Comentário ao Salmo 18 – Santo Agostinho

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I. COMENTÁRIO

1 1 “Para o fim. Salmo de Davi”. O título é bem conhecido. Não é nosso Senhor Jesus Cristo quem fala tais coisas, mas a seu respeito são proferidas.

2 2“Narram os céus a glória de Deus”. Os evangelistas são justos, nos quais Deus habita como nos céus. Eles expõem a glória de nosso Senhor Jesus Cristo, ou a glória que o Filho deu ao Pai, na terra. “E proclama o firmamento as obras de suas mãos”. E o firmamento, devido ao temor, transformado em céu pela confiança conferida pelo Espírito Santo, anuncia os feitos poderosos do Senhor.

3 3“O dia ao dia profere a palavra”. O Espírito revela aos espirituais o Verbo da imutável Sabedoria de Deus, isto é, que no princípio o Verbo era Deus, junto de Deus (Jo 1,1). “E a noite à noite anuncia a ciência”. Também a mortalidade da carne, insinuando a fé aos homens carnais, como se estivessem longe, anuncia a futura ciência.

4 4“Não são linguagens, nem discursos, sons imperceptíveis”, como se não tivessem sido ouvidas as vozes dos evangelistas, conquanto o Evangelho tenha sido pregado em todas as línguas.

5 5“Seu som repercutiu por toda a terra e em todo o orbe as suas palavras”.

6 6“No sol armou a sua tenda”. O Senhor, porém, combatendo contra domínios dos erros temporais, e havendo de trazer à terra a espada e não a paz (Mt 10,34), levantou uma tenda de campanha no tempo, ou seja em sua manifestação, a economia de sua encarnação. “E este, qual esposo que sai do tálamo”. Ele saiu do ventre virginal, onde Deus se uniu à natureza humana, qual esposo à esposa. “Deu saltos de gigante a percorrer o caminho”. Sendo fortíssimo, deu saltos e precedeu aos demais, por incomparável virtude. Não se deteve, mas correu pelo caminho. Pois não se deteve no caminho dos pecadores (Sl 1,1).

7 7“Nasce numa extremidade do céu”. A processão pela qual nasceu do Pai, não é temporal, mas eterna. “E seu percurso vai até a outra extremidade”. Chega, pela plenitude da divindade, à igualdade com o Pai. “Ninguém se subtrai a seu calor”. Mas como o Verbo também se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14), assumindo a nossa mortalidade, não permitiu a mortal algum se eximir da sombra da morte; contudo, até aí penetrou o calor do Verbo.

8 8“A lei do Senhor é imaculada, converte as almas”. A lei do Senhor é ele mesmo que não veio abolir a lei, mas cumpri-la (Mt 5,17). É lei imaculada, porque ele não cometeu pecado, nem se encontrou mentira em sua boca (2Pd 2,22). Não oprime as almas com o jugo da escravidão. Converte-as, levando-as a imitá-lo livremente. “O testemunho do Senhor é fiel, dá sabedoria aos pequeninos”. “O testemunho do Senhor é fiel” porque ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar (Mt 11,27). São coisas escondidas aos sábios e reveladas aos pequeninos; porque Deus resiste aos soberbos, mas dá a graça aos humildes (Tg 4,6).

9 9“As justiças do Senhor são retas, alegram os corações”. São retas todas as justiças do Senhor. Ele não ensinou o que não havia praticado, a fim de que se alegrasse de coração quem o imitasse, em ações livres, realizadas com caridade e não com temor servil. “O preceito do Senhor é luminoso, aclara os olhos”. O luminoso preceito do Senhor, tirado o véu das observâncias carnais, ilumina a visão do homem interior.

 10 10“O temor do Senhor é casto, permanece pelos séculos dos séculos”. O temor do Senhor, não o das sanções da lei, das extorsões de bens temporais, cujo amor leva a alma à fornicação, mas o temor casto, pelo qual a Igreja, quanto mais ardentemente ama o esposo, mais cuidadosamente evita ofendê-lo. O perfeito amor, portanto, não expulsa esse temor (1Jo 4,18), que permanece pelos séculos dos séculos.

11 10.11“Os juízos do Senhor são verdadeiros. Justificam-se por si mesmos”. Os juízos do Pai que a ninguém julga, mas confiou ao Filho todo julgamento (Jo 5,22), de fato, justificam-se imutavelmente. Deus a ninguém engana, seja que ameace ou prometa, e ninguém pode livrar os ímpios do suplício que ele inflige, ou arrebatar aos piedosos o prêmio que ele dá. “Muito mais desejáveis do que o ouro e a pedra preciosa. Muito” pode ser o ouro e a pedra. O salmista quer dizer muito preciosa, ou muito desejável. No entanto, os juízos de Deus são mais desejáveis do que as pompas deste mundo. Anelar por elas é tornar indesejáveis os juízos de Deus, temidos ou desprezados, ou incríveis. Se alguém é ouro e pedra preciosa, e por isso não é consumido pelo fogo, mas é recolhido no tesouro de Deus, prefere a si os juízos de Deus, cuja vontade prepõe à sua. “Mais doce do que o mel e o favo”. Se alguém é mel, porque já livre dos vínculos desta vida espera o dia de entrar no banquete de Deus, ou se ainda é favo, envolvido nesta vida, cera com a qual o mel não se mistura ao enchê-lo (sendo necessário que o esprema a mão de Deus, sem quebrá-lo, para que da vida temporal destile na vida eterna)‚ mais doces são para ele os juízos de Deus do que ele próprio para si, mais doces do que o mel e o favo.

12 12“Por isso o teu servo os guarda”. É amargo o dia do Senhor para os inobservantes. “Grande é a recompensa desta observância”. A grande recompensa não consiste num bem exterior, mas na própria observância dos juízos de Deus. Grande, porque trazem alegria.

13 13“Quem entende os próprios delitos?” Que suavidade pode haver nos delitos, se não são entendidos? Quem entende os delitos, que fecham os olhos daquele para quem a verdade é suave, os juízos de Deus são desejáveis e doces? Como as trevas tapam os olhos, os delitos obscurecem a mente, e não deixam ver a luz, nem a si mesmo.

14 14“Purifica-me, Senhor, de meus pecados ocultos”. Das concupiscências em mim latentes, purifica-me, Senhor. “E dos alheios, poupa teu servo”. Não seja seduzido por eles; quem está livre dos seus, não se deixar prender pelos alheios. Preserva, portanto, das paixões alheias, quem não é soberbo, quer ficar senhor de si, todavia, servo teu. “Se me não dominarem, então serei imaculado”. Se não me dominarem meus pecados ocultos e os alheios, então serei imaculado. Não existe terceira origem do pecado, além do próprio oculto, no qual caiu o diabo, e o alheio, pelo qual o homem foi seduzido, consentiu, fê-lo próprio. “E serei purificado do maior delito”. Qual, a não ser a soberba? Não há delito maior do que apostatar de Deus, início da soberba do homem (Eclo 10,14). E de fato é imaculado quem não cometeu tal delito, o último para os que voltam para Deus, o primeiro dos que dele se afastaram.

15 15“E ser-te-ão agradáveis as palavras de minha boca, e a meditação de meu coração estará sempre em tua presença”. A meditação de meu coração não visa à jactância de agradar aos homens, porque nele já não se aninha a soberba; mas acha-se sempre em presença de ti, que investigas a consciência pura. “Senhor, meu auxílio, meu redentor!” Senhor, meu auxílio, quando tendo a ti; porque és meu redentor, a fim de que tenda a ti. Ninguém atribua a sua própria sabedoria o retorno a ti, ou a suas próprias forças o alcançar-te. Não seja repelido por ti, que resistes aos soberbos, porque ele não foi purificado do maior delito, nem se tornou agradável em tua presença. Tu nos redimes para nos convertermos e nos ajudas para chegarmos a ti.

II. SERMÃO AO POVO

1 1Tendo pedido ao Senhor que nos purifique dos pecados ocultos, e preserve os seus servos dos alheios, entendamos o que isto quer dizer, para não cantarmos como aves canoras e não segundo a razão humana. Pois, também os melros, os papagaios, os corvos, as pegas e outras aves semelhantes muitas vezes aprendem dos homens a imitar sons que não entendem. Cantar sabiamente é dom da vontade divina à natureza humana. Sabemos que lamentavelmente muitos homens maus e luxuriosos cantam canções dignas de seus ouvidos e de seus corações. Tanto piores são quanto não ignoram o que cantam. Sabem que cantam infâmias e cantam-nas com gosto tanto maior quanto mais imundas são. Consideram-se alegres na medida que são torpes. Nós, porém, que aprendemos na Igreja a cantar as palavras de Deus, juntos esforcemo-nos por ser o que está escrito: “Feliz o povo que entende o júbilo” (Sl 88,16). Por conseguinte, caríssimos, devemos também com serenidade de coração conhecer e ver aquilo que cantamos com vozes uníssonas. Cada um de nós neste cântico rogou ao Senhor, dizendo a Deus: “Purifica-me, Senhor, de meus delitos ocultos. E dos alheios, poupa o teu servo. Se me não dominarem, então serei imaculado. E serei purificado do maior delito”. Para compreendermos bem o que é isto e por que motivo é assim, percorramos brevemente, quanto tempo o Senhor nos der, o texto do salmo.

2 1Pois, canta-se a respeito de Cristo. É evidente o que afirmo porque no salmo se acha escrito: “Qual esposo que sai do tálamo”. Quem é o esposo senão aquele ao qual se desposou a virgem, por intermédio do Apóstolo, casto amigo do esposo? Tomado de casto temor receia que, assim como a serpente enganou astutamente Eva, perca esta virgem esposa de Cristo, a castidade que possui em Cristo (2Cor 11,3). Encontra-se em nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo, a grande e plena graça, de que fala o apóstolo João: “E nós vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade (Jo 1,14). Narram os céus esta glória”. Céus são os santos, elevados da terra, portadores do Senhor. Embora também os céus, de certa maneira, tenham cantado a glória de Cristo. Quando a narraram? Quando, nascido o mesmo Senhor, uma nova estrela, nunca antes vista, apareceu. No entanto, há céus mais verdadeiros e sublimes, dos quais por conseguinte aqui se diz: “Não são linguagens, nem discursos, sons imperceptíveis. Seu som repercutiu por toda a terra e em todo o orbe as suas palavras”. De quem, senão dos céus? De quem, a não ser dos apóstolos? Eles narram a glória de Deus, depositada em Cristo Jesus, pela graça, para a remissão dos pecados. Pois, todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus e são justificados gratuitamente, por seu sangue (Rm 3,23). Se foi gratuitamente, foi de graça. Não seria graça se não fosse gratuita. Nada de bom havíamos feito para merecermos tais dons. Mais ainda. Se o suplício não é infligido por nada, o benefício é prestado gratuitamente. Não tínhamos mérito algum precedente, mas apenas com que merecêssemos condenação. Cristo nos salvou pelo batismo regenerador, unicamente em virtude de sua misericórdia e não por causa de obras de justiça que tivéssemos feito (Tt 3,5). Esta é, diria, a glória de Deus. Os céus a narraram. Esta é, digo, a glória de Deus, não a tua. Nada de bom fizeste, e no entanto recebeste bem tão imenso. Se, por conseguinte, pertences à glória de Deus que os céus narraram, dize ao Senhor teu Deus: “Meu Deus! A tua misericórdia antecipa-se a mim” (Sl 58,11). Antecipou-se pois a ti. Verdadeiramente antecipou-se, porque nada de bom encontrou em ti. Antecipaste o castigo, ensoberbecendo-te; ele antecipa-se ao teu suplício, apagando os pecados. Pecador justificado, ímpio feito piedoso, condenado assumido ao reino, dize ao Senhor teu Deus: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá a glória” (Sl 113,9). Digamos: “Não a nós”. A quem, se fosse como a nós? Digamos, repito: “Não a nós”, porque se agisse como se fosse a nós, apenas teria de nos infligir penas. Não a nós, mas a seu nome dê a glória, porque não agiu conosco segundo as nossas iniquidades (Sl 102,10.10). “Não a nós, Senhor, não a nós”. A repetição confirma. “Não a nós, Senhor, mas ao teu nome dá a glória”. Souberam-no os céus, que anunciaram a glória de Deus.

3 2“E proclama o firmamento as obras de suas mãos”. A expressão: “glória de Deus” repete-se aqui com as palavras: “obras de suas mãos”. Quais as obras de suas mãos? Não se trata, como pensam alguns, de que Deus tenha feito todas as coisas por sua palavra, enquanto o homem, mais importante que elas, criou, ele com as próprias mãos. Não se pense isto. É opinião fraca, pouco apurada. Pois, o Verbo fez todas as coisas. Embora se narrem diversas obras de Deus, entre as quais o homem a sua imagem (Gn 1), todavia, tudo fez ele, e sem ele nada se faz (Jo 1,3). No tocante às mãos de Deus, também dos céus foi dito: “Os céus são obra de tuas mãos” (Sl 101,26). O salmista, para evitar que se pense representarem os céus aos santos, acrescentou: “Eles perecerão, tu, porém, permanecerás” (ib 27). Não somente os homens, mas ainda os céus, que perecerão, foram feitos pelas mãos de Deus, a quem se disse: “Os céus são obras de tuas mãos”. Idêntica declaração se faz sobre a terra: “Seu é o mar, e ele mesmo o fez e suas mãos estabeleceram a terra” (Sl 94,5). Se, portanto, fez com as mãos também os céus, com as mãos plasmou a terra, não foi apenas o homem que criou com as mãos; e se foi com a palavra que criou os céus, com a palavra fez a terra, por conseguinte criou igualmente o homem por sua palavra. Verbo é idêntico a mãos. Mãos são o mesmo que Verbo. Não é por membros que se distingue a estatura de Deus, o qual está todo em todo lugar, e lugar nenhum contém. Deus fez com a sabedoria o que fez pela palavra, e com o poder o que fez com as mãos. Pois, Cristo é o poder e a sabedoria de Deus (1Cor 1,24). Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito (Jo 1,3). Os céus narraram, narram e narrarão a glória de Deus. Digo, os céus narrarão, isto é, os santos, a glória de Deus, elevados da terra, portadores de Deus, atroando com os preceitos, dardejando com a sabedoria aquela glória de Deus, pela qual nós indignos fomos salvos. O Filho pródigo, coagido pela miséria, reconhece sua indignidade, a saber, a que nos torna indignos. Reconhece tal indignidade, o filho menor, peregrino longe do pai, adorador dos demônios, guarda de porcos. Reconhece a glória de Deus, mas forçado pela indigência. Como a glória de Deus nos transformou naquilo que não éramos dignos de ser, diz a seu pai: “Não sou digno de ser chamado teu filho” (Lc 15,21). Infeliz, através da humildade impetra a felicidade e quanto mais se confessa indigno, mostrase mais digno. Esta “glória de Deus narram os céus, e proclama o firmamento a obra de suas mãos”. Céu, firmamento é o coração firme, não o coração tímido. Este anúncio foi dirigido aos ímpios, aos adversários de Deus, aos amantes do mundo, aos perseguidores dos justos. Anúncio a um mundo violento. Mas o que poderia ser mundo violento, quando o firmamento proclamava estas coisas? O que “proclama o firmamento? As obras de suas mãos”. Quais? A glória de Deus que nos salvou, que nos criou para praticarmos boas obras. Pois somos criaturas dele, criados em Cristo Jesus para as boas obras (Ef 2,10). Não só os homens, mas também os justos. Se é que o somos, foi ele quem nos fez e não nós mesmos (Sl 99,3).

4 3“O dia ao dia profere a palavra, e a noite à noite anuncia a ciência”. O que é isto? Talvez seja fácil e claro de entender: “O dia ao dia profere a palavra”, simples e claro como o dia. Mas: “a noite à noite anuncia a ciência”, obscuro, como a noite. “O dia ao dia”, os santos aos santos, os apóstolos aos fiéis, o próprio Cristo aos apóstolos, aos quais afirmou: “Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,14). Parece evidente e fácil. Como, porém, “a noite à noite anuncia a ciência?” Alguns entenderam de modo muito simples, e talvez seja exato. Pensavam que a sentença tratava do tempo em que nosso Senhor Jesus Cristo viveu na terra, os apóstolos ouviram isto, transmitiram-no aos pósteros, como um tempo a outro: “o dia ao dia, a noite à noite”, o primeiro dia ao segundo, a noite anterior à seguinte, porque essa doutrina é pregada dia e noite. Este sentido chão baste a quem bastar. Mas, algumas palavras da Escritura, por sua obscuridade, ofereceram a vantagem de darem origem a muitos sentidos. Se a enunciação fosse simples, trataria de uma só questão, mas como é obscura, subentendem-se muitas. Existe ainda outra explicação: “O dia ao dia, a noite à noite”, isto é, o espírito ao espírito, a carne à carne. Mais outro sentido: “O dia ao dia”, os espirituais aos espirituais; “e a noite à noite”, os carnais aos carnais. Ambos ouvem, apesar de apreenderem de modo diverso. Uns escutam como palavra proferida, outros como ciência anunciada. O que é proferido endereça-se aos presentes, o anúncio toca aos distantes. É possível encontrar várias explicações para céus, mas precisamos abreviar. Falta-nos o tempo. Digamos só uma conjectura: Quando Cristo Senhor falava aos apóstolos, o dia proferia ao dia a palavra; quando Judas entregou Cristo Senhor os judeus, a noite à noite anunciava a ciência.

5 4.5“Não são linguagens, nem discursos, sons imperceptíveis”. De quem são, a não ser dos céus que narram a glória de Deus? “Não são linguagens, nem discursos, sons imperceptíveis”. Lede nos Atos dos Apóstolos de que maneira, ao descer sobre eles o Espírito Santo, todos ficaram dele repletos; e falavam as línguas de todas as nações, conforme o Espírito lhes dava proferir (At 2,4). Eis aí. “Não são linguagens, nem discursos, sons imperceptíveis”. Não soaram apenas ali onde eles foram repletos. “Seu som repercutiu por toda a terra, e em todo o orbe as suas palavras”. Por causa disso é que também nós falamos aqui. Aquele som chegou até nós, alcançou toda a terra, e apesar disso o herege não entra na Igreja. Seu som repercutiu por toda a terra, para que tu entres no céu. Ó filho pestilento, litigante, péssimo. Preferes ficar no erro! Ó soberbo, ouve o testamento de teu pai! Eis aí. O que pode haver de mais simples e mais claro? “Seu som repercutiu por toda a terra e em todo o orbe as suas palavras”. Acaso será preciso um expositor? Em que te empenhas contra ti mesmo? Queres assegurar-te uma só parte por meio da contenda, quando podes reter tudo pela concórdia?

6 6“No sol colocou a sua tenda”. Sua Igreja é manifesta, não oculta, escondida, encoberta. Não quer talvez ficar oculta ao rebanho dos hereges. Foi dito a Davi na Sagrada Escritura: “Tu agiste em segredo, mas sofrerás à luz do sol” (2Sm 12,12)? isto é, fizeste o mal ocultamente, sofrerás o castigo diante de todos. “No sol, pois, colocou a sua tenda”. Porque, ó herege, foges para as trevas? És cristão? Ouve a Cristo. És servo? Escuta a teu Senhor. És filho? Atende a teu pai; emenda-te, revive. Digamos a respeito de ti também: “Estava morto e tornou a viver; ele estava perdido e foi encontrado” (Lc 15,32). Não repliques: Por que me procuras se pereci? Por isso mesmo te procuro. Porque pereceste. Não me procures, retrucas. A iniquidade, causadora de divisão, quer isto, mas não a caridade que nos faz irmãos. Se procurasse um de meus escravos não seria julgado ímprobo, mas sou denominado ímprobo se procuro meu irmão? É a opinião de quem não possui a caridade fraterna; eu, contudo, procuro meu irmão. Irrite-se enquanto procurado quem se aplaca quando encontrado. Procuro meu irmão, e interpelo a meu Senhor, não contra ele, mas a seu favor. Não direi, ao interpelar: Senhor, dize a meu irmão que reparta comigo a herança (Lc 12,13), e sim: Dize a meu irmão que possua comigo a herança. Por que, então, te desvias, meu irmão? Foges por veredas? Por que tentas ocultar-te? “No sol colocou a sua tenda, qual esposo que sai do tálamo”. Deves saber quem é. Qual esposo que sai do tálamo. “Deu saltos de gigante a percorrer o caminho”. Ele “no sol colocou a sua tenda”, isto é, qual esposo, quando o Verbo se fez carne, encontrou o tálamo no seio da virgem e lá, unido à natureza humana, saiu de um leito castíssimo, humilde entre todos por misericórdia, mais forte do que todos pela majestade. “Deu saltos de gigante a percorrer o caminho”, significa o seguinte: nasceu, cresceu, ensinou, sofreu, ressuscitou, subiu. Percorreu o caminho, não se deteve. O mesmo esposo, que assim agiu, “colocou no sol”, em evidência, “a sua tenda”, a sua santa Igreja.

7 7Queres ouvir qual o caminho por onde corre rapidamente? “Nasce numa extremidade do céu e seu percurso vai até a outra extremidade”. Após correr de lá e para lá regressar correndo, enviou o seu Espírito. Apareceram umas como línguas de fogo àqueles sobre os quais o Espírito veio (cf At 2,3). O Espírito Santo veio como fogo, prestes a consumir o feno, que é a carne, e a fundir o ouro e purificá-lo. Veio como fogo, e por isso segue-se: “Não há quem se subtraia a seu calor”.

8 8“A lei do Senhor é imaculada, converte as almas”, quer dizer, o Espírito Santo. “O testemunho do Senhor é fiel, dá sabedoria aos pequeninos”, não aos soberbos. Isto faz o Espírito Santo.

9 9“As justiças do Senhor são retas”. Não atemorizam, mas “alegram os corações”. Temos aí o Espírito Santo. “O preceito do Senhor é luminoso, aclara os olhos”, não os embacia. Olhos do coração, não da carne. Olhos do homem interior, não do homem exterior. Assim opera o Espírito Santo.

10 10O temor do Senhor, não é servil, mas casto. Ama gratuitamente e não receia ser punido, por que é temível, mas não quer ser separado de quem ama. Tal é o temor casto, que a caridade perfeita não expulsa (1Jo 4,18), mas “permanece pelos séculos dos séculos”. Aqui se manifesta o Espírito Santo, dando, conferindo tal temor. “Os juízos do Senhor são verdadeiros, justificam-se por si mesmos”. Não provocam rixas levando a divisões, mas congregam na unidade. “Por si mesmos” tem este sentido. Aí temos o Espírito Santo. Aqueles sobre os quais desceu em primeiro lugar falaram as línguas de todos os povos; o fato era anúncio de que ele haveria de congregar na unidade as línguas de todas as nações. Então, um só homem que recebera o Espírito Santo falava a língua de todos; agora a própria unidade realiza o mesmo, falando a língua de todos os povos. Também agora um só homem fala a língua de todas as nações; um só homem cabeça e corpo, um só homem, Cristo e a Igreja, homem perfeito. Ele esposo e ela esposa; mas foi dito: “Serão os dois uma só carne (Gn 2,24). Os juízos do Senhor são verdadeiros. Justificam-se por si mesmos”, por causa da unidade.

11 11“Muito mais desejáveis do que o ouro e a pedra preciosa”. Muito ouro, ou muito preciosa, ou muito desejável. Embora muito, para o herege é pouco. Não ama o mesmo que nós, embora confesse conosco o Cristo. Ama comigo o Cristo que confessa comigo. Quem não quer a mesma coisa, recusa, recalcitra, repele. Para ele não é isto muito mais desejável do que o ouro e a pedra preciosa. Escuta ainda: “Mais doce do que o mel e o favo”. Mas não gosta de ouvi-lo quem se acha no erro. O mel é amargo ao febricitante, apesar de doce e agradável ao curado, porque é gostoso para quem tem saúde. “Muito mais desejável do que o ouro e a pedra preciosa. Mais doce do que o mel e o favo”.

12 12“Por isso o teu servo os guarda”. Teu servo comprova, não falando, mas observando, quão doces são eles. Guarda-os o teu servo, porque agora são doces e em seguida são saudáveis. “Grande é a recompensa desta observância”. O herege, porém, apegado a sua animosidade, não vê este esplendor, não sente esta doçura.

13 13.14“Quem entende os delitos?” Pai, perdoa-lhes; não sabem o que fazem (Lc 23,24). É este o servo que guarda a doçura, a suavidade da caridade, o amor da unidade. Eu mesmo, diz, que guardo os juízos, rogo-te, posto que não há quem entenda os delitos, não me surprendam alguns sorrateiramente, nem me apanhem como a um homem. “Purifica-me, Senhor, de meus delitos ocultos”. Assim cantamos. Em palavras chegamos a este ponto. Digamos, cantemos também com a inteligência; cantando oremos, e orando impetremos. Rezemos: “Purifica-me, Senhor, de meus delitos ocultos”. Quem entende os delitos? Se é possível ver as trevas, os delitos também se entendem. Enfim, quando nos arrependemos dos delitos, estamos na luz. Enquanto se está envolvido no delito, os olhos ficam obcecados e fechados; não veem o delito. Se tapas os olhos do corpo, não vês os objetos, nem aquilo que o obstrui. Digamos, então, a Deus, que conhece o que purifica e sabe o que cura. Repitamos-lhe: “Purifica-me, Senhor, de meus delitos ocultos, e dos alheios poupa teu servo”. Meus delitos maculam-se, os alheios afligem-se. Daqueles purifica-me; destes preserva-me. Tira-me do coração os maus pensamentos, o mau conselheiro, isto é, “purifica-me, Senhor, dos meus delitos ocultos, e dos alheios poupa teu servo”. Estas duas espécies de delitos, o próprio e os alheios, primeiramente apareceram nos primórdios: o diabo caiu por próprio delito, e derrubou Adão com o alheio. O próprio servo de Deus, que guarda os juízos de Deus, portadores de grande recompensa, também reza em outro salmo: “Não se aproximem de mim os pés da soberba, nem as mãos dos pecadores me sacudam” (Sl 35,12). Não se aproximem de mim os pés da soberba, quer dizer, “purifica-me, Senhor, de meus delitos ocultos”, e as mãos dos pecadores não me sacudam, isto é, “dos alheios poupa teu servo”.

14 “Se me não dominarem meus delitos ocultos”, nem os alheios, então “serei imaculado”. Não ousa afirmá-lo, por suas próprias forças, mas suplica ao Senhor que o faça. Dirige-se ao Senhor em outro salmo: “Dirige os meus passos segundo a tua palavra, e nenhuma injustiça me domine” (Sl 118,133). Se és cristão, não temas teu senhor, um simples homem. Teme sempre o Senhor teu Deus. Teme o mal que há em ti, isto é, tua concupiscência. Não receies o que Deus fez em ti, mas o que tu mesmo fizeste. O Senhor te fez bom servo; tu, em teu coração, plasmaste para ti mesmo um mau senhor. Com justiça estarás sujeito à iniquidade, com razão estarás sujeito ao senhor que arranjaste, porque não quiseste ser submisso àquele que te curou.

15 “Mas, se me não dominarem, então serei imaculado. E serei purificado do maior delito”. De que delito se trata? Que delito maior é este? Pode ser diferente daquele a que vou me referir, contudo não omitirei minha opinião. Penso que maior delito é a soberba. É possível que seja outro o sentido da frase: “E serei purificado do maior delito”. Quereis saber como é maior o delito que derrubou o anjo, do anjo fez um diabo e eternamente o excluiu do reino dos céus? É grande esse delito: “O princípio de todo o pecado é o orgulho”. E para não o menosprezares, como se fosse leve, diz-se: “O início do orgulho num homem é renegar a Deus” (Eclo 10,15.14). Não é leve este vício, meus irmãos. A humildade cristã reprova tal vício, em pessoas que aparentam grandeza. Por causa da soberba desdenham submeter o pescoço ao jugo de Cristo e ficam mais amarradas sob o jugo do pecado. Não conseguem se livrar de servir; de fato, não querem servir, mas servir lhes convém. Recusando servir, nada obtêm senão deixar de sevir a um bom senhor. Não se livram absolutamente de servir, porque se não querem servir a caridade, são forçados a servir a iniquidade. Deste vício, cabeça de todos os vícios, porque dele nascem os demais, provém a apostasia em relação a Deus. A alma mergulha nas trevas e usando mal o livre-arbítrio, comete também os outros pecados. Quem era companheiro dos anjos, dissipa sua herança numa vida devassa, e constrangido pela indigência se faz guarda de porcos (Lc 15,13). Devido a este vício, este grande pecado do orgulho, Deus veio à terra humildemente. Esta causa, este grande pecado, grave doença das almas, trouxe do céu o médico onipotente, humilhando-o até a condição de escravo, infligiulhe afrontas, suspendeu-o no madeiro, visando a que a aplicação de remédio tão eficaz curasse o tumor da soberba. Envergonhe-se, afinal, o homem de ser soberbo. Por sua causa Deus se fez humilde. Assim, diz o salmista, serei purificado do maior delito, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes (Tg 4,6; 1Pd 5,5).

16 15“E ser-te-ão agradáveis as palavras de minha boca, e a meditação de meu coração estará em tua presença”. Se não me purificar do maior delito, minhas palavras agradarão aos homens, mas não em tua presença. A alma soberba quer agradar aos homens; a humilde procura agradar ocultamente, onde Deus vê. Se acontecer que agrade aos homens por causa de uma boa obra, congratule-se com os que sabem apreciar uma boa obra, não consigo mesmo, pois deve bastar-lhe a realização da boa obra. Diz a Escritura: “O nosso motivo de ufania é o testemunho de nossa consciência” (2Cor 1,12). Digamos ainda o que segue: “Senhor, meu auxílio e meu redentor”. Auxílio no bem, redentor do mal; auxílio para que habite em tua caridade, redentor para me livrares de minha iniquidade.

1 O título foi acrescentado pelos Maurinos para distinguir os comentários proferidos para o povo e os ditados somente.

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

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