Comentário ao Salmo 23 – Santo Agostinho

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1 1“Salmo de Davi. No primeiro dia da semana”. Salmo de Davi, sobre a glorificação e ressurreição do Senhor, realizada na manhã do primeiro dia da semana, chamado domingo.


2 1.2“Ao Senhor pertence a terra e tudo o que ela encerra, o mundo e todos os seus habitantes”. O Senhor glorificado é anunciado, convidando à fé todos os povos, e o orbe inteiro se transforma em sua Igreja. “Foi ele quem a firmou acima dos mares”. Firmemente ele a estabeleceu acima dos vagalhões do século, a fim de superá-los, sem sofrer dano algum. “Sobre os rios a preparou”. Os rios escoam no mar; os homens cubiçosos precipitam-se para o mundo. A Igreja supera também a estes últimos; depois que a graça de Deus vence seus desejos mundanos, ela se dispõe pela caridade a receber a imortalidade.


3 3“Quem subirá ao monte do Senhor?” Quem subirá até a excelsa justiça de Deus? “Ou quem permanecerá em sua morada santa?” Quem se manterá no lugar onde subiu, lugar estabelecido acima dos mares, colocado mais alto do que os rios?


4 4“Quem possui mãos inocentes e coração puro”. Quem então subirá e ali permancerá, senão quem é inocente em obras e puro em pensamentos? “Quem não entregou a alma a coisas vãs”. Aquele que não entregou a alma às coisas transitórias, mas cônscio de ser ela imortal, desejou a eternidade firme e imutável. “E não jurou com perfídia ao próximo”. Como as coisas eternas são simples e verdadeiras, assim ele se apresentou sem dolo ao próximo.



5 5“Ele alcançará a bênção do Senhor, e a misericórdia de Deus, seu salvador”.


6 6“Tal é a geração dos que buscam o Senhor”. Assim nascem aqueles que o procuram. “Dos que procuram a face do Deus de Jacó (Diapsalma)”. Eles buscam a face de Deus, que deu a primogenitura ao mais novo.


7 7“Suspendei, ó príncipes, as vossas portas”. Todos vós que desejais o principado entre os homens, retirai, para não nos servirem de empecilho, as portas da concupiscência e do temor, que colocastes. “Elevai-vos, portas eternas”. Elevai-vos, ó portas da vida eterna, da renúncia do século e da conversão a Deus. “E entrará o rei da glória”. Entrará o rei, do qual podemos gloriar-nos sem soberba. Ele, tendo ultrapassado as portas da mortalidade, e franqueado para si as celestes, cumpriu o que ele próprio havia dito: “Alegrai-vos, eu venci o mundo” (Jo 16,33).


8 8“Quem é este rei da glória?” Admirada, apavorada, pergunta a natureza mortal: “Quem é este rei da glória? O Senhor forte e poderoso”, que consideraste fraco e oprimido. “O Senhor possante nas batalhas”. Apalpa as chagas. Vê-las-ás cicatrizadas. A imortalidade foi restituída à fraqueza humana. Esta solveu o débito terreno, quando a glória do Senhor guerreou a morte.


9 9“Ó príncipes, levantai as vossas portas”. Inicia a partida para o céu. Ressoe novamente a trombeta do profeta: também vós, príncipes celestes, levantai as portas das almas humanas que adoram a milícia do céu” (2Rs 17,16)… “Elevai-vos portas eternas”. Levantai-vos portas da eterna justiça, da caridade e da castidade, que fazem a alma amar o Deus único e verdadeiro, não cometer fornicação, adorando a muitos, deuses só de nome. “E entrará o rei da glória”. Entrará o rei da glória, para interceder por nós (Rm 8,34), à direita do Pai.



10 10“Quem é este rei da glória?” Por que te admiras, também tu, príncipe dominador dos ares e perguntas: “Quem é este rei da glória? O Senhor dos exércitos é o rei da glória”. Depois de ter passado pela provação, com seu corpo ressuscitado, sobe acima de ti, príncipe dos ares. Ascende acima de todos os anjos aquele que foi tentado pelo anjo prevaricador. Nenhum de vós se interponha, querendo impedir-nos a passagem, a fim de não o adorarmos como Deus. Nem os principados, nem os anjos, nem as virtudes podem nos separar do amor de Cristo (ib 39). É melhor esperar no Senhor do que esperar no príncipe (Sl 117,9), de sorte que aquele que se gloria, glorie-se no Senhor (1Cor 1,31). Existem na verdade, esses poderes no governo do mundo, mas “o Senhor dos exércitos é o rei da glória”.

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

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