Comentário ao Salmo 25 – Santo Agostinho

I. COMENTÁRIO

1 1“De Davi”. O salmo, “A Davi”, é atribuível, não digo a Cristo Jesus, homem e mediador, mas a toda a Igreja, já perfeitamente estabelecida em Cristo.


2 “Julga-me, Senhor, porque andei em minha inocência”. Julga-me, Senhor, porque em consequência de tua misericórdia previamente concedida, torna-se meritória a minha inocência. Foi o caminho que segui. “E esperando no Senhor, não serei abalado”. No entanto, será esperando no Senhor, não em mim mesmo, que permanecerei unido a ele.


3 2-3“Prova-me e experimenta-me, Senhor”. Prova-me, experimenta-me, Senhor, para que nada me escape do que há oculto em mim. Revela-o, não a ti, pois nada te é escondido, mas a mim e aos outros homens. “Cauteriza meus rins e meu coração”. Aplica uma cauterização medicinal a meus deleites e pensamentos. “Porque tua misericórdia está diante de meus olhos”. Tenho diante dos olhos, não os meus méritos, mas a tua misericórdia, que me conduziu a tal vida, a fim de não ser consumido pelo fogo. “E aprouve-me a tua verdade”. Aborreci a mentira existente em mim, e então aprouve-me a tua verdade, sendo-me aprazível estar com ela e nela.


4 4“Não me sentei na assembleia da vaidade”. Não quis entregar meu corpo àqueles que buscam com empenho ser felizes, no gozo de bens transitórios, o que é impossível. “E não entrarei com os que praticam a iniquidade”. E como esta fruição é a causa de todas as iniquidades, não terei cumplicidade oculta com os obreiros iníquos.


5 5“Detestei a reunião dos malignos”. Odeio as reuniões realizadas por malfeitores, visando a um consenso vão. “Não me sentarei com os ímpios”. Por isso, não me sentarei com os ímpios em tais reuniões, não entrarei em acordo com eles. “Não me sentarei com os ímpios”.


6 6“Lavarei entre os inocentes as minhas mãos”. Serão puras as minhas obras no meio dos inocentes; lavarei entre eles minhas mãos, com as quais aprenderei as tuas sublimidades. “E circundarei o altar do Senhor”.



7 7“Para ouvir as vozes de teu louvor”, a fim de aprender como te louvar. “E narrar todas as tuas maravilhas”. Quando houver aprendido, exporei todas as tuas maravilhas.


8 8“Senhor, amei a beleza de tua casa”, a tua Igreja. “E o lugar onde reside a tua glória”. Ali habitas, ali és glorificado”.


9 9“Não arruínes com os ímpios a minha alma”. Não arruínes, juntamente com os que te odeiam, a minha alma, que amou a beleza de tua casa. “Nem a minha vida com os homens sanguinários”, que odeiam o próximo. Pois, a tua casa se orna com os dois preceitos da caridade.


10 10“Cujas mãos estão carregadas de iniquidades”. Não me percas, portanto, com os ímpios e com os homens sanguinários, cujas obras são iníquas. “Têm a direita cheia de dons”. Transformam os dons destinados à obtenção da salvação eterna em recursos para receberem presentes mundanos, reputando a piedade por lucrativa (1Tm 6,5).


11 11“Eu, porém caminhei em minha inocência; resgata-me e tem piedade de mim”. O preço tão elevado do sangue de meu Senhor obtenha-me a perfeita libertação; e nos perigos desta vida, não me abandone a tua misericórdia.


12 12“Meu pé se firmou no caminho reto”. Meu amor não se apartou de tua justiça. “Nas assembleias eu te bendirei, Senhor”. Não ocultarei daqueles que chamaste a tua bênção, Senhor, porque a teu amor acrescento o amor ao próximo.


II. SERMÃO AO POVO


1 Durante a leitura da carta do apóstolo Paulo, ouvimos, nós e V. Santidade, as seguintes palavras: “Como é a verdade em Jesus”, aprendestes a “remover o vosso modo de vida anterior — o homem velho, que se corrompe ao sabor das concupiscências enganosas — e a renovar-vos pela transformação espiritual da vossa mente, e revestir-vos do homem novo, criado segundo Deus, na justiça e santidade da verdade” (Ef 4,25). Mas, o Apóstolo continuou, explicando o que significa despojar-se do velho homem e revestir-se do novo, para ninguém pensar que se trata de despojar-se de alguma substância, como tirar uma túnica, ou de tomar algo de extrínseco, como pôr uma veste, trocando de túnica. Este modo de entender carnal não permitiria que os homens praticassem espiritualmente, no seu íntimo, o que ordenava o Apóstolo. O restante da leitura tem idêntico significado. Constitui certa resposta a um possível interlocutor, que dissesse: E como me despojarei do velho homem e me revestirei do novo? Sou acaso um terceiro que haveria de despojar-se do velho homem e revestir-se do novo, de sorte que existissem três homens, ficando como intermediário aquele que tira o velho homem e toma o novo? O Apóstolo continua, para que ninguém, coibido por tal cogitação carnal não atendesse, e sob pretexto de obscuridade do texto, se escusasse de não obedecer: “Por isso abandonai a mentira e falai a verdade”. Eis o que é despojar-se do velho homem e revestir-se do novo: “Por isso, abandonai a mentira e falai a verdade cada um ao seu próximo, porque somos membros uns dos outros” (Ef 4,25).


2 Nenhum de vós pense, irmãos, que deve falar a verdade aos cristãos, e a mentira aos pagãos. É com teu próximo que falas. Teu próximo é aquele que, como tu, nasceu de Adão e Eva. Todos somos próximos uns dos outros pela condição do nascimento terreno; mas somos irmãos diversamente pela esperança da herança celeste. Considera a todo homem como teu próximo, mesmo antes de ser cristão. Não sabes o que ele é diante de Deus, ignoras como Deus, em sua presciência, viu que ele seria. Às vezes aquele de quem zombas por adorar uma pedra, converte-se a Deus, talvez com maior religiosidade do que tu que há pouco rias dele. Podem ser, pois, próximos de nós ocultamente homens ainda fora da Igreja; e estar longe de nós, de modo escondido, membros da Igreja. Como, portanto, não conhecemos o futuro, tenhamos por nosso próximo a todos, não somente devido à condição humana mortal, que nos faz ter na terra igual sorte, mas ainda por causa da esperança da herança futura, porque não sabemos o que há de ser aquele que agora nada é.



3 Atenção, portanto, às demais circunstâncias que acompanham o revestir-se do novo homem e o despojar-se do velho. “Abandonando a mentira, falai a verdade cada um ao seu próximo, porque somos membros uns dos outros. Irai-vos, mas não pequeis”. Se, pois, te irritas contra teu escravo que pecou, irrita-te contra ti mesmo para, por tua vez, não pecares. “Não se ponha o sol sobre a vossa ira” (ib 26). Na verdade, irmãos, refere-se o Apóstolo à duração da ira; porque, embora pela própria condição humana e pela fraqueza do que é mortal, que suportamos, a ira se introduza sorrateiramente no cristão, não deve perdurar, nem tornar-se inveterada. Expulsa-a do coração antes que se ponha a luz visível, a fim de que não te abandone a luz invisível. É possível entender ainda de outra forma esta passagem: Cristo, que é a Verdade, é nosso sol de justiça. Não me refiro a este sol, adorado por pagãos e maniqueus, visível até aos pecadores, mas àquele cuja verdade ilumina a natureza humana, e junto ao qual se regozijam os anjos. Quanto aos homens, porém, embora a fraqueza do olhar do coração pestaneje sob seus raios, por meio dos mandamentos, contudo, purifica-se para contemplá-lo. Quando este sol começar a habitar em ti pela fé, a ira que irrompe não prevaleça tanto que o sol se ponha enquanto dura a tua cólera, isto é, Cristo não abandone tua mente. Ele não quer coabitar com tua ira. Parece que é o sol que se põe, mas és tu que te apartas dele. A ira inveterada torna-se ódio; e transformada em ódio, já te tornas homicida. “Todo aquele que odeia o seu irmão é homicida” (1Jo 3,15), diz o apóstolo João. Não é de admirar fique nas trevas aquele para quem o sol se pôs.


4 Provavelmente refere-se a isto o que ouviste do evangelho: “a barca periclitava no lago; mas Jesus dormia” (cf Lc 8,23). De fato, navegamos numa espécie de lago e não faltam ventos e procelas. A nossa barca, por causa das tentações cotidianas deste mundo quase se enche de água. Donde provém isto, senão porque Jesus dorme? Se em ti Jesus não estivesse adormecido, não sofrerias tais tempestades, mas terias tranquilidade interior, uma vez que Jesus estaria de vigília contigo. O que significa: Jesus dorme? A tua fé relativamente a Jesus adormeceu. Surgem termpestades nesse lago, vês os maus prosperarem e os bons em trabalhos. Eis a tentação, as ondas. E tua alma diz: Ó Deus, tua justiça está em que os maus prosperem e os bons labutem? dizes a Deus: Esta é a tua justiça? E Deus te responde: E esta é a tua fé? Foi isto que te prometi? Tu te fizeste cristão para teres a felicidade neste mundo? Atormentas-te porque os maus, que depois hão de ser torturados com o diabo, aqui gozam de prosperidade? Mas, por que dizes isto? Por que te perturbas com as ondas e a tempestade do lago? Porque Jesus dorme, isto é, a tua fé acerca de Jesus está entorpecida em teu coração. O que farás para te libertares? Acorda a Jesus e dize-lhe: “Mestre, estamos perecendo” (Lc 8,24). Os imprevistos do lago abalam: perecemos. Ele acordará, isto é, voltará a tua fé. Com o seu auxílio, ponderarás em teu espírito que os bens agora concedidos aos maus não permanecerão para sempre com eles: ou haverão de deixá-los durante a vida, ou serão deixados à hora da morte. Aquilo, porém, que te é prometido permanecerá eternamente. Os bens temporais que lhes são dados, logo serão arrebatados. Floresceram como a flor do feno. Toda carne é como feno; secou o feno, caiu a flor, mas a palavra do Senhor permanecerá eternamente (Is 40,6.8). Vira as costas ao que perece, e volta a face para o que permanece. Com Cristo acordado, aquela tempestade já não se abaterá sobre teu coração; as ondas não encherão a tua barca, porque tua fé domina os ventos e as ondas, e o perigo passará. A isto se refere, irmãos, o que ensina o Apóstolo acerca de despir o homem velho. “Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo”. O velho homem dava-lhe acesso, o novo não dê. “O que furtava, não furte mais” (Ef 4,26-28). O velho homem roubava, não roube o novo. É o mesmo homem, um homem só. Era Adão, seja Cristo. Era velho, seja novo etc.


5 Examinemos mais atentamente o salmo. Todo aquele que vai se aperfeiçoando na Igreja há de suportar os maus. Mas, os maus não querem saber coisa alguma dos iguais a eles, pois embora muitos maus murmurem contra os outros maus, é mais fácil um homem sadio suportar dois doentes, do que dois doentes se suportarem mutuamente. Por isso, irmãos, declaramos o seguinte: a Igreja atual é uma eira. Já o dissemos inúmeras vezes, muitas vezes dizemos agora. Ela encerra em si palha de trigo. Ninguém procure separar toda a palha, a não ser o tempo de joeirar o trigo. Ninguém saia da eira antes disso, por não querer suportar os pecadores. Não aconteça que, estando fora da eira, as aves o devorem, em vez de ser recolhido no celeiro. Atenção, irmãos. Vou dizer como isto sucede. Os grãos que começam a ser triturados, no meio das palhas, não se tocam, nem se veem, porque a palha está misturada. E quem olhar a eira de longe, pensa que contém somente palha. Se não olhar mais atentamente, se não estender a mão, não soprar, isto é, se não limpar e separar soprando, dificilmente chegará a distinguir os grãos. Por conseguinte, também algumas vezes os grãos estão colocados de tal modo que, separados entre si, não se tocam. Cada um dos que caminham para a perfeição pensa que está sozinho. Este pensamento, irmãos, tentou a Elias, aquele grande homem (1Rs 19,10). Ele disse a Deus, conforme relembra também o Apóstolo: “Mataram teus profetas, arrasaram teus altares; só fiquei eu e querem tirar-me a vida. Mas o que lhes responde o oráculo divino? Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram o joelho a Baal” (Rm 11,3 e 4). Não, disse Deus a Elias: Tens aí outros dois ou três semelhantes a ti. Mas disse: Não penses que estás sozinho. Há outros, são sete mil e te julgas sozinho! Exorto-vos, portanto, rapidamente, como disse no início. Vossa Santidade fraterna preste atenção, e a misericórdia de Deus esteja em vossos corações, para entenderdes tão bem que ela em vós frutifique e atue. Ouvi. Serei breve. Quem ainda for mau, não pense que ninguém mais é bom. Quem é bom, não julgue ser o único. Entendestes? Vou repetir. Vede o que digo: Quem é mau, se interroga sua consciência e esta o acusa, não julgue que ninguém mais é bom; quem é bom, não pense ser o único, e não receie ficar no meio dos maus, porque virá o tempo da separação. Por esta razão cantamos hoje: “Não percas com os ímpios a minha alma, e com os sanguinários a minha vida”. Que significa: “Não percas com os ímpios?” Não nos arruínes juntos. Por que está receando perecer simultaneamente com eles? Vejo que se diz a Deus: Tu nos suportas igualmente. Mas, não leves simultaneamente à ruína aqueles que suportas de igual modo. Deste assunto trata todo o salmo, que desejo comentar rapidamente a vossa santidade, pois ele é curto.


6 1“Julga-me, Senhor”. Formula um voto molesto e quase perigoso: ser julgado. Que significa querer ser julgado? Quer ser discernido dos maus. Em outro salmo evidentemente fala do juízo que distingue: “Julga-me, Senhor, e distingue entre a minha causa e a de uma gente não santa” (Sl 42,1). O salmista aí mostra o que quis dizer com o pedido: “Julga-me”. Não suceda por falta de julgamento (agora bons e maus entram na Igreja) bons e maus hajam de ir para o fogo eterno. “Julga-me, Senhor”. Por quê? “Porque andei em minha inocência, e esperando no Senhor, não serei abalado”. O que quer dizer: “esperando no Senhor?” Quem não espera no Senhor, titubeia no meio dos maus. Daí derivam os cismas1 . Estremeceram no meio dos maus, entretanto eram eles mesmos piores. Procediam como se não quisessem, sendo bons, estar entre os maus. Oh! se fossem trigo, tolerariam na eira a palha até o tempo da ventilação. Mas como eram palha, o vento soprou antes da própria ventilação e arrebatou a palha da eira, lançando-a entre os espinhos. A palha efetivamente, foi carregada dali; mas teria ficado somente trigo? É, de fato, somente a palha que voa antes da ventilação, mas o restante consta de trigo e palha. A palha toda será, na verdade, ventilada, no tempo de joeirar. Foi o que disse o salmista: “Andei em minha inocência, e esperando no Senhor não serei abalado”. Se depositar minha esperança num homem, possivelmente o verei uma ou outra vez procedendo mal, fora do caminho certo, que ele aprendeu ou ensinou na Igreja, e seguindo as veredas do diabo. E como a minha esperança repousa num homem, se ele vacila, vacila a minha esperança, e se ele cai, cai minha esperança. Mas, como efetivamente “espero no Senhor, não serei abalado”.


7 2Segue-se: “Prova-me, Senhor, e experimenta-me. Cauteriza meus rins e meu coração”. O que é: “Cauteriza meus rins e meu coração?” Queima meus deleites, queima os meus pensamentos. O salmista emprega o termo coração em lugar de pensamentos, e rins em vez de prazeres. Não pense em nada de mal, não me deleite em mal algum. Com o que hás de queimar-me os rins? Com o fogo de tua palavra. Como cauterizarás o meu coração? Com o calor de teu espírito. Deste calor fala outro salmo: “E ninguém se subtrai a seu calor” (Sl 18,7). E deste fogo diz o Senhor: “Eu vim trazer fogo à terra” (Lc 12,49).


8 3Continua: “Porque tua misericórdia está ante meus olhos e aprouve-me a tua verdade”, isto é, não pus minha complacência num homem,mas interiormente eu te agradei. Tu vês. Não tenho medo de desagradar naquilo que os homens veem, conforme disse o Apóstolo: “Cada um examine sua própria conduta e então o de que se gloriar por si só e não por referência a outro” (Fl 6,4).



9 4.5“Não me sentei na assembleia da vaidade”. Note Vossa Santidade o que significa: “Não me sentei”. Disse o salmista: Não me “sentei”, conforme Deus vê. Às vezes não estás numa assembleia, e lá tens assento. Por exemplo, não te sentas no teatro, mas pensas em cenas teatrais, contra as quais foi dito: “Cauteriza meus rins”. Estás sentado ali pelo coração, embora não estejas corporalmente presente. Pode acontecer que alguém ali te prenda, ou um dever de caridade te faça sentar-te ali. Como pode ser isto? Pode suceder que por dever de caridade tenha um servo de Deus de estar no anfiteatro. Queria libertar determinado gladiador, e pode ser que fique ali sentado e espere até que saia aquele que deseja libertar. Não se sentou na assembleia da vaidade, embora ali se visse sentado corporalmente. O que quer dizer sentarse? Concordar com aqueles que lá estão sentados. Se, apesar de presente, não concordares, não te sentaste ali; se concordares, mesmo ausente, ali te sentaste. “E não entrarei com os que praticam a iniquidade2 . Detestei a reunião dos malignos”. Como vês, está dentro. Mas “não me sentarei com os ímpios”.


10 6“Lavarei entre os inocentes as minhas mãos”, não com água visível. Lavas as mãos quando pensas em tuas obras, com piedade e inocência, diante dos olhos de Deus. Existe também um altar diante dos olhos de Deus. Até lá entrou o sacerdote, que por nós em primeiro lugar se ofereceu. É o altar celeste e não o toca senão quem lava a mão entre os inocentes. Pois, muitos indignos tocam este altar visível, e Deus tolera a profanação de seus sacramentos durante certo tempo. Mas acaso, meus irmãos, na Jerusalém celeste tudo será como dentro destas paredes? Não serás recebido na companhia dos maus no seio de Abraão como és acolhido com eles dentro destas paredes da igreja. Não temas, portanto; lava as mãos. “E circundarei o altar do Senhor”. Ali ofereces votos aos Senhor, ali apresentas tuas preces, ali conservas pura a consciência e dizes a Deus o que és; e se em ti existir alguma coisa que desagrade a Deus, cura-te aquele ao qual te confessas. Lava, portanto, entre os inocentes as tuas mãos e acerca-te do altar do Senhor, onde ouvirás as vozes de louvor.


11 7Prossegue o salmista: “Para ouvir as vozes de teu louvor e narrar todas as tuas maravilhas”. Que significa: “Para ouvir as vozes de teu louvor?” Quero entender. Chama-se isto ouvir diante de Deus, e não como acontece com estes sons, que muitos ouvem e muitos não ouvem. Quantos são ouvintes nossos, mas diante de Deus são surdos! Quantos têm ouvidos, mas não aqueles mencionados por Jesus: “Quem tem ouvidos, ouça!” (Mt 13,9). O que é, então, ouvir as vozes do louvor? Explicarei quanto puder, com o auxílio da misericórdia de Deus e de vossas orações. Ouvir as vozes do louvor é entender interiormente que o mal em ti existente, por causa de teus pecados, é só teu; todo o bem proveniente da justificação vem de Deus. Ouve a voz do louvor de tal modo que não te louves quando és bom, porque se te louvas por seres bom, tornas-te mau. A humildade te havia feito bom, a soberba te fez mau. Tu te converteras para seres iluminado, e por tua conversão te fizeste luminoso, esclarecido. Mas donde provém isto? Acaso de ti mesmo? Se pudesses iluminar-te a ti mesmo, jamais escurecerias, porque sempre estás contigo mesmo. Por que foste iluminado? Porque te mudaste em coisa diferente. Que coisa é esta que não eras? Deus é luz. Tu, pois, não eras luz, porque pecador. O Apóstolo diz àqueles aos quais inculca ouvirem vozes de louvor. “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz” (Ef 5,8). O que quer dizer: “Outrora éreis trevas”, a não ser velhos homens? “Mas agora sois luz”. O único motivo de serdes luz, vós que éreis trevas, é o de terdes sido iluminados. Não penses que és luz por ti mesmo. É luz a que ilumina todo homem que vem a este mundo (Jo 1,89). Tu, porém, por ti mesmo, pela má vontade, pela aversão eras obscuro; agora brilhas. Mas para não se ensoberbecerem os que ouviram: “Agora sois luz”, logo acrescentou: “no Senhor”. Por conseguinte, fora do Senhor não há luz; se sois luz, sois luz no Senhor. Então, “o que é que possuis que não tenhas recebido? E se o recebeste, por que haverias de te ensoberbecer como se não o tivesses recebido?” Foi isso que o próprio Apóstolo disse em outra parte aos soberbos, desejosos de atribuir a si mesmos o que vem de Deus, e gloriar-se a respeito do bem como se fosse proveniente de si mesmos: “O que é que possuis que não tenhas recebido? E se o recebeste, por que haverias de te ensoberbecer como se não o tivesses recebido” (1Cor 4,7)? Quem deu ao humilde, tira do soberbo, porque o doador pode retirar, irmãos. Se é que consegui expor o que queria, se expliquei só à medida do possível e não quanto queria, é a isto que alude a palavra: “Lavarei as minhas mãos entre os inocentes e circundarei o teu altar, Senhor, para ouvir vozes de teu louvor”, isto é, não presumirei do bem que em mim encontro, como derivado de mim mesmo e sim de ti que o deste. Não quero ser louvado, como se fosse oriundo de mim mesmo, mas como vindo de ti, em ti. Por isso, segue-se: “Para ouvir as vozes de teu louvor e narrar todas as tuas maravilhas”; não as minhas e sim as tuas.


12 8.9E agora vêde, irmãos, vêde aquele que ama a Deus e presume de Deus, no meio dos maus, rogando a Deus que não o deixe se perder com os maus, porque Deus não se engana no julgamente. Tu, porém, quando vês uns homens entrarem em determinado lugar, julgas que são iguais. Mas Deus não se engana. Não tenhas medo. Se o vento separa, distingues a palha do trigo. Queres que o vento sopre em teu favor. Não és vento, mas queres que o vento sopre para ti. E quando sacudires um e outro com a joeira, o vento carrega o que é leve e fica o pesado. Procuras, pois, o vento para fazer a separação na eira. Acaso Deus precisa de alguém como auxiliar no julgamento, para não condenar bons e maus? Não receies tal coisa. Tranquilamente pode ser bom, mesmo entre os maus. E repete o que ouves: “Senhor, amei a beleza de tua casa”. A casa de Deus é a Igreja; ainda possui maus, todavia a beleza da casa de Deus acha-se nos bons, nos santos. “Amei” até “a beleza de tua casa. E o lugar onde reside a tua glória”. O que quer dizer isto? Diria que o sentido é um pouco obscuro. Ajude-me o Senhor e o vosso coração atento, suscitado pelo mesmo Senhor. Porque disse o salmista: “o lugar onde reside a tua glória?” Primeiro disse: “a beleza de tua casa” e explica o que seja a beleza da casa de Deus, dizendo: “o lugar onde reside a tua glória”. Não basta dizer: o lugar da habitação de Deus, mas explicita: o lugar onde reside a tua glória. O que é a glória de Deus? A supramencionada: se alguém se torna bom, não se glorie em si mesmo, mas no Senhor. Pois, todos pecaram e necessitam da glória de Deus (cf Rm 3,23). Integram a beleza da casa de Deus aqueles nos quais o Senhor habita de tal sorte que Deus é glorificado por causa de seus bens. Além disso, não os atribuem a si mesmos, não os reivindicam como próprios. A Escritura quer distingui-los, porque há alguns que possuem os dons de Deus, mas não querem gloriar-se em Deus, e sim em si mesmos. Têm, na verdade, dons de Deus, mas não integram a beleza da casa de Deus. Os integrantes da glória da casa de Deus e nos quais a glória de Deus habita, constituem o lugar onde reside a glória de Deus. Onde habita a glória de Deus, senão nos que se gloriam, não em si, mas no Senhor? Por conseguinte, amei a beleza de tua casa, isto é, todos os que aí estão e procuram a tua glória. Ainda mais. Não presumi de um homem, e não entrei em acordo com os ímpios; não entrarei, nem me sentarei em suas reuniões. Uma vez que assim agi na Igreja de Deus, qual será minha retribuição? O salmista continua dizendo o que devemos responder: “Não arruínes com os ímpios a minha alma, nem a minha vida com os homens sanguinários”.

13 10-12“Cujas mãos estão carregadas de iniquidades, têm a direita cheia de dons”. Dons não são somente dinheiro, nem apenas ouro e prata, nem só presentes. Nem todos os que aceitam tais coisas, recebem dons. De vez em quando também a Igreja os recebe. Digo, Pedro recebeu, o Senhor recebeu. Tinha uma bolsa, donde Judas tirava o que lá se metia. Mas então, o que é receber dons? É louvar um homem para obter presentes, adulá-lo, acariciá-lo, julgar contra a verdade em vista de receber presentes. Que presentes? Não somente ouro, prata etc., mas também quem julga mal para ser louvado, recebe um presente e dos mais vãos. Ele abriu a mão para receber a sentença da língua do outro e perdeu o discernimento de sua consciência. “Cujas mãos estão carregadas de iniquidades, têm a direita cheia de dons”. Vêde, irmãos. Então diante de Deus aqueles em cujas mãos há iniquidade, nem sua direita está cheia de dons. Não podem senão dizer-lhes: “Não arruínes com os ímpios a minha alma, nem a minha vida com os homens sanguinários”, porque só Deus pode ver que eles não aceitam dons. Acontece, por exemplo, que dois homens têm uma causa a ser julgada por um servo de Deus. Cada qual acha justa a própria causa; pois se a considerasse injusta, não procuraria um juiz. Ambos consideram justa a sua causa. Apresentam-se ao juiz. Antes da sentença, dizem os dois: Aceitamos tua sentença; seja qual for; longe de nós rejeitá-la. E tu, o que dizes? Julga-me como quiser, contanto que julgue. Se eu recusar alguma coisa, seja condenado. Ambos estimam o juiz antes do julgamento. Mas quando proferir a sentença, será contrária a um deles. Nenhum sabe contra quem será. O juiz, pois, se quiser agradar aos dois, recebe o presente dos louvores humanos. Mas se aceita, vêde qual o dom que perde. Aceita o que soa e passa; perde o que é dito e jamais passa. A palavra de Deus é sempre proferida, nunca passa; a palavra humana, mal enunciada, já passou. O juiz agarra, pois, coisas vãs e larga as sólidas. Se, contudo, fixar os olhos em Deus, há de proferir a sentença contra uma das partes, levando em conta a Deus, sob cuja jurisdição ele a emitiu. Aquele contra o qual foi proferida, e se não há mais recurso, porque firmada no direito — talvez não o eclesiástico, mas o dos príncipes deste século, que conferiram à Igreja tanto poder que seu juízo não pode ser revogado 3 — se, portanto, já não existe recurso, o que perdeu não olha mais para si mesmo, mas em sua cegueira ataca o juiz, difamando-o quanto pode. Declara que ele quis agradar a outra parte, favoreceu o rico, ou recebeu dele alguma dádiva, ou temeu ofendê-lo. Acusa-o de suborno. Se, contudo, for um pobre contra um rico, e o juiz decidir em favor do pobre, diz o rico: Recebeu presentes. Que presentes pode ter recebido de um pobre? Responde: Ele viu que o adversário era pobre, e para não o criticarem por ter sentenciado contra um pobre, infringe a justiça e profere sentença contra a verdade. Como necessariamente se comenta assim, vêde que os que não cometem suborno diante dos olhos de Deus, único a ver quem aceita ou não aceita dons, podem dizer apenas: “Eu, porém, caminhei em minha inocência. Resgata-me e tem piedade de mim. Meu pé se firmou no caminho reto”. Fui realmente sacudido pelos escândalos e tentações de todos os lados, por parte daqueles que censuram o meu julgamento, com temeridade humana. Mas “meu pé se firmou no caminho reto”. Por que “no caminho reto?” Porque havia afirmado acima: “E esperando no Senhor, não serei abalado”.



14 Qual a conclusão? “Nas assembleias eu te bendirei, Senhor”. Não me louvarei nas assembleias, como se estivesse seguro a respeito do apoio humano, mas te bendirei com minhas obras. Bendizer a Deus nas assembleias, irmãos, consiste em viver de tal modo que os costumes bendigam a Deus. Pois, quem bendiz ao Senhor com a língua e maldiz com as ações, não bendiz ao Senhor nas assembleias. Quase todos bendizem com a língua, mas nem todos com as ações. Uns bendizem com a boca, outros com os costumes. Aqueles cujos costumes estão em desacordo com o que falam, fazem com que Deus seja blasfemado, porque os que ainda não entraram na Igreja, embora apegados a seus pecados (e por isso recusam fazerem-se cristãos), no entanto, se escusam com os maus, lisojeando-se e enganando-se a si mesmos com as palavras: Por que tentas persuadir-me a me tornar cristão? suportei uma fraude de um cristão, e nunca a cometi; um cristão jurou-me falso; eu jamais. Dizendo isto, põe obstáculo à própria salvação, de sorte que não lhes aproveita, não digo o fato de já serem bons, mas de serem mais ou menos maus. Como de nada serve para quem está nas trevas abrir os olhos, assim de nada serve estar à luz, se os olhos estão fechados. Igualmente um pagão, de fato (falamos antes dos que vimos viverem relativamente bem), com os olhos abertos está na escuridão, porque não reconhece o Senhor, sua luz. Todavia o cristão, apesar de viver mal, acha-se exclusivamente à luz de Deus, mas de olhos fechados. Vivendo mal não quer ver aquele, em cujo nome se acha posto à luz, mas sendo cego, não possui a visão da verdadeira luz.

1 Contra os donatistas
2 Observam os Maurinos: Não é alusão ao que aconteceu, talvez pouco tempo depois, na reunião de Cartago, onde os donatistas não quiseram sentar-se com os católicos, dizendo que este salmo proíbe estar sentado no meio dos ímpios. Foi-lhes respondido que eles tendo entrado com os católicos, pecaram segundo o versículo 8: Não entrarei com os que praticam a iniquidade. Ficou demonstrado que o salmo trata do ingresso e assento espiritual, não do corporal. Veja o livro aos donatistas depois do Congress., c.5. (CSEL 53. pg. 104ss).
3 Cf. Cod. Theodos., XVI, tit. Episcopali

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.


Comments

Uma resposta para “Comentário ao Salmo 25 – Santo Agostinho”

  1. Glórias a Deus.
    Como a providência me traz uma reflexão tão substancial, quanto iluminadora, num momento de fraqueza e escuridão.
    Obrigado anjo provisor. Deus o abençoe.

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