: “Eles mataram teus profetas, arrasaram teus altares, só fiquei eu e querem tirar-me a vida. Mas o que lhe responde o oráculo divino? Reservei para mim sete mil homens que não dobraram o joelho a Baal” (1Rs 19,10; Rm 11,3.4). Irmãos. Para estes escândalos só existe um remédio: Não pensar mal de um irmão. Sê humildemente o que queres seja ele, e não julgarás que ele é o que não és. Seja, contudo, terror mesmo para os conhecidos, mesmo para os que já o experimentaram.

8 “Os que me percebiam, fugiam para longe de mim”. Seria perdoável fugirem para longe de mim os que não me viam; mas até mesmo os que me viam, fugiram para longe. Se, porém, os que me não percebiam, fugiam para longe de mim (ou antes, não se diga que fugiram para longe, porque não estavam perto. Se estivessem perto, ver-me-iam, isto é, reconheceriam o corpo de Cristo, reconheceriam os membros de Cristo, reconheceriam a unidade de Cristo), é mais deplorável, mais intolerável terem muitos que me viam fugido para longe de mim, quer dizer, os que sabiam o que é a Igreja saíram e criaram heresias e cismas contra a Igreja. Se hoje encontrares, por exemplo, alguém nascido no partido de Donato, que não sabe o que é a Igreja, mantém-se lá onde nasceu. Impossível é arrancar-lhe os costumens, sugados com o leite da ama. Mas trata-se de um que diariamente manuseia as Escrituras, que lê, que prega. Não há de ver escrito finalmente ali: “Pede-me e dar-te-ei as nações por herança e como propriedade os confins da terra” (Sl 2,8)? Não há de ver ali escrito: “Haverão de se lembrar e de se converter ao Senhor todos os confins da terra, e adorarão em sua presença todas as famílias das nações” (Sl 21,28)? Se aí encontras a unidade da terra inteira, porque foges para longe, de sorte que não somente a ti, mas também a outros, feres de cegueira? “Os que me percebiam”, os que sabiam o que é a Igreja e a contemplavam nas Escrituras, “fugiam para longe de mim”. Pensais, irmãos, que os fundadores de heresias, em diversos lugares e partes da terra, não sabiam pelas Escrituras de Deus que fora predita a propagação da Igreja por toda a terra? Sim, digo a V. Caridade. Certamente todos somos cristãos, ou temos o nome de cristãos, todos nos marcamos com o sinal da cruz de Cristo. Os profetas falaram de maneira mais obscura sobre Cristo do que sobre a Igreja. A meu ver, a razão disto está em que viam no Espírito que alguns haveriam de criar facções contra a Igreja e não levantariam tantos pleitos contra Cristo. Sobre a Igreja excitariam grandes contendas. Por isto, sobre o objeto de maiores discussões, as predições foram mais claras e as profecias mais manifestas, a fim de merecerem o juízo aqueles que viram e fugiram para longe.

9 Citarei apenas um fato, como exemplo. Abraão foi nosso pai, não por causa da propagação carnal, mas devido à imitação da fé. Justo e agradável a Deus, pela fé recebeu em sua velhice o filho da promessa, Isaac, de Sara, sua esposa, que era estéril (Gn 21,2). Foi-lhe ordenado imolar a Deus este mesmo filho. Não duvidou, não contestou, não discutiu a ordem de Deus, nem considerou um mal o que pôde mandar aquele que é o sumo bem. Levou o filho para a imolação. Impôs-lhe a lenha do sacrifício, foi ao lugar determinado, levantou a direita para ferilo. Abaixou-a à ordem daquele que lhe mandara lavantá-la (ib 22,3). Obedecera à ordem de ferir, obedeceu ao preceito de poupar. Sempre obediente, nunca tímido. Todavia, a fim de se realizar o sacrifício, e ele não se retirar sem derramamento de sangue, encontrou um cordeiro preso pelos chifres num espinheiro, imolou-o, consumou o sacrifício. Perguntas o significado de tudo isso. É figura de Cristo, envolvida em mistério. Finalmente, discute-se para se ver, para se ver é explanado; esclareça-se o que estava oculto. Isaac, filho único e amado é figura do Filho de Deus, carregando a lenha como Cristo carregou a cruz (Jo 19,17). Enfim, o próprio cordeiro representou a Cristo. O que é estar preso pelos chifres senão estar de certo modo preso à cruz? É a figura de Cristo. Em seguida, devia ser anunciada a Igreja. A Cabeça foi prenunciada. Também o corpo devia sê-lo. Começou o Espírito de Deus, Deus começou a querer anunciar a Igreja a Abraão e dispensou a figura. Deus anunciava a Cristo em figura, mas prenunciou claramente a Igreja, pois disse a Abraão: “Porque obedeceste a minha voz, e não me recusaste teu filho, teu único, eu te cumularei de bênçãos, eu te darei uma posteridade tão numerosa quanto as estrelas do céu e quanto a areia que está na beira do mar… Por tua posteridade serão abençoadas todas as nações da terra” (Gn 22,16). Quase sempre Cristo foi predito pelos profetas veladamente num sinal, mas a Igreja foi claramente anunciada, a fim de que a vissem mesmo os futuros adversários, cumprindo-se neles a malícia predita no salmo: “Os que me percebiam, fugiam para longe de mim. Eles saíram de entre nós, mas não eram dos nossos” (1Jo 2,19), afirmou a respeito deles o apóstolo João.

10 13“Fui entregue ao esquecimento, riscado dos corações, como um morto”. Fui esquecido, caí no olvido, não se lembraram mais de mim os que me viram. Fui esquecido, e de tal modo não se recordaram de mim, como se fora riscado de seus corações, qual um morto. “Fui entregue ao esquecimento, riscado dos corações, como um morto. Sou um vaso partido”. Qual o sentido da frase: “Sou um vaso partido?” Pelejava, mas sem proveito. Era vaso sem serventia; chama-se a si mesmo de vaso partido.

11 14“Porque ouvi os ultrajes de muitos ao redor”. Muitos estão ao redor de mim e me censuram diariamente. Quantas acusações contra os maus cristãos, e tais maldições atingem a todos os cristãos! Dirá talvez o maldizente, acusador dos cristãos: Eis o que fazem os cristãos que não são bons? Ao contrário, declara: Eis o que fazem os cristãos. Não separa, não distingue. No entanto, assim falam os que estão ao redor, isto é, rodeiam e não entram. Por que rodeiam e não entram? Porque amam o tempo que rola. Não entram na habitação da verdade, porque não amam a eternidade. Estão entregues às coisas temporais, como se estivessem presos às rodas do tempo. Deles se afirmou em outra passagem: “Coloca os seus príncipes quais rodas” (Sl 82,14), e em outro salmo: “Os ímpios andam ao redor (Sl 11,9). Conspirando contra mim, tramaram tirar-me a vida”. O que quer dizer: “Tramaram tirar-me a vida?” Queriam que consentisse em suas maldades. Consideram pouca coisa não entrar, os maldizentes, que não entram: ainda querem lançar fora os outros, injuriando-os. Se te tiram da Igreja, tiraram tua vida, isto é, obtiveram o teu consentimento. E ficarás rodeando, não dentro da morada.

12 15Eu, porém, achando-me no meio destes opróbrios, destes escândalos, destes males, destas seduções, cercado por fora de iniquidades e dentro de perversidades, dando atenção aos justos e procurando a quem imitar, mas em vão, o que pude fazer? Que recurso empreguei? “Mas eu em ti esperei, Senhor”; nada de mais salutar, de mais seguro. Não sei a quem querias imitar; viste que ele não era bom. Desiste da imitação. Procuraste outro, mas não sei o que te desagradou. Buscaste um terceiro. Não te aprouve. Então, porque um e outro te desagradaram, estás perdido? Renuncia a pôr a esperança num homem, porque é maldito quem deposita num homem a sua esperança (Jr 17,5). Se ainda confias num homem e procuras imitá-lo, se queres depender dele, ainda estás procurando ser alimentado com leite, e te tornas mimado, como as crianças que mamam por muito tempo, o que é inconveniente. Pois, tomar leite só, querendo receber alimento através do corpo materno, é viver por intermédio de um homem. Torna-te capaz de sentar-te à mesa, ingere o alimento tirado de onde ele o recebeu, ou não recebeu, talvez. Pode ter sido útil teres encontrado um homem malvado, que julgaste ser um bom, para encontrares nesta espécie de peito materno, a amargura, e assim rejeitares com aversão o leite e desejares um alimento sólido. Assim fazem as amas com as crianças mimadas: põem qualquer coisa amarga nos seios para que a criança com repugnância largue o peito e deseje os alimentos que se acham na mesa. Diga, portanto, o salmista: “Mas eu em ti esperei, Senhor; disse: Tu és o meu Deus”. Tu és o meu Deus; retirese Donato, retire-se Ceciliano; nem aquele, nem este é meu Deus. Meu caminhar não está sob a proteção do nome de um homem; é o nome de Cristo que tenho. Ouve Paulo a dizer: “Paulo terá sido crucificado em vosso favor? Ou fostes batizados em nome de Paulo” (1Cor 1,13)? Estaria perdido se fosse do partido de Paulo; como não me perderei se for do partido de Donato? Afastem-se inteiramente os nomes de homens, os seus crimes, suas invenções. “Em ti esperei, Senhor; disse: Tu és o meu Deus”. Não é um homem qualquer. Tu és o meu Deus. Um homam falha, outro vai avante. Meu Deus não falha, não progride. É perfeito, portanto não tem em que se aperfeiçoar, nem desfalece, pois é eterno. “Disse: tu és o meu Deus”.

13 16“Em tuas mãos está a minha sorte”. Não nas mãos dos homens; em tuas mãos. Que sorte é esta? Por que é sorte. Ouvindo falar em sorte, não pensemos em sortilégio. Sorte não é coisa má; mas em caso de dúvida da parte do homem, ela indica a vontade divina. Pois, mesmo os apóstolos lançaram sortes quando Judas morreu, depois de trair o Senhor, conforme foi escrito a seu respeito: “Para ir a seu lugar”. Começou-se então a indagar quem devia substituí-lo. Foram escolhidos dois, conforme critério humano, e um dos dois foi escolhido por juízo divino. Consultou-se a Deus qual era do seu agrado e “a sorte caiu em Matias” (At 1,26). O que significa, pois: “Em tuas mãos está a minha sorte?” A meu ver, o salmista denomina sorte a graça, pela qual fomos salvos. Por que a graça de Deus se chama sorte? Porque na sorte não há escolha, mas se mostra a vontade de Deus. Pois, quando se diz: este faz alguma coisa, aquele não, consideram-se os méritos. Se os méritos são ponderados, há escolha, não sorte. Quando, porém, Deus, sem mérito algum de nossa parte, nos salvou, por escolha de sua vontade, foi porque quis, e não que fôssemos dignos. Então, houve sorte. Com razão a túnica inconsútil do Senhor, que figura a eternidade da caridade, foi sorteada pelos perseguidores, e não dividida. Significava, naqueles que a ganharam, os que evidentemente lançaram a sorte dos santos. “Pela graça fostes salvos, por meio da fé”, diz o apóstolo Paulo, “e isto não vem de nós (eis a sorte); é o dom de Deus. Não vem das obras (como se, praticando o bem, vos tivésseis tornado dignos de obter tal resultado), para que ninguém se encha de orgulho. Pois somos criaturas dele, criados em Cristo Jesus para as boas obras” (Ef 2,8-10). Esta espécie de sorte escondida é a vontade de Deus; no gênero humano existe a sorte, sorte proveniente da misteriosa vontade de Deus, em quem “não há injustiça” (Rm 9,14). Ele não faz acepção de pessoas, mas a sua justiça oculta é a tua sorte.

14 Vossa Caridade preste atenção. Veja como o apóstolo Pedro reafirma a mesma coisa. Quando Simão, o mago, batizado por Filipe, aderiu, acreditando nos milagres divinos operados em sua presença, foram os apóstolos a Samaria, onde o mago também acreditara e fora batizado. Os apóstolos impuseram as mãos aos já batizados; estes receberam o Espírito Santo e começaram a falar em línguas. O mago se admirou e estupefacto diante de tão grande milagre divino, a saber, que pela imposição das mãos descera o Espírito Santo, e enchera aqueles homens, desejou não esta graça, mas este poder; não o modo de se libertar, mas como se engrandecer. Logo que teve tal desejo, e seu coração se encheu de soberba, de diabólica impiedade e condenável exaltação, perguntou aos apóstolos: que quantia quereis para que os homens recebam o Espírito Santo, por imposição de minhas mãos? Ele buscava bens mundanos, e habitava só ao redor. Pensou que podia comprar o dom de Deus por dinheiro. Julgando poder adquirir o Espírito Santo por dinheiro, também pensou que os apóstolos eram avaros, como ele próprio era ímpio e orgulhoso. Imediatamente Pedro respondeu: “Pereça o teu dinheiro, e tu com ele, porque acreditaste ser possível com dinheiro comprar o dom de Deus. Nesta questão, não tens parte, nem herança” (At 8,13. 21); isto é, não tens parte nesta graça, que todos nós recebemos gratuitamente, porque pensas poder comprar com dinheiro o que é dado grátis. Por ser gratuito chama-se sorte: “Não tens parte, nem sorte, nesta questão”. Disse isto para não recearmos dizer também: “Em tuas mãos está a minha sorte”. Que sorte? A herança da Igreja. Até onde vai a herança da Igreja? Quais os seus limites? Até todos os confins: “Dar-te-ei as nações por herança e como propriedade os confins da terra” (Sl 2,8). Não se me prometa, portanto, uma partícula qualquer. Meu Deus, “em tuas mãos está a minha sorte”. V. Caridade se dê por satisfeita com estas palavras. Amanhã, em nome do Senhor, explicaremos o restante do salmo, com o seu auxílio.

SERMÃO III

1 O restante do salmo, sobre o qual já proferimos dois sermões, corresponde a pouco mais de um terço do mesmo, e cuidaremos hoje de saldar o nosso débito completamente. Por isso, peço a V. Caridade concordar de boa mente que não nos detenhamos nas expressões mais fáceis, para tratarmos com vagar das que precisam de explicação. Muitas questões se resolvem espontaneamente nas mentes dos fiéis, muitas outras necessitam de breve exposição; algumas, porém, mais raras, exigem esforço e suor para se tornarem inteligíveis. Por conseguinte, para aproveitar o tempo disponível, segundo as nossas e vossas forças, vede como são claras as expressões, conosco tomai conhecimento delas, e de acordo com elas, louvai ao Senhor; e se o salmo ora, orai; se geme, gemei; se rejubila; rejubilai; se espera, esperai; se teme, temei. Pois, serve-nos de espelho tudo o que foi aqui escrito.

2 16“Livra-me das mãos de meus inimigos e perseguidores”. Assim rezemos, e cada um o repita a respeito de seus inimigos. É bom. Supliquemos a Deus que nos livre das mãos de nossos inimigos. Mas entendamos quais inimigos em favor dos quais havemos de orar, e contra quais devemos rezar. Não odiemos a homens, inimigos nossos, quaisquer que sejam. Não aconteça, enquanto um malvado odeia a outro malfeitor que ele suporta, comece a haver dois maus. Ame o bom até mesmo o malvado que ele suporta, para que mau seja um só. Mas, existem inimigos contra os quais devemos rezar: o diabo e seus anjos. Eles nos invejam, por causa do reino dos céus, e não querem que subamos para o lugar de onde eles foram precipitados. Peçamos que nossa alma deles se livre. Pois, também quando os homens são instigados por eles contra nós, tornam-se instrumentos deles. Por esta razão, o apóstolo Paulo, admoestando-nos acerca da grande cautela a empregar contra os inimigos, declara aos servos de Deus que padeciam tribulações, a saber, sedições, maldades, inimizades da parte dos homens: “O nosso combate não é contra o sangue nem contra a carne”, isto é, não é contra os homens, “mas contra os Principados e Postetades, contra os dominadores deste mundo de trevas” (Ef 6,12). De que mundo? Do céu e da terra? De forma nenhuma. Dominador deste mundo é somente o Criador. Mas, o que é que ele denomina mundo? Os que amam o mundo. Enfim, acrescenta como explicação: Chamo de mundo a este “mundo de trevas”. De que trevas, a não ser os infiéis e ímpios? Pois, aos ímpios e infiéis, transformados em pios e fiéis, se dirige o mesmo Apóstolo, dizendo: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor (ib 5,8). Lutais contra os espíritos do mal, que povoam as regiões celestiais” (ib 6,12), contra o diabo e seus anjos. Não vedes nossos inimigos; contudo os venceis. “Livra-me das mãos de meus inimigos e perseguidores”.

3 17“Irradia a luz de tua face sobre teu servo. Salva-me por tua misericórdia”. Dizíamos acima, na explicação de ontem, conforme há de lembrar V. Caridade, aqueles de entre vós que estavam presentes, que os maiores perseguidores da Igreja são os cristãos que não querem viver bem. Deles a Igreja sofre os opróbrios e suporta oposição. Se repreendidos ou impedidos de viver mal, se com eles se tenta diálogo, planejam o mal no coração, e procuram ocasião de ataque. No meio desses geme o salmista, ou se o quisermos, nós próprios. São muitos, e nesta multidão mal aparecem os bons, como grãos na eira, que, no entanto, depois de limpos encherão os celeiros do Senhor (Mt 2,12; Lc 3,17). Por conseguinte, no meio deles geme o salmista: “Irradia a luz de tua face sobre teu servo”. Produz-se certa confusão porque todos se dizem cristãos, tanto os que vivem bem quanto os que levam vida incorreta. Todos foram marcados com o mesmo sinal, todos se aproximam de um só altar, todos foram purificados pelo mesmo batismo, todos proferem a mesma oração dominical, todos participam dos mesmos mistérios. Como distinguir os que gemem daqueles que levam vida deplorável, se o Senhor não irradiar a luz de sua face sobre seu servo? O que significa, portanto: “Irradia a luz de tua face sobre teu servo?” Evidencie-se que a ti pertenço. Não afirme igualmente o cristão ímpio que pertence a ti, para não ser inútil o meu pedido em outro salmo: “Julga-me, ó Deus, e distingue entre minha causa e a de uma gente não santa” (Sl 42,1). A frase: “Distingue entre minha causa”, é idêntica a deste salmo: “Irradia a luz de tua face sobre teu servo”. Todavia, acrescenta para não se ensoberbecer, nem parecer se justificar: “Salva-me por tua misericórdia”, isto é, não por minha justiça, não por meus méritos, mas “por tua misericórdia”; não sou digno, mas tu és miseridordioso. Não me ouças com severidade de juiz, mas com bondade cheia de misericórdia. “Salva-me por tua misericórdia”.

4 18“Senhor, não seja confundido, porque te invoquei”. Declara um bom motivo: “Não seja confundido, porque te invoquei”. Queres que se cubra de confusão quem te invocou? Queres que se diga: Onde está aquele de quem presumiu? Quem não invoca a Deus, mesmo entre os ímpios? A não ser que tenha dito: “Eu te invoquei”, de maneira peculiar, excluindo a muitos, de forma alguma ousaria exigir tão grande recompensa por esta invocação. Deus responderia, de certo modo, interiormente e diria: Por que me pedes que não sejas confundido? Por quê? Por que me invocaste? Não é diariamente que sou invocado por alguns, talvez para que possam cometer um cobiçado adultério? Não existem todos os dias homens que me invocam para que morram aqueles dos quais esperam uma herança? Não é de todos dos dias os que me invocam planejando fraude e querendo realizá-la com pleno êxito? Por que então exiges grande recompensa daquilo a que te referes: “Não seja confundido, porque te invoquei?” Os outros invocam certamente, mas, não a ti. Invocas a Deus, quando chamas a Deus para junto de ti. Invocá-lo é chamá-lo para junto de ti, convidá-lo, de certo modo, a entrar na casa de teu coração. Não ousarias convidar um pai de família tão importante, se não soubesses preparalhe uma morada. Se Deus te disser: Tu me chamaste. Vou. Por onde entro? Suportarei tamanhas manchas de tua consciência? Se convidasses meu servo para tua casa, primeiro não cuidarias de limpá-la? Chamas-me ao teu coração, que está cheio de rapina. Deus é invocado para um lugar repleto de blasfêmias, de adultérios, de fraudes, de conscupicências más, e tu me invocas! De tais homens o que dizem outros salmos? “Não invocaram o Senhor” (Sl 13,5 e 52,6). De fato, invocaram, mas de outro lado, não invocaram. Em resumo, surge a questão de como alguém pode exigir tamanha recompensa, alegando como único mérito ter invocado o Senhor. Como vemos que tantos maus invocam a Deus, surgiu a questão. Não passemos por cima. Digo, portanto, brevemente, ao homem avaro: Invocas a Deus? Por que invocas a Deus? Para que mê dê um lucro qualquer. Portanto é o lucro que invocas, não a Deus. Ambicionas tal lucro e não podes obtê-lo por meio de teu servo, nem podes por meio de teu colono, nem por teu pupilo, por teu amigo, por teu satélite. Invocas a Deus, fazendo dele um servo de teu lucro; desvalorizas a Deus. Queres invocar a Deus, invoca-o gratuitamente. Avaro, é pouco para ti que Deus te encha? Se Deus vem a ti sem ouro nem prata, não o queres? Que criatura de Deus te bastará, se Deus não te basta? Com razão, portanto, reza o salmista: “Não seja confundido, porque te invoquei”. Invocai o Senhor, irmãos, se não quereis ser confundidos. O salmista receia certa confusão, da qual os salmos falaram acima: “Em ti esperei, Senhor, não seja confundido eternamente”. Pois, a fim de saberes que teme esta confusão, tendo dito: “Não seja confundido” eternamente, “porque te invoquei”, acrescentou: “Envergonhem-se os ímpios e sejam precipitados no inferno”, com aquela confusão verdadeiramente eterna.

5 19“Emudeçam os lábios mentirosos, que proferem a iniquidade contra o justo, cheios de soberba e de desdém”. Este justo é Cristo, muitos lábios proferem contra ele a iniquidade, com soberba e desprezo. Por que se diz: com soberba e desdém? Porque aos soberbos pareceu desprezível aquele que veio com tamanha humildade. Não queres, acaso, que seja menosprezado por aqueles que amam as honras, quem sofreu tantas injúrias? Não será menosprezado por aqueles que considerem desprezível o crucificado aqueles para os quais é torpe a condenação à morte de cruz? Não queres que os ricos depreciem quem teve no mundo uma vida na pobreza, sendo, no entanto, o Criador do mundo? Todos os que amam tais coisas desprezam-no, porque Cristo não as quis ter, a fim de mostrar, por não possuí-las, que são desprezíveis, embora pudesse possuí-las. E qualquer de seus servos que desejar seguir suas pegadas, andando também com humildade, conforme aprendeu com o seu Senhor, é desprezado em Cristo, como membro de Cristo. E se são desprezados Cabeça e corpo, é todo o Cristo que é desprezado, porque todo ele, Cabeça e corpo é justo. Forçoso é seja desprezado o Cristo total pelos soberbos e ímpios, para que se cumpra neles o que foi dito: “Emudeçam os lábios mentirosos, que proferem a iniquidade contra o justo, cheios de soberba e de desdém”. Quando emudecerão estes lábios? Neste século? Nunca. Diariamente gritam contra os cristãos, principalmente contra os humildes; cotidianamente blasfemam, cada dia ladram; aumentam os castigos para suas línguas, a sede que terão nos infernos, desejando em vão uma gota de água. Não é agora, portanto, que estes lábios emudecerão. Mas, quando? Quando sobre eles recaírem suas iniquidades, conforme se diz no livro da Sabedoria: “De pé, porém, estarão os justos em segurança, na presença dos que os oprimiram. Então, dirão eles: São aqueles de quem outrora nos ríamos, de quem fizemos alvo de ultraje, nós insensatos! Considerávamos a sua vida uma loucura. Como agora são contados entre os filhos de Deus e partilham a sorte dos santos” (Sb 5,1-5)? Então emudecerão os lábios dos que proferem a iniquidade contra os justos, com soberba e desdém. Agora, pois, eles nos dizem: Onde está vosso Deus? O que adorais? O que vedes? Credes e estais em trabalhos. É certo que pelejais, incerto o que esperais. Quando vier o que esperamos com toda certeza, emudecerão os lábios mentirosos.

6 20Por este motivo, vede a sequência, uma vez que emudecerão os lábios mentirosos que proferem a iniquidade contra o justo, com soberba e desdém. Aquele que geme assim observa, vê os bens de Deus em seu interior no espírito, vê estes bens apenas ocultamente visíveis, mas que os ímpios não percebem. Vê os ímpios proferirem a iniquidade contra o justo, com soberba e desprezo, porque eles sabem ver os bens deste século, mas nem cogitam dos bens do século futuro. O salmista, porém, querendo recomendar os bens do século futuro aos homens, aos quais não manda amar, mas suportar as coisas presentes, exclamou em seguida: “Como é grande, Senhor, a abundância de tua doçura!” Se um incrédulo me disser, então: Onde está esta multidão de doçuras? Respondo: Como mostrar a ti a multidão de doçuras, se embotaste o paladar por causa da febre da malícia? Se não soubesses o que é o mel, não exclamarias: É gostoso, a menos que o provasses. Teu coração não tem paladar para sabores. O que fazer por ti? Como te mostrar esses bens? Não és alguém a quem possa dizer: “Provai e vede como é suave o Senhor” (Sl 33,9). Como é grande, Senhor, a abundância de tua doçura, reservada para os que a ti temem”. O que significa: reservaste para eles? Não recusaste. Guardaste para eles, somente para eles, a fim de que a obtenham com temor. Trata-se de um bem que não é comum aos justos e aos ímpios. Mas, os justos, enquanto temem, ainda não o alcançaram; acreditam, contudo, que o obterão, e começam pelo temor. Nada há de mais suave do que a sabedoria imortal, mas o início da sabedoria é o temor de Deus (Pr 1,7; Sl 110,10). “Reservada para os que a ti temem”.

7 “É perfeita para os que em ti esperam, na presença dos filhos dos homens”. Não disse: Realizaste-a na presença dos filhos dos homens. Mas afirmou: “Para os que em ti esperam, na presença dos filhos dos homens”, isto é, completaste tua doçura para os que em ti esperam, diante dos filhos dos homens. Identifica-se com a afirmação do Senhor: “Aquele que me renegar diante dos homens, também o renegarei diante de meu Pai que está nos céus” (Mt 10,33). Se esperas, por conseguinte, no Senhor, espera diante dos homens; não suceda esconderes tua esperança no coração e teres medo de confessar ao te incriminarem por seres cristão. Todavia, a quem se incrimina agora o fato de ser cristão? Restaram tão poucos nãocristãos que mais são incriminados por não serem cristãos do que ousam incriminar a outrem por sê-lo. No entanto, meus irmãos, tenho de dizê-lo. Qualquer um de vós que me ouve, comece a viver cristãmente, e verá se não é atacado por cristãos só de nome, não pela vida e costumes. Quem o experimentou, compreende o que digo. Por isso, atenção. Observa o que ouves. Queres viver como cristão? Queres seguir as pegadas de teu Senhor? És atacado, sentes vergonha, e envergonhado abandonas tudo. Perdeste o caminho. Parecia que havias acreditado de coração para obter a justiça, mas perdeste; com a boca se confessa para alcançar a salvação (cf Rm 10,10). Se, portanto, queres andar pelo caminho do Senhor, mesmo na presença dos homens, espera em Deus, quer dizer, não te envergonhes de tua esperança. Assim como ele vive em teu coração, habite em tua boca. Não é inutilmente que Cristo quis fosse gravado o seu sinal em nossa fronte, a sede do pudor, a fim de que o cristão não se core do opróbrio de Cristo. Se o fizeres diante dos homens, se não corares dele na presença dos homens, se perante os filhos dos homens não negares a Cristo, nem por palavras, nem por obras, espera que a doçura de Deus em ti chegue à perfeição.

8 21Como continua? “Abriga-nos no esconderijo de tua face”. De que espécie é este lugar? O salmista não disse: Esconde-os em teu céu. Não pediu: Esconde-os no paraíso. Não rogou: Esconde-os no seio de Abraão. Pois, nas Sagradas Escrituras aparecem, para muitos fiéis, os futuros lugares dos santos. Desvalorize-se para nós tudo o que há fora de Deus. Aquele que nos protege nesta vida, ele mesmo seja nosso lugar na outra, porque também este salmo disse-lhe, acima: “Sê para mim um Deus protetor e uma casa de refúgio”. Estaremos, pois, escondidos no esconderijo da face de Deus. Quereis ouvir de mim que esconderijo existe na face de Deus? Purificai o coração para que ele vos ilumine e entre aquele que invocais. Sê a sua casa e ele será a tua casa; habite em ti, e habitarás nele. Se neste mundo o receberes em teu coração, ele no outro mundo te receberá no esconderijo de sua face. “Abrigá-los-ás”. Onde? “No esconderijo de tua face, da perturbação dos homens”. Ali, pois, não serão perturbados, porque estão escondidos; no esconderijo de tua face não se perturbarão. Existirá alguém tão feliz neste mundo que logo que comece a ouvir opróbrios da parte dos homens, por causa do serviço de Cristo, refugia-se em Deus pelo coração e deposita sua esperança em sua suavidade, longe das tribulações dos homens, que o injuriam e comparece diante da face de Deus, apoiado em sua própria consciência? Comparece realmente, mas se tiver com quem entrar, isto é, se sua consciência não está onerada, se não carrega um fardo grande demais para a porta estreita. “Abrigá-lo-ás no esconderijo de tua face, da perturbação dos homens. Protegê-lo-ás em tua tenda, das línguas maldizentes”. Chegará o dia em que os abrigarás no esconderijo de tua face, da perturbação dos homens, de sorte que não poderá mais haver para eles perturbação vinda dos homens. Mas, por enquanto, na peregrinação deste mundo, uma vez que teus servos suportam a língua de muitos contraditores, o que fazer por eles? “Protegêlos-ás em tua tenda”. O que quer dizer tenda? A Igreja no presente; chama-se tenda, porque ainda peregrina na terra. A tenda é a morada dos soldados expedicionários. Essas moradas denominam-se tendas. Uma casa não é uma tenda. Luta, como peregrino, na expedição, para que te salvando na tenda, sejas recebido gloriosamente em casa. O céu será tua casa eternamente, se viveres honestamente na tenda. Serás, portanto, protegido por ele nesta tenda da contradição das línguas. Contradizem muitas línguas. Ressoam várias heresias, vários cismas. Muitas línguas contradizem à verdadeira doutrina. Tu, porém, corre para o tabernáculo de Deus, abraça a Igreja católica, não te apartes da regra da verdade, e serás protegido na tenda, da contradição das línguas.

9 22“Bendito o Senhor, que usou de admirável misericórdia na cidade circunvizinha”. Qual a cidade circunvi-zinha? O povo de Deus estava estabelecido só na Judeia, como que no centro do mundo. Lá se cantavam os louvores de Deus, ofereciam-se-lhe sacrifícios, os profetas não cessavam de vaticinar as realidades futuras, que agora vemos realizadas. Este povo era como que o centro das gentes. O profeta observa o fato. Vê a futura Igreja de Deus no meio de todos os povos. E como os povos estavam ao redor, e no centro se achavam os judeus somente, o salmista denomina os povos vizinhos de cidade circunvizinha. Foi admirável, em verdade, Senhor, a tua misericórdia para com a cidade de Jerusalém. Ali Cristo sofreu, ali ressuscitou, dali subiu aos céus, ali fez muitos milagres. Mas louvor maior te é devido, porque tornaste admirável a tua misericórdia na cidade circunvizinha, isto é, difundiste a tua misericórdia entre todas as gentes. Naquela Jerusalém, não guardaste em vaso fechado teu unguento; mas de certo modo quebraste o vaso e o unguento se espalhou pelo mundo, para se cumprir o que foi dito nas Sagradas Escrituras: “Teu nome é como unguento derramado” (Ct 1,2). E assim tornaste admirável a tua misericórdia na cidade circunvizinha. Cristo, portanto, subiu ao céu, está sentado à direita do Pai. Depois de dez dias enviou o Espírito Santo. Os discípulos, repletos do Espírito Santo, começaram a pregar as maravilhas de Cristo. Foram apedrejados, mortos, postos em fuga (At 8). E afugentados dali, de um só lugar, como lenhos a arderem no fogo divino, incendiaram toda a floresta do mundo com o fervor do Espírito e a luz da verdade. Assim o Senhor tornou admirável a sua misericórdia na cidade circunvizinha.

10 23“Eu disse no meu êxtase”. Lembrai-vos do título do salmo; aqui volta aquele êxtase. Vede o que declara: “Eu disse no meu êxtase: Fui rejeitado do alcance de teus olhos”. Disse em meu pavor, isto é, “Eu disse no meu êxtase”. O salmista se vê apavorado interiormente não sei bem por qual forte tribulação, pois elas nunca faltam. Percebe que seu coração está cheio de temor e tremor e diz: “Fui rejeitado do alcance de teus olhos”. Se estivesse diante de tua face, não estaria temeroso; se me desses atenção, não trepidaria assim. Mas, conforme o salmista diz em outro salmo: “Se dissesse: Meus pés titubearam, tua misericórdia, Senhor, me ajudaria” (Sl 93,18), aqui também continua: “Por isto escutaste, Senhor, a minha voz suplicante”. Ouviste minha oração, porque não fui soberbo, mas acusei meu coração, e titubeante em minha tribulação, por ti clamei. Realizou-se, portanto, o que citei do outro salmo. A palavra: “Eu disse em meu êxtase: Fui rejeitado do alcance de teus olhos”, corresponde à daquele salmo: “Se dissesse: Meus pés titubearam”. E conforme a expressão do salmo citado acima: “Tua misericórdia, Senhor, me ajudaria”, encontra-se neste: “Por isto escutaste, Senhor, a minha voz suplicante”. Pensa no que aconteceu a Pedro; vê o Senhor a caminhar sobre as águas, e julga ser um fantasma. O Senhor exclama: Sou eu, não temas. Pedro confia e diz: “Se és tu, manda que eu vá ao teu encontro sobre as águas”. Desta forma me certifico de que és tu, se à tua palavra puder o que tu podes. “E Jesus respondeu: Vem”. A palavra de ordem de Jesus se tornou possibilidade para o ouvinte. Vem, disse ele. E Pedro desceu, começou a caminhar, a avançar intrépido, confiante. Mas, sentido o vento forte, teve medo. “Eu disse em meu êxtase: Fui rejeitado do alcance de teus olhos”. E começando a afundar, gritou: Senhor, estou perdido. “Jesus estendeu a mão e o segurou, repreendendo-o: Homem fraco na fé, por que duvidaste? (Mt 14,22-32). Disse, portanto, em meu pavor: “Fui rejeitado do alcance de teus olhos”. E como alguém em perigo de afundar no mar, clamou: “Escutaste, Senhor, a minha voz suplicante. Escutaste”, porém, quando “por ti clamava”. Clamor para Deus é o que vem do coração, não da voz. Muitos, de lábios fechados, clamaram com o coração. Outros gritando com a voz, mas com o coração revoltado, nada puderam obter. Se clamas, clama interiormente. Lá é que Deus ouve. Diz, então, o salmista: “Escutaste a minha voz suplicante, que por ti clamava”.

11 24Já bem experiente, a que nos exorta o salmista? “Amai ao Senhor, seus santos todos”. Como se dissesse: Acreditai em mim; eu experimentei. Tive tribulações. Invoquei e não fui decepcionado. Esperei no Senhor e não fui confundido. Ele iluminou meus pensamentos, eliminou minha trepidação. “Amai ao Senhor, seus santos todos”, isto é, amai ao Senhor, vós que não amais ao mundo, todos vós, “seus santos”. Como direi que ame ao Senhor àquele que ainda ama o anfiteatro? Como exortarei a que ame ao Senhor a quem ainda ama a farsa, o comediante, a quem ama a embriaguez, as pompas do mundo, e a todas as vaidades e enganosas loucuras? A este admoesto: Aprende a não amar, para aprenderes a amar; afastate, para voltares; derrama, para te encheres. “Amai ao Senhor, seus santos todos”.

12 “Porque o Senhor quer a verdade”. Sabeis que agora se veem muitos feiticeiros; sabeis que atualmente eles se exaltam com suas vaidades. Mas, “o Senhor quer a verdade, e retribuirá aos que agem com excessivo orgulho”. Suportai até que a provação se retire, tolerai até que termine. Forçoso é que o Senhor querendo a verdade, retribua aos que se orgulham desmesuradamente. E logo hás de dizer: Quando retribuirá? Quando ele quiser. É certo que retribuirá. Não duvides da retribuição, não ouses dar conselhos a Deus a respeito do tempo. Indubitavelmente procurará a verdade, e retribuirá aos que se orgulham imensamente. A alguns, aqui mesmo na terra, ele retribui. Vimos e soubemos que ele retribui. De fato, quando são humilhados os que temem a Deus, se talvez haviam se destacado em alguma dignidade secular, não caíram quando foram humilhados, porque não retiraram a Deus de seu coração. Sua elevação é Deus. Jó parecia humilhado. Perdera seus bens, seus filhos; as riquezas que guardava e aqueles para quem as guardava. Ficou sem herdade, e o que é mais triste, sem herdeiro (Jó 1); só lhe restou a mulher, que não o consolava, mas antes ajudava o diabo (ib 2,9). Parecia humilhado. Vê se ele se tornou infeliz, vê se não se abrigou no esconderijo da face de Deus. Disse ele: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá. O Senhor o deu, o Senhor o tirou; como aprouve ao Senhor, assim se fez; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1,21). De onde provém essas gemas de louvor a Deus? Vede: De alguém pobre exteriormente, rico interiormente. Estas gemas de louvor a Deus proviriam de sua boca, se ele não tivesse um tesouro no coração? Se quereis ser ricos, ambicionai tais riquezas que não podeis perder num naufrágio. Não considereis, portanto, infelizes, homens de tal têmpera, quando humilhados. Seria erro. Não sabeis o que eles possuem interiormente. Fazeis suposições, baseados em vós mesmos, que amais o mundo, porque se perdeis tais bens, vós vos sentis infelizes. Não julgueis assim, absolutamente. Eles têm interiormente com que se alegrar. No seu íntimo está quem os governa, apascenta e consola. Ao contrário, caem miseravelmente os que depositam sua esperança neste mundo. Retire-se o brilho exterior, nada resta por dentro, a não ser a fumaça de uma consciência onerada. Não têm consolo; não têm como sair, não podem voltarse para seu íntimo. Abandonados pelas pompas mundanas, despojados da graça espiritual, são na realidade humilhados. Deus assim age para com muitos em nosso tempo; não para com todos. Se para com ninguém assim agisse, pareceria que a providência divina não está vigilante; se o fizesse para com todos, não se manteria a divina paciência. Tu, porém, ó cristão, aprendeste a suportar, e não a te vingar. Queres te vingar, ó cristão? Cristo ainda não foi vingado. Sofreste de um malvado. E ele não sofreu? Não sofreu primeiro por ti aquele que não tinha motivos para sofrer? Pois, em ti, a tribulação é o cadinho do ourives (se, no entanto, fores ouro, e não palha), para te purificares das escórias, e não para seres reduzido a cinzas.

13 25“Amai ao Senhor, seus santos todos; porque o Senhor quer a verdade e retribuirá aos que agem com excessivo orgulho”. Mas, quando retribuirá? Oh! se retribuísse agora! Queria vê-los agora humilhados e prostrados. Ouvi como prossegue o salmo: “Agi virilmente”. Na tribulação não deixeis as mãos cairem de cansaço, nem vacilarem os joelhos. “Agi virilmente e confortese o vosso coração”. Conforte-se o vosso coração para sofrer e suportar todos os males deste mundo. Mas, a quem diz o profeta: “Agi virilmente e conforte-se o vosso coração?” Talvez aos que amam o mundo? Não. Ouvi a quem se dirige: “Todos vós que esperais no Senhor”.

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

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