Benedictus

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São João Paulo II, papa*

68 Bendito seja o Senhor Deus de Israel, * 
porque a seu povo visitou e libertou
69 e fez surgir um poderoso Salvador *
na casa de Davi, seu servidor
70 como falara pela boca de seus santos, * 
os profetas desde os tempos mais antigos, 
71 para salvar-nos do poder dos inimigos * 
e da mão de todos quantos nos odeiam. 
72 Assim mostrou misericórdia a nossos pais, * 
recordando a sua santa Aliança 
73 e o juramento a Abraão, o nosso pai, * 
de conceder-nos 74 que, libertos do inimigo, 
= a ele nós sirvamos sem temor † 
75 em santidade e em justiça diante dele, * 
enquanto perdurarem nossos dias. 
=76 Serás profeta do Alssimo, ó menino, † 
pois irás andando à frente do Senhor * 
para aplainar e preparar os seus caminhos, 
77 anunciando ao seu povo a salvação, *
que está na remissão de seus pecados; 
78 pela bondade e compaixão de nosso Deus, * 
que sobre nós fará brilhar o Sol nascente, 
79 para iluminar a quantos jazem entre as trevas *
e na sombra da morte estão sentados 
– e para dirigir os nossos passos, * 
guiando-os no caminho da paz

1. Tendo chegado ao fim do longo itinerário no âmbito dos Salmos e dos Cânticos da Liturgia das Laudes, queremos meditar sobre aquela oração que, todas as manhãs, marca o momento orante das Laudes. Trata-se do Benedictus, o Cântico entoado pelo pai de João Batista, Zacarias, quando o nascimento daquele filho tinha mudado a sua vida, afastando a dúvida que o tinha tornado mudo, uma significativa punição pela sua falta de fé e de louvor.

Mas agora, Zacarias pode celebrar Deus que salva e fá-lo com este hino, narrado pelo evangelista Lucas de uma forma que, sem dúvida, reflete o uso litúrgico no âmbito das primeiras comunidades cristãs (cf. Lc 1, 68-79).

O mesmo evangelista define-o como um cântico profético, que se abre através do sopro do Espírito Santo (cf. 1, 67). De fato, encontramo-nos diante de uma bênção que proclama as ações salvíficas e a libertação oferecida pelo Senhor ao seu povo. Por conseguinte, a leitura “profética” da história, isto é, a descoberta do sentido íntimo e profundo de toda a vicissitude humana, orientada pela mão escondida mas laboriosa do Senhor, que se entrelaça com a mais frágil e incerta do homem.

2. O texto é solene e, no original grego, compõe-se unicamente por duas frases (cf. vv. 68-75; 76-79). Depois da introdução, marcada pela bênção de louvor, podemos identificar no corpo do Cântico quase três estrofes, que exaltam igual número de temas, destinados a marcar toda a história da salvação:  a aliança davídica (cf. vv. 68-71), a aliança abraâmica (cf. vv. 72-75), e o Batista que  nos  introduz  na  nova  aliança  em Cristo  (cf.  vv.  76-79).  De  fato,  toda a  oração  tende  para  aquela  meta  que David  e  Abraão  indicam  com  a  sua presença.

O vértice encontra-se precisamente numa frase quase conclusiva:  “Visitar-nos-á a luz do alto” (cf. v. 78). A expressão, à primeira vista paradoxal com o fato de unir “o alto” e o “surgir”, na realidade é significativa.

3. Com efeito, no original grego o “sol que surge” é anatolè, uma palavra que em si significa tanto a luz solar que brilha no nosso planeta, como o rebento que nasce. As duas imagens na tradição bíblica têm um valor messiânico.

Por um lado, Isaías recorda-nos, falando do Emanuel, que “o povo que andava nas trevas viu uma grande luz; habitavam numa terra de sombras, mas uma luz brilhou” (9, 1). Por outro lado, referindo-se ainda ao rei Emanuel, representa-o como “um rebento que brotou do tronco de Jessé”, isto é, da dinastia davídica, um rebento envolvido pelo Espírito de Deus (cf. Is 11, 1-2). 
Por conseguinte, com Cristo surge a luz  que  ilumina  todas  as  criaturas (cf. Jo 1, 9)  e  floresce  a  vida,  como  dirá o  evangelista  João  unindo  precisamente  estas  duas  realidades:   “N’Ele  estava  a  Vida  e  a  Vida  era  a  luz  dos homens” (1, 4).

4. A humanidade que está envolvida “nas trevas e na sombra da morte” é iluminada por este esplendor de revelação (cf. Lc 1, 79). Como anunciara o profeta Malaquias, “para vós que temeis o Meu nome brilhará o sol de justiça” (3, 20). Este sol “guiará os nossos passos no caminho da paz” (Lc 1, 79).

Movamo-nos então, tendo como ponto de referência aquela luz; e os nossos passos incertos, que durante o dia muitas vezes se desviam por caminhos obscuros e perigosos, são amparados pela luz da verdade que Cristo difunde no mundo e na história.

A este ponto, queremos citar as palavras de um mestre da Igreja, um dos seus Doutores, o britânico Beda, o Venerável ( séc. VII-VIII ) que na sua Homilia para o nascimento de São João Batista, comentava assim o Cântico de Zacarias:  “O Senhor… visitou-nos como um médico visita os doentes, porque para curar a enfermidade arreigada da nossa soberba, ofereceu-nos o novo exemplo da sua humildade; redimiu o seu povo, porque nos libertou com o preço do nosso sangue a nós que nos tínhamos tornado servos do pecado e escravos do antigo inimigo… Cristo encontrou-nos quando jazíamos “nas trevas e na sombra da morte”, ou seja, oprimidos pela longa cegueira do pecado e da ignorância… Trouxe-nos a luz verdadeira do seu conhecimento e, afastou as trevas do erro, mostrou-nos o caminho seguro para a pátria celeste. Dirigiu os passos das nossas obras para fazer com que andássemos pelo caminho da verdade, que nos mostrou, e para nos fazer entrar na casa da paz eterna, que nos prometeu”.

5. Por fim, inspirando-se noutros textos bíblicos, o Venerável Beda concluía da seguinte forma, dando graças pelos dons recebidos:  “Dado que possuímos estes dons da bondade eterna, irmãos caríssimos…, bendizemos também nós o Senhor em todos os tempos (cf. Sl 33, 2), porque “visitou e redimiu o seu povo”. Esteja sempre nos nossos lábios o seu louvor, conservemos a sua recordação e, por nosso lado, proclamamos a virtude daquele que “nos chamou das trevas para a Sua luz admirável” (1 Pd 2, 9). Pedimos continuamente a sua ajuda, para que conserve em nós a luz do conhecimento que nos trouxe, e nos conduza até ao dia da perfeição” (Homilias sobre o Evangelho, Roma 1990, págs. 464-465).

*Audiência geral de 1 de outubro de 2003

Publicado originalmente em: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/audiences/2003/documents/hf_jp-ii_aud_20031001.html

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Helber Clayton é leigo católico, servidor público, escritor, casado, formado em Letras, com licenciatura em Língua Portuguesa, Língua Inglesa e respectivas literaturas, Especialista em Língua Latina e Filologia Românica.
Mora em Teixeira de Freitas na Bahia

Comments

  1. Adriana disse:

    Linda reflexão!

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