Vinde, ó Deus, em meu auxílio: o Intróito da Liturgia das Horas

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V. Vinde, ó Deus, em meu aulio.
R. Socorrei-me sem demora.
Glória ao Pai e ao Filho e ao Esrito Santo. *
Como era no prinpio, agora e sempre. Amém. Aleluia.

O verso que introduz a maioria das Horas Canônicas da Liturgia das Horas é retirado literalmente do Salmo 69, 2, mas sua essência é encontrada em muitos outros Salmos, como no Sl 39, 18, no Sl 71,12. O próprio salmo 69 retoma os mesmos versos no final. Isto porque este pedido de socorro do salmista faz parte da piedade geral do povo de Israel, que tem fé um Deus presente, que o assiste nas situações de perigo e, por isso, clama sempre por seu socorro.

E porque este versículo é tão importante, para ser o verso mais repetido de toda a Liturgia das Horas?

Irei elencar três elementos que considero essenciais para explicitar a razão de destaque deste versículo para nossa oração diária:

A Humildade

Apenas o coração humilde pode reconhecer a necessidade de Deus e clamar por seu auxílio e seu socorro. O arrogante e autossuficiente não é capaz disso.

O catecismo da Igreja Católica abre a seção dedicada à oração na vida cristã falando da importância da humildade como fundamento e disposição necessária para recebermos gratuitamente o dom da oração. Em outras palavras, não é possível orar sem humildade. Pergunta-nos o catecismo:

De onde é que falamos, ao orar? Das alturas do nosso orgulho e da nossa vontade própria, ou das «profundezas» (Sl 129(130), 1) dum coração humilde e contrito? (CIC 2559).

A resposta para esta pergunta é dada pelo próprio Cristo quando compara o arrogante fariseu com o arrependido publicano, proclamando: “aquele que se humilha é que é elevado” (Lc 18, 9-14).

A humildade nos alerta que «Não sabemos o que havemos de pedir para rezarmos como deve ser, mas o Espirito Santo vem em auxílio á nossa fraqueza» (Cf. Rm 8, 26).

A Contemplação

Este auxílio necessário do Espírito Santo à nossa oração, podemos chamar de CONTEMPLAÇÃO. E acredito que foi isso que o monge Guigo, que nos mostrou os quatro degraus da Lectio Divina, quis dizer ao tratar da contemplação. Ele escreve:

E o Senhor, cujos olhos são fixos nos justos e cujos ouvidos estão não só atentos às suas preces (cf. Sl 34, 16), mas presentes nelas, não espera a prece acabar. Pois, interrompendo o curso da oração, apressa-se a vir à alma que o deseja, banhado de orvalho da doçura celeste, ungido dos perfumes melhores. (Guigo II, o Cartuxo, Scala Claustralium, VII).

A contemplação é o consolo do orante, o orvalho da presença de Deus, o perfume da divina graça.

É essa contemplação que o versículo introdutório da Liturgia das Horas pede desde o início. Não há nada que possamos desejar mais. Por isso a pressa do orante: Apressai-vos, Senhor, em me socorrer!

Por sorte nossa, Deus tem sede de que nós tenhamos sede d’Ele (Cf. Santo Agostinho). Deus apressa-se, conforme o próprio monge Guigo ensina em sua carta.

O Combate Espiritual

Por último, o versículo introdutório nos chama ao COMBATE ESPIRITUAL.

Se analisarmos o contexto histórico e literário dos salmos que trazem estes versos, observamos que foram compostos em situações de aflição, perseguições e mesmo de combate físico contra os inimigos do salmista. Como dito antes, Israel tem fé num Deus atuante em sua história, não à toa chamado de “Senhor dos Exércitos”, aquele que combate com seu povo.

Mas em Cristo, a noção de combate ganhou uma atualização importante. São Paulo nos ensina que não é mais contra homens de carne e de sangue que devemos entrar em combate, mas contra as forças espirituais do mal espalhadas nos ares (Cf. Ef 6,10s). Não deixamos de ter inimigos para combater, mas agora este combate é essencialmente espiritual. Para tanto devemos nos revestir da armadura de Deus.

Quando clamamos “Vinde, ó Deus, em meu auxílio”, desejamos ser fortalecidos com essa vitoriosa armadura e decidimos tomar nas mãos a “espada do Espírito Santo que é a Palavra de Deus”, base e fonte da Liturgia das Horas.


Em resumo: O introito da Liturgia das Horas nos chama em todas as horas à humildade, à busca da Contemplação de Deus e ao inevitável Combate Espiritual.

Como quase tudo na Liturgia das Horas, o versículo introdutório também é encerrado com a Doxologia trinitária “Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora e sempre. Amém. Aleluia”.

É importante lembrar que o versículo introdutório é omitido sempre que é rezado o invitatório, ou seja, o Invitatório substitui o versículo introdutório. Em todas as outras Horas é ele que abre a Oração.

Todos sabem também que o Aleluia é omitido na Quaresma em todas as celebrações litúrgicas. Na Liturgia das Horas não é diferente.

O introito é recitado de forma responsorial. Quem preside a oração diz ou canta o Verso (V.) Vinde, ó Deus, em meu auxílio, ao mesmo tempo em que todos traçam o sinal da cruz da fronte ao peito, de um ombro ao outro. Todos respondem (R.) a uma só voz Socorrei-me sem demora. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, agora e sempre. Amém. Aleluia.

No vídeo acima, postei algumas melodias do introito para quem possa interessar.

Deus abençoe a todos e até a próxima.

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Helber Clayton é leigo católico, servidor público, escritor, casado, formado em Letras, com licenciatura em Língua Portuguesa, Língua Inglesa e respectivas literaturas, Especialista em Língua Latina e Filologia Românica.
Mora em Teixeira de Freitas na Bahia

Comments

  1. Maria da Glória Jordão de Oliveira disse:

    Maravilhoso ensinamento”

    Gratidão

  2. Sempre fiz esta súplica com o coração, mas nunca sabia da profundidade!

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