O Hino na Liturgia das Horas: Poesia a Serviço do Louvor

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Olá, queridos amigos, irmãos e irmãs que acompanham a Liturgia das Horas online.

Mais uma vez estou aqui para dar prosseguimento ao propósito de falar sobre cada parte que compõe o Ofício Divino. Neste vídeo irei tratar sobre os Hinos, esses belíssimos poemas que a Tradição da Igreja nos brinda todos os dias na Liturgia das Horas.

A Liturgia das Horas é recheada de recursos que buscam trazer sentido e motivação à nossa oração diária. Um dos mais significativos elementos desse recurso é o Hino.

Além de louvar a Deus com suavidade e beleza poética, a função do Hino é situar ou introduzir o orante no momento celebrativo. Para aguçar os nossos sentidos e chamar a nossa atenção para aquilo que celebramos. Por isso, o Hino “marca logo de entrada a característica peculiar de cada Hora ou de cada festa, movendo e animando as almas a uma piedosa celebração” (IGLH, 173). Com isso, o hino nos ajuda a estar verdadeiramente presentes, de corpo e alma na oração, com os olhos e ouvidos abertos para a graça que está a acontecer.


Para cumprir essa função, cada Hino buscará retratar, em linguagem poética, o cenário do momento da oração. Em vista disso, o hino nas Laudes, entre outras coisas, vai pintar-nos nas cores vivas da poesia, o nascer do sol e o confronto entre a sombra e a luz vitoriosa de Cristo, As nove horas, rememorar-nos o dom inefável do Espírito Santo, ao meio dia, mostrar-nos, entre as lutas do dia, a cruz de Cristo, erguida para a nossa salvação, as quinze horas, refletir-nos o caminhar do tempo e o último suspiro do Senhor na cruz, nas Vésperas, declamar a poesia divina do por do sol, delineando a silhueta da nossa fragilidade humana ante a onipotência de Deus, por fim, nas completas, vai embalar nosso sono, colocando-nos nos braços de Deus e da Virgem Santíssima.

No dia de um Santo que possui um hino próprio, este cantará as virtudes e os atos heróicos daquele santo personagem, ou, na falta de um hino próprio, o hino do comum dos santos proclamará as virtudes comuns daqueles que de modo semelhante entregaram sua vida ao serviço de Deus e do próximo.

Por fim, em cada Tempo celebrativo, a poesia dos hinos se concentrarão em descrever os propósitos daquele tempo de graça que nos é oferecido, cantando docemente a vinda do Senhor, sua Encarnação, sua paixão, morte e ressurreição, a penitência, o júblio, a vigilância, entre outras coisas.

De acordo com a Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas, “o Hino é o elemento poético mais importante de criação eclesiástica” – IGLH 173.

Dizemos que é de criação eclesiástica uma vez que compostos após a fundação da Igreja sobre a coluna dos apóstolos. Diferentemente dos Salmos, por exemplo, que foram compostos pelo povo de Israel, vários séculos antes de Cristo. Já nas cartas pastorais de São Paulo a Timóteo, vemos expressados alguns trechos de hinos que, de acordo com os estudiosos eram usados na liturgia da Igreja nascente, comprovando a antiquíssima tradição de se escrever poemas de louvor para o culto Divino na Igreja.

Como elemento poético Entendemos, não simplesmente o texto escrito em forma de verso, mas aquele que é, além de tudo, revestido de beleza em suas formas, carregado de lirismo, composto de adornos ou figuras de estilo, que possui sonoridade, expressa especialmente nas rimas e no jogo com as palavras.

Neste sentido, e tecnicamente falando, os hinos da Liturgia das Horas são poesias na mais completa acepção do termo, uma vez que foram brilhantemente compostos com todos os atributos literários de uma boa poesia.

Vejamos, como exemplo dessa beleza literária, um que é bastante apreciado pelos que acompanham a Liturgia das Horas aqui no Canal: O Hino das Laudes da primeira e da terceira semana do Saltério, no Tempo Comum:

O Hino começa se dirigindo ao Criador do universo, o responsável pela alternância da sombra e da luz, ao mesmo tempo o reconhecendo como Senhor de todas as coisas. Já de início notamos o uso da antítese entre luz e sombra, a noite e o dia, característica das Laudes, que são recitadas no despontar do dia, quando as sombras são vencidas pela luz. Na sequência da estrofe o Hino atribui ao Criador a divisão do tempo para o cuidado de todos os seres. Aquele que cria o universo, é também aquele que cuida. Para isso ele dá “tempos ao tempo”, proporcionando aos que estão sob seu divino cuidado o kairós necessário para sua sobrevivência. 

A segunda estrofe traz à cena uma figura presente em muitas manhãs: o galo, que canta ainda no escuro para avisar que a manhã está para chegar. Mais uma vez a poesia coloca em confronto a noite e o dia. Mas, num sentido figurado, o galo representa aqueles que se levantam cedo para cantar os louvores de Deus. Assim como o galo, a alma apressada em vencer a escuridão, ergue sua voz para cantar o louvor da manhã que celebra o fim da noite e o reinado do sol.

A poesia segue, trazendo à nossa mente outro elemento pujante das manhãs: a estrela d’alva, a única que insiste em brilhar após o raiar do dia. Mais uma vez a poesia se utiliza da metáfora para nos falar ao coração. Segundo o hino, a estrela d’alva, que foi acordada pelo canto do galo, expulsa o erro e a treva com sua luz radiante. Ora, por mais brilhante que possa ser, seria a tênue luz de uma estrela capaz de expulsar-nos o mal? Óbvio que não. É Cristo, a estrela radiosa da manhã, como está escrito no Apocalipse (Ap 22, 16). Aí se mostra o poder desse canto de louvor. Por ele ergue-se o próprio Cristo, que com o poder de sua luz expulsa dos corações a treva do erro.

Para o hino, há tanta força nesse canto de louvor, que acalma os mares e fortalece o navegante, e faz dobrar até mesmo a Pedra firme da Igreja. Aqui o hino traz aos sentidos a lembrança do choro de São Pedro, na madrugada da sexta-feira da paixão, quando caiu em compunção por ter negado seu Senhor, ao ouvir o cantar insistente do galo. Tal deve ser a nossa contrição ao rezar, como nos ensina nosso Pai São Bento, não na abundância de palavras, mas na pureza do coração inflamado e na compunção das lágrimas (Regra de São Bento, 20, 3; 52, 4).

O Hino, agora na sua quinta estrofe, dirige-se diretamente ao Filho, “acordado” pelo canto da manhã. Olha fixamente em seu olhar. Pede que seus olhos poderosos velem pelos que caem. Confia que esse olhar pode erguer os que caíram, e pede aquelas lágrimas da oração, capazes de lavar pecados.

Depois, lembra de pedir que a luz possa brilhar, não a mera luz do dia, a mera luz do sol, mas a luz do céu, que brilha no interior dos corações contritos. Pede que essa luz tire a preguiça, a apatia, a tibieza do sono e que o nosso primeiro fôlego da manhã entoe o louvor de Deus, oferecendo a ele as primícias do nosso dia.

Por fim, o hino é arrematado com a Doxologia final, louvando a Santíssima Trindade. Como já dito em outros vídeos, a doxologia está presente em quase todos os elementos litúrgicos e nós a veremos sempre fechar também o hino de cada Hora.

Nesta breve análise, podemos ver com que beleza poética vários elementos da oração da manhã e da nossa fé foram encaixados no texto do hino, abastecendo de significado o início da nossa oração.

Assim como este hino que analisamos, os demais hinos também possuem beleza semelhante, tanto que podemos dizer que os hinos do Ofício Divino são poesias de altíssima qualidade literária, além do que, mesmo que grande parte dos autores sejam anônimos para nós, sabemos que alguns dos mais insignes católicos ajudaram a compor esses preciosos poemas de louvor, dentre os quais podemos citar Santo Tomás de Aquino, Santo Agostinho e São Bernardo.

O Hino proposto para cada momento não pode ser substituído por outra canção, a não ser que essa outra canção tenha aprovação da Conferência Episcopal. Na edição em quatro volumes da Liturgia das Horas, encontramos no apêndice alguns hinos populares que receberam aprovação eclesiástica e podem substituir os tradicionais que se encontram ordinariamente.

Para cantar o hino, podemos usar melodias sacras tradicionais que possuem a mesma métrica. O hino, assim como toda a Liturgia das Horas, é próprio para ser cantado, mas pode ser também recitado a depender das circunstâncias.

Para aqueles que desejam cantar os hinos em gregoriano, que é “o canto próprio da Igreja” sugiro adquirir Hinário Monástico, da Abadia da Ressurreição. Lembrando que no Hinário as letras dos hinos diferem dos que cantamos no Rito Romano, uma vez que o rito monástico tem textos próprios, mas as melodias são facilmente adaptáveis.

Outra obra digna de registro é a Liturgia das Horas Música, volumes I e II, com as melodias para os Hinos do Rito Romano.

Espero que vocês tenham apreciado esta pequena síntese sobre o Hino na Liturgia das Horas. Se tiver alguma dúvida sobre este tema escrevam no comentário que irei tentar responder na medida do possível.

Que Deus nos abençoe, nos guarde e nos conceda sempre a graça de cantar os seus divinos louvores, juntamente com toda a Igreja da terra e  do céu.

Um grande abraço e até a próxima!

Veja no YouTube: https://youtu.be/IPmhCqnhlmw

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Helber Clayton é leigo católico, servidor público, escritor, casado, formado em Letras, com licenciatura em Língua Portuguesa, Língua Inglesa e respectivas literaturas, Especialista em Língua Latina e Filologia Românica.
Mora em Teixeira de Freitas na Bahia

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