Diário de um Oblato | Brasília, 29 de outubro de 2026
Entre os materiais distribuídos aos participantes do IX Encontro Nacional de Oblatos Beneditinos (ENOB 2026), em Brasília, um deles merece especial atenção: um pequeno livro preparado para a oração da Liturgia das Horas durante o encontro.
À primeira vista, pode parecer apenas um subsídio litúrgico destinado a facilitar a participação nas celebrações. Entretanto, sua presença entre os materiais do encontro representa algo muito mais significativo: a compreensão de que a Liturgia das Horas não é uma oração reservada aos monges, às monjas, aos sacerdotes e aos religiosos, mas pertence a toda a Igreja.
Essa é precisamente uma das grandes orientações da renovação litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II.
A oração de toda a Igreja
A Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas, especialmente nos números 20 a 33, apresenta quem é chamado a celebrar essa oração e destaca a participação das diferentes comunidades e grupos de fiéis.
O número 27 merece atenção particular. Nele, a Igreja dirige um convite explícito aos grupos de leigos, independentemente da finalidade de suas reuniões, para que celebrem alguma parte da Liturgia das Horas:
“Os grupos de leigos, onde quer que se encontrem reunidos, seja qual for o motivo destas reuniões — oração, apostolado ou outro motivo — são igualmente convidados a desempenhar esta função da Igreja, celebrando alguma parte da Liturgia das Horas.”
Trata-se de uma orientação de grande alcance pastoral.
A Igreja não deseja que a Liturgia das Horas permaneça restrita aos ambientes monásticos ou clericais. Pelo contrário, incentiva sua presença também nos encontros de oração, nas atividades apostólicas e nas diversas ocasiões em que os fiéis se reúnem.
A celebração das Horas é, portanto, uma possibilidade concreta de fazer com que a oração oficial da Igreja esteja presente na vida cotidiana das comunidades cristãs.
Um testemunho da espiritualidade beneditina
Para nós, oblatos beneditinos, essa orientação possui um significado especial.
A Liturgia das Horas ocupa um lugar central na tradição de São Bento. A oração comunitária, organizada ao longo do dia, constitui uma das expressões mais características da vida monástica.
Entretanto, a vocação do oblato não consiste simplesmente em reproduzir, fora do mosteiro, todas as práticas da comunidade monástica. Somos chamados a acolher o espírito da Regra de São Bento e a vivê-lo nas circunstâncias concretas de nossa existência.
Nesse sentido, a participação na Liturgia das Horas é uma maneira privilegiada de cultivar a comunhão com a Igreja e com a tradição beneditina.
Quando um grupo de oblatos se reúne para celebrar Laudes ou Vésperas, não realiza apenas uma devoção particular. Participa da oração pública da Igreja, unindo sua voz ao louvor que a comunidade eclesial eleva a Deus.
Um pequeno livro, uma grande mensagem

Por isso, considero especialmente significativa a iniciativa de disponibilizar aos participantes do ENOB 2026 um livro próprio para a celebração da Liturgia das Horas.
Esse gesto ajuda a colocar em prática aquilo que a Igreja recomenda: favorecer a participação dos fiéis na oração litúrgica, especialmente quando se encontram reunidos.
É também um exemplo que poderia inspirar encontros pastorais, reuniões de movimentos eclesiais, assembleias, retiros e outras atividades comunitárias.
Afinal, se a Liturgia das Horas é a oração de toda a Igreja, por que não torná-la cada vez mais presente nos encontros de seus fiéis?
Da experiência do encontro à vida das comunidades
Há ainda uma dimensão dessa iniciativa que considero particularmente importante.
O livro da Liturgia das Horas distribuído no ENOB não precisa ser apenas um material utilizado durante os dias do encontro. Pode tornar-se também um sinal e um incentivo para que cada participante leve às suas comunidades o desejo de cultivar a oração litúrgica.
Seria muito significativo que, ao retornarmos aos nossos mosteiros de referência, paróquias, movimentos e comunidades, levássemos não somente as lembranças do encontro, mas também o propósito de favorecer a celebração comunitária da Liturgia das Horas.
Não se trata de acrescentar mais uma atividade à já extensa programação de nossas comunidades, mas de redescobrir a riqueza de uma oração que a própria Igreja nos oferece.
Uma reunião de formação pode começar com Laudes. Um encontro pastoral pode reservar espaço para Vésperas. Um grupo de oração pode descobrir, na salmodia e nos cânticos bíblicos, uma maneira de unir sua oração à oração de toda a Igreja.
Naturalmente, essas possibilidades precisam respeitar o sentido próprio de cada Hora litúrgica e sua relação com o momento do dia.
Como oblato beneditino e alguém que há anos se dedica à divulgação da Liturgia das Horas, vejo nessa experiência uma confirmação da importância de continuar trabalhando para que essa oração seja cada vez mais conhecida, compreendida e celebrada.
Que o pequeno livro recebido neste encontro não permaneça apenas como uma recordação do ENOB 2026, mas nos ajude a renovar o compromisso de promover a oração litúrgica nas comunidades onde vivemos e servimos.
Pax!
Helber Clayton, Ir. Tomás de Aquino, Obl. OSB
Referência: Instrução Geral sobre a Liturgia das Horas, nn. 20–33, especialmente n. 27.


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