Comentário ao Salmo 26 – Santo Agostinho

I. COMENTÁRIO

1 1“Salmo a Davi, antes da unção”. Dirige-se o sal-mista ao recruta de Cristo, que se acerca da fé. “O Senhor é minha luz e minha salvação. A quem temerei?” O Senhor me dará o conhecimento de si e a salvação, quem me arrebatará de perto dele? “O Senhor é o protetor de minha vida, de quem tremerei?” O Senhor repele todos os ataques e ciladas de meu inimigo. De ninguém terei medo.


2 2“Ao investirem contra mim os malvados, para devorar-me as carnes”. Ao se aproximarem de mim os maus, com o fito de me conhecer e insultar, preferindo-se a si mesmos, enquanto procuro tornar-me melhor, não me devorem com dentes maldizentes, mas antes a meus desejos carnais, “Esses inimigos que me atormentam”. Não apenas os que me afligem, censurando-me de modo amigável e tentando afastar-me de meu propósito, mas também os meus inimigos. “Eles vacilaram e caíram”. Enquanto assim agem, empenhando-se em defender sua própria opinião, tornaram-se incapazes de acreditar em coisas melhores e começaram a odiar a palavra da salvação, por cujo amor faço o que não lhes apraz.


3 3“Acampem contra mim exércitos, não temerá meu coração”. Se multidões de contraditores se levantarem contra mim, meu coração não temerá sua conspiração, não passarei para seu lado. “Se o combate irromper contra mim, ainda assim esperarei”. Se surgir contra mim a perseguição deste mundo, porei minha esperança no pedido que vou formular.


4 4“Uma coisa pedi ao Senhor, e a procurarei”. Apresentei ao Senhor um só pedido e isto procurarei: “Habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida”. Enquanto perdurar esta vida, adversidade alguma me exclua do número dos que mantêm a unidade e a verdade da fé no Senhor, por todo o orbe da terra. “Para contemplar as delícias do Senhor”. Tenho em mira, perseverando na fé, que se me apresente a amável face do Senhor, a fim de que eu a contemple face a face. “E ele me proteja como a seu templo”. E absorvida a morte pela vitória, veja-me revestido da imortalidade, enquanto seu templo.

5 5“Porque ele me ocultou em seu tabernáculo no dia de meus males”. Fui incluído na oculta economia do Verbo encarnado, durante as provas inerentes à vida mortal. “Protegeu-me no esconderijo de sua tenda”. Protegeu-me a mim que acreditei de coração para obter a justiça (Rm 10,10).



6 6“Elevou-me num rochedo”, visando manifestar que minha fé me obteve a salvação. Destacou sobre sua firmeza a minha confissão. “E agora ergue-me a cabeça acima de meus inimigos”. O que o Senhor há de me reservar para o fim, se já agora, estando morto o corpo pelo pecado (Rm 8,10), sinto que minha mente serve a lei de Deus, e não é arrastada ao cativeiro, como rebelde, sob a lei do pecado (ib 7,22, etc)? “Andei ao redor e imolei em seu tabernáculo uma vítima de júbilo”. Considerei o orbe que crê em Cristo. Louvei a Deus, cheio de alegria por se ter ele humilhado temporariamente em meu favor. Tal é a vítima que lhe apraz. “Entoarei cantos e salmos ao Senhor”. Alegrar-me-ei cordial e ativamente no Senhor.

7 7“Escuta, Senhor, a voz de meus clamores”. Ouve, Senhor, a intensa e forte voz interior que fiz chegar a teus ouvidos. “Tem piedade de mim e ouve-me”. Tem piedade de mim, e atende a esta voz.


8 8“Meu coração te disse: Procurei a tua face”. Não agi ostensivamente diante dos homens; mas ocultamente, onde apenas tu ouves, disse o meu coração: Não esperei de ti prêmio algum fora de ti, mas busquei o teu rosto. “Senhor, procurarei a tua face”. Insistirei com perseverança nesta busca. Não estou atrás de coisa insignificante, mas de tua face, Senhor, tendo em mira amar-te gratuitamente, porque nada posso encontrar de mais precioso.

9 9“Não desvies de mim a tua face”. Encontre o que procuro. “Nem rejeites, irado, o teu servo”. Não ache coisa diversa do que procuro. Poderia haver castigo pior para quem ama e busca a verdade de teu rosto? “Sê o meu auxílio”. Quando encontrarei esta verdade se não me ajudas? “Não me desampares, nem me desprezes, ó Deus, meu Salvador”. Não menosprezes que ouse um mortal buscar o que é eterno, pois tu, ó Deus, curas a ferida causada por meu pecado.

10 10“Pois meu pai e minha mãe me abandonaram”. O reino deste mundo e a cidade terrena, onde nasci no tempo e como ser mortal, abandonaram-me porque eu te procurava, desprezando suas promessas. Não podiam o que queria. “O Senhor, porém, acolheu-me”. O Senhor, que pode dar-me a si mesmo, acolheu-me.

11 11“Estabelece-me uma lei, Senhor, em teu caminho”. Estabelece-me, Senhor, uma lei em teu caminho, porque me sinto atraído por ti e parti do temor para chegar, através de conhecimento tão grande, à sabedoria. Não erre, abandonando teus ensinamentos. “Guia-me por causa de meus inimigos, por um caminho reto”. Dirigi-me em linha reta nas estreitezas do caminho, pois não basta começar, visto que os inimigos até o fim não descançam.

12 12“Não me entregues à animosidade dos que me afligem”. Não permitas que os que me infligem se saciem de meus males. “Pois insurgiram contra mim testemunhas perversas”. Insurgiram contra mim, levantando falso testemunho, para afastar-me, apartar-me de ti, como se eu almejasse glória humana. “E a iniquidade mentiu a si mesma”. A iniquidade, portanto, deleitou-se em sua mentira. Entretanto, não me abalou a mim, que tenho a promessa de maior recompensa nos céus.


13 13“Creio que verei os bens do Senhor, na terra dos vivos”. Em primeiro lugar, foi o meu Senhor que sofreu tudo isso. Se eu também desprezar as línguas dos que morrem (“A boca mentirosa mata a alma” — Sb 1,14), “creio que hei de ver os bens do Senhor, na terra dos vivos”, onde não há lugar para a falsidade.

14 14“Espera no Senhor, age virilmente, conforte-se teu coração, e espera no Senhor”. Mas quando isto acontecerá? É árduo para o mortal, tardio para o amante. Mas ouve a palavra que não é falaz: “Espera no Senhor”. Suporta virilmente a cauterização dos rins, e fortemente a cauterização do coração. Não consideres negado o que ainda não recebeste. Não desfaleças por falta de esperança. Vê que foi dito: “Espera no Senhor”.


II. SERMÃO AO POVO


1 O Senhor nosso Deus fala-nos e consola-nos, vendo-nos, por justo juízo, comer o pão com o suor do rosto (Gn 3,19). Digna-se falar em nosso lugar e a nós, para demonstrar que não é apenas nosso Criador, mas que também em nós habita. Se dissermos não serem nossas as palavras do salmo que ouvimos e em parte cantamos, é verdade até certo ponto; são mais palavras do Espírito de Deus do que nossas. Ao contrário, se dissermos que não são nossas, mentimos. Aliás, os gemidos são peculiares aos atribulados; ou talvez as palavras que soaram aqui, doloridas e lacrimosas, sejam do Senhor que nunca pode ser infeliz. O Senhor é misericordioso e nós, míseros. Misericordioso, dignou-se falar aos infelizes e também empregar, em lugar dos mesmos infelizes, a palavra deles. Deste modo, uma e outra coisa é verdadeira: é nossa palavra e não é nossa; é palavra do Espírito de Deus e não é dele. É palavra do Espírito de Deus, porque sem que ele inspire, nós não a diríamos. Não é dele, porque não é infeliz, nem atribulado. Mas, estas palavras são de míseros e aflitos. Ao invés, são nossas, porque indicadoras de nossa miséria; e não são nossas porque até mesmo se gememos é devido a uma dádiva sua.

2 1“Salmo de Davi, antes da unção”. O Salmo se intitula: “Salmo de Davi antes da unção”, antes de ter sido ungido. Pois ele foi ungido como rei (1Sm 16,13). Naquela época somente se ungiram os reis e os sacerdotes. Estas duas espécies de pessoas eram ungidas. Nelas se prefigurava o único rei e sacerdote que viria, o único ungido dotado de ambos os múnus. Cristo, portanto, vem de crisma, unção. Não foi apenas a Cabeça que foi ungida, mas também nós, seu corpo. Ele é rei, que nos governa e conduz, e sacerdote, que intercede por nós (Rm 8,34). E realmente só ele é sacerdote e sacrifício simultaneamente. Ofereceu a Deus, em sacrifício, nada menos do que a si próprio. Não se encontraria fora dele uma vítima racional puríssima, que nos redimisse, qual cordeiro imaculado, derramando o próprio sangue, e incorporando-nos a si como membros, de sorte que nele também nós fôssemos ungidos. A unção, portanto, atinge a todos os cristãos. Nos tempos anteriores, no Antigo Testamento, cabia somente a duas espécies de pessoas. Daí se vê que somos o corpo de Cristo, porque todos somos ungidos. E todos nele somos de Cristo e somos Cristo, porque de certo modo o Cristo total é Cabeça e corpo. Tal unção nos dará a perfeição espiritual, na vida que nos é prometida. Esta voz é peculiar aos que anelam por aquela vida; voz dos que desejam a graça de Deus, que em nós atingirá a perfeição, no fim. Por esta razão foi dito: “antes da unção”. Somos ungidos agora no sacramento, e este prefigura algo que haveremos de ser. Devemos desejar este bem (não sei qual) futuro, inefável e gemer ao recebermos o sacramento, a fim de nos alegrarmos um dia com a realidade, prenunciada no sacramento.


3 Eis o que diz o salmista: “O Senhor é minha luz e minha salvação. A quem temerei?” Ele me ilumina; dissipem-se as trevas. Ele me cura; ceda a enfermidade. Firme, andando na luz, a quem temerei? Deus não concede uma salvação extorquível; nem é luz que possa ser ofuscada. O Senhor ilumina. Somos iluminados. O Senhor salva. Somos salvos. Fora dele somos trevas e fraqueza. A quem temeremos, tendo nele uma esperança certa, fixa, verdadeira? O Senhor é tua luz, o Senhor é tua salvação. Encontra outro mais poderoso, e então fica com medo. Pertenço ao mais poderoso, ao onipotente, e ele me ilumina e salva. Não tenho medo de ninguém, a não ser dele. “O Senhor é o protetor de minha vida, de quem tremerei?”


4 2“Ao investirem contra mim os malvados, para devorar-me as carnes, esses inimigos que me atormentam, vacilaram e caíram”. Por conseguinte, o que temerei, ou a quem? De quem tremerei, ou de quê? Meus perseguidores vacilam e caem. Para que perseguem? “Para devorar-me as carnes”. O que são as minhas carnes? Os meus afetos carnais. Enfureçam-se perseguindo; morre em mim apenas o que é mortal. Há em mim uma região aonde o perseguidor não pode chegar. É onde habita o meu Deus. Devoram-me as carnes. Consumidas estas, fica o espírito, o espiritual. E realmente, meu Senhor promete-me salvação tão grande que mesmo a carne mortal, que ele parece permitir caia nas mãos dos perseguidores, não perecerá eternamente. Mas esperam todos os mebros o que foi mostrado na Cabeça, após a ressurreição. A quem temerá minha alma, onde Deus habita? A quem temerá minha carne, quando o que for mortal tiver revestido a incorrupção? Queres saber por que os perseguidores consomem-nos a carne, e nem assim ela deve temer? “Semeado o corpo animal, ressuscita corpo espiritual” (1Cor 15,44). Como há de ser grande a confiança daquele que soube dizer: “O Senhor é minha luz e minha salvação; a quem temerei? O Senhor é o protetor de minha vida, de quem tremerei?” O imperador, protegido por escudeiros, não teme; mortal, escoltado por mortais, sente-se seguro. Um mortal protegido pelo imortal temerá, tremerá?

5 3Ouvi como não há de ser grande a confiança de quem pronuncia as seguintes palavras: “Acampem contra mim exércitos, não temerá meu coração”. Os acampamentos são fortificados, mas quem mais forte do que Deus? “Se o combate irromper contra mim”. Quem me guerreará? Pode tirar-me a esperança? Pode tirar-me o que dá o Onipotente? O doador é invencível, o dom não pode ser arrebatado. Se o dom pode ser arrebatado, o doador foi vencido. Até mesmo as dádivas temporais, meus irmãos, apenas podem ser tiradas por quem as deu. Ele não retira os dons espirituais se tu não os abandonares. Tira, contudo, os bens materiais, temporais. Seja quem for que os tira, tira-os se ele lhe der possibilidade para tal. Sabemo-lo, e lemos no livro de Jó. Nem o diabo, que parecia ter o máximo poder por algum tempo, pode coisa alguma sem permissão (Jó 1). Recebeu poder sobre coisas ínfimas e perdeu as máximas e supremas. Isto não é poder de alguém irado, e sim pena de um condenado. Nem ele, portanto, tem poder algum, sem permissão. Assim consta do livro referido acima; igualmente no evangelho diz o Senhor: “Nesta noite, eis que Satanás pediu para vos peneirar como trigo; eu, porém, orei por ti, Pedro, a fim de que tua fé não desfaleça” (Lc 22,31). Deus permite, pois, para nosso castigo ou para provação. Por isso, como ninguém nos pode roubar aquilo que Deus dá, temamos somente a Deus. Seja como for que alguém contra nós se irritar ou se orgulhar, não receie o nosso coração.

6 4“Se o combate irromper contra mim, ainda assim esperarei”. Em quê? “Uma só coisa”, diz o salmista, “pedi ao Senhor”. Empregou um termo no feminino, referindo-se a certo benefício. Como se dissesse: uma só petição costumamos falar, por exemplo: aqui tens duas. Não dizemos: dois. A Escritura empregou esta maneira de se expressar: “Uma só coisa pedi ao Senhor e a procurarei”. Vejamos o que pede quem nada teme. Grande segurança de coração! Quereis de nada ter medo? Pedi esta única coisa, única pedida por quem nada teme, ou que pede para não temer. “Uma só coisa pedi ao Senhor e a procurarei”. Assim agem aqueles que caminham bem. O que significa isto? Qual é esta única coisa? “Habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida”. Eis a única coisa. Chama-se casa o lugar onde permaneceremos para sempre. Em nossa peregrinação terrestre fala-se de casa, mas propriamente devia se denominar tenda. A tenda é peculiar aos peregrinos, aos que de certa maneira combatem, aos que lutam contra o inimigo. Se, portanto, nesta vida há tenda, manifesta-se a existência também do inimigo. Os que moram na mesma tenda chamam-se camaradas (“contubernales”). Sabeis que é este o nome dos militantes. Na terra, portanto, há tendas; lá existe uma casa. Algumas vezes, abusivamente, chama-se também de casa a esta tenda, devido a certa semelhança. E à casa, por vezes, do mesmo modo, se dá o nome de tenda. Propriamente, no entanto, lá teremos uma casa, aqui temos uma tenda.

7 Evidentemente exprime outro salmo o que faremos naquela casa: “Felizes os que habitam em tua casa. Louvar-te-ão pelos séculos dos séculos” (Sl 83,5). Com este ardente desejo (se assim podemos dizer) e inflamado deste amor, deseja habitar todos os dias da vida na casa do Senhor. Na casa do Senhor, todos os dias de sua vida, não finitos, mas eternos. Fala-se aqui de dias, como em outra parte de anos: “E teus anos não terminarão” (Sl 101,28). Pois os dias da vida eterna constituem um só dia sem ocaso. O salmista, portanto, disse ao Senhor: Isto desejei, uma só coisa pedi e procurarei. Sentimos o desejo de lhe peguntar: E o que farás ali? Qual será o teu deleite? Qual o recreio do coração? Quais delícias, lá onde as alegrias não faltam? Não permanecerias ali se não fosses feliz. De onde procede tal felicidade? Há na terra diversas espécies de felicidade para o gênero humano. Chama-se de infeliz aquele a quem se subtrai o objeto de seu amor. Mas, os homens amam coisas que diferem entre si. E quando alguém parece ter o que ama, chama-se feliz. Na verdade, porém, não é feliz apenas se tiver o que ama, mas se amar o que deve ser amado. Muitos, de fato, são mais infelizes tendo o que amam do que não o possuindo. Pois, os infelizes que amam coisas prejudiciais tornam-se mais infelizes ao possuí-las. Deus nos é propício quando nos nega o mal que amamos. Está irado, ao invés, quando dá ao que ama o objeto perverso de seu amor. A palavra do Apóstolo o evidencia: “Deus os entregou à concupiscência de seu coração” (Rm 1,24). Deu-lhes, portanto, o que amavam, mas condenando. Vê-se ao contrário um pedido rejeitado: “A esse respeito, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim” (o aguilhão da carne), diz S. Paulo. Respondeu-me, porém: “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força se manifesta com todo o seu poder” (2Cor 12,8.9). Eis como entregou os primeiros à concupiscência de seu coração. Ao apóstolo Paulo negou o que suplicou. Deu a uns para condenação; ao outro recusou a cura. Se amamos o que Deus quer que amemos, sem dúvida alguma ele nô-lo dará. Eis a única coisa que devemos amar: habitar na casa do Senhor por todos os dias de nossa vida.

8 Uma vez que nestas habitações terrenas, os homens se entregam a diversas delícias e prazeres, e cada qual deseja habitar numa casa onde nada incomode ao espírito e existam muitos deleites, e, porém, foram subtraídas as coisas agradáveis, ele procura mudar-se para qualquer outro lugar, indaguemos com certa curiosidade do salmista o que faremos nós e o que fará ele naquela casa, onde ambiciona, prefere, deseja habitar todas os dias de sua vida, sendo esta a única coisa que pede ao Senhor. Por favor, diga-me o que farás? O que é que desejas? Escuta: “Para contemplar as delícias do Senhor”. É o que amo. Por isto anelo por habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida. Realiza-se ali um grande espetáculo: a contemplação das delícias do próprio Senhor. Quer ver terminada a sua noite, para aderir à luz do Senhor. Então, será a nossa manhã. A noite passou. Por esta razão, em outro lugar, diz um salmo: “Desde a manhã estarei de pé diante de ti e verei” (Sl 5,5). Agora não contemplo, porque caí; então estarei de pé e contemplarei. É uma voz humana. Caiu o homem, e o Senhor não teria enviado alguém para nos reerguer, se não tivéssemos caído. Nós caímos. Ele desceu. Ele subiu, somos erguidos; porque “ninguém subiu a não ser o que desceu” (Jo 3,13). É reerguido aquele que ruiu, quem desceu, subiu. Não desesperemos, porque ele subiu sozinho. Ergue-nos a nós, caídos, por quem ele desceu. E estaremos de pé, contemplaremos e gozaremos de grande deleite. Tenho dito. E clamaste, aplaudindo, desejando uma beleza nunca vista. Ultrapasse o vosso coração tudo o que é habitual, o intelecto avance para além de todas as cogitações comuns à carne, apreendidas pelos sentidos, imaginados pela fantasia. Rejeitai tudo isso da mente, negai tudo que vos ocorrer. Reconhecei a fraqueza de vosso coração e se ocorrer o que podeis cogitar, dizei: Não é isto; se fosse isso, não me ocorreria. Assim, haveis de desejar algum bem. Qual? O bem de tudo o que e bom, donde todo bem se origina, bem ao qual não se acrescenta sujeito. Pode-se dizer: bom homem, bom campo, boa casa, bom animal, boa árvore, bom corpo e boa alma. De cada vez acrescentaste a palavra: bom. Existe um bem simples, o próprio bem, através do qual todas as coisas se tornam boas. O próprio bem do qual provém o que torna boas todas as coisas. Este é o deleite do Senhor, que contemplaremos. Vêde, irmãos. Se já nos aprazem estes bens que chamamos bons, se nos agradam os bens que não o são por si mesmos (todas as coisas mutáveis não são boas em si mesmas), qual não será a contemplação do bem imutável, eterno, permanente, sempre igual? Por vezes, esses coisas que se dizem boas, de modo nenhum nos agradariam se não fossem boas, e de maneira alguma seriam boas, senão por intermédio daquele que é bom, simplesmente.


9 Eis a razão por que desejo habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida, diz o salmista. Disse-vos qual o motivo. “Para contemplar as delícias do Senhor”. Mas, o que me fará o Senhor para que possa contemplar sempre, nada me moleste durante esta contemplação, nenhuma sugestão me distraia, poder algum me retire, não suporte qualquer inimigo enquanto contemplo, e seguro gozo das delícias do próprio Senhor meu Deus? Ele me protegerá. Não quero só contemplar as delícias do Senhor, mas também ser “protegido como seu templo.” Proteja-me como a seu templo; serei seu templo, e serei protegido por ele. Acaso o templo de Deus é semelhante aos dos ídolos? Os ídolos dos pagãos abrigam-se nos templos. O Senhor nosso Deus proteja seu templo, e estarei seguro. Contemplarei para fruir, serei protegido para minha salvação. À medida que a contemplação for perfeita, perfeita será a proteção; e tão perfeita será a alegria de contemplar quanto a incolumidade. Às duas afirmações: “contemplar as delícias do Senhor e ser protegido qual templo seu,” correspondem as duas iniciais do salmo: “O Senhor é minha luz e minha salvação. A quem temerei?” Como hei de contemplar as delícias do Senhor, ele é a minha luz; e como serei protegido, qual templo seu, ele é a minha salvação.

10 5Qual a razão por que teremos isto no fim? “Porque ele me ocultou em seu tabernáculo no dia de meus males”. Habitarei na casa todos os dias de minha vida, para contemplar as delícias do Senhor e ser protegido como seu templo. Qual a base para prometer-me a mim mesmo chegar a este ponto? “Porque ele me ocultou em seu tabernáculo nos dias de meus males”. Então, não haverá mais dias de meus males, porque ele me viu nos dias de meus males. Quem me olhou misericordiosamente quando estava distante, como não me fará feliz junto dele? Por isso, não foi imprudência pedir uma única coisa: nem me disse o meu coração: Por que pedes, ou: A quem suplicas? Ousas rogar a Deus, pecador iníquo? Ousas esperar certa contemplação de Deus, sendo fraco e de coração imundo? Ele responde: Ouso. Não por minha própria causa, mas devido às suas delícias; não por presunção minha, porém, apoiado em seu penhor. Quem ao peregrino já concedeu tal penhor, abandonará ao que chegou ao termo? “Porque ele me ocultou em seu tabernáculo, no dia de meus males”. Os dias de nossos males são os desta vida. Divergem os dias maus dos ímpios e os dos fiéis. Pois, se também os fiéis, ainda peregrinos longe do Senhor “enquanto habitamos neste corpo, estamos fora de nossa mansão, longe do Senhor” (2Cor 5,6), disse o Apóstolo‚ não passam por dias maus, se não temos dias maus, qual o motivo da petição da oração dominical: “Livra-nos do mal” (Mt 3,16)? Mas são bem diferentes os dias maus daqueles que ainda não acreditaram. Entretanto, nem a estes Cristo desprezou, tendo morrido pelos ímpios (Rm 5,6). Ouse, portanto, presumir a alma humana, e pedir aquela coisa única: ela a terá seguramente, com garantias a possuirá. Se é tão amada a alma manchada, como não fulgirá bela? “Porque ele me ocultou em seu tabernáculo no dia de meus males. Protegeu-me no esconderijo de seu tabernáculo”. Que sentido tem: “esconderijo de seu tabernáculo?” O que é? Do lado de fora do tabernáculo veemse muitos compartimentos. Mas existe também recinto recôndito, o ádito, no interior do templo. E qual é? O recinto onde só o sacerdote entrava. Talvez seja o próprio sacerdote o que há de mais oculto no tabernáculo de Deus. Pois recebeu deste tabernáculo a carne e tornou-se para nós o recôndito do tabernáculo. Seu tabernáculo seria constituído dos outros fiéis, seus membros, enquanto recôndito seria ele mesmo. “Pois morrestes”, diz o Apóstolo, “e vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Sl 3,3).

11 6Queres saber por que assim se exprime? “A rocha era Cristo” (1Cor 10,4). Ouvi como continua: “Porque ele me ocultou em seu tabernáculo no dia de meus males. Protegeu-me no esconderijo de seu tabernáculo”. Procuravas saber o significado de esconderijo do tabernáculo. Escuta como prossegue: “Elevou-me num rochedo”. Portanto, exaltou-me em Cristo. Porque te humilhaste até o chão, eu te exaltei sobre a pedra. Mas Cristo está no alto, tu, porém, embaixo. Ouve a sequência: “E agora ergue-me a cabeça acima de meus inimigos. E agora”, antes de chegar à casa onde quero habitar todos os dias de minha vida, antes de alcançar a contemplação do Senhor, “agora ergueu-me a cabeça acima de meus inimigos”. Ainda suporto os inimigos do corpo de Cristo, ainda não estou exaltado acima de meus inimigos; mas ele “ergueu-me a cabeça acima de meus inimigos”; “nossa Cabeça, Cristo, já está nos céus. Por enquanto ainda nossos inimigos podem enfurecer-se contra nós, porque ainda não estamos exaltados acima deles; mas nossa Cabeça já está no céu. Foi lá que disse: “Saulo, Saulo, por que me persegues” (At 9,4)? Declarou estar em nós, aqui embaixo; portanto, também nós nele estamos lá em cima. Assim também “agora ergueu-me a cabeça acima de meus inimigos”. Eis nosso penhor. Daí deriva que nós pela fé, esperança e caridade estamos com nossa Cabeça no céu eternamente, uma vez que também ele pela divindade, bondade e unidade está conosco na terra até a consumação dos séculos (Mt 28,20).

12 “Andei ao redor e imolei em seu tabernáculo uma vítima de júbilo”. Imolamos uma vítima de júbilo, imolamos uma vítima de alegria, vítima de agradecimento, de ação de graças, vítima inefável. Mas onde? Em seu próprio tabernáculo, na santa Igreja O que imolamos? Uma alegria superabundante e inenarrável, sem palavras, com sons inefáveis. Isto é que é vítima de júbilo. Como foi procurada, onde foi encontrada? Andando ao redor. Diz o salmista: “Andei ao redor, e imolei em seu tabernáculo uma vítima de júbilo”. Tua alma percorra toda a criação. Em toda parte te clamarão as criaturas: Deus me fez. É uma recomendação para o artista tudo o que deleita em sua arte. Quanto mais percorreres o universo, refletirás, conceberás o louvor do artífice. Vês os céus, grandiosa obra de Deus. Vês a terra. Deus fez as numerosas sementes, as variedades dos gérmens, a multidão dos animais. Vai ainda dos céus à terra. Nada omitas. Em toda a parte se fala do Criador. A própria beleza das criaturas são vozes a louvar o Criador. Quem, porém, descreverá toda a criação? Quem enumerará seus louvores? Quem dignamente exaltará o céu e a terra, o mar e tudo o que eles contêm? No entanto, trata-se apenas de coisas visíveis. Quem louvará de maneira condigna os anjos, os tronos, as dominações, os principados, as potestades? Quem encarecerá devidamente nosso vigor, que desenvolve o corpo, move os membros, estimula os sentidos, faz a memória abranger tantos fatos, e discernir tantas questões o intelecto? Quem o apreciará adequadamente? Aliás, se estas criaturas de Deus dão tanto trabalho para se chegar a uma expressão humana, que sucederá ao se tratar do Criador, a não ser faltarem as palavras e só restar o júbilo? “Andei ao redor e imolei em seu tabernáculo uma vítima de júbilo”.


13 Há outro sentido, a meu ver, de acordo com o contexto do salmo. O salmista dissera que fora erguido sobre um rochedo, isto é, Cristo; e fora exaltada acima de seus inimigos a sua Cabeça, a saber, Cristo; também aquele que foi exaltado sobre o rochedo, quis dar a entender que unido à Cabeça, foi exaltado acima de seus inimigos, referindo-o à honra da Igreja, diante da qual cessou a perseguição dos inimigos. Como isto se realizou através de toda a terra, diz o salmista: “Andei ao redor e imolei em seu tabernáculo uma vítima de júbilo”, isto é, considerei a fé de toda a terra, que me ergueu a cabeça acima dos perseguidores; e no seu próprio tabernáculo, isto é, na Igreja difundida por todo o orbe, inefavelmente louvei ao Senhor.

14 7“Cantarei e salmodiarei ao Senhor”. Estaremos seguros, seguros cantaremos, seguros salmodiaremos, ao contemplarmos as delícias do Senhor e formos protegidos como seu templo, no estado de incorrupção, quando a morte tiver sido absorvida pela vitória (1Cor 15,54). E agora? Já estão anunciadas as alegrias que teremos, ao recebermos a única coisa que pedimos. E agora? “Escuta, Senhor, a voz de meus clamores”. Agora gemamos, rezemos. O gemido é peculiar aos infelizes, a oração aos necessitados. Terminará a oração, sucederlhe-á o louvor. Passará o choro, virá a alegria. Neste ínterim, enquanto decorrem os dias de nossos males, não cesse nossa oração a Deus, suplicando aquela única coisa; não desistamos desta petição, até que, por meio de sua conduta e de sua graça, a alcancemos. “Escuta, Senhor, a voz de meus clamores. Tem piedade de mim e ouve-me”. Pede uma só coisa, longamente rogando, chorando, gemendo. Nada mais pede. Terminaram os desejos. Ficou somente o objeto daquela petição.

15 8Ouve por que razão a pede: “Meu coração te disse: Procurei a tua face”. É idêntico ao que se disse pouco acima: “Para contemplar as delícias do Senhor. Meu coração te disse: Procurei a tua face”. Se nossa alegria dependesse do sol, nosso coração não diria: “Procurei a tua face”, mas diriam nossos olhos corporais. A quem fala nosso coração: “Procurei a tua face”, senão objeto do olhar do coração? Os olhos carnais voltam-se para a luz visível, os do coração procuram aquela outra luz. Queres ver a luz atingida pelos olhos do coração? Deus é esta luz. “Deus é luz”, diz João, “e nele não há treva alguma” (1Jo 1,5). Queres, então, ver aquela luz? Purifica os olhos que podem vê-la: “Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus” (Mt 5,8).


16 9“Meu coração te disse: Procurei a tua face. Tua face, Senhor, procurarei. Uma só coisa pedi ao Senhor e a buscarei: a tua face. Não desvies de mim a tua face”. Como se firmou nesta única petição! Queres obter? Não peças outra coisa. Uma só basta, porque uma só te bastará. “Meu coração te disse: Procurei tua face. Tua face, Senhor, procurarei. Não desvies de mim a tua face. Nem rejeites, irado, o teu servo”. É magnífico! Nada se pode dizer de maior. Percebem-no os que amam, de verdade. Talvez alguém queira ser feliz e imortal, no meio do que ama, nos prazeres e desejos terrenos. É provável que cultue a Deus e reze, pedindo que viva longamente aqui, entre seus prazeres, e não perca coisa alguma das ambicionadas na terra: nem ouro, nem prata, nem propriedade alguma que encante os olhos, nem morram os amigos, os filhos, a esposa, os clientes. Gostaria de viver para sempre no meio de tais delícias. Mas, como não o pode para sempre, pois sabe que é mortal, talvez cultue a Deus, reze a Deus, suspire diante de Deus, para obter tudo isso, fartamente, até a velhice. E se Deus lhe dissesse: Faço-te imortal, no meio dessas coisas, recebê-lo-ia como grande bem, não caberia em si de contente, felicitando-se com excessiva alegria. Quer outra coisa quem pedia ao Senhor uma só. Mas, o que quer ele? Contemplar as delícias do Senhor por todos os dias de sua vida. Outro, que deste modo e por causa disto adorasse a Deus, tendo aqueles bens temporais, só temeria a ira de Deus, para que não lhe retirasse o que tinha. O salmista, ao invés, não teme sua ira por causa disto; realmente, disse a respeito de seus inimigos: querem comer minhas carnes. Qual o motivo de temer a ira de Deus? Para que ele não lhe retire o objeto de seu amor. Mas, o que amou? A tua face. Daí considerar como ira do Senhor que ele desvie a sua face. Senhor, “não rejeites, irado, o teu servo”. Poder-se-ia talvez replicar-lhe: Por que receias que, irado, se desvie de ti? Se ele, irado, se desviasse de ti, não se vingaria de ti. Ao contrário, se fosses ao seu encontro enquanto está irado, ele te castigaria. Deves preferir que se afaste de ti quando estiver irado. Não, diz o salmista, que sabe o que quer. Sua ira consiste em voltar o rosto para outro lado. Mas, o que importa, contanto que te faça imortal, no meio das delícias e prazeres terrenos? Retruca aquele que ama: Não. Para mim tudo o que não é ele, não tem sabor. Retire meu Senhor tudo o que pretende me dar, mas dê-se a si mesmo. “Nem rejeites, irado, o teu servo”. É possível outra espécie de afastamento que não é por ira, como acontece àqueles que lhe suplicam: “Desvia tua face de meus pecados” (Sl 50,11). Se desvia a face de teus pecados, não quer dizer que, irado, se afaste de ti. Desvie, portanto, a face de teus pecados, mas não aparte a sua face de ti.
17 “Sê o meu auxílio. Não me desampares”. Estou a caminho. Eu te pedi uma só coisa: habitar em tua casa todos os dias de minha vida, contemplar as tuas delícias, ser protegido como teu templo. Foi a única coisa que pedi. Mas para alcançá-la, estou a caminho. Acaso haverás de dizer: Esforça-te, caminha; dei-te o livre-arbítrio, és dono de tua vontade, prossegue no caminho, procura a paz e segue-a (Sl 33,15). Não te afastes do caminho reto, não te detenhas, não olhes para trás. Continua andando, porque aquele que perseverar até o fim será salvo (Mt 10,22). Tendo já recebido o livre-arbítrio, de certo modo presumes acerca da origem de tua caminhada1 . Não presumas de ti mesmo. Se o Senhor te abandonar, desfalecerás no caminho, cairás, perder-te-ás, e por lá hás de ficar. Dize-lhe, portanto: Deste-me vontade livre, mas sem ti de nada vale meu esforço. “Sê o meu auxílio. Não me desampares, nem me desprezes, ó Deus, meu Salvador”. Tu que plasmaste, ajudas; não abandonas, tu que criaste.


1Alude talvez ao erro de Pelágio, introduzido na África cerca de 411.



18 10“Porque meu pai e minha mãe me abandonaram”. O salmista fez-se pequenino diante de Deus. Toma-o por pai, por mãe. É pai porque criou, porque chama, ordena, rege; mãe, porque abriga, nutre, aleita, mantém. “Meu pai e minha mãe me abandonaram. O Senhor, porém, acolheu-me”, governando, nutrindo. Os pais mortais geraram; sucederam-lhe os filhos, mortais aos mortais, nascidos para serem os sucessores de seus progenitores, quando estes morrerrem. Ao invés, meu criador não morre, nem eu dele me apartarei. “Meu pai e minha mãe me abandonaram. O Senhor, porém, acolheu-me”. Sem falar dos dois progenitores, segundo a carne, pai e mãe, Adão e Eva, sem falar neles, temos aqui outro pai, outra mãe; ou antes, tivemos. O pai, segundo o século, é o diabo e foi nosso pai quando éramos infiéis; porque aos infiéis disse o Senhor: “Sois do diabo, vosso pai” (Jo 8,44). Se é ele que é o pai de todos os ímpios, espírito que agora opera nos filhos da incredulidade (Ef 2,2), quem é a mãe? É certa cidade, chamada Babilônia. É constituída pela sociedade de todos os perdidos do oriente ao ocidente. Possui ela os reinos da terra. Nesta cidade acha-se certa república 1 , que agora, como presenciais, está decrépita e decadente. Foi ela nossa primeira mãe, pois nela nascemos. Viemos a conhecer outro pai, Deus, e abandonamos o diabo. Quando este ousará aproximar-se daqueles que foram adotados por aquele que está acima de todas as coisas? Viemos também a conhecer outra mãe, a Jerusalém celeste, a santa Igreja. Uma porção dela peregrina na terra. Deixamos Babilônia. “Meu pai e minha mãe me abandonaram”. Já não têm o que me dar. Mesmo que pareciam dar-me alguma coisa, eras tu quem me davas e eu o atribuía a eles.


19 Quem concede ao homem até mesmos os bens deste mundo, senão Deus? Ou o que é tirado ao homem, senão o que ordena o doador, ou permite? Mas os homens insensatos pensam que são os demônios (que eles adoram) quem concede estes bens, e às vezes dizem a si mesmos: Deus nos é necessário para obtermos a vida eterna, a vida espiritual. Devemos, porém, cultuar estes poderes, por causa dos bens temporais. Oh! futilidade do gênero humano! Tens mais amor aos bens, uma vez que em vista deles queres adorar os demônios. De fato, deverias cultuar mais a estes; para não dizer mais, digo ao menos de modo igual. Deus, porém, não quer ser cultuado com os demônios conjuntamente, nem mesmo que o adores muito mais e a eles muito menos. Então, dirás, eles não são necessários para se alcançarem tais bens? Não. Mas, receamos que, irados, nos prejudiquem. Não prejudicarão se Deus não o permitir. Os demônios sempre querem prejudicar. Não deixarão a vontade de fazer o mal, nem se os aplacarmos, nem se lho pedirmos. É próprio de sua malignidade. Se os adorares, o que consegues é apenas ofender a Deus; e este, ofendido, há de te entregar ao poder dos demônios. Eles nada te poderiam fazer, se Deus tivesse sido aplacado; agora, porém, fazem o que querem, porque Deus está irado. E para saberes que é inútil adorá-los, sob pretexto de que tens em mira os bens temporais, considera se os que adoram a Netuno não naufragaram? Ou os que blasfemam a ele não chegaram ao porto. As mulheres adoradoras de Juno tiveram parto feliz? Ou as que blasfemaram a Juno foram infelizes no parto? Daí conclua V. Caridade que tolos são os que os adoram até mesmo por causa de bens terrenos. Se devessem ser cultuados por causa de bens terrenos, só os seus adoradores teriam abundância desses mesmos bens. E se assim fosse, deveríamos fugir de tais dons e pedir ao Senhor uma só coisa. Acresce ainda que até mesmo estes dons terrenos são doados por aquele que é ofendido quando os demônios são cultuados. Abandonem-nos, portanto, nosso pai e nossa mãe, abandone-nos o diabo, abandone-nos a cidade de Babilônia. O Senhor nos acolha, consolando-nos com os bens temporais, fazendo-nos felizes com os eternos. Porque “meu pai e minha mãe me abandonaram. O Senhor, porém, me acolheu”.


20 11Já foi, portanto, acolhido pelo Senhor, depois de abandonar aquela cidade e o diabo, que a governa, porque ele é quem rege os ímpios e a este mundo de trevas. Quais trevas? As dos pecadores, dos infiéis. Daí dizer o Apóstolo aos fiéis: “Outrora éreis treva, mas agora sois luz no Senhor” (Ef 5,8). Já aceitos por ele, o que diremos? “Estabelece-me, uma lei, Senhor, em teu caminho”. Tiveste a coragem de pedir uma lei? E o que será se ele te perguntar: Hás de cumpri-la? O salmista não ousaria pedir, se antes não tivesse dito: “O Senhor, porém, me acolheu”. Não teria coragem de pedir, se antes não houvesse suplicado: “Sê o meu auxílio”. Se me auxilias, se me acolhes, dá-me uma lei. “Estabelece-me uma lei, Senhor, em teu caminho”. Estabelece-me, portanto, uma lei, em teu Cristo. O próprio caminho nos falou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida ” (Jo 17,7). Lei de Cristo é lei misericordiosa. Ele é a sabedoria, da qual está escrito: “Traz na língua a lei e a misericórdia” (Pr 31,26). E se transgredires em algum ponto a lei, confessa-te. Quem por ti derramou o seu sangue, te perdoará. Apenas não deixes o caminho. Dize-lhe: Acolhe-me. “Guia-me por causa de meus inimigos pelo caminho reto”. Dá a lei. Não retires a misericórdia, tu me dizes em outro salmo: “Dará a misericórdia quem deu a lei” (Sl 83,8). Portanto: “Estabelece-me uma lei, Senhor, em meu caminho”, trata do preceito. Qual a referência à misericórdia? “Guia-me pelo caminho reto, por causa de meus inimigos”.


21 12“Não me entregues à animosidade dos que me afligem”, isto é, não dê meu consenso aos que me afligem. Se consentires, seguindo a animosidade do que te perturba, não devorará só tua carne, mas com vontade perversa absorverá a tua alma. “Não me entregues à animosidade dos que me afligem”. Entrega, se te apraz, às mãos dos perseguidores. Assim rezaram os mártires e ele entregou os seus às mãos dos perseguidores. Mas, o que entregou? O corpo. Assim fala o livro de Jó: “Deixa a terra em poder do ímpio” (Jó 9,24). A carne foi entregue às mãos do perseguidor. “Não me entregues” a mim, não a minha carne. Falo-te da alma, falo-te da mente. Não peço: Não entregue o meu corpo às mãos dos que me afligem, mas “não me entregues à animosidade dos que me afligem”. E como são entregues os homens à animosidade dos que os afligem? “Pois insurgiram contra mim testemunhas perversas”. Uma vez que são testemunhas perversas, falam muito mal de mim, atacam muito minha reputação; se for entregue a sua animosidade, eu também mentirei, serei companheiro deles e não participarei de tua verdade, mas serei participante da mentira contra ti. “Insurgiram contra mim testemunhas perversas. E a iniquidade mentiu a si mesma”, a si, não a mim. Minta sempre a si, mas não minta a mim. Se me entregares à animosidade dos que me afligem, isto é, se consentir em seus desejos, então a iniquidade não mente a si mesma, mas também a mim. Se, ao invés, se assanharem quanto quiserem e se eles se empenharem em impedir minha carreira, não me entregues a seus desejos. Não consentindo em seus desejos, permanecerei, e persistirei em tua verdade, e a iniquidade mentirá, não a mim, mas a si.


22 13Volta o salmista àquela única coisa, depois a tais perigos, de labores, de dificuldades, entre as mãos dos perseguidores e dos que o afligem, anelando, fatigando-se, mas também firme e seguro, pois o Senhor o acolhe, ajuda, guia, rege. No entanto, depois daquele circuito e júbilo, exultando de alegria e gemendo nas fadigas, suspirou por fim e disse: “Creio que verei os bens do Senhor na terra dos vivos”. Bens do Senhor, suaves, imortais, incomparáveis, eternos, imutáveis! Quando vos verei, bens do Senhor? Creio que os verei, mas não na terra dos que morrem. “Creio que verei os bens do Senhor na terra dos vivos”. Livrar-me-á da terra dos mortais o Senhor, que por mim se dignou aceitar a terra dos mortais e morrer às mãos dos que morrem. O Senhor me livrará da terra dos mortais. “Creio que verei os bens do Senhor na terra dos vivos”. Falou suspirando, afadigando-se, periclitando, no meio de grande multidão de tentações, mas esperando tudo da misericórdia daquele, ao qual disse: “Estabelece-me uma lei, Senhor”.



23 14O que diz aquele que lhe estabeleceu uma lei? Ouçamos também a voz do Senhor, que do alto nos exorta e nos consola. Ouçamos a voz daquele que ficou em lugar do pai e da mãe que nos abandonaram. Pois, ouviu nossos gemidos, viu nossos suspiros, observou nosso desejo, nosso único pedido, recebeu de bom grado a única súplica, por intermédio de Cristo nosso advogado. Até completarmos esta peregrinação, durante a qual adia, mas não retira o que prometeu, disse-nos: “Espera no Senhor”. Não esperas num mentiroso, em alguém que decepciona, que não tem o que dar. Prometeu o Onipotente, prometeu o inteiramente seguro, prometeu o veraz. “Espera no Senhor, age virilmente”. Não desanimes, não sejas daqueles aos quais se diz: “Ai de vós que perdestes a paciência” (Eclo 2,14)! “Espera no Senhor”, diz o salmista a todos nós, diz o salmista a um só homem. Somos um em Cristo, somos o corpo de Cristo, nós que desejamos aquela única coisa, que pedimos uma só coisa, e naqueles dias de nossos males gememos, acreditando que haveremos de ver os bens do Senhor na terra dos vivos. A todos nós, que somos um no único, diz o salmista: “Espera no Senhor, age virilmente, conforte-se teu coração, e espera no Senhor”. Pode falar-te de modo diverso do que repetir o que ouviste? “Espera no Senhor, age virilmente”. Por conseguinte, quem perdeu a paciência, efeminou-se, perdeu o vigor. Ouçam-no os homens, ouçam-no as mulheres, porque se acham no único varão, homem e mulher. Em Cristo “não há homem e mulher” (Gl 3,28). “Espera no Senhor, age virilmente, conforte-se teu coração, e espera no Senhor”. Esperando no Senhor, hás de possuí-lo, de ter aquele que esperas. Deseja um bem diverso, se puderes encontrar maior, melhor, mais agradável.


1Refere-se à república romana, decrépita e decadente, na época da devastação da Itália, mais ou menos em 406 e da queda da cidade de Roma, cerca de 410.

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

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