Comentário ao Salmo 13 – Santo Agostinho

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1 1“Para o fim. Salmo de Davi”. É desnecessário ficar sempre repetindo o que quer dizer “Para o fim. O fim da lei de Cristo, para a justiça de todo aquele que crê” (Rm 10,4), conforme declara o Apóstolo. Cremos nele, ao ingressarmos no caminho reto; vê-lo-emos ao chegarmos; portanto, ele é o fim.

2 “Disse o insensato em seu coração: Deus não existe”. Nem os próprios sacrílegos, nem alguns filósofos detestáveis, com ideias perversas e falsas a respeito de Deus, ousaram dizer: Deus não existe. Por isso, “Disse em se coração”, porque ninguém ousa dizê-lo, mesmo se tiver tido a ousadia de pensá-lo. “Corromperam-se e fizeram-se abomináveis por seus afetos”, isto é, amam este mundo e não amam a Deus. São afetos que corrempem a alma e cegam-na a tal ponto que o insensato pode dizer em seu coração: Deus não existe. Como se recusaram a procurar uma noção exata de Deus, entregou-os Deus a um sentimento depravado (Rm 1,28). “Não há quem faça o bem, até mesmo um só”. Aqui “um” pode significar homem algum; ou também exceto um, o Cristo Senhor. Como, por exemplo, se dissermos: Este campo vai até o mar, excluímos o mar. Esta é a melhor explicação: Ninguém praticou o bem até que viesse o Cristo, porque ninguém pode fazer o bem, se o próprio Cristo não o mostrar. Isso é igualmente verdade, porque ninguém pode praticar o bem, enquanto não conhecer o Deus único.

3 2“O Senhor olhou do céu os filhos dos homens, para ver se resta alguém que entenda e busque a Deus”. É aplicável aos judeus que, devido ao culto do Deus único, são denominados de maneira mais honrosa filhos dos homens, em comparação com os gentios, dos quais suponho ter sido dito acima: “Disse o insensato em seu coração: Deus não existe”, etc. O Senhor olha do céu, através das almas santas. É isto que significa “do céu”, uma vez que ao Senhor, em si, nada está oculto.

4 3“Todos se transviaram, juntos se tornaram inúteis”, quer dizer, os judeus se igualaram aos gentios, dos quais se falou supra: “Não há quem faça o bem, até mesmo um só”. Entenda-se como acima. “Sua garganta é um sepulcro aberto”. Representa a voracidade da gula e a avidez; ou, alegoricamente, aqueles que matam, induzindo suas vítimas à perversidade de seus costumes e devorando-as de certo modo. Assemelha-se isso, em contraste ao que foi dito a Pedro: “Imola e come” (At 10,13), visando à conversão dos pagãos à fé e aos bons costumes. “Servem-se da língua para enganar”. A adulação é companheira dos glutões e de todos os malvados. “Sob os lábios têm veneno de áspides”. “Veneno” é o dolo. “De áspides”, porém, uma vez que não querem ouvir os preceitos da lei, como as áspides não querem escutar a voz do encantador (Sl 57,5), conforme declara, com mais evidência, outro salmo. “Têm a boca repleta de maldição e amargor”, isto é, de “veneno de áspides”. “E os pés velozes para derramar sangue”, acostumados a fazer o mal. “Acham-se em seus caminhos esmagamento e infelicidade”. Todos os caminhos dos maus estão repletos de labor e miséria. Por isso, clama o Senhor: “Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração. O meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11,28-30). “E não conhecem o caminho da paz”. Paz que o Senhor, conforme acima disse, relembra com a expressão: jugo suave e fardo leve. “Não existe temor de Deus ante seus olhos”. Eles não afirmam: Deus não existe; contudo, não o temem.

5 4“Não o conhecerão todos os obreiros da iniquidade?” Ameaça com o juízo. “Que devoram o meu povo, como um bocado de pão”, isto é, cada dia. O pão é o alimento cotidiano. Devoram o povo os que dele auferem lucro, e não destinam seu ministério à glória de Deus e à salvação de seus súditos.

6 5“Não invocaram o Senhor”. Não invoca, de fato, quem deseja o que lhe desagrada. “Tremeram de medo, quando não havia o que temer”, isto é, a perda de bens temporais. Pois, disseram os judeus: “Se o deixarmos assim, todos crerão nele e os romanos virão, destruindo o nosso lugar santo e a nação” (Jo 11,48). Recearam perder o reino terreno, quando não havia motivo de receio; e perderam o reino dos céus, que deveriam ter medo de perder. Assim também acontece com os bens temporais todos, porque os homens, temendo perdê-los, não obtêm os eternos.

7 6“Porque Deus está com a raça justa”, isto é, não está com os que amam o mundo. É injusto abandonar o criador do mundo e amar o mundo, servir a criatura de preferência ao Criador (Rm 1,25). “Cobris de confusão o pobre nos seus planos, mas a esperança dele é o Senhor”, isto é, desprezastes a vinda humilde do Filho de Deus, porque nele não vistes as pompas do século, de sorte que os chamados por ele somente em Deus depositassem sua esperança, e não nos bens passageiros. 8 7“Quem trará de Sião a salvação a Israel?” Subentende-se: A não ser aquele cuja humildade desprezastes? Ele há de vir em glória para o juízo dos vivos e dos mortos e o reinado dos justos. Como, por ocasião de sua vinda humilde sobreveio a cegueira em parte a Israel, até que entrasse a plenitude das nações (Rm 11,25), nele se realizará a continuação: assim todo Israel será salvo. Em prol dos judeus o Apóstolo aplica também o testemunho de Isaías, que anunciou: “Virá de Sião aquele que apartará de Jacó a impiedade” (Is 59,20), conforme aqui se encontra: “Quem trará de Sião a salvação a Israel? Quando o Senhor fizer o seu povo voltar do cativeiro, Jacó exultará e alegrar-se-á Israel”. É a repetição habitual, pois julgo idêntico dizer: “Alegrar-se-á Israel e Jacó exultará”.

Extraído do Comentário aos Salmos (Enarrationes in psalmos), de Santo Agostinho, vol.1.

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